“
E
u gosto de estar aqui, acho bonito na época da cheia e também da seca quando o rio some daqui de frente. É um pouco complicado, mas, eu não acho difícil o importante é estar com saúde. Fica uma paisagem muito bonita [...]” D. Sebastiana.No dia 23 de agosto de 2012 conheci D. Sebastiana, uma das moradoras mais antigas da comunidade, que testemunhou o crescimento da vila. Estava ali, sentada em uma cadeira dessas de plástico na pequena sala de sua casa. Eu a escutava atentamente falar da comunidade entre pausas e olhares de saudade daqueles que já se foram, como o marido o Sr. Juvenal da Costa Braga, pioneiro, incentivador e animador dos primeiros passos da comunidade, e que sonhava em ver a energia elétrica chegar à vila, mas não pôde vê-la, assim como os seus pais, os primeiros moradores do local, donos daquelas terras, onde outrora só havia uma casa e mato por todos os cantos.
Hoje, o mato deu lugar a um universo particular de moradores que fazem Boas Novas na singularidade em meio aos conflitos do dia-a-dia.
Gosto muito de morar aqui na comunidade do Tilheiro. Você tem essa relação com a natureza e com o que ela nos proporciona e nos ensina. Além disso, é um lugar bom de se viver e criar os filhos, pois, é tranquilo, quase não temos problemas com marginalidade, não há muito envolvimento com questão de drogas, nem muito envolvimento com questão de brigas. Essas coisas acontecem é claro, hoje não há como escapar disso, mas é quase inexistente aqui na nossa comunidade.
Aqui na comunidade, podemos relaxar – estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza, dificilmente um ‘canto’ aqui é ‘escuro’). Numa comunidade, todos nos entendemos bem, podemos confiar no que ouvimos, estamos seguros a maior parte do tempo e raramente ficamos desconsertados ou somos surpreendidos. Nunca somos estranhos entre nós. Podemos discutir – mas são discussões amigáveis, pois todos estamos tentando tornar nosso estar junto ainda melhor e mais agradável do que até aqui, embora levados pela mesma vontade de melhorar nossa vida em comum, podemos discordar sobre como fazê-lo.27
Mesmo diante de um cenário de aparente tranquilidade propiciado em parte pela impressão de paz emanada pelo cenário natural, e também como afirma Bauman pela sensação que a palavra comunidade nos traz, muitos são também os conflitos e lutas pela sobrevivência, presentes no chão de Boas Novas.
Entrar no universo do imaginário que compõe a cultura das comunidades ribeirinhas é sem dúvida uma jornada que nos remete ao encontro de um significado de vivência e de construção social peculiar, dinamizada pela interação com a natureza e por tudo que dela se expressa, mas também significa mergulhar nos caudalosos rios desse viver cotidiano.
Nossa comunidade está precisando de muita coisa, muita coisa mesmo. Ela cresceu, tivemos várias coisas boas, mas só que ela não está nota dez, se eu dissesse isso
27
BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 07 e 08.
estaria mentindo, porque as pessoas ainda sofrem muito. Só pra ter uma ideia, a maioria dos terrenos localizados na parte de trás da comunidade é só mato, as pessoas quase não limpam, jogam muito lixo; a água é muito contaminada. É por isso que eu acho que a gente tinha que olhar mais para essas questões, preservando a comunidade, mas, têm pessoas daqui mesmo que não estão nem aí.
Mais do que com uma ilha de “entendimento natural”, ou um “círculo aconchegante” onde se pode depor as armas e parar de lutar, a comunidade realmente existente se parece com uma fortaleza sitiada, continuamente bombardeada por inimigos (muitas vezes invisíveis) de fora e frequentemente assolada pela discórdia interna; trincheiras e baluartes são os lugares onde os que procuram o aconchego, a simplicidade e a tranquilidade comunitárias terão que passar a maior parte do seu tempo.28
Apesar da descrição aparentemente harmoniosa, nem tudo é alegria, como nos remete a letra da música de animação que cantávamos nos encontros de comunidades da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima:
Eu sou feliz é na comunidade
é na comunidade que eu sou feliz (bis) A nossa comunidade se reúne todo dia, na nossa comunidade tudo é sempre alegria.
Os conflitos presentes nas vivências cotidianas de Boas Novas estão no ar, na fala, nos gestos e no corpo dos comunitários. Mas é possível sentir também a sensação de paz, de segurança e tranquilidade.
A primeira sensação que sentimos ao chegarmos em Boas Novas é de paz, de tranquilidade, de segurança. Para quem vive no turbilhão das cidades, o clima de silêncio é o que mais chama a atenção, quebrado muitas vezes pelos cantos dos pássaros, ou pelo som dos barcos. À medida que nos inserimos no cotidiano da comunidade vamos percebendo que essa harmonia apresenta rupturas difíceis se serem percebidas. Paira no ar, na fala, nos gestos, nos
28
corpos dos seus moradores um sentimento não muito explícito de quebra dessa harmonia. De um lado, existe a preocupação que os moradores têm de coibir pensamentos, atos que contrariem seus princípios religiosos e de outro, a tentativa de muitos jovens em buscar outras formas de viver suas vidas fora de Boas Novas, uma vez que não se sentem acolhidos por uma comunidade que se caracteriza como sendo predominantemente evangélica e seguidora de normas rígidas de disciplinarização dos costumes.
Aqui nem tem morte por causa de briga, tem às vezes umas brigas, umas confusões, mas, é mais entre família, morte graças a Deus não, só mesmo por idade, doença, mas de dizer “aquele cara ali matou o outro”, isso aí nunca teve não. É um bom lugar pra se viver...
Mas mesmo assim, para quem já experimentou o turbilhão de viver na cidade grande, entrar nesse lago que inspira tranquilidade é um desafio para o corpo já acostumado à agitação do rio em dias de forte chuva.
No primeiro mês, eu não conseguia me habituar nesse lugar. Achei meio esquisito, senti falta da cidade. Fiquei pensando: “Poxa eu vim parar aqui, depois de ter andado em Tabatinga, Borba, Atalaia”. Andei em várias cidades e poderia ter escolhido uma delas pra morar, mas não, acho que Deus quis que eu viesse pra cá, pro Tilheiro, bem pertinho de Manaus. Ainda hoje eu ainda não me sinto, tão disposta a morar aqui, ainda tenho vontade de sair e morar em outro lugar. Mas aqui é mais fácil de estudar, é onde está minha família, é mais tranquilo.
Mas a comunidade ainda é o lugar que me protege, onde mora minha família, onde a vida segue o ritmo desacelerado da correnteza do rio calmo.
A heterogeneidade humana da Amazônia é uma de suas características marcantes, pois a mesma é constituída por pessoas que vivem no espaço urbano e rural – caboclos, quilombolas, povos indígenas, pescadores, coletores, camponeses, ribeirinhos, povos das florestas,
trabalhadores sem terras, assentados, pequenos agricultores, colonos, imigrantes, entre outros. Abriga diferentes povos, que apesar dos conflitos, constitui um espaço de encontro entre diversas culturas, que formam e enriquecem a cultura amazônica, que ao mesmo tempo é plural e singular29
Em meio a esse redemoinho de uma vivência comunitária caracterizada pela tensão entre “harmonia” e individualismo, ainda é possível encontrar elementos característicos da organização do trabalho comunitário, vivido por grande parte das comunidades ribeirinhas amazônidas30, como
O mutirão
agrupamento temporário de comunitários para realização de serviços para a própria coletividade da comunidade, voltada para melhoria de bens e/ou prestação de serviços comunitários, nos quais o trabalho é compartilhado para usufruto de todos os membros da comunidade31
E o ajuri.
uma modalidade de organização coletiva do trabalho realizada pelos comunitários, cujos resultados são partilhados entre os participantes da atividade, constituindo-se como uma modalidade de ajuda mútua entre os comunitários;”32
Um exemplo desse dinamismo foi por mim vivenciado em umas das minhas passagens pela comunidade. Um grupo saiu à noite para pescar, ao chegar de manhã com as canoas repletas de peixe, juntavam e distribuíam para algumas pessoas mais próximas. Certa noite, pude desfrutar de um belo assado de pacu, fruto da pesca realizada durante o dia e que foi partilhado à noite com os familiares e amigos próximos.
29
CHAVES, 2007
30
Termo comumente utilizado na região para definir os habitantes da Amazônia
31 CHAVES, 2001 32
Mesmo encontrando essas características, o olhar comunitário na perspectiva do coletivo que destacamos acima parece que perde o sentido nos traços cotidianos de Boas Novas, pois as ações se centralizam mais na figura da liderança de um vereador, que parece exercer o controle do que se passa pela vida da comunidade.
Se tem um problema a gente comunica ao nosso vereador e ao presidente da comunidade e assim vamos resolvendo as coisas.
Assim, o cotidiano vai se revelando, sendo pescado pelas redes, pelos olhos, ouvidos e pelas múltiplas sensações de quem pisa no chão da comunidade. Os colaboradores dessa pesquisa narram suas vivências cotidianas na interação com o espaço físico da comunidade, revelando um sentido ao viver na comunidade.
O dia-a-dia aqui é bom, a primeira vista, pra quem é de fora pode parecer que não, que é um lugar parado, sem muita coisa pra fazer, mas, acho que não é bem assim dá pra fazer muita coisa. Pra gente que é evangélico, por exemplo, é mais aquela coisa ligada com as atividades da igreja, Pra quem não é evangélico tem outras atividade, e no mais as pessoas geralmente passam o dia trabalhando, realizando suas atividades e no final da tarde se encontram pra jogar uma bola, ou sentar na pracinha pra conversar, quando não, vão à escola no turno da noite.
[...] o quotidiano não é apenas o espaço de realização de atividades repetitivas: é também um lugar de inovação. A vida quotidiana não é apenas feita de rebotalho. A própria recusa do quotidiano (a festa, as viagens, as férias...) é a sua reorganização e transformação. O quotidiano banal, trivial, repetitivo, faz parte de um outro quotidiano.33
33
As marcas da vida se aprofundam a cada instante em que o cotidiano se revela nas facetas do tempo. Um tempo que não se fundamenta somente no cronológico, mas que também se intensifica na materialidade das relações.
Mais do que ressaltar os fazeres que marcam nossas dinâmicas pessoais e coletivas do dia a dia, como nossas rotinas e andanças, o cotidiano nos aponta para uma perspectiva de reflexão sobre as concepções que emergem dessas rotinas, onde novos pontos de vista se abrem e novos conhecimentos históricos são produzidos.
Assim, se posso dizer que temos alguma dificuldade no nosso dia a dia, algo que poderia colocar uma que nos acompanha todos os anos e da qual não podemos escapar, que é o período de seca do rio. Nessa época nossa locomoção fica dificultada, pois esse rio que está aqui na frente e que nos serve de caminho, esse rio desaparece, aí somos obrigados a caminhar por horas passando por cima de pontes improvisadas para não pisarmos na lama, e seguir agora não só os caminhos de rios, mas também os caminhos de terra e às vezes lama. Por outro lado, você viu que esse ano, tivemos uma cheia muito grande, que também causou muitos transtornos para nós, principalmente para nossos irmãos que tiveram que deixar suas casas por conta da alagação
E também essa coisa de cheia, vazante, seca do rio é algo muito presente no nosso dia-a-dia. Morar aqui significa vivenciar isso e tudo o mais que isso possa nos causar.
[...] No ambiente rural, especificamente ribeirinho, a cultura mantém sua expressão mais tradicional, mais ligada à conservação dos valores decorrentes de sua história. A cultura está mergulhada num ambiente onde predomina a transmissão oralizada. Ela reflete de forma predominante a relação do homem com a natureza e se apresenta imersa numa atmosfera em que o imaginário privilegia o sentido estético dessa realidade cultural. Nesse sentido, a relação do caboclo ribeirinho com a água que atravessa seu cotidiano se torna de
importância vital para a compreensão desse homem e do universo que o habita 34.
Nas subidas e descidas do rio, estes atores sociais vão transformando o cenário de suas ações cotidianas que, apesar do ciclo que se repete anualmente no tempo marcado (enchente, vazante e seca), não cai no vazio repetitivo da cotidianidade, sendo este fenômeno expressão do universo singular do viver amazônico. E isso se conecta com a vida da escola, pois dependendo do período, o simples ato de ir à escola pode ser um tormento para aqueles que moram distantes da comunidade.
Quando chego da pesca, aproveito para dar uma volta na quadra com meus amigos, passo uma meia hora jogando uma bolinha aí vou pra casa, isso quando não tenho alguma atividade da escola para fazer, almoço, tomo banho e vou para o colégio, onde fico a tarde toda. No finalzinho do dia dou uma volta e me encontro com os amigos na praça para conversar um pouco, e depois o negócio é ir dormir, porque no outro dia tem a lida às quatro da manhã.
O quotidiano – costuma dizer-se – é o que se passa todo dia: no quotidiano nada se passa que fuja à ordem da rotina e da monotonia. Então o quotidiano seria o que no dia a dia se passa quando nada se parece passar. Mas só interrogando as modalidades que caracterizam ou representam a vida passante do quotidiano – nos damos conta de que é nos aspectos frívolos e anódinos da vida social, no “nada de novo” do quotidiano, que encontramos condições e possibilidades de resistência que alimentam a sua própria rotura35.
34 FRAXE, 2004 p. 296 35 PAIS, 2003, p.28
Uma rotina que foge do rotineiro, do repetitivo, que se repete mas não se cansa, como um rio que está ali, mas não é o mesmo.
E os barcos que fazem linha pra Manaus não param. Eles ficam lá na boca, lá fora e quando queremos ir pra Manaus pegamos os barquinhos, os voadores que pegam o pessoal e deixam lá na vila do Janauacá, atravessamos por cima da vila e passamos para o lado de lá para pegarmos o Esxpresso.
Mas também tem o período de cheia, que as vezes traz alguns problemas também, mas só quando a cheia é muito grande, como aconteceu em 2012, que deixou muita gente desabrigada. É enchente e é seca.
As águas chegaram mais cedo36
e o grande rio
esparramado pelas várzeas
afoga as plantações
O tapiri se torna uma ilha
no cenário das margens
onde o caboclo
acuado
porongueia silêncio
36
catando os filhos
tecendo sonhos
A vida parece seguir seu caminho: ir e vir no remanso do rio, na essencialidade daquilo que me forma e me transforma.
Moro na casa dos meus pais, bem ali perto, do outro lado do rio. Vou vivendo meu cotidiano nesse ritmo: fico em casa, mas tipo assim, eu acordo lá pras nove horas, mas se tiver algum trabalho da escola eu acordo às sete horas e depois vou ajudar minha mãe no que é preciso, às vezes não, porque me dá preguiça. Lavo roupa, varro a casa, arrumo e quando dá meio dia tenho que me arrumar pra vir pra escola. Espero o barco que vai pegar os alunos as doze e meia, uma hora da tarde já estou na escola.
Depois da escola eu vou jogar bola com as amigas e quando volto pra casa, vou deitar, assistir um filme, ver televisão, novela. Quando dá umas dez horas, vou para o quarto e fico teclando no celular, às vezes vou até duas horas da madrugada, conversando com os amigos. É um vício... pra mim, o celular é um vício. É a minha rotina aqui na comunidade de Boas Novas.
Em Casas do Beiradão37, os autores nos conduzem pela descrição de uma casa típica dos beiradões
Ribeirinhos da
Amazônia, suas cores, sons e imagens. Viver na comunidade é seguir os rumos de um
rio que passa
lentamente e onde a vida dessa gente segue as águas desse chão.
O cotidiano se reinventa em múltiplas formas e a comunidade é sempre o elemento articulador das vivências dos sujeitos que lá se inserem na lida do esforço diário da sobrevivência. Falar da comunidade, ou seja, do lugar, do espaço onde vivo é falar de mim, é reiterar quem eu sou, é apresentar o palco onde dialogo com a vida ou na vivência amazônica, o barco onde navego.
