3 O TEMPO COMO UM ATRIBUTO FONOLÓGICO
6 A PRODUÇÃO DOS GRUPOS [Cɾ] E [ɾC] NO PORTUGUÊS DE INFