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1. O CORPO TRANSBORDANTE

1.5 Nas raias do biopoder

1.5.1 Vista do Rio : implosão

A vida de cabeça para baixo, o destino se abrindo e se fechando, como uma boca, a armadilha gente grande, niilista, matemática. E ele? Voando, literalmente.

LACERDA. Vista do Rio.

A literatura contemporânea tem enfocado sobremaneira o corpo, que amiúde aparece como sinônimo de liberdade, principalmente pelo enfoque dado ao excesso. Apesar do merecido destaque dado a João Gilberto Noll, seria injusto afirmá-lo como solitário arauto do extravasamento corporal ou mesmo como paladino da singularização, considerando a prosa mais recente produzida no Brasil. Mais profícuo talvez do que elencar, a título de curiosidade e de satisfação prestada, todos os prosadores que se irmanam – ainda que mais timidamente, em sua maior parte – às descargas sexuais expostas cruamente nos romances nollianos, considero propor uma interlocução com uma obra que, de maneira oposta ao

128 PELBART. Vida capital, p. 83.

excesso de Noll, mina por dentro, subrepticiamente, todo um sistema que prima pela racionalização e pela assepsia.

O romance Vista do Rio (2004), de Rodrigo Lacerda, abre-se com uma epígrafe (“Fura túneis insuspeitados,/ alarga gargantas,/ ultrapassa os morros,/ e pula sobre as montanhas.”) seguida de um desenho em nanquim, um esboço do hall de um edifício modernista, de traçados geometrizados, a cuja rigidez até mesmo as plantas dispostas no desenho conformam-se. O prédio Estrela de Ipanema é tão central nesse romance quanto os dois amigos – Marco Aurélio, o narrador, e Virgílio – que o atravessam. Sobre o edifício em que cresceram juntos, estreitando a amizade, comenta o narrador: “Naquele prédio, as utopias urbanísticas dos anos 60 eram mesmo levadas a um surpreendente paroxismo, até nos canteiros.”129

A ironia é que a dureza arquitetônica emoldura, enrijecida, um centro magmático, fluido, disforme (indefinível, portanto) que viceja conduzindo sub-repticiamente a narrativa, sem que seu nome em nenhum momento seja enunciado. Na capa, o desenho indicando um corpo celulóide que escapa à conformidade sistêmica, uma alusão visual ao vírus da AIDS que, no relato de Marco Aurélio sobre as transformações percebidas no amigo Virgílio, as internações e, por fim, a sua morte, vai se deslindando ao leitor sem que seja nomeado.

Nas primeiras páginas o narrador homodiegético descreve uma cena flagrada pelo amigo: o coito de Jairo, motorista da casa, homem de confiança de seu pai, com o próprio filho. Virgílio não se contém e delata o presenciado. A decepção diante da incredulidade dos pais e a subseqüente descoberta da mãe do que realmente ocorria entre Jairo e o menino, Miguel, e do que passou a se dar entre esse e Virgílio (que finalmente “tinha com quem

129 LACERDA. Vista do Rio, p. 44.

experimentar, em estado puro, o que sentia sendo penetrado.”130), ocasionando a saída dos empregados, mudaram a relação do amigo com a mãe e com o mundo, detecta o narrador:

Ele se transformou. Cristalizou-se em um novo sistema multifacetado, negro, afiado como um grafite escavado no lápis; quando o canivete enfim termina o trabalho, lascas inúteis caem secas no chão e surge a nova ponta, para escrever novas coisas. Levei um susto com as mudanças por que passava, e hesitei. Aos quatorze anos constatar que a bissexualidade estava tão perto foi uma surpresa inquietante.131

Pontuado por contínuas referências – em sua maior parte alegóricas, como podemos observar na citação – ao não-causal, ao não-mensurável, o que vai sendo decantado aos olhos do leitor é a incapacidade da estrutura rígida, homogeneizante e asséptica de conter a incontrolável mancha em seu próprio âmago, minando sorrateiramente sua base modernista, racional, que prima por exalar certezas. Susan Sontag, explorando as aplicações figurativas das doenças, e o quão marcadamente os discursos sobre elas escamoteiam as suas reais ocorrências, assevera que é o fato de “permanecer latente no organismo que oferece uma utilização mais específica da AIDS como metáfora.”,132 latência acenando emersão a qualquer momento. O vírus – que dribla o sistema imunológico, surpreendendo-o com estratégias inusitadas de sobrevivência e de reprodução – é, pois, propício para simbolizar a vulnerabilidade não somente de um indivíduo, mas de uma sociedade.