Pensar a vida em uma comunidade ribeirinha, em seus múltiplos sentidos, remete-nos a uma relação com o meio social, expressa na dinâmica que envolve homem e natureza, onde um depende do outro para seguirem o percurso do rio.
As formas de viver o cotidiano, entrelaçado com os elementos que simbolizam esse viver como expressa Amazônico, Música do Grupo Raízes Caboclas, revelam-nos esse dinamismo do homem e da mulher amazônida.
Quero pro café, tucumã38 quero pra almoçar, tambaqui sobremesa, vai jatobá
rede pra embalar e dormir - Coari Foi peixe-boi
37 Composição de Celdo Braga / José Augusto Cardoso / Eliberto Barroncas 38
Musica Amazônico – Celdo Braga (Grupo Raízes Caboclas). Parecem ninhos de
passarinho as casas do beiradão
Passa o rio lentamente Corre a vida dessa gente
pelas águas desse chão
Não importa a palha sem formosura As casas têm a pintura das cores do jardim
O que importa são as flores perfumadas mesmo em lata enferrujada
Minha casa é assim
Lamparina clareando iluminando a casa inteira
Na parede a padroeira minha santa me clareia
Pela fé acredito ser criança E no céu da esperança vou brincando de sonhar
Meu brinquedo é a bola prateada de uma noite enluarada
quem me ensinou nadar nas correntezas remar na proa
usar o arpão sem ferir
apaga essa poronga curumim
hoje é lua-cheia e faz clarão pirarucu, pirão
águas baixando chegou o verão
Os sujeitos que protagonizam as ações do cotidiano, revelando as tessituras desse espaço sociocultural, são os personagens que possibilitam ao pesquisador adentrar na floresta, com o propósito de caçar os alimentos que darão sustância às respostas dos problemas advindos das inquietações e questionamentos sobre o campo de pesquisa, ou seja, sobre o cotidiano. De tal forma nos aproximamos dessa percepção para afirmar a posição dos sujeitos do cotidiano enquanto personagens que alimentam e dão direcionamento às nossas reflexões sobre o cotidiano, contribuindo para a construção de um conhecimento, num dado momento histórico, a partir de uma dada percepção do mundo.
Assim, no dia-a-dia, os comunitários vão construindo suas práticas cotidianas, que se repetem, mas nem sempre são reprodutoras de uma mesmice ou de uma rotina enfadonha. A pesca é a principal atividade vivida por eles no cotidiano, é um ato quase que diário, uma ação impregnada na vida, como o ato de se alimentar ou dormir, ou seja, é algo indissociável do ser ribeirinho.
A cheia, a vazante e a seca do rio são algo muito
presentes no nosso dia-a-dia. Morar aqui significa vivenciar isso e tudo o mais que isso possa nos causar.
O Rio é o elemento articulador das vivências do espaço comunitário, seja na influência da locomoção como no gerenciamento da principal atividade desenvolvida na comunidade, a pesca.
Saio todos os dias de manhã por volta das quatro horas, pra pescar com o meu pai e voltamos geralmente às dez horas. Sempre vamos em grupos, cada um em sua canoa na lida diária da pesca. Nós, digo meu pai tem uma canoazinha que utilizamos pra nossa atividade de pesca, de onde tiramos parte de nosso sustento com a venda do peixe que pescamos.
Encontramos nos denominados ribeirinhos, na Amazônia, uma referência, na linguagem, a imagem de mata, rios, igarapés e lagos, definindo lugares e tempos de suas vidas na relação com as concepções que construíram sobre a natureza. Destaca-se como elemento importante no quadro de percepções, sua relação com a água. Os sistemas classificatórios dessas populações fazem prova do patrimônio cultural. O uso dos recursos da floresta e dos cursos d`água estão, portanto, presentes nos seus modos de vida, enquanto dimensões fundamentais que atravessam as gerações e fundam a noção de território39
A pesca, enquanto ato dinâmico no cotidiano dos ribeirinhos, é a materialização da vida, no processo que se entranha na alma e no corpo de quem compõe a melodia diária de