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Os clientes em hemodiálise expõem que cuidam de si descrevendo cuidados relacionados ao corpo, ao psíquico e ao noético. Assim relatam que:

[...] tenho muito cuidado com meu cateter, tenho muito cuidado com tudo, com os meus remédios, eu tomo na hora certa, minha alimentação. Eu tenho muito cuidado com tudo isso aí sobre a saúde. Porque se a gente não tiver cuidado quem sofre é a gente mesmo [...] Temos que ter cuidado com tudo, com o asseio, com a higiene, na parte da alimentação a gente tem de ter todos os cuidados, não pode comer o que não deve [...] Eu faço tudo que posso em matéria de limpeza, cuidado com o cateter, alimentação. (Cinza)

Eu tenho que cuidar de mim e de não faltar, vim no dia certo [...] Eu tenho cuidado com meu cateter para não molhar. (Amarela)

7 Frankl denominou a dimensão espiritual de noética, que deriva da palavra “noos” e “noetos” que significa

Cinza descreve como cuida de si e expõe que, se não tiver cuidado, ela mesma sofrerá as conseqüências. Assim, com consciência da sua responsabilidade frente à vida, ela decide cuidar de si, enfocando cuidados relacionados a sua dimensão corporal e psíquica.

Em sua fala, Amarela relata ter consciência de que a responsabilidade em cuidar de si é um ter que fazer, ter que vir para hemodiálise, descrevendo também o cuidado corporal com o cateter.

Apreendo que a vivência do cuidar de si expressa por Cinza ultrapassa o somático, pois, além de cuidar da alimentação, higiene, cateter, medicação, ela menciona que tem consciência das conseqüências que poderá sofrer caso não mantenha os cuidados.

Ao especificar aspectos relacionados a cada dimensão, tento, metodologicamente, clarificar o entendimento, contudo há de se considerar que isto retrata uma fragmentação do homem em partes, que só unidas formam o ser existencial.

Nesse sentido, o ser existencial é revelado quando o cliente expõe:

Eu tenho a responsabilidade de me cuidar, cuidar da alimentação, do dia de vir para hemodiálise [...] porque eu tenho certeza que se eu deixar de fazer hemodiálise ou se eu não me cuidar, eu não vou ter resistência por muito tempo [...] (Índigo)

Índigo declara ter responsabilidade de se cuidar através da alimentação e da freqüência ao tratamento, acreditando que, se negligenciar esses cuidados, não terá resistência por muito tempo.

Entendo que, ao expor sua consciência acerca da necessidade dos cuidados para manter sua resistência, Índigo está cuidando, além do corpo e do psíquico, da sua dimensão noética como ser de existência, garantindo, através de seus cuidados, a sua sobrevivência.

Huf (2002, p. 45) ratifica essa vivência ao trazer que “O ser humano, como Ser, atua como totalidade, de modo completo.”

Por ter consciência das doenças que a acometem e de suas possíveis complicações, Cinza refere cuidar-se:

[...] porque não agüenta. Também por causa da doença [...] A doença deixa a gente muito enfraquecida [...]Eu tenho diabetes e pressão alta, qualquer coisa minha veia infecciona. Então, se eu não tiver cuidado [...](Cinza)

Cinza informa ser portadora de diabetes e hipertensão, além da IRC, destacando que se sente enfraquecida e possui risco de infecções. Diante dessa realidade, ela refere ter cuidado consigo.

O ser humano, sendo noético, abarca uma visão ampla do universo e se situa como um ser de existência, cuidando da sua saúde mental. Verificamos isto também na fala de Vermelho ao informar:

Não me estresso, pois a melhor coisa que tem é a pessoa não se estressar. Hoje em dia, eu não fico zangado com ninguém dentro de casa [...] com a doença que a gente tem ainda [...] não pode se estressar. A pior coisa da vida é a pessoa ficar estressada, ela passa mal. Eu sou um cara que não gosto de ver ninguém zangado comigo.Também eu não posso ficar zangado com ninguém. (Vermelho)

Em sua fala, Vermelho avalia que a melhor coisa do mundo é não se estressar, por isso ele evita brigas e zangas, reconhecendo que por ser portador da doença renal crônica, ele não tem condições de se estressar com os outros.

Com isso, percebo que vivencia cuidados relacionados à maneira de viver, suprindo o desejo de existir como ser livre e consciente.

Nesse sentido, “o homem, conservando suas características e estruturas comuns de animais [...] permanece sendo animal [...], porém é infinitamente mais que um animal, devido à dimensão noética – a dimensão da liberdade humana” (HUF, 2002, p.47).

A alimentação e hidratação dos clientes portadores de IRC, por terem muitas restrições, passam a ser um cuidado vivenciado por eles com grande responsabilidade e assumem isso ao afirmarem:

Eu faço dieta porque não é tudo que eu como [...] Se der vontade de comer o que não posso, eu fico sem comer. Um feijão bem temperado e bem cozidinho eu não como. Vejo que vai-me fazer mal, eu não vou comer. (Lavanda)

Não como nada que me atinja, não como nada que me faça mal. Como arroz sem sal, às vezes um pouquinho de feijão sem sal [...] mas nada com sal não como não. [...] quando dou vontade, eu como um ovo cozido, porque frito eu não como [...] por causa do óleo. O feijão é lavado e relavado. (Azul)

[...] eu tenho cuidado [...] Eu não perco noite mais, eu não tomo bebida alcoólica de jeito nenhum, nem refrigerante, nem suco. Porque eu sei que se tomar vou-me prejudicar, então, eu não tomo. (Laranja)

Lavanda diz seguir a dieta e não comer alimentos que possam lhe causar complicações. Azul também refere não comer nada que possa fazê-lo sentir-se mal e Laranja, além de não perder mais noites, faz restrição hídrica, evitando ser prejudicada.

Esses trechos de depoimentos revelam o cuidar de si como ser de existência, livre para decidir, assumindo uma conduta responsável frente ao mundo.

Collière (1989) traz que a alimentação faz parte dos cuidados quotidianos e habituais. Contudo, diante da doença, o cuidado alimentar, seguindo uma dieta terapêutica, passa a representar cuidado de reparação ou tratamento de doença.

A vivência desses cuidados pelos clientes está muito relacionada ao outro com quem convive. Nesse sentido, Lunardi (1999, p. 125) aborda o cuidado de si “como espaço de relação do sujeito consigo mesmo e com os outros, permeado pelo exercício reflexivo da liberdade e da autonomia.”

No exercício da sua liberdade frente a si e aos outros, como ser de existência, um deles expressa:

Eu como normal, como minha comida, como peixe, a mulher às vezes frita, às vezes faz escaldado com abóbora e quiabo. Minha comida é essa [...] Não posso comer outro tipo de comida. Na minha casa só come isto [...] Respeito à dieta que é para fazer. Isso aí é importante para minha saúde, e isso aí eu não posso fazer diferente [...] não vou fazer o que o médico não manda. Só posso fazer o que o médico manda eu fazer. (Vermelho)

Vermelho diz que come normal, pois sua esposa faz a comida conforme dieta prescrita. Cuida-se ao seguir a dieta, sabendo que isto é importante para a manutenção da sua saúde.

Percebo que Vermelho, no convívio com sua mulher, decide livremente seguir a dieta e comer as comidas preparadas por ela, demonstrando que cuida de sua unidade existencial.

Outra atividade relacionada ao cuidar de si que emergiu dos depoimentos dos clientes foi quanto à terapêutica medicamentosa. Com isso, os clientes revelam o cuidar de si relacionada à unidade do ser, citando o uso da medicação como meio de manutenção e garantia da sua sobrevivência. Afirmam:

Eu tomo remédio, faço controle da pressão [...] tem outro remédio que o médico passou para o sangue, para anemia. Eu procuro tomar tudo no horário certo, porque se a gente não fizer isso é pior para a gente mesmo. (Amarela)

Eu tomo [...] Agora mesmo, a médica passou tanta vitamina e eu estou tomando todas. Tomo [...] (Verde)

Levo um remédio em pó que me dão aqui e tomo três vezes ao dia. Comprei dois [...] quarenta e um reais cada um. Aí quando terminei, aqui no hospital começou a me dar. Comprava em comprimido e mastigava na hora de tomar. (Azul)

Amarela relata que toma as medicações prescritas nos horários agendados, reconhecendo que essa atitude é benéfica para si. Verde e Azul também relatam o uso adequado das medicações prescritas.

Apreendo que, pela necessidade de manutenção e conservação da vida diante da doença, esses clientes adquirem hábitos próprios de cuidarem de si, através de cuidados de reparação.

Collière (1989, p. 238) alerta que “em certas circunstâncias, há necessidade de utilizar, para além dos cuidados quotidianos e habituais de manutenção da vida, cuidados de reparação, quer dizer, tudo o que depende do tratamento da doença.”

C.2 VIVENCIANDO O ATRIBUIR AOS OUTROS A RESPONSABILIDADE PELO