Se nos romances de Noll a libido expõe-se transbordando em renovados êxtases, desconcertando os traçados da dita normalidade comportamental, no de Lacerda ela implode silenciosa – a partir de uma doença não-nomeada que encerra simbolicamente o ápice do desregramento sexual – a arquitetura perfeita que a contorna, revelando o quão

130 LACERDA. Vista do Rio, p. 39- 131 LACERDA. Vista do Rio, p. 50.

assimetricamente viceja o humano, ainda que abarcado por um continente de aparência sólida e perfeitamente simétrica. E, num extrato mais profundo, não poderíamos vislumbrar nessa fratura aquela operada própria literatura, ardilosa inconteste frente às construções discursivas que conformam o que se conhece por sociedade?

Ambos os autores podem ser lidos no âmbito da exterioridade, que Bhabha chamou de contra-modernidade, apostando numa força narrativa que expresse a ambivalência e a desconfiança de uma temporalidade homogênea e de uma sociedade horizontal; que invista no potencial das metáforas (e principalmente das alegorias) cujo movimento “requer um tipo de duplicidade de escrita, uma temporalidade de representação que se move entre formações culturais e processos sociais sem uma lógica causal centrada.”133 Na contraposição da rigidez do espaço social com a fluidez do corpo individual, o interessante a relevar não é o binarismo, mas a interpenetração, o interstício a partir do qual se tocam, ou se afastam numa atitude de estranhamento. Ilumina o teórico indiano: “Privado e público, passado e presente, o psíquico e o social desenvolvem uma intimidade intersticial. É uma intimidade que questiona as divisões binárias através das quais essas esferas da experiência social são freqüentemente opostas espacialmente.”134

No romance de Lacerda, a AIDS é a mancha que vem macular, já que numa sociedade de controle o sistema opera por assepsia; é também o corpo estranho espraiando-se nas vivências familiares, sociais, que “Fura túneis insuspeitados”, lemos na epígrafe, corroborando com a consideração, cunhada por Bhabha, de que o homem vive numa realidade intervalar.

De forma análoga atuam os excrementos, suores, salivas e espermas que jorram nas linhas de João Gilberto Noll, impondo um locus discursivo cujo potencial transgressor, e

133 BHABHA. O local da cultura, p. 201. 134 BHABHA. O local da cultura, p. 35.

imagético, aproxima-se do que Foucault sinalizou denominando “o ronco surdo da batalha.” Valem-nos as redentoras palavras do narrador de A fúria do corpo:

Lázaros transmissores de um novo convívio, sabemos de agora em diante que somos perdedores sim, mas exploraremos a devastação dessa derrota como quem garimpa na miséria riquezas indizíveis, não temos outro tesouro senão nossa pobreza, tocamos a miséria na Cidade não para chafurdarmos prazerosamente no lodo da impotência, mas para chegarmos até aqui, alçando nossa penúria, a nossa escassez, a nossa privação a inéditas rotas [...].135

Lázaros ressuscitando dia a dia do lodo que os traga, ranço da sociedade que sonha em abortá-los, ostentam ardilosamente sua escassez e sua miséria – seja através da linguagem caudalosa, ou da linguagem contida, sub-reptícia – cientes de serem portadores do necessário desconcerto e da estranheza redentora, a partir dos quais “inéditas rotas” possam se abrir. Mais ainda, expressam uníssonos iniludíveis desejos de singularização que refletem uma inadaptação, ou distância, face à incorporação sistêmica.