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Pouco antes do acidente com o Stinson, Rolim conhecera Abrão Haddad, revendedor de veículos dono de duas concessionárias Ford, uma em Ibitinga, outra em Bauru. Haddad gostava de cantar tangos e costumava
se apresentar nos bailes das cidades do interior no papel de um argentino chamado Ramón de La Mata. Rolim, amante de música, adorava também comprar uma doce mentira. Sempre achara que a vida
"tem de ter uma certa irresponsabilidade". Quando acompanhava Haddad aos bailes fazia, com sua voz empostada, o papel do locutor que
apresentava o milongueiro para a platéia.
Logo Haddad teria oportunidade de lhe retribuir o favor. No Baile Anual do Aeroclube de Itápolis, anunciou a presença de Rolim de
maneira solene: "Senhoras e senhores da sociedade de Itápolis", começou. "Tenho a satisfação de lhes apresentar o adido aeronáutico... Junto ao Aeroclube de Ibitinga... O comandante... Rolim Adolfo Amaro!
Homem enviado diretamente pelo Ministério da Aeronáutica, para quem eu peço uma salva de palmas..."
Por esse motivo, Rolim foi convidado para integrar o júri que selecionaria a Miss Itápolis. Pura diversão para um admirador incansável da beleza feminina, galante e cortejador, característica que
conservaria a vida inteira, ainda que nem sempre com sucesso.
Até então Rolim só namorara mulheres mais velhas, que tinham tomado a iniciativa de largá-lo. A primeira, Clélia, filha do alfaiate Maieto, tinha
dois anos mais que ele. Com seu terno branco, Rolim buscava "fazer às vistas dela o que eu, como um todo, não conseguia". Não deu muito certo. "Entre a sapiência dos 17 anos dela e a ingenuidade dos meus 15,
um mundo nos separava."
Por causa da sua idade, era proibido pela família de Clélia de entrar na casa dela. Dizia que namorava não como queria, mas como podia: "As
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mulheres aos 17 já querem ser mulheres. E os homens nem aos 50 querem ser homens".
Depois de Rolim se tornar piloto, a família de Clélia adicionou ao preconceito da idade o defeito da profissão, mal vista na época. Para
despachá-lo, Clélia explicou que "jamais se deve trocar o certo pelo duvidoso". Aquilo o atingiu mortalmente.
Rolim, porém, não desistia fácil. Depois de chutado, resolveu partir para uma nova tentativa de aproximação. Achou boa idéia fazer uma surpresa. Tomou uma bicicleta e pedalou de Ibitinga até Buritama, comendo o pó da estrada em algumas horas de viagem. Quando chegou
perto da pensão onde Clélia morava, foi encontrá-la na porta, arrumadíssima.
No mesmo instante, contudo, surgia também um professor de música de nome Osmar, que desceu da varanda com ela de braços. Rolim ficou com tanto medo de ser visto pelos dois que se escondeu atrás de uma árvore.
Vindo de bicicleta, estava sujo, suado, visivelmente cansado. "Inadequado", resumiria depois.
Rodou com a bicicleta pelo "quarteirão mais longo da minha vida" e, desiludido, foi para a casa do primo Carlinhos. Tomou banho, dormiu,
acordou às 6 da manhã. E voltou para casa de bicicleta. Estava há 24 horas sem comer.
Rolim tirou do episódio uma das máximas que inventaria para cada situação: "Nunca faça nenhuma surpresa, para não ser surpreendido". Quando se tornou instrutor de pilotagem em Ibitinga, a primeira coisa
que fez foi um rasante sobre a casa da antiga namorada. A manobra também surtiu pouco efeito: "Não consegui demovê-la nem comovê-la,
porque, se tivesse comovido, teria demovido".
Outra namorada, no tempo ainda em que trabalhava na Volkswagen como mecânico e estudava contabilidade, chamava- se Nildes, filha de
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um português dono do armarinho próximo à rodoviária. "Linda moça", dizia Rolim. Ao partir para Catanduva, deixou-a em Fernandópolis. Quando tinha algum dinheiro, Rolim comprava o bilhete do trem, de
segunda classe, para visitá-la. Quando não tinha, pedia carona na estrada aos caminhoneiros.
Um dia, em Catanduva, ouviu de um amigo que Nildes fora a um baile em Fernandópolis com um rapaz de São Paulo. E dançara a noite inteira
de rosto colado.
— Quero ver se ela faz isso, eu estando lá — bramiu.
Foi para Fernandópolis e viu a namorada dançando com outro. Voltou para Catanduva arrasado.
Quando Nildes o procurou mais tarde, entregou-lhe uma sacola com presentes que Rolim lhe dera: um anel de rubi e um disco de Ray Coniff
com a canção de amor preferida de ambos: "La Mer". Assim como acontecera com Clélia, disse que seu pai desejava que procurasse um
namorado com mais futuro.
Voltou para casa com a sacola na mão e o coração esfrangalhado. No caminho, proveniente da janela de alguma casa, ouvia tocar "La Mer",
com Ray Coniff. Era o fundo musical perfeito para sua melancólica situação.
Nunca mais quis ver Nildes, nem quando ela tentou reatar o namoro. Discutiu com o pai da moça, que o definiu para a vida inteira: "O senhor
é muito rampeiro", disse. Na hora, Rolim nada respondeu. Mais tarde, procurou a palavra "rampeiro" — atrevido — no dicionário.
Dizia que só não tinha sido boêmio por sua vontade de crescer: "A boemia é a melhor vida que tem. Maravilhosa!" Gostava de beber, de encontrar os amigos, dos bailes. Apenas as mulheres não pareciam ceder
com muita facilidade. Para piorar, faltava-lhe um atributo essencial aos galãs: dinheiro. Não tinha um centavo sequer para levar uma namorada
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quem gostava aos amigos em condições melhores do que a sua, mostrando-lhes as oportunidades que não podia aproveitar. Sua sorte, contudo, estava prestes a mudar, pelo menos no terreno amoroso. No domingo, 16 de maio de 1964, foi ao Baile do Limão do clube Monte Líbano, em Rio Preto. O nome do evento vinha da frutinha
cítrica que, a certa altura, devia ser equilibrada pelos pares que dançavam, segurando-a somente com a pressão da testa. A música se tornava cada vez mais rápida e ganhava um prêmio o casal que dançasse
mais tempo dessa forma. Foi ali que Rolim conheceu sua futura mulher, Noemy. Não participaram juntos da prova do limão, mas dançaram e, na
saída, trocaram telefones.
Aos 22 anos, Rolim começou a sair com Noemy, que já fazia faculdade de letras em Rio Preto, onde morava num pensionato — seus pais viviam numa fazenda em Guapiaçu, a 20 quilômetros da cidade. Iam ao cinema, quando Rolim tinha dinheiro. Ele levava a namorada para casa a
pé, a pretexto de caminhar. A verdade, contudo, é que não tinha como pagar o ônibus. Noemy sabia, mas não dava demonstração.
Como Rolim pedira, Lauri Tedeschi falara com o comandante Dorvalino Trazzi, chefe dos pilotos da TAM. Mais tarde, Rolim passaria a admirar Trazzi por sua postura, pelo humor e por ser "um homem de bem". Ele o
entrevistou e lhe deu sinal verde para mudar para Marília. Teria seu emprego na TAM.
A primeira viagem que Rolim fez de volta a Rio Preto, um dia de ônibus em estrada de terra, foi para pedir dinheiro emprestado. Em Marília, dona Ana Mussi, proprietária da pensão na Rua Nove de Julho, a meia
quadra do Largo Santo Antônio, solicitara quinze dias de pagamento adiantado.
Até então, Rolim morava em um pequeno apartamento alugado em Rio Preto, onde mantinha alguns pertences: cama, guarda-roupa, livros. Conseguiu o dinheiro da pensão emprestadode um tio, Orlando Ferrari.
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Pediu a Noemy que vendesse tudo e pagasse Orlando. Só não se desfez dos livros, "companheiros da vida toda". Quando foi para Marília, numa
manhã fria de maio, Noemy o acompanhou até a rodoviária.
Com sua mudança para Marília, achava que o namoro de três meses havia terminado. Para sua surpresa, começou a receber cartas de Noemy
diariamente, embora com um mês de atraso, por causa da ineficiência dos correios. Aquilo o deixou animado. As experiências anteriores ainda
exerciam forte influência sobre sua auto-estima no terreno amoroso. "Eu me sentia um completo fracasso", lembraria ele.
Em Marília, Rolim dividia o quarto na pensão de dona Ana com Ditinho, negro que Agrício Bernardo de Souza, um dos sócios da TAM, trouxera
de Quintana como aprendiz de mecânico. Quando não estava voando, ou ajudando os pilotos da TAM, Rolim visitava Noemy em Rio Preto,
uma ou duas vezes por mês.
Na casa do pai de Noemy, criador de gado, não havia telefone, só na vizinha. Rolim ligava de um telefone de parede, próximo ao balcão do bar no aeroporto de Rio Preto. Sempre inquieto, levava broncas do dono
do estabelecimento, Edgar de Souza, que o via enrolado nos fios do aparelho, depois de muitas voltas carregadas de impaciência.
— Você ainda me quebra esse telefone, Rolim!
Em Marília, a Kombi da TAM passava todos os dias às 7 da manhã para levá-lo ao aeroporto. A companhia tinha bastante trabalho em função do
desmatamento da região, onde se abriam novas fazendas. Localizada no extremo noroeste de São Paulo, era uma das últimas fronteiras pouco
exploradas do Estado.
Isso não significava que Rolim tinha trabalho farto. Quando chegava sua vez de voar, sobrava-lhe um Cessna-170. O Cessna-180, mais veloz, de melhor performance, estava reservado aos pilotos mais antigos. A escala
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"O primeiro era Renato; o segundo, Teco; o terceiro, Falco; o quarto, Carlos; o quinto, Feijó; o sexto, Agrício; o sétimo, Trazzi; o oitavo, eu". Percebeu que, sendo o último da lista, só voaria se o cliente pedisse por ele. Dessa forma, poderia pular os outros pilotos que tinham preferência.
Quando voava com algum passageiro, tratava de bajulá-lo. Como sua carreira começou a depender disso, Rolim não esqueceria nunca a lição. Carregaria a vida inteira a obsessão pela conquista individual do cliente,
o que fez mesmo quando passou a transportar 1 milhão de pessoas ao mês.
Seu primeiro vôo em Marília foi com Ariosto da Riva, célebre
colonizador, que mais tarde criou o projeto Alta Floresta. Levou-o com mais dois passageiros a Naviraí, que Ariosto fundara no sul do Mato
Grosso, 60 quilômetros depois do rio Paraná.
Os passageiros punham a bagagem no colo: o espaço de carga era ocupado por duas latas de gasolina, necessárias para reabastecer o avião
em Naviraí. O avião era lento e com autonomia de quatro horas. Sem o combustível extra, não teriam como voltar.
A amizade com os clientes rendeu muitos frutos, a começar por salvar Rolim da cadeia. Em 31 de março de 1964, eclodiu o golpe que derrubou o governo de João Goulart, iniciando o ciclo da ditadura militar. E Rolim
já recebera o tacho de ser um piloto comunista desde a Aero-Rancho. Dois amigos de Rolim, Genésio Vieira de Barros e Olemardem Ribeiro
Soares, foram trabalhar com o governador de Goiás, Mauro Borges. Rolim também voara com Borges e se tornara seu fã. Naquele tempo,
Rolim achava "bonitas aquelas idéias de esquerda". Tinha, de acordo com suas próprias palavras, "a mania de achar que as estatais eram a solução para o Brasil, e o dinheiro que faltava ao pobre era o que sobrava
ao rico, como se a todo rico sobrasse".
Em 1964, o general Castelo Branco, recém-entronado presidente pelo regime militar, começou a cercear os governadores que tinham
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compromissos de esquerda, ameaçando Mauro Borgesde cassação. Impetuoso por natureza, Rolim foi ao correio em Marília e despachou um telegrama a Borges. "Resista, governador", dizia o texto. "Da sua luta,
sou um soldado."
A sorte de Rolim é que ele não colocara o nome do hotel onde estava hospedado. Em vez do endereço, deixou apenas "em trânsito". Logo
depois, a Polícia Federal e o exército começaram a procurá-lo, começando pela própria agência de correios.
No aeroporto, Rolim recebeu a visita de um funcionário dos correios que ele conhecia, por gostar muito de aviação. "Desapareça", foi o recado que ouviu. "Saia da sua pensão, porque eles estão revirando todos os hotéis
da cidade."
