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2. A CIDADE E O SUJEITO

2.6 VOLTA DO VIVER A CIDADE

Neste sentido, é necessário a volta do vi- ver a cidade, que implica acima de tudo senti-la com toda a complexidade das percepções dos sentidos. “A arte sozinha não pode humanizar a vida; mas quando há necessidade de humanizar a própria vida e a dos outros também em outros níveis - em um nível político, moral e outro” (HELLER,1994, p. 177), a arte se apresenta como um meio de veiculação e cumpre a função de suporte sen- sorial e intelectual para operar a transformação. Há que se revisitar o flâneur, este personagem criado pelo poeta francês Charles Baudelaire que caminha se perdendo na cidade, recriando a experiência do ato integral de estar vivo e assim, conseguir aprofundar a relação do eu com as camadas de narrativas dentro da cidade:

A cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto. A esta realidade, sem sabê-lo está de- dicado o flâneur (...) Paisagem, é nisto que se torna a cidade para o flâneur. Ou mais exatamente: a cidade para ele cinde-se nos seus polos dialéticos. Abre-se-lhe como uma paisagem e o abarca como um aposento. (BENJAMIN, 2006, p. 462) Um dos maiores desafios aqui encontrados, agregando a leitura sobre a estética relacional de Bour- riaud, se caracteriza como encontrar o meio termo entre a individualidade e coletividade. No percurso da história no que concerne a emancipação, o sujeito histórico conse- guiu se retirar da alienação coletiva com o predomínio da comunidade sobre o indivíduo. O que temos hoje é a má- xima crítica ao individualismo contemporâneo, decorrente de muitos fatores sócio econômicos aqui citados.

Uma fase do projeto moderno encerrou-se. Hoje, depois de dois séculos de luta pela singularidade e contra as pulsões coletivas, é necessária uma nova síntese capaz de nos preservar do fantasma regressivo, que atua um pouco por toda parte (BOURRIAUD, 2009, p. 84).

Portanto, é de certa urgência retomar a pluralidade dentro da cultura contemporânea e reinventar modos de estar junto e produzir interações com o outro e com o espaço público, que ultrapassam os modos de convivência hoje individualizados, mercantilizados e padro- nizados. Bourriaud ainda acrescenta:

Não podemos dar prosseguimento à moderni- dade a não ser superando as lutas que elas nos legaram: em nossas sociedades pós-industriais, o mais urgente não é a emancipação dos indiví- duos, e sim a da comunicação inter-humana, a emancipação relacional da existência.(BOUR- RIAUD, 2009, p. 84).

Neste momento, a cidade em potência necessita se diferenciar para preservar a sua identidade, construindo espaços estruturados e com significado que criem relações com os seus habitantes e lhes deem um sentimento de pertencimento. O espaço público tem a capacidade de promover intervenções em que se recriam memórias e relações com seus habitantes. Segundo Kevin Lynch, isto decorrerá da existência de um meio ambiente em três componentes: identidade, estrutura e significado:

FIGURA 19: Placemaking Week em Nairobi, na África: pessoas transformam a rua em um espaço alegre e convidativo. Fonte: http://thecityfixbrasil. com/2017/03/14/construindo- lugares-espacos-publicos-podem- ser-espacos-vivos/. Acesso em 1 nov. de 2017. 19.

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Falamos de identidade, mas não no sentido de igualdade com outra coisa qualquer, mas significan- do individualidade ou particularidade. Em segundo lugar, a imagem tem de incluir a relação estrutural ou espacial do objeto com o observador e com os outros objetos. Em último lugar, este objeto tem de ter para o observador um significado quer prático quer emocional (LYNCH, 1960, p. 18).

Como alternativa ao planejamento urbano, arquitetos, artistas e designers estão buscando novas for- mas de intervenção no espaço público, através de projetos voltados para o real interesse dos moradores. Tais interven- ções urbanas encontram na oportunidade da cidade um convite à experimentação, onde se pode lutar na política e no social, estimulando a ruptura da rigidez e a estaticidade dos elementos que impossibilitam a interação do homem com o espaço.

Surgem práticas como o placemaking ou criação de lugares, que em prática são atividades que tornam “espaços públicos físicos lugares que susten- tam interação humana, trocas econômicas e bem-estar” (KARSSENBERG et al, 2015, p.26). Nessa tática urbana, se compreende o apego ao lugar e os sentimentos das pessoas em relação ao espaço em que vivem. É um pro- cesso altamente dinâmico que integra moradores, empre- sas e o governo local como co-criadores e envolvem tudo o que está ao nível dos olhos. Placemaking é um processo através do qual um lugar é concebido e gerado com ação coletiva destes que possuem suas identidades sociais e culturais próprias, seus desejos, sonhos e necessidades.

De um espaço particular – uma rua, uma vaga de estacio- namento, um parque antigo, uma viela esquecida, um lote vazio – para um lugar onde as pessoas queiram se reunir e se encontrar umas com as outras. Placemaking é fazer lugares onde as pessoas queiram estar e, juntas, comparti- lhar a vida.

Porém, então, qual é a diferença entre fazer um lugar particular e placemaking como ação em si? Quero dizer, desde o começo da humanidade, lugares foram construídos e feitos, então porque o placemaking é tão novo, e importante, hoje em dia? Tem a ver com o impacto do processo; pla-

cemaking é para construir algo para outros, para

comunidades inteiras, cidades inteiras e, através disso, para qualquer necessidade humana. Pla-

cemaking é a habilidade de desenhar e criar algo,

de pensar no público, ao invés de nos interesses privados; é para agregar valores simbólicos a de- talhes, e para gerar resultados para o usufruto da vida pública. Além de construir para todos, place-

making significa construir por todos, e não pelos

poderes políticos ou corporativos e egos pessoais. (KARSSENBERG et al, 2015, p. 282).

Em qualquer cidade, as pessoas querem habitar em um lugar e desfrutá-lo, querem participar e se conectar com outras pessoas.

3. PROJETO