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1 O EPISTOLÁRIO LEOPARDIANO

1.2 História narrada através das cartas

1.2.9 Viver da própria escrita (1825-1837)

Inicia aqui uma série de viagens de Leopardi, que continuarão até o fim de sua vida: nos próximos anos, viverá em Bolonha, Milão, Florença, Pisa, Roma e Nápoles, com breves retornos a Recanati. Mas são poucas as notas relativas aos trajetos em si, a não ser os relatos dos incômodos do calor, do frio, da precariedade do transporte e das instalações em que pernoitavam, das companhias, nem sempre agradáveis, nos vários dias necessários para se chegar de um ponto a outro. Começa a se concretizar também um projeto que Leopardi sonhara para si: viver da própria escrita.

Em 19 de julho de 1825, Leopardi escreve ao pai Monaldo, contando-lhe ter chegado cansado, mas com saúde, em Bolonha. Ainda não sabia se seguiria para Milão ou se retornaria à casa (dependia de outra permissão para seguir viagem). Continua em Bolonha ainda por alguns dias e, ao pai, escreve “derretendo de calor”, mas bem; está com problemas de prisão de ventre, coisa que nunca tinha tido na vida. Diz-

se tentado a permanecer em Bolonha, “cidade calmíssima, alegríssima, hospitaleiríssima” (Epist., I, p. 703), onde foi muito bem acolhido, mas que o compromisso assumido com Stella o impede de ficar. São quatro dias de viagem em carroça (para realizar um trajeto que hoje em dia se faz em três horas de trem): parte de Bolonha no dia 26, passando por Modena (27), Parma (28), Piacenza (29) e chegando finalmente a Milão no dia 30 de julho de 1825.

Francesco Botti, na apresentação de um volume dedicado à correspondência entre Leopardi e Stella52, dirá, especialmente nas observações relativas à ida de Leopardi a Milão em busca de uma oportunidade de trabalho autônomo, que é admirável que um nobre de uma “província pontifícia marginal” fosse profissionalmente motivado como o era Leopardi. E irá destacar o período em Milão como uma experiência em que o “último guardião da grande tradição clássica” experimenta uma “incipiente produção industrial e tendencialmente de massa” (BOTTI, 1997, p. 9), caracterizada pelos empreendimentos editoriais modernos presentes na cidade em tempos de Restauração, literalmente da “biblioteca paterna à tipografia”, segundo ele. E irá destacar, com relação às escolhas editoriais de Leopardi, a “extraordinária confiança na validade (...) da ética antiga e de sua meta- histórica sabedoria antropológica” em pleno século XIX, em que o máximo do saber humano ‒ vide carta a Giordani de 24 de julho 1828 ‒ consistia em “conhecer a política e a estatística” (BOTTI, 1997, p. 13)

Da casa da família Stella, que o hospeda, Leopardi escreve ao irmão Carlo no final de julho de 1825, contando a impressão que a metrópole lhe havia causado, já demonstrando preferir Bolonha, pela qual ‘suspira’:

Numa primeira impressão, não me parece possível durar aqui nem mesmo uma semana, mas como a experiência me ensinou que minhas desesperações nem sempre são razoáveis e nem sempre se concretizam, ainda não ouso afirmar nada […]. Suspiro, porém, por Bolonha, onde fui quase festejado, onde fiz mais amizades em nove dias que em Roma em cinco meses, onde não se pensa em outra coisa senão em viver alegremente sem diplomacias […], onde os homens de engenho são convidados para almoçar nove dias por semana,

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Signore ed Amico amatissimo. Lettere all’editore Stella. Coletânea de cartas

onde Giordani me garante que eu viveria melhor do que em qualquer outra cidade da Itália [...]. (31 jul 1825. Epist., I, p. 911).

A acolhida tida em Bolonha parecia incomparável e, aqui, Leopardi inicia um retrato das duas cidades, em que contrapõe as características positivas de Bolonha às negativas de Milão: Milão é uma espécie de Paris, um Jardim de Tuileries; em Bolonha tudo é belo e nada magnífico; em Milão, o belo é estragado pela magnificência e pela diplomacia; em Bolonha os homens são “vespas sem ferrão” (tamanha a bondade do coração: “uma raça humana diferente”), em Milão, os homens são “partout ailleurs” e “te olham da cabeça aos pés” (31 jul 1825. Epist., I, p. 912).