Rolim tinha um amigo que morava em frente a um colégio de freiras, na Rua Nelson Spiellman, 777. Mudou-se para lá, sem contar os motivos. Tinha medo de perder o emprego na TAM, já que a fama de comunista contribuíra para que fosse demitido da Aero-Rancho. Trazzi, contudo, o
tranqüilizou.
Rolim continuou a trabalhar, agora usando seu segundo nome, Adolfo. Como tudo o que lhe acontecia virava lição, tirou esta do episódio, enquanto se escondia: "Manifestações de solidariedade se fazem em
particular, em público jamais".
Foi salvo pela intervenção de Tarlei Rossi Vilela, fazendeiro de Rio Preto para quem pilotara e chegara a ajudar num momento delicado. Tempos antes, Anísio Moreira, deputado estadual famoso na época, propusera a Tarlei sociedade em terras na Amazônia. Ambos voaram para a região, quando o motor do avião parou. O piloto fez um pouso forçado num rio
amazônico, perto de Diamantino, no Mato Grosso. Tarlei, que saltou na água, salvou- se. Anísio e o piloto, que ficaram dentro do aparelho,
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Falou-se na época que Tarlei teria matado Anísio para ficar com a parte do deputado nas terras da sociedade. Acabou sendo preso em
Diamantino. Havia a suspeita de que a esposa de Anísio Moreira planejasse matá-lo. Policiais propuseram que fugisse, possivelmentecom
a intenção de assassiná-lo e explicar sua morte como uma tentativa de fuga. Tarlei, contudo, desconfiou e preferiu ficar na cadeia.
"Pequenos discernimentos das pessoas às vezes as salvam", dizia Rolim ao comentar o episódio. "Pelo que vi do Tarlei, a maneira como ele passou de fazendeiro com negócios de milhões a réu prestes a ser morto pela polícia, descobri como é tênue a linha que separa o céu do inferno."
Rolim foi contratado pelo advogado Libero Luchezzi para voar até Diamantino. Passaram ambos a noite na porta da cela de Tarlei, em vigília, para protegê-lo. Na manhã seguinte, com um habeas corpus, Tarlei
foi libertado. Receosos de encontrar pistoleiros no caminho, saíram da cidade como foragidos. O vôo de volta para Goiânia com Rolim seria para Tarlei um reencontro ao mesmo tempo com a liberdade e a vida.
Em 1964, o fazendeiro teve a oportunidade de retribuir na mesma moeda, ao saber que Rolim era procurado pela polícia. Naquele ano, como secretário da Agricultura do governo do Estado de S. Paulo, na
gestão de Adhémar de Barros, intercedeu junto ao general Amauri Kruel, comandante do 2° Exército em São Paulo, para que o deixassem
em liberdade. A ordem de prisão foi retirada.
Anos depois, em 1978, ao voar para João Baptista de Figueiredo em suas viagens como candidato biônico à presidência da República, o general perguntou a Rolim o que ele estava fazendo no dia do golpe militar de
31 de março de 1964 "Ora, eu estava fugindo da polícia", disse Rolim. "Você era comunista?", perguntou Figueiredo. "Não, mas eu era contra
vocês rasgarem a Constituição."
Rolim brincaria que lhe faltava algo no currículo para se tornar um líder político: ter sido preso em 1964. Era uma fina ironia, pois o golpe teria
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consagrado como comunista aquele que, no futuro, seria identificado entre seus pares como um dos maiores defensores do capitalismo e da
economia de mercado, especialmente no fechado setor da aviação, considerado pelos militares de "segurança nacional".
O convívio com os fazendeiros começava a trazer uma sabedoria muito particular para Rolim. Salvo por Tarlei da prisão, passou não só a lhe dever essa intervenção como o aprendizado durante a convivência entre
ambos.
Tarlei trazia para o Brasil gado indiano da raça Gir para melhorar o perfil da produção brasileira. Mesmo sem muito sucesso na pecuária, causava profunda admiração no jovem comandante. Quando pilotava para ele, Rolim gostava de ver Tarlei negociando gado, e aguardava-o até o horário da volta, sentado sobre as cercas dos currais. Diria depois
que Tarlei tinha "um talento invulgar para conquistar amigos, influenciar pessoas e fazer negócios", tríplice aliança que incorporou. Espantava-se sobretudo ao ver como Tarlei, à moda dos fazendeiros e empresários do interior brasileiro, fechava negócios vultosos sem exigir nada além da palavra empenhada. "Rolim, em todas as negociações com clientes, acredite tanto neles quanto espera que eles acreditem em você",
dizia Tarlei. "Nenhum negócio é bem sucedido quando só uma das partes merece fé."
