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visita à produção de Dom Pedro de Barcelos

No documento Pelos mares da língua portuguesa 4 (páginas 163-175)

A escolha deste recorte temático teve por objetivo escrutar a escrita historiográfica produzida no século XIV, momento em que produziu o Conde Dom Pedro Afonso de Barcelos. No entanto, foi preciso manter a noção de que este recorte temporal nos restringiria a um período histórico de difícil acesso, uma vez que se conservaram e ficaram disponíveis, para a pesquisa atual, poucos registros – sendo estes já reescritos ou refundidos.

Os arredores da Crónica de 1344

Dom Pedro Afonso, o Conde de Barcelos, ficou por muito tempo olvidado entre as personagens que fizeram parte da nobreza portuguesa, no entanto, atualmente, é atribuído a ele fundamental valor na constituição da historiografia que compõe o quadro cultural português dos séculos XIII e XIV. Logo, ele é constantemente mencionado nos trabalhos científicos que remetem a esse período, bem como reconhecido enquanto figura histórica, como ocorre na freguesia de Lalim, onde residiu após se afastar da corte régia e onde supostamente teria redigido sua produção trovadoresca, nobiliária e historiográfica. São atribuídos a ele o Livro das Cantigas, o Livro de Linhagens e a Crónica Geral de Espanha de 1344 (Silva, 2011, pp. 65-66).

O exercício de investigação de suas informações biográficas requereu uma dose de complacência ao fundo imaginativo das suposições exercidas pelos investigadores que anteriormente efetuaram e registraram essa empresa. Também é preciso considerar o fato de a fabulação por muito tempo ter sido ostensivamente incorporada aos métodos de investigação filológica desses textos.

Deste modo, as informações divulgadas nem sempre concordam entre si em relação ao modo como ocorreram os fatos e à datação dos acontecimentos. Assim, não é possível afirmar nada de concreto ou absoluto. No entanto, essas informações nos possibilitam traçar um perfil do Conde e alcançar, ao menos em parte, sua figuração e seu contexto de produção.

No primeiro segmento deste artigo, propomo-nos a esboçar brevemente esse perfil e assim compreender quem foi o Conde Dom Pedro de Barcelos, por que ele desperta o interesse dos investigadores e qual é a importância de sua produção textual. Para traçar este panorama nos fundamentamos nas biografias compostas por Almeida Fernandes (1990), no livro Homenagem de

Lalim ao Conde D. Pedro, e por António Resende de Oliveira, em “O genealogista e as suas linhagens:

D. Pedro, conde de Barcelos”; no artigo de Queirós (2011) “D. Dinis, o rei que refundou Portugal”, impresso no jornal O Público; no artigo de Maria do Rosário Ferreira e José Carlos Ribeiro Miranda (2015) “O projeto de escrita de Pedro de Barcelos” e nas informações do próprio Livro de Linhagens, de autoria atribuída ao Conde. Todavia, no Livro de Linhagens os trechos que se referem à sua

biografia são vistos pelos pesquisadores como resultantes de uma refundição incorporada em um período posterior.

Sobre Dom Pedro Afonso

Dom Pedro Afonso, nomeado terceiro Conde de Barcelos, seria o primeiro filho d’El Rei D. Dinis, antes de ele se casar com a Rainha D. Isabel. Tutelado pela Rainha, Dom Pedro seria filho de Graça Anes, uma jovem da pequena nobreza, oriunda de Torres Vedras (Fernandes, 1990, p. 251).

A biografia de Dom Pedro Afonso está intimamente ligada a duas figuras centrais da história régia portuguesa, El Rei Dom Dinis, seu pai, e El Rei Dom Afonso IV, seu irmão paterno. Intentaremos explicar, brevemente, essa relação e como ela culmina nas produções textuais do Conde. Para isso, é importante passarmos pela atuação régia de Dom Dinis que, conforme narra Queirós (2011), nasceu em 1261 e é filho do rei D. Afonso III e de D. Beatriz de Castela.

Quando Dom Afonso III casa-se, em 1253, com D. Beatriz, ele já era casado com D. Matilde de Bolonha. Como a situação de bigamia não era tolerada pelo clero, Dom Afonso III é submetido a um interdito papal em 1262. Por este motivo, Dom Dinis, que nasceu em 1261, é visto como filho ilegítimo (Queirós, 2011).

Posteriormente, o casamento de Dom Afonso III com D. Beatriz passa a ser oficialmente reconhecido, entretanto, as desavenças com o clero marcaram todo o seu reinado, a ponto de ser excomungado pelo Papa Clemente IV e, depois, por Gregório X.