Aos 7 de setembro de 1825 escreve, ainda de Milão, carta a Monaldo, Carlo e Paolina. Ao pai diz que espera partir em um mês, mas tem dificuldades, pois Stella quer que ele permaneça, e tem sido muito cortês, e Leopardi confessa não saber dizer não, quanto mais a quem o trata bem. Com os irmãos, retoma os temas da filosofia e da indiferença. Com Paolina brinca, dizendo que a irmã, às voltas com um possível casamento, será felicíssima com o marido se persistir nas suas “máximas filosóficas e rirá dos boatos e dos homens [...]”.(Epist., I, p. 937). Enquanto a Carlo continua o retrato dos homens de Milão, que só pensam em si, de modo que não há vida social, só os passeios nas praças e os cafés. Mas diz não ter-se sentido “inferior a ninguém” nas sociedades em que esteve, nem em Bolonha nem em Milão, fato que atribui à “perfeitíssima indiferença” que eles tanto desejaram, e que ele finalmente conquistou e enraizou “de um modo que não há mais risco” (Epist., I, p. 937).

Depois de passar três dias na estrada entre Milão e Bolonha, Leopardi escreve a Monaldo, em 3 de outubro de 1825, contando que alugara um apartamentinho na casa de uma “ótima e amabilíssima família” (Epist., I, p. 948), que irá servi-lo e dar-lhe de comer, já que ele não gosta muito de aproveitar os convites para almoçar fora de casa. Stella lhe dará dez scudi por mês, por conta do trabalho feito, além do que conseguirá outros ganhos realizando a leitura de latim com um riquíssimo senhor grego e com uma hora e meia de aulas de latim e grego por dia ao Conde Papadopoli, que se tornará um caro amigo de Leopardi. Dizia ao pai: “Não busco outra coisa senão liberdade. E poder estudar sem enlouquecer. Mas realmente não encontro em lugar nenhum nem a liberdade nem as comodidades da minha casa [...]” (3 out 1825; Epist., I, p. 948).

Soa um tanto falsa a afirmação de que não encontra ‘em lugar algum nem a liberdade nem a comodidade de sua casa’, mas, embora possamos dizer que a permanência em Bolonha tenha sido das mais felizes do poeta fora de Recanati, passado um tempo, ele já começa a dizer-se melancólico e saudoso do lar. Parece oscilar entre o bem-estar e o sofrimento pela distância de casa, e tende, muitas vezes, a acentuar a melancolia e o amor à família nas cartas. Há que se considerar, porém, a apreensão constante de Monaldo quanto ao adiamento de um retorno do filho, somado aos juízos negativos que o pai faz das atividades exercidas por Giacomo fora de casa (considera, por exemplo, indigno de um nobre dar aulas particulares, além de condenar a humilhação de pôr-se a serviço de um “editor mercante”53

(De Monaldo a Giacomo Leopardi. 6 out 1825. Epist., I, p. 954). Tudo isto exerce uma pressão e torna o já tão marcado conflito de Giacomo em relação ao pai ainda mais forte.

Também nas cartas ao irmão Carlo, Leopardi parece atenuar as eventuais conquistas ou prazeres de estar fora, como uma espécie de culpa por estar vivendo a vida que sonhou para si, deixando o irmão na ‘prisão da casa paterna’: “Vêm-me lágrimas aos olhos ao escrever teu nome”. Fala de um novo amigo, Antonio Papadopoli, quase da idade de Carlo, generoso e de princípios virtuosos, “capaz de ser um amigo verdadeiro” (Epist., I, p 959), embora a amizade com o irmão seja incomparável:

[...] nenhuma amizade jamais será como a nossa, que é fundada em tantas remembranças, que é tão antiga quanto o nosso nascimento, que se um de nós pedisse ao outro todo o seu sangue, este estaria pronto a dá-lo, e aquele já certíssimo de obtê-lo. Mas, em suma, não me falas nada de ti. O que fazes, Carluccio, meu caro? Por que não me escreves sobre tudo, sobre as coisas tristes e alegres? Crês talvez que não me importe? (De Giacomo a Carlo Leopardi. 10 out 1825. Epist., I, p 959).

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A alcunha de “editor mercante” era dirigida obviamente a Stella, para quem Leopardi realiza trabalhos de grande envergadura nesta época. “Para Stella, em Bolonha, Leopardi continua a dirigir a edição das obras de Cícero, traduz o

Manual de Epíteto (22 de novembro a 6 de dezembro de 1825), que inauguraria

a projetada e nunca realizada “Scelta dei moralisti greci”, e apronta o comentário às Rimas de Petrarca, que sai em junho de 1826.” (DIAFANI, 2000, p. 186, nota 35).

As cartas passam a dar conta de aspectos mais práticos da vida. Segundo Diafani, “dominam, em vez das reflexões interiores, as questões econômicas, as tentativas de trabalho, as renúncias e sacrifícios pela dificuldade financeira”; os “esforços literários” sustentados nos trabalhos para Stella, as “chatíssimas aulas” ministradas, “os inconvenientes da saúde e do frio” (2000, p. 186).

A Carlo, na carta de 10 de outubro de 1825, escreve:

Levanto às 7. Desço logo ao café para o desjejum. Depois estudo. Às 12 vou à casa de Papadopoli, às 2, do Grego. Volto para casa às 3. Vou almoçar às 5, geralmente em casa e, se tenho convites, me aborrecem. À noite passo como Deus quer. Às 11 vou para a cama. Eis a minha vida. As aulas que me quebram o dia entediam-me terrivelmente. Fora isto não teria do que me lamentar. (Epist., I, p. 959).

Em outubro de 1825, Leopardi escrevia a Bunsen, secretário da embaixada prussiana em Roma, com quem estreitara amizade na capital e vinha se correspondendo, sobretudo por questões ligadas a possíveis vagas de emprego. Bunsen havia acenado sobre a possiblidade de Leopardi ocupar uma cátedra na Universidade de Roma, que o poeta recusa, explanando com toda delicadeza os motivos:

[...] ouso fazê-lo observar que a permanência em Roma, especialmente no verão, é pouco adequada ao meu temperamento e à minha saúde assaz frágil; por outro lado, não sei quanto uma cátedra me poderia convir por duas razões: uma física, isto é, a grandíssima fraqueza de meu peito, e a outra moral, isto é, minha pouca atitude na relação com os estudantes, sempre insolentes, devido à timidez natural do meu caráter. Duvido ainda que a remuneração ligada às cátedras desta Universidade possa bastar para me manter em Roma. (24 out 1825. Epist., I, p. 975).

Mas se diz interessado em uma vaga que soube disponível na Academia de Belas Artes de Bolonha, cidade mais adequada ao seu modo de vida e onde poderia viver, inclusive, com menos. Pede que o amigo interceda junto à Secretaria de Estado para que lhe seja destinado

o cargo de Secretário da Academia, que lhe custaria menor esforço, considerando o estado delicado de sua saúde.

Bunsen aguardava uma resposta, confirmando os cargos, mas, gentilmente, já deixara à disposição de Leopardi um crédito bancário para que ele pudesse viajar para Roma, acreditando que ele quisesse assumir imediatamente o ofício. Na realidade, nenhuma das oportunidades irá se concretizar, pois, embora fossem reconhecidas as qualidades intelectuais e a erudição do poeta, o teor de oposição ao regime monárquico, que os governantes viam nos Cantos, e a proximidade e amizade com certas pessoas54 despertavam a desconfiança em relação à moral leopardiana, e daí a preferência por mantê-lo sob os olhos e o controle do Estado em Roma (o que também não ocorre, porque não se consegue para a cátedra romana uma remuneração que Leopardi considere suficiente55).

De novembro de 1825, por sua vez, é uma carta de Leopardi endereçada ao irmão Carlo, em que pede o envio de vários manuscritos, de 1815 em diante, deixados em uma cômoda de casa, pois se preparava em Bolonha uma edição com todas as obras do Conde G. Leopardi, com “retrato, acenos biográficos e todas as cerimônias.” (9 nov 1825. Epist., I, p. 990). O irmão que, ajudado atentamente por Paolina, reúne todo o material, não deixa de dar a sua opinião sobre a empreitada:

Não nego que esta edição me pareça um pouco prematura, especialmente pelos acenos biográficos, mas talvez este seja, justamente, o seu atrativo principal. No mais, lembro-me bem de onde estamos e em que tempos, e com que modos é preciso prover a própria fama aqui. Quanto ao interesse, não sei se é teu, mas certamente a empresa não será sem vantagens. (De Carlo a Giacomo Leopardi, 14 nov 1825. Epist., I, p. 995). Leopardi responde assim à observação do irmão: “[...] não nego que a coisa seja prematura, mas agora é preciso fazer assim, e, depois, o meio certo para conquistar fama é dizer ou mostrar tê-la, como eu já sabia antes, mas ultimamente tenho me certificado cada vez mais por mil exemplos.” (23 nov 1825. Epist., I, p. 1004). E, animado, dá notícia dos trabalhos que vinha realizando para Stella e dos que havia publicado no Nuovo raccoglitore; que se encontrava bem em meio a literatos que o

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Provavelmente se referiam a Pietro Giordani, defensor de ideias liberais.

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tratavam com deferência e o visitavam espontaneamente, mas fala das lembranças de Recanati despertadas em seus passeios no campo: “No mais, suspiro todos os dias por rever vocês, os meus caros, e em certos passeios solitários que tenho feito por estes campos belíssimos não busco outra coisa senão remembranças de Recanati.56” (23 nov 1825. Epist., I, p. 1004).

Ao “Amadíssimo Senhor Pai”, em carta conjunta, Giacomo respondia às considerações positivas que o pai fizera sobre a cátedra de Roma, especialmente quanto à estabilidade de trabalhar para o Governo, mas diz que não há o que fazer com um emprego cujo salário não basta para viver, e que só agora se sentia melhor de saúde, dando detalhes do problema que vinha sofrendo no intestino:

[...] a viagem que fiz neste verão curou-me de qualquer outro incômodo, mas me causou um aquecimentozinho no intestino que depois sempre me perseguiu. Em Milão o incômodo não foi grave e o ignorei, mas desde que voltei a Bolonha, foi sempre aumentado, de modo que, por certo tempo, devido à forte prisão de ventre, eu não podia fazer as necessidades senão com o uso de laxantes. (23 nov 1825. Epist., I, p. 1003).

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Na casa paterna, por sua vez, os irmãos não parecem muito animados com situação atual. Diz Carlo, sempre impetuoso: “Teria muito prazer em ver tudo o que publicaste, mas quem me fala agora de prazeres? Realmente parece-me ver que a presunção da fortuna contra mim esteja um pouco singular – que essa infame faça do seu modo, desde que te acaricie e me deixe a esperança – sim, a esperança, mesmo que tiver que ser vã […]. Que morra sempre a resignação e quem me caluniar crendo-me adaptado.” E encerra, irônico: “Fica bem, e se me amas, caga: permite-me rir um pouco, só falando de ti e contigo o faço; de resto, o riso agora é desconhecido em meus lábios; pode confirmá-lo quem escreve depois de mim.” (30 nov 1825. Epist., I, p. 1011, negrito meu). Paolina, mais comedida, resume o estado de ânimo dos irmãos: “Oh sim, posso te garantir que há três dias ele não ri mais, porém espero que não passem muitos para que o riso compareça aos seus lábios; um grande contentamento para nós nunca houve, e nossos dias são tomados por um tédio terrível, que quase já se tornou incurável, aliás, o será certamente se durar mais um pouco este teor de vida.” (30 nov 1825. Epist., I, p. 1012). Os dois dependiam da realização de um acordo para se casar e sair de casa, mas o caso de Paolina era mais ‘desesperador’ por conta do pequeno dote que possuía, única coisa que interessava nos matrimônios da época, segundo ela.

Aos 9 de novembro de 1825, Leopardi recebia, por intermédio de carta de Federico Petrilli, o diploma de sócio-correspondente da Academia Latina de Roma, conferido por seus méritos literários. Era o terceiro diploma atribuído ao escritor, que já havia recebido honraria semelhante da Academia de Ciências e Artes de Viterbo e da Academia Truentina de Ascoli. Leopardi escreve ao Presidente da Academia, Carlo Emanuele Muzzarelli, agradecendo a honra do título e dos versos dedicados a ele, lamentando-se não poder responder à altura por ter “dado adeus às musas”:

Esta é a primeira vez que sinto por ter dado adeus às musas, ou melhor, pelas musas me terem abandonado completamente, deixando-me a alma fria e ocupada somente pelo tédio e pela melancolia; e sinto não poder responder às gentilíssimas expressões das suas estrofes na língua do parnaso, como gostaria. (Epist., I, p. 1007).

E pede licença para publicar os versos57 “para testemunhar ao mundo que a virtude e a nobreza do espírito ainda vivem na Itália.” (9 nov 1825. Epist., I, p. 1007).

