CAPÍTULO II – SOMOS ASSIM TÃO DIFERENTES? – REFERENCIAL TEÓRICO
1. Martin Buber, Emmanuel Levinas e Paul Ricoeur – A importância do outro
1.3. Paul Ricoeur
1.3.3. Viver bem com e para o outro
Já no sétimo estudo, Paul Ricoeur debruça-se acerca do tema: “O Si e a Perspetiva Ética”, ou seja, a “perspetiva da ‘vida boa’ com e para outros nas instituições justas”179. Nesta pesquisa serão abordados os dois primeiros momentos, pois o objetivo é abordar a importância do outro, sem esquecer o si-mesmo.
Deste modo, deparamo-nos com a questão da alteridade,180 que se caracteriza pela relação com outra pessoa, aceitando-a e compreendendo as diferenças que existem entre si.
170 Ibid.,191. 171 Ibid.,192.
172 Paul Ricoeur, O Si – Mesmo como Um Outro. (Campinas: Parirus, 1991),192. 173 Cf. Ibid.,192. 174 Ibid.,192. 175 Cf. Ibid.,192. 176 Cf. Ibid.,192. 177 Ibid.,192-193. 178 Ibid.,193. 179 Ibid.,202.
180 Estado ou qualidade do que é outro, diferente, distinto. Cf. Dicionário Enciclopédico de Língua Portuguesa, 1
Ora, Aristóteles181 defendia que a felicidade do Homem não depende apenas da vida boa, mas depende também da relação entre amigos, baseada no bem-querer entre eles. “A reciprocidade, vai até a comunhão de um viver junto”182. A amizade, neste sentido, prevê a reciprocidade que se transforma na primeira condição para se viver da melhor forma a alteridade. “ É preciso, portanto que haja benevolência mútua, cada um desejando o bem do outro, que essa benevolência não fique ignorada dos interessados”183. A preocupação principal de Aristóteles é, portanto, a natureza do bem-estar humano. Segundo ele, o que precisamos para se viver bem, é uma apreciação adequada da maneira como determinados bens, tais como a amizade, o prazer, a virtude, a honra e a riqueza se encaixam como um todo. Para aplicar esse entendimento geral para casos particulares, devemos adquirir, através de uma educação e hábitos adequados, a capacidade de ver, em cada ocasião, qual curso de ação é mais bem fundamentado. Por conseguinte, a sabedoria prática, como ele a concebe, não pode ser adquirida apenas ao aprender regras gerais, mas deve ser adquirida igualmente através da prática. Já as habilidades deliberativas que daí resultam, tanto emocionais, como sociais, é que nos permitem colocar nossa compreensão geral de bem-estar em prática, em formas que são adequados para cada ocasião. Como tal, Aristóteles propõe que a vida contemplativa (intelectual) traz consigo uma felicidade maior e mais constante para o ser humano, quando comparada à vida política (que procura a honra) e a vida baseada em prazeres sensoriais.184
Todas estas questões são desenvolvidas na sua obra “Ética a Nicómaco”185. Aí, não só se defende que a existência do Homem de bem é desejável, como também que é condição para a sua felicidade. Neste sentido, supõe que todo o Homem de bem tende inevitavelmente a procurar amizades, a fim de partilhar com o outro a consciência da sua própria existência. Isto só é possível quando se vive junto e se partilha a vida.
De acordo com Paul Ricoeur, a relação de amizade proposta por Aristóteles é aceitável, no entanto, defende que quando escolhemos ser amigos uns dos outros, essa escolha não é motivada pela bondade dos amigos, mas sim pelos deveres do mútuo amparo entre eles. A relação de amizade que se estabelece é, deste modo, uma relação que deseja o bem um do outro “com a necessidade e a falta, é a alteridade do ‘outro si’”186. O amigo tem, pois, “o
181 O mestre pensador, figura notável e um dos maiores pensadores do Ocidente do século V a.c. Cf. Enciclopédia Luso-
Brasileira de Filosofia, Logos,4 (Lisboa:Verbo,1992),775.
182 Paul Ricoeur, O Si – Mesmo como Um Outro. (Campinas: Parirus, 1991),214. 183 Ibid.,215.
184 Cf. Paul Ricoeur, O Si – Mesmo como Um Outro, (Campinas: Parirus, 1991), 215-216.
185 É a principal obra de Aristóteles sobre ética, é composta por um total de dez livros. O filósofo pretendeu criar mais do que
uma teoria da ética, e quis assim conceber um guia prático para que se possa viver a Vida Boa. Pois a meta do Homem é atingir a felicidade. Cf. Aristóteles, Ética a Nicómaco, 4.ª (Lisboa: Quetzal, 2012).
papel de promover o que somos incapazes de alcançar por nós mesmos”187. Assim, os amigos “são considerados comumente o maior dos bens exteriores”188.
Não obstante, nesta linha do cuidado com o outro, Paul Ricoeur vai conservar de Aristóteles a “ética da mutualidade, da divisão, do viver- junto”189. Pois ele considera que não é possível ver na conceção aristotélica um conceito franco de alteridade, na medida em que, uma vez que para Ricoeur é a estima de si que dá origem à vida boa, a amizade demostraria apenas um complemento desta estima de si mesmo. Isto é, representaria apenas um acréscimo na ideia de reciprocidade entre pessoas que se estimam a si mesmas.
2. Síntese
Após um contexto de análise acerca da riqueza da diversidade, ao longo deste capítulo tivemos a oportunidade de refletir acerca da riqueza da igualdade. Chegámos à conclusão que se tratam de duas visões necessariamente complementares. Com efeito, na casa comum que habitamos, a Terra é muito mais do que uma simples planta cujo chão pisamos. É, do mesmo modo, uma morada que nos oferece um lugar para habitar; é local fértil que nos dá sustento e pão; é ainda o sítio onde, naturalmente, o humano cresce e vive, pelo que é também casa de cada coração. Nós próprios somos casa, porque também somos terra, ou seja, somos casa para os outros. Neste sentido, estamos intrinsecamente ligados e somos infinitamente responsáveis pela criação de laços comunitários, pondo de parte os caminhos do anonimato, a fim de abrir as portas à experiência da fraternidade.
Com o intuito de conseguirmos chegar a estes pressupostos, foi preciosa a ajuda de três dos mais importantes pensadores do século XX: Martin Buber, Emmanuel Levinas e Paul Ricoeur. Cada um, à sua maneira, elaborou uma abordagem sobre a necessidade de se olhar o outro como um igual. Martin Buber privilegiou o encontro eu-tu em detrimento do eu-isso, uma vez que, na sua ótica, o outro é muito mais do que um mero objeto. Emmanuel Levinas, por sua vez, focou-se no relacionamento face-a-face, olhando para o outro como alguém maior que um tu – é um vós pelo qual somos ilimitadamente responsáveis. Por fim, Paul Ricoeur direcionou-se para a perspetiva das relações interpessoais, tecendo as suas considerações em torno de um trabalho hermenêutico de compreensão do sujeito.
É certo que o preconceito, a discriminação, o desrespeito e a violência fazem parte da história da civilização. Todavia, a dignidade da pessoa não é um ideal abstrato. Pelo contrário, faz parte da pessoa concreta, na sua vida real e quotidiana. Por isso, cada homem e cada mulher, tal como existe, assume a característica de ser irredutível, insubstituível e irrepetível.
187 Ibid.,217. 188 Ibid.,218. 189 Ibid.,219.
O humano vale por si, independentemente das suas condições físicas, mentais, culturais, económicas, religiosas, ou da cor da sua pele.
Posto isto, é caso para culminar esta síntese com o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e que, em poucas palavras, nos fornece uma chave de leitura clara acerca dos assuntos tratados ao longo deste capítulo: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade"190.
CAPÍTULO III – PLANIFICAÇÂO E LECIONAÇÂO DA UNIDADE LETIVA 2: