• Nenhum resultado encontrado

Na manhã seguinte, o inspetor Chopra acordou pela primeira vez em trinta e quatro anos sem a consciência de ser um policial.

Ficou na cama por um tempo, olhando fixamente para o teto. Sentiu seu corpo pedindo para levantar, tomar um banho e vestir o uniforme.

Inércia – não era assim que as pessoas chamavam? Afinal, quando alguém está correndo, leva um tempo para o corpo parar, mesmo depois de ultrapassar a linha de chegada.

Quando chegou à mesa do café da manhã, vestindo uma camisa branca comum e calças de algodão, ele se sentiu estranhamente nu.

Poppy já estava movimentando-se pela cozinha com a empregada doméstica, Lata, e abriu um sorriso acolhedor.

— Que bom tê-lo em casa para o café da manhã — ela disse, radiante.

— Fiz o seu prato preferido: masala dosa com sambar.

Chopra olhou para a dosa fumegante em seu prato e se deu conta de que estava sem apetite. Estava acostumado a sair de casa às 7h em ponto. Na delegacia, pedia para o policial Surat buscar um vada pao em um dos muitos vendedores de rua espalhados perto da Sahar Road. No alvoroço das manhãs da delegacia, aquele era todo o café da manhã que precisava.

Depois da refeição, sentou-se no escritório de casa e tentou ler; livros que sempre desejou ter tempo para ler. Mas logo se lembrou de que aqueles livros – manuais de polícia cheios de descrições – não tinham mais nenhuma utilidade. Ele organizou o escritório, mesmo que já estivesse, como sempre, bem arrumado. Depois mudou os móveis de lugar, mesmo que já estivesse bom do outro jeito. Tentou assistir a um

jogo de críquete na pequena televisão colorida que havia colocado em frente à sua poltrona de vime preferida. A Índia estava jogando no exterior e o jogador favorito de Chopra, Sachin Tendulkar, havia terminado a partida do dia anterior muito próximo de mais uma centena de corridas.

Mas hoje, embora costumasse se entusiasmar acompanhando as rebatidas de Sachin, ele notou que sua mente estava divagando.

Depois de um tempo, foi até sua mesa e pegou o cachimbo calabash que havia comprado muitos anos atrás.

Embora nunca tivesse admitido, Chopra era na verdade um anglófilo enrustido. Havia herdado um respeito saudável pelos britânicos de seu pai, que, ao mesmo tempo em que não fechava os olhos para suas falhas, também entendia o que os arquicolonialistas haviam trazido ao subcontinente durante seu reinado de trezentos anos. Chopra gostava de todas as coisas britânicas, e quando era um jovem impressionável foi cativado por Basil Rathbone interpretando Sherlock Homes em Sherlock Holmes Enfrenta a Morte. O cachimbo era uma afetação que Chopra exercia apenas na privacidade de seu escritório. Ele não era fumante, mas gostava de se sentar em sua varanda e segurar o cachimbo como acessório ao processo de pensar.

Na parede do escritório havia um retrato do outro grande herói de Chopra, Gandhi. Ele sabia que, na Índia moderna, Gandhi era considerado irrelevante por muita gente. Chopra não concordava. Ele sempre carregava consigo um livrinho já bem desgastado de gandhismos. Ele sabia, com base em experiência de longa data, que Gandhi tinha uma citação para todas as ocasiões.

Ele pegou o livro e o folheou…. Que tal essa? “É a qualidade de nosso trabalho que vai agradar a Deus, não a quantidade”.

De alguma forma, aquelas palavras não lhe trouxeram nenhum conforto.

Ele começou a escrever uma carta para seu bom amigo CAP Ajit Shinde, que se transferira para uma área nas selvas infestadas por naxalitas no Leste de Maharashtra há alguns anos, em busca de uma promoção.

Haviam oferecido o posto a Chopra antes de Shinde, mas ele havia recusado. Por sinal, havia recusado promoções a CAP três vezes na carreira. Odiava a politicagem que acompanhava os altos cargos na força policial de Mumbai; sempre preferira o aspecto mais prático do ofício de policial.

Na metade da carta, ele largou a caneta e ficou olhando para a parede.

Levantou-se e foi até a janela.