Dom Dinis assistiu desde cedo às dissensões entre a coroa e o clero, as quais resultaram em prejuízos para o reinado; por este motivo, quando herdou o trono, mostrou-se muito preocupado em apaziguar os conflitos, objetivo que logrou. No entanto, não conseguiu fazer o mesmo em relação às dissensões familiares em prol do direito ao reinado, principalmente com o irmão Dom Afonso Sanches e posteriormente com Dom Afonso IV, seu filho (Queirós, 2011). Dom Afonso Sanches nasceu em 1263, ou seja, após o reconhecimento legal do casamento de seus pais, fato que suscitou a preferência de uma parte da aristocracia para que Sanches subisse ao trono.

Após a morte de Dom Afonso III, Dom Dinis, com 17 anos, assumiu a coroa ao mesmo tempo que entrou em conflito com sua mãe, que acabou se exilando em Castela sob a tutela de seu pai Afonso X. Dom Dinis casou-se em 1281 com D. Isabel, filha de Pedro III de Aragão, e teve dois filhos: D. Constança, nascida em 1290, e Dom Afonso IV, nascido em 1291 (Queirós, 2011).

Conforme já mencionado, neste período El Rei já possuía outros três filhos. Entre eles destacamos Dom Pedro Afonso, nascido em 1288 e Dom Afonso Sanches, nascido em 1289. A

estratégia de reinado de D. Dinis o colocou por diversas vezes em oposição ao interesse da aristocracia senhoril, o que determinou o apoio dessa classe a seus oponentes.

Como característica relevante de seu reinado tem-se a centralização política e a percepção do poder conferido à cultura e ao conhecimento. Ele investiu e centralizou essa prática, sendo também um notável cancioneiro e responsável pela criação da Universidade de Coimbra.

Outro dado comprovativo de seu dinamismo político é o fato de, por exemplo, ter firmado os acordos de casamento de sua filha D. Constança com D. Fernando IV, herdeiro da coroa castelhano-leonesa, e de seu filho Afonso IV com D. Beatriz, irmã do rei de Castela, em uma espécie de acordo de paz entre as coroas. Todavia, em meados de 1281, iniciaram-se os conflitos com seu irmão D. Afonso Sanches (Queirós, 2011).

As tensões com o irmão resolveram-se com relativa facilidade, diferentemente da tensão irrompida com o filho que também recebeu o apoio da aristocracia portucalense. Esse apoio adveio do enfrentamento dessa classe com as opções administrativas do rei, visto que este confrontava brutalmente alguns privilégios já instituídos, pois, conforme observa Queirós (2011, s.p), “a guerra civil propriamente dita só rebentará em 1319, mas as suas raízes são muito anteriores e prendem- se com o poder que o rei foi outorgando aos seus filhos bastardos, em detrimento das principais famílias da nobreza senhorial e do seu próprio herdeiro”.

Em 1298, Dom Dinis institui o condado português, nomeando, de acordo com Fernandes (1990), João Afonso de Meneses como Conde de Barcelos. Na biografia traçada por Queirós (2011) há uma pequena discordância, pois aparece o nome de João Afonso Telo como o primeiro Conde de Barcelos.

Como o título apresentava uma função administrativa e não atribuía obrigatoriedade de sucessão hereditária, com a morte do primeiro Conde, em 1304, seu legado passa a ser disputado por seus genros. Dom Martim Gil, mordomo-mor de D. Afonso IV (de quem recebe apoio na disputa) e Afonso Sanches, filho de Dom Dinis, que aparentemente o privilegiou (Queirós, 2011). De acordo com Queirós (2011), Martim Gil, embora tenha recebido o título, sentiu-se prejudicado na disputa. Contrariado, exilou-se em Castela e Dom Pedro Afonso o seguiu, atitude que nos sugere qual lado dessa disputa apoiara. Oliveira (2011, p. 373) aponta que o afastamento de Dom Pedro Afonso ocorreu por sua ligação com o castelhano D. João Nunes de Lara, desafeto do rei, e principalmente por ter atuado como informante entre D. João Nunes e o infante Dom Afonso IV. Afonso Sanches acabou sendo nomeado mordomo-mor da corte régia, fato que desagradou a Dom Afonso IV, sendo este um dos gatilhos para a disputa que teceu contra o pai.