Era um princípio no qual Rolim passou a acreditar e que se tornou preponderante em sua vida. Iria aplicá-lo com os clientes da sua futura
companhia aérea, e no convívio com aquele círculo de pessoas que cultivavam a riqueza com uma velha sabedoria do interior. Para Rolim,
era um mundo novo e fascinante, cujo principal personagem ele ainda estava por encontrar.
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Em 1964, surgiu na vida de Rolim o homem decisivo em sua carreira. Filho de Pedro Ometto, Orlando Ometto já era um empresário pioneiro e
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inovador. A pedido do pai, que comprara a antiga fazenda Pau D’Alho, com pouco mais de 20 anos de idade Orlando montara a Usina da Barra,
tornando-se o maior produtor individual de açúcar e álcool do mundo. Estava sempre prospectando novas áreas, interessando-se pelo clima, pela qualidade da terra, e decidira se aventurar num empreendimento
de proporções gigantescas.
Na época aos 44 anos de idade, Orlando decidiu adquirir 50% da TAM a fim de servir-se da empresa em seu novo grande negócio. No início do
regime militar, o plano de integração nacional dava incentivos fiscais para as companhias que promovessem o desenvolvimento das regiões ainda mergulhadas na floresta. Por esse motivo, Orlando comprara uma
grande área ao sul da bacia amazônica, entre os rios Xingu e Araguaia, com a intenção de transformá-la num projeto agropecuário pioneiro.
A fazenda tinha 334 mil alqueires goianos, cerca de meio milhão de hectares: era quase do tamanho do Estado de Sergipe. Começava no cerrado matogrossense e subia em direção ao sul do Pará, atravessando a
serra do Roncador. Recebeu o nome de Suiá- Missu (água dos suiás), herdado do rio onde viviam os índios suiás, belicosos como os xavantes.
A idéia de entrar numa região profundamente selvagem não assustava Orlando, homem afeito ao sertão: gostava de criar negócios, desbravar terras, avançar no Brasil primitivo. E tinha seu modo muito particular de
fazer as coisas. Aonde fosse, carregava Deuclézio Rodolfo, violeiro mais conhecido pelo apelido de Diogo.
Crioulo bonachão, de boa conversa e sorriso no canto da boca, Diogo era um homem-espetáculo. Apaixonado pelo folclore brasileiro, pela música
dos índios, capaz de chorar ao violão, cantava com voz grave, fazia mímica, imitava bichos, repetia o uivo dos índios e sua batida, usando os
dedos na caixa do violão de cravos de ouro com que Orlando o presenteara.
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Para justificar seu salário, pago pela Usina da Barra, Orlando o fazia de secretário e enfermeiro. O maior usineiro de açúcar do mundo era diabético. Precisava de injeções diárias de insulina, requisitando Diogo
para essa e outras pequenas tarefas.
Durante suas visitas a amigos, ou quando ia a restaurantes, Diogo adiantava-se para explicar aos cozinheiros as restrições alimentares de
Orlando, de forma que ele não viesse a rejeitar a comida do anfitrião. Além de admirar Orlando como administrador, Rolim veria nele a mesma paixão pelo interior, manifestada no gosto comum pelo cateretê, pelo cururu e outras formas da música folclórica do Brasil e do Paraguai,
país que o patrão visitava com freqüência.
O projeto de Orlando dependeria no início exclusivamente do avião. Calculara qual era o capital da TAM e, para ficar com 50% da
companhia, colocara nela o equivalente em dinheiro. Com o caixa cheio, a TAM pôde comprar aviões novos.
Quando Orlando se tornou sócio da TAM, Rolim já o conhecia. Certa vez, fora buscá-lo em Barra Bonita, na pista da usina, um campo muito limitado, para levá-lo ao Rio de Janeiro. Orlando pediu-lhe que primeiro
sobrevoasse Piracicaba: desabara um prédio que construía na cidade, o