Prometia ser mais um dia de calor escaldante. Chopra imaginou vários dias como esse estendendo-se à sua frente para sempre…. É isso a aposentadoria?, pensou. Essa sensação de ter entrado em uma sala de espera, um lugar que não é aqui, nem ali?

Ele se lembrou da visita ao médico, oito meses atrás, depois do ataque cardíaco que quase lhe custou a vida. O Dr. Devidikar, um senhor de idade com pelos saindo pelas orelhas e um ar tranquilizador de sabedoria e integridade, havia explicado a Chopra e a uma estarrecida Poppy que o inspetor estava sofrendo de uma condição chamada “angina instável”.

Aquelas palavras, p0or si só, pareciam conjurar a possibilidade de um destino imprevisível e calamitoso. Poppy quase desmaiou, como se o Dr.

Devidikar tivesse pronunciado a sentença de morte de Chopra naquele exato momento.

“Não se preocupe, não se preocupe”, o médico disse em tom de voz bem-humorado. “Ainda não terminamos com o senhor”. Ele havia dito a Chopra que a condição era bastante comum, embora não costumasse acometer homens tão em forma como Chopra evidentemente estava. “Mas essas coisas podem ser genéticas. O corpo é um grande mistério, senhor”.

O médico, então, desferiu o golpe que Chopra tanto temia. “Receio que o senhor deva desistir imediatamente de todas as atividades que possam causar ansiedade ou estresse. O próximo ataque pode ser fatal, senhor”.

O médico aconselhou que Chopra adiantasse sua aposentadoria da força policial. Esse conselho foi encaminhado para seus superiores.

Chopra resistiu, é claro, mas Poppy o atormentou sem parar, até ele, por fim, concordar. A ideia de transformar sua esposa em uma viúva fez com

que se sentisse egoísta e culpado. Ele não poderia fazer aquilo com Poppy.

Além disso, a vida não terminaria só porque ele estava se aposentando.

“Hoje em dia a vida começa aos cinquenta, senhor”, disse o Dr.

Devidikar, com brilho nos olhos.

Mas e quanto a essa sensação suprema de… de… desolação?

Por que o bom e velho Dr. Devidikar, aquele da “vida começa aos cinquenta”, não o alertou sobre isso? Esse sentimento de atordoamento, de indiferença, de, sendo sincero consigo mesmo, pânico devastador que Chopra estava vivenciando? Devidikar havia dito que ele deveria evitar atividades que pudessem lhe causar estresse. Será que imaginava quanto estresse aquilo lhe causava? Não poder fazer as coisas que havia passado a vida inteira fazendo, as coisas que efetivamente davam forma e propósito a sua vida?

Chopra era um homem prático e já havia começado a planejar seu futuro fora da corporação. Dinheiro não era problema. Ele receberia aposentadoria integral e era um homem de poucas necessidades. Não. O que aterrorizava Chopra era sentir nas entranhas que, independentemente do que fizesse agora, nunca seria suficiente, nunca seria condizente com o homem que ele era.

Não havia remédio que Devidikar pudesse prescrever para isso.

Depois do almoço, Chopra resolveu sair para dar uma volta.

Lá embaixo, no pátio, ele primeiro foi ver como estava Ganesha. O pequeno elefante ainda não havia comido nada e, na verdade, parecia ainda mais desanimado que no dia anterior.

Chopra sentiu uma palpitação de preocupação genuína. A evidente agonia de Ganesha o incomodava. O elefante era um filhote e Chopra sempre achou a dor de uma criança a mais difícil de suportar. Era um dos motivos por ele ser tão duro com quem maltratava crianças.

Ele esperava que Ganesha parasse logo de sentir medo.

Chopra perambulou pela Colônia da Força Aérea, passando pelos jardins que, devido à estiagem prolongada, haviam se reduzido a um monte de gravetos queimados. Vagou pelas quadras vazias de badminton, onde jogava de vez em quando uma partida com seu amigo e vizinho, o capitão P. K. Bhadwar, que pilotava aviões de passageiros e tinha um lob de backhand infernal.