D. Pedro Afonso foi uma personagem notória durante o reinado de Dom Dinis, acompanhando seu pai em importantes negociações do reino (Oliveira, 2011, p. 371). Foi também

nomeado em 1307 mordomo-mor da casa da Infanta D. Beatriz de Castela, noiva de seu meio- irmão D. Afonso IV, dado que aparece registrado no Livro de Linhagens. O casamento ocorreu dois anos depois; no entanto, em 1317, Dom Afonso IV declarou oficialmente guerra a seu pai, recebendo o apoio de Castela (Queirós, 2011).

Em 1314, foi enfim nomeado Conde de Barcelos (Oliveira, 2011, p. 372), mesmo ano em que atuou em uma das contendas entre Dom Afonso IV e o pai, mas por este motivo foi privado por D. Dinis de seu título e bens, exilando-se novamente em Castela (Oliveira, 2011, p. 373; Queirós, 2011). Regressou a Portugal em meados de 1321-1322, intervindo novamente nas querelas entre o pai e o irmão. Logo após o exílio, encontrou-se com Dom Afonso IV no Porto e ambos seguiram para um cerco em Guimarães (Queirós, 2011). Em uma ação de contra-ataque, D. Dinis cercou Coimbra, momento em que o Conde, juntamente à Rainha D. Isabel, teve atuação fundamental para evitar um sangrento confronto final entre Dom Afonso IV e El Rei D. Dinis. O desfecho desse embate acabou favorecendo o Conde, que foi reabilitado ao condado e recebeu a devolução de seus bens, outrora confiscados pelo pai (Queirós, 2011).

Queirós (2011) descreve que “a trégua dura pouco” e o conflito reacendeu-se por diversas vezes, só terminando em 1324, com um acordo de paz definitivo, pois, pressionado por Dom Afonso IV, D. Dinis destituiu Afonso Sanches do cargo de mordomo-mor da corte e o exilou em Albuquerque. O ensaísta ressalta que o triunfo do infante Dom Afonso IV representou, neste momento, o triunfo de toda a aristocracia senhoril que o apoiava.

Dom Dinis faleceu em janeiro de 1325, tendo finalmente ao seu lado a Rainha D. Isabel, o infante Dom Afonso IV e o Conde Dom Pedro de Barcelos (Queirós, 2011). Iniciou-se assim o reinado de Dom Afonso IV, cuja semelhante dissensão com o filho e herdeiro D. Pedro culminou no afamado episódio de Inês de Castro.

Quanto a Dom Pedro de Barcelos, após a morte de Dom Dinis, afastou-se da corte rumo aos Paços de Lalim (Fernandes, 1990) e, nas terras herdadas do casamento com D. Branca Peres, dedicou-se à escrita de suas obras.

O Livro de Linhagens narra seu segundo casamento com Maria Ximenes, da casa real aragonesa, em um consorte malsucedido. Após a dissolução, teve ainda outra companheira e, posteriormente, faleceu em 1354 – enquanto ainda residia na freguesia de Lalim.

Sobre sua produção textual, acredita-se que começara como trovador nas décadas de 1320- 1330, redigindo o Livro de Linhagens em meados da década de 1340. Por último, teria se dedicado à

Crónica de 1344 (Miranda & Ferreira, 2015, p. 26).

Das referências biográficas do Conde é possível destacar seu interesse pela escrita das artes trovadoresca e historiográfica advindas de uma tradição genealógica partilhada por seu avô Afonso

X (o sábio) e por seu pai, o Rei D. Dinis. Outro ponto, talvez o mais interessante, foi a postura política que exerceu ante os conflitos tecidos na corte. Seu partidarismo com a aristocracia pode ser amplamente relacionado à sua produção historiográfica, pois ele agenciou, organizou e inventou dados, a fim de fortalecer ideologicamente o poder social dessa classe.

Sobre a investigação da produção textual do Conde Dom Pedro de Barcelos

Por muito tempo, o período de produção escrita no qual se insere a obra do Conde Dom Pedro de Barcelos representou uma enorme lacuna na investigação científica e filológica da historiografia portuguesa. Embora, anteriormente à atribuição da autoria desses escritos ao Conde, esses textos já tivessem por diversas vezes sido manuseados, analisados, comentados e até refundidos, a década de 1950 foi fundamental para o preenchimento desse vazio.

Foi apenas após os estudos realizados por Luís Filipe Lindley Cintra que finalmente foi devolvida a contribuição portuguesa para a cepa historiográfica da Península Ibérica deste período. Como sabemos, desde muito cedo as sociedades descobriram o valor e o poder da memória. É por isso que essa restituição tem para a crítica e os estudos historiográficos portugueses uma importante valoração simbólica, à medida que contribuiu para oreconhecimento de pertença em um contexto dos estudos medievalistas em que só existiam referências externas, sendo muitas vezes dificultada a acessibilidade a essas obras por causa das barreiras culturais e linguísticas. É relevante destacar que essa restituição só foi possível por causa dos novos caminhos metodológicos incorporados pela investigação científica desses textos.

Esse percurso foi iniciado por Cintra, mas recebeu fundamental contribuição dos trabalhos de Diego Catalán, seguido por outros investigadores como José Mattoso, José Carlos Ribeiro Miranda, Maria do Rosário Ferreira, Tiago João Queimada e Silva, entre muitos outros que se debruçaram sobre a obra do Conde, trazendo contribuições e descortinos. Entretanto, ressaltamos a importância do trabalho dos dois primeiros investigadores para que a conseguinte geração pudesse continuar produzindo.

Em meados do século XX, Cintra, sob a orientação do filólogo espanhol Ramón Menéndez Pidal, se debruçou sobre esses estudos e editou a circa 1400 da Crónica Geral da Espanha de 1344, atribuindo a obra ao Conde Dom Pedro de Barcelos. Embora o texto original estivesse perdido, sobrevivendo apenas uma tradução castelhana incompleta, em manuscrito, do século XV, Cintra, na ausência de um testemunho português da versão primitiva, divulgou na edição crítica intitulada

Crónica Geral de Espanha de 1344 o texto português de uma refundição anônima, circa 1400.

Um dos resultados desse processo foi uma generalizada atribuição ao Conde de textos que, na opinião de Ferreira (2010), o tornou “uma espécie de pai putativo de um conjunto de obras que

de fato aparentemente surgiram por sua iniciativa” (Ferreira, 2010, p. 83), mas que, no entanto, não há como identificar sua autoria. Ainda assim é possível por meio dessas obras apreender uma “personalidade autoral bem definida, conscientemente interventiva” (Ferreira, 2010, p. 84), manifesta em seus escritos.

Diego Catalán, na senda de Luís Felipe Lindley Cintra, manteve a união no estudo de textos castelhanos e portugueses para compreender o contexto dessas produções textuais, confirmando e refutando algumas das afirmações de seu mestre (Moreira, 2010).Contudo, Catalán priorizou os discursos presentes nesses textos. Para ele, o que mais importava não eram os fatos, mas as narrativas, ou seja, os constituintes da história, pois, em sua concepção, qualquer história, por mais objetiva ou científica que pretenda ser, será sempre uma interpretação política do passado (Ferreira, 2010, p. 17). E é sob esta visão que a historiografia medieval portuguesa passou a ser vista e revisitada enquanto discurso político. Essa investigação das dimensões literário-textuais e ideológico-políticas continuaram a orientar as práticas dos estudiosos contemporâneos.

Os pesquisadores reformularam esse campo de estudo à medida que olharam para essas narrativas com o objetivo de visualizar em que medida elas foram utilizadas com o intuito de legitimar os interesses regentes. Tal perspectiva abriu o campo de atuação para os investigadores, oferecendo a possibilidade de promover conjecturas e interpretar esses textos por meio da análise de seus discursos a despeito da opção de incorporá-los como uma descrição genuína e inquestionável do passado.

Deste modo, as abordagens passaram a considerar a contextualização da história, da cultura e das mentalidades que envolvem esses textos, e não apenas a investigação do grau de veracidade dos testemunhos.

O interior da Crónica de 1344

A Crónica de 1344, cujo texto primitivo se perdeu, é atualmente conhecida por meio da refundição anônima da circa 1400. Nela são narrados os acontecimentos históricos da Península Ibérica até o reinado de Afonso IV. Sobre as produções realizadas neste período, até meados do século XIII, a cultura nobiliárquica era dominada pelo canto trovadoresco. De acordo com Silva (2011), foi na década de 1270 que a literatura genealógica entrou nos meios culturais nobiliárquicos com as composições do Livro Velho de Linhagens, no mosteiro de Santo Tirso, do Livro do Deão, redigido por Martim Anes, em 1343, e do Livro de Linhagens, redigido pelo Conde D. Pedro, entre 1340 e 1344 (Silva, 2011, p. 67). Na perspectiva de José Mattoso (1980), este, no entanto, fora objeto de duas refundições, uma em meados de 1360 e 1365 e a outra entre 1380 e 1383.

Antes da produção cronística medieval portuguesa, já existia uma longa tradição deste gênero historiográfico nos reinos vizinhos de Castela e Leão. Embora haja alguns pontos de contato entre essas produções e a portuguesa do século XIII, “elas desenvolvem-se de modo relativamente independente ao longo deste século, sendo produzidas em cortes régias rivais e, como tal, apresentando discursos e conotações ideológicas divergentes” (Silva, 2011, p. 42).

No caso da Crónica de 1344, há em sua estrutura algumas disparidades com os modelos cronísticos, o que causou certo estranhamento e desfavoráveis julgamentos por parte de alguns investigadores, embora haja linhas investigativas que percebam nesses traços recursos característicos de um possível projeto de escrita. Sua seção inicial, por exemplo, apresenta discrepâncias se comparada ao modelo neoisidoriano, pois, conforme observa Ferreira (s.d., p. 11), propõe uma sequência cronológica não linear e apresenta seções enumerativas. Ferreira (s.d., p. 11) defende, ainda, que essa característica genealógica do Conde é reveladora de uma ramificação própria de um discurso com base em um princípio estruturante distinto, pois ele teria estruturado sua obra sob uma forma de representação que insere o homem no tempo de modo diferente da ordem cronológica, progressiva, conforme ditavam os modelos hegemônicos (Ferreira, s.d., p. 12). Neste sentido, a apresentação não cronológica dos fatos é vista como uma estrutura que obedece a uma lógica decorrente de um imperativo autoral que condiz com um discurso historiográfico conscientemente articulado.

Estruturalmente, o autor traça na Crónica uma linha temporal orientada por padrões cristãos, a qual tem início com a figura bíblica de Adão, seguida por seus patriarcas, passando pelos reis de Jerusalém, seguindo para o império Persa, prolongando com os imperadores romanos e inserindo, sem qualquer preocupação com os critérios de continuidade, os imperadores do Sacro Império (Ferreira, s.d., p. 15). Embora esse processo resulte em um produto de compilações reconhecíveis e de matrizes identificáveis pelos investigadores, o que se percebe é que a obra em muitos aspectos não condiz com essas matrizes.

Diego Catalán observa, por exemplo, que na versão da Crónica de 1344, diferentemente da matriz de Eusébio-Jerónimo onde aparecem diversas referências de sucessões simultâneas ao trono, ocorre o registro de apenas uma sucessão de cada vez (Ferreira, s.d., p. 19), ou seja, os dados são selecionados a partir de suas orientações ideológicas.

Para Ferreira (s.d., p. 20), estamos diante de um quadro que revela um projeto de cosmogonização, “baseado na dominação [...] totalizadora do Mundo à sombra de um espaço sacralizado/civilizado”, cujo eixo desliza do oriente para o ocidente, ou seja, do paraíso terreal para Jerusalém, fixando-se em Roma. E nesse processo ocorre a enumeração de várias personagens detentoras de poder até a contemporaneidade de seu redator (Ferreira, s.d., p. 20). Conforme

observa a estudiosa, seguidas vezes esse movimento se repete na estrutura narrativa: “Tal acontece na seção inicial ‘não cronística’ e volta a verificar-se repetidamente na seção cronística” (Ferreira, s.d., p. 24).

Outra característica notável é que, à medida que a cronologia se aproxima das épocas mais recentes e a geografia se concentra na Península Ibérica, o desenvolvimento narrativo se intensifica (Ferreira, s.d., p. 31). A pequisadora observou na estrutura da crônica um movimento espiral, que “produz uma sequência de unidades espacio-temporais de âmbito parcialmente sobreposto, multiplicando-se de acordo com a estrutura de reprodução auto-similar e convergindo obsessivamente num ponto correspondente a um momento histórico bem determinado” (Ferreira, s.d., p. 32).

Na consubstanciação da obra ocorre a predominância dessa estrutura, oferecendo narrações de várias situações que convergem em um mesmo tema. Esse processo resulta em uma maior visibilidade ao momento histórico, e tal efeito ocorre com a Batalha do Salado. Outra observação interessante é que esse movimento que converge para a Batalha não se restringe à

Crónica, pois é possível perceber essa apresentação simbólica também no Livros de Linhagem

(Ferreira, s.d., p. 32).

Na obra do Conde Dom Pedro de Barcelos, o poderio régio aparece representado em igual posição aos figurantes da aristocracia portuguesa. Essa postura ideológica do Conde é perceptível na Crónica de 1344 no episódio em que é narrada a Batalha de Ourique. A versão dele apresenta

No documento Pelos mares da língua portuguesa 4 (páginas 163-175)