De Monaldo, em 23 de dezembro de 1825, vem a notícia do falecimento do tio Ettore, último representante da geração mais velha que a do pai, de modo que ele, Monaldo, passa a ser o próximo para o qual “se abrirá o túmulo” (Epist., I, p. 1031). Assim o pai dá a noticia da morte do irmão querido em tom religioso, como tantas vezes usava adotar com o filho: “[...] terça-feira, 13 do corrente, sua urina inesperadamente parou, e tudo foi inútil para fazê-la funcionar. Sofrendo com admirável paciência, munido tantas vezes com os Santos Sacramentos, passou à vida eterna na noite do dia 20, três quartos de hora depois da Ave-maria.” (Epist., I, p. 1031).

Giacomo lamenta não ter podido reabraçar o tio, que lhe queria tão bem, e é solidário com o sofrimento do pai. Escreve-lhe com o costumeiro tom cerimonioso, mas a certa altura, a exemplo do que acontecerá em situações extremas, como a perda de um irmão, em 1828, Giacomo se dirige a Monaldo com o afetuoso “caro Papà” (em lugar do ambíguo “Carissimo Sig. Padre”). Pede-lhe, porém, que não escreva

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Al Conte Giacomo Leopardi, de fato, sairá no Caffè di Petronio em 17 de

mais expressões como as que a sua carta trazia (referindo-se a ser o ‘próximo para o qual se abrirá o túmulo’):

Pense, querido Papai, que ferida [essas expressões] causam em um coração que o ama mais que a si mesmo, no coração de um filho que cederia de bom grado o seu sangue (lhe juro)58 em troca de um único dia de sua vida. Que o senhor tenha pensamentos um pouco mais agradáveis, e se convença de que seu filho não tem nada mais caro e mais adorado no mundo do que o senhor, assim como não tem desejo maior que apertá-lo novamente entre os braços. (25 dez 1825. Epist., I, p. 1034).

Com a morte do tio, ficam disponíveis dois benefícios eclesiásticos que Ettore recebia: o primeiro deles rapidamente destinado, por questões práticas, a Pietruccio (irmão mais novo de Giacomo, que já desmonstrava inclinações religiosas); o outro, o pai pretendia destinar a Giacomo, mas pedia a sua confirmação, pois provavelmente, para recebê-lo, teria de passar a usar “hábito e tonsura” (13 jan 1826. Epist.,I, p. 1047) e se comprometer a realizar certas tarefas cotidianas (“recitar todos os dias o Ofício divino”, ou seja, rezar a missa). Leopardi agradece a oferta do pai, mas considera as atividades religiosas inconciliáveis com sua vida de então. O episódio ilustra uma tradição da sociedade religiosa da época, mas também a distância que os planos de Monaldo para o filho tinham da realidade de Giacomo, que jamais teria aceito um encargo como esse.

De Florença, no início de março de 1826, Vieusseux anunciava a Leopardi a publicação, no n. 61 da Antologia de alguns diálogos retirados do manuscrito que Giordani lhe confiara. Tratava-se de um Primo Saggio de três Operette morali: Dialogo di Timandro e di Eleandro, Dialogo di Cristoforo Colombo e di Pietro Gutierres e Dialogo di Torquato Tasso e del suo Genio familiare. Com a carta, aproveitava para convidar Leopardi a visitar a Toscana na primavera e lhe perguntava se não gostaria de escrever para o jornal: “Suponho que fazer a análise crítica, ou a resenha de obras históricas, morais,

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Note-se que os parênteses são bastante usados nas cartas ao pai, como uma espécie de confirmação e reforço da verdade dos próprios sentimentos positivos dirigidos a ele.

filosóficas, seria o que mais poderia lhe agradar, enquanto, sem dúvida, conviria essencialmente ao objetivo da Antologia.” (1 mar 1826. Epist., I, p. 1094). E propõe que Leopardi inicie com a análise de uma obra sobre filosofia moral de Bozzelli, para a qual previa a remuneração de um valor por página de impressão. Esclarece a sua ideia:

Várias vezes pensei em ter como correspondente um hermite des apennins, que lá de seu eremitério criticaria a nossa Antologia, flagelaria nossos péssimos costumes, nossos métodos de educação e de pública instrução [...] Um outro eremita do Arno poderia lhe responder. Você seria o eremita dos Apeninos. [...] Vamos, ótimo Conde meu, ajude-me nesta minha empresa [...] (1 mar 1826.