Ele ficou um tempo sentado no banco sob a colossal figueira-de-bengala que era o ponto central da área do condomínio. Um templo em miniatura havia sido construído no tronco da árvore. Durante a noite, moradores devotos reuniam-se para rezar e acender diyas, uma espécie de lamparina a óleo. Um recente acontecimento perturbador – bom, perturbou Chopra, de qualquer modo – era o grupo do “Clube da Risada”, que agora se reunia sob a árvore todos os dias. Era impressionante observar os idosos e idosas – que, até então, ele via como tipos sérios e sisudos – com as mãos nas laterais da barriga, rindo como se fossem morrer disso.

Hoje não havia ninguém.

Fora da Colônia, Chopra caminhou até a quitanda e comprou um quilo de ameixas para Poppy. Um fluxo de pessoas passava. Motocicletas com três ou até quatro indivíduos precariamente equilibrados, como equipes de acrobatas, buzinavam pelo caminho em meio à massa de corpos. Um odor forte saía do esgoto aberto nos dois lados da avenida.

Uma vaca estava deitada no meio da rua. Chopra sabia que ela ficaria lá o tempo que desejasse. Vacas, seres venerados, eram a maldição dos agentes de trânsito de Mumbai.

Enquanto ele comprava as frutas, um bando de jovens da faculdade de computação da região passou. Eles andavam de braços dados, espalhando alegria e risos pelo caminho. Tinham a mesma idade, ele notou, do garoto morto que vira na delegacia.

Chopra se lembrou da mãe do rapaz, do quanto ela estava aflita, de como estava convencida de que não havia ajuda para solucionar a morte do filho de alguém como ela. As acusações da mulher o haviam perturbado particularmente. Quem conhecia Chopra sabia que ele se orgulhava de sua

integridade. Sugerir que ele não cumpriria seu dever porque a vítima tinha origens pobres, ou que, de algum modo, faria mais se a vítima tivesse pais abastados era como sugerir que ele não era um homem honesto.

No decorrer dos anos, ele mantivera uma reputação impecável, atendo-se aos princípios que atendo-seu pai havia lhe ensinado quando criança.

“Filho”, ele disse no dia em que Chopra deixou o vilarejo, como um jovem de dezoito anos, esperando começar em breve o treinamento na academia de polícia em Nashik, “você precisa entender que a Índia é um novo tipo de país. Mesmo que nossa civilização venha de milhares de anos atrás e que esteja toda registrada no Rigveda, nos Upanixades, nos Puranas, o fato inusitado é que temos apenas vinte e três anos e, consequentemente, sofremos das aflições da juventude. Desde que os britânicos cortaram nosso país em pedaços, todos nos sentimos diferentes.

Você não se sentiria, se alguém cortasse fora seus braços direito e esquerdo? Na verdade, ainda estamos descobrindo que tipo de nação devemos ser. O único modo de evitar ser vítima dos perigos da confusão é nunca ter dúvidas a respeito do que você é. Se você for um homem honesto, como espero que prove ser, nunca permita que as circunstâncias de um momento o façam agir contra sua natureza. É aí que se encontra a ruína de tudo o que você defende”.

Chopra pegou um riquixá até a delegacia e foi imediatamente cercado por seus ex-colegas. Houve uma rodada de piadas amigáveis sobre suas vestes casuais e algumas perguntas sobre como estava indo seu primeiro dia como um boa-vida.

— Está indo — ele murmurou. — Só não me perguntem para onde.

Na verdade, Chopra foi pego de surpresa. Por natureza, ele não era um homem sentimental, e, no decorrer dos anos, havia mantido uma distância profissional dos homens sob seu comando. Outros policiais veteranos permitiam que seus subordinados se aproximassem bastante, chegando ao

ponto de sair para beber com eles. Mas Chopra não era esse tipo de policial.

Ele sabia que alguns de seus colegas o consideravam um pouco mal-humorado, mas ninguém podia negar sua reputação de excelente oficial da lei e extremamente honesto. Na polícia de Mumbai dos dias de hoje, isso era, de fato, algo de que se orgulhar.

Deixando os homens com seu trabalho, Chopra foi até sua antiga sala e encontrou o policial Surat plantado na frente da porta.

— Olá, Surat. O que você está fazendo aqui?

— Senhor! Que bom vê-lo! — O policial Surat parecia sinceramente aliviado. — Senhor, o novo senhor me pediu para ficar aqui fora e averiguar antes de ele receber qualquer visitante.

Chopra franziu a testa. Ele costumava seguir uma política muito menos formal. Qualquer um de seus homens podia simplesmente chegar e bater em sua porta. Não que muitos deles fizessem isso; sabiam que Chopra era um defensor da cadeia de comando. Mas, falando sério, qual a necessidade de desperdiçar um homem na função de porteiro de luxo?

— Bem, pode dizer ao inspetor que eu gostaria de falar com ele?

Surat deu um sorriso fraco.

— Sinto muito, senhor, mas o novo senhor não vai receber ninguém até as duas horas.

— Ah, ele está em reunião?

— Não, senhor.

— Então qual é o problema? Eu só queria dar uma palavrinha rápida com ele sobre um assunto importante.

— Senhor, o novo senhor deu instruções estritas.

Chopra, que havia conduzido toda a sua carreira na base do bom senso puro e simples, resolveu que aquilo já era demais. Colocou Surat de lado e entrou na sala.

Para sua surpresa, encontrou vazia a cadeira atrás de sua antiga mesa.

Olhou em volta. Não havia ninguém na sala. Que diabos…? Então, seus

olhos encontraram um par de sapatos pretos bem grandes brotando detrás da mesa.

Chopra deu a volta na mesa e encontrou o inspetor Suryavansh deitado de barriga para cima no chão, aparentemente em sono profundo. Optando pela precaução, ajoelhou-se e verificou o pulso do inspetor. Depois, tendo um palpite, ele aproximou a cabeça do rosto de Suryavansh.

Instantaneamente, seu nariz se retorceu ao sentir o cheiro de bebida alcoólica.

Chopra levantou-se e saiu da sala.

— Ninguém deve entrar nesta sala até o inspetor mandar — ele disse ao policial Surat, que pareceu aliviado. Então, foi procurar pelo subinspetor Rangwalla.

Encontrou Rangwalla sentado na apertada sala de interrogatórios da delegacia com um homem muito gordo, que usava uma roupa cinza em estilo safari e suava profusamente sob o ventilador de teto.

— Exijo que vocês prendam aquele canalha agora mesmo! — o homem estava dizendo. Para enfatizar, ele bateu nos joelhos com as duas mãos. — O cara fugiu com a minha filha e você fica aí sentado e me diz que não pode fazer nada? Sabe, ele é muçulmano!

Chopra conseguiu resgatar Rangwalla do homem gordo e eles foram para uma das salas dos fundos.

— Diga-me, alguém foi interrogar o pai do rapaz afogado? — ele perguntou.

— Não, senhor — respondeu Rangwalla.

— E por que não?

— Ordem do inspetor Suryavansh. Ele disse que o caso estava encerrado. Afogamento acidental. Fim da história.

— E a autópsia?

— O inspetor Suryavansh disse que não há necessidade de autópsia.

Receio que ele tenha revogado suas ordens.

Chopra ficou em silêncio.

— Onde o corpo está agora?

— Está no hospital. Eles vão emitir um atestado de óbito, depois a família poderá retirá-lo para a cremação.

— Mostre-me o panchnama.

Rangwalla hesitou.

— Por favor, não se ofenda, mas o senhor não é mais da polícia. Por que quer se envolver com isso?

Chopra hesitou antes de responder. Ele já tinha visto muitos cadáveres no curso de sua carreira. Mas talvez esse fosse o último que ele veria, pelo menos como policial. Aquilo o tornava significativo de alguma forma, ele sentia.

— Rangwalla, nós concordamos em nos envolver no dia em que fizemos nosso juramento. Com ou sem uniforme, sempre estaremos envolvidos. Além disso, estou apenas fazendo algumas perguntas. Não é como se eu tivesse alguma coisa mais urgente para resolver.

Quando ele saiu da delegacia, pouco tempo depois, estava com uma cópia do panchnama no bolso da calça.

Chopra pegou um riquixá até Marol Village. Como sempre, a região estava cheia de vida. Era uma comunidade pobre, mas não uma favela. Os moradores eram, em sua maioria, católicos com raízes goanas; a comunidade católica de Mumbai era pequena, porém participativa, e se orgulhava de seu senso de ordem cívica. As casas, embora pequenas e amontoadas umas às outras, eram bem cuidadas e pintadas com cores vibrantes.

Chopra desceu perto do endereço do primeiro indivíduo listado no panchnama. Quando bateu na porta, um homem baixo e corpulento de bermuda azul e camiseta regata branca apareceu na entrada. Ele tinha a pele muito escura, bigode preto e uma tatuagem reveladora da Cruz na parte de dentro do pulso.

— Pois não?

— Você é Merwyn De Souza?

— Sou. O que você quer?

— Eu sou o inspetor Chopra — disse ele, mostrando uma cópia do panchnama. — Eu gostaria que o senhor me levasse ao local onde o corpo do rapaz morto foi encontrado há dois dias.

De Souza concordou prontamente em ajudar. Ele não tinha mais nada para fazer mesmo, pois havia sido recentemente dispensado de seu emprego no abatedouro local, onde trabalhava há dez anos.

— O senhor está com roupas comuns? — ele perguntou. — Como um agente do Departamento de Investigação Criminal?

Chopra não respondeu.

Eles percorreram a estrada ao longo da tubulação, passando pela feira e pela escola do Convento Santa Maria. Uma pintura de um Jesus loiro de olhos azuis olhava do muro do convento para o trânsito com uma expressão de sofrimento benigno. Duas freiras de hábitos azuis conversavam no portão do convento.

— Boa tarde, irmãs — disse De Souza, fazendo o sinal da cruz.

Eles passaram por um homem fritando chips de banana na beira da estrada. De Souza insistiu que parassem para comprar um pouco.

— Ragu, esse é o inspetor Chopra, um bom amigo meu. Estamos trabalhando juntos em um caso muito importante. Você se lembra do corpo que encontramos anteontem?

Os olhos de Ragu se arregalaram com interesse enquanto virava os chips fritos no óleo reaproveitado da frigideira envelhecida. A frigideira estava sobre um botijão de gás acomodado dentro de um carrinho de mão.

— O rapaz que se afogou na merda?

— Isso mesmo. Uma coisa horrível.

Um mendigo pálido parou para se coçar e ficou olhando fixamente para os chips. De Souza gritou com o homem, que, à maneira dos pedintes de Mumbai, simplesmente o ignorou. O mendigo se aproximou.

— Chefe, me dê alguns chips. Não como há três dias.

Ragu levantou a concha de maneira ameaçadora.

— Dê o fora daqui. Não está vendo que estou servindo o inspetor sahib?

— O inspetor sahib parece já ter comido bastante — disse o mendigo.

Chopra conteve um sorriso. A maioria dos mendigos da cidade eram indivíduos submissos e abatidos, intimidados pelos ataques implacáveis da extrema pobreza. Esse homem parece ter resolvido não assumir o papel que lhe fora designado pelo destino.

Chopra comprou uma porção de chips para o pedinte. De Souza ficou olhando para ele. Em Mumbai, havia tantos mendigos que praticamente compunham uma subpopulação. Dar de comer a um deles era considerado um ato de imprudência, normalmente cometido apenas por turistas confusos.

Depois de alguns minutos, eles saíram do Village e foram para o terreno aberto mais à frente.

Em meio a um emaranhado de vegetação, entraram na área onde a tubulação – um cano de concreto de mais de um quilômetro e meio para escoamento do esgoto – terminava. O chão estava úmido devido à água infiltrada. O nariz de Chopra se contorceu com o extremo mau cheiro no ar. Excrementos humanos, ele se deu conta.

— Aqui — disse De Souza, conduzindo Chopra ao redor de um amontoado de lixo, até onde se formava uma poça rasa de água. Alguns porcos que chafurdavam na sujeira levantaram os olhos para Chopra com interesse.

Ele olhou em volta, pegou um galho do chão e se inclinou para enfiá-lo na poça de água parada. Mosquitos saíram voando da superfície e zuniram perto de seu rosto.

Ele tirou o galho e olhou para a marca da água.

— Quinze, vinte centímetros — murmurou. Seria muito difícil um homem, até mesmo um muito embriagado, afogar-se em vinte centímetros de água.

— Quem encontrou o corpo?

— Eu mesmo — disse De Souza, sentindo-se importante.

— O que você estava fazendo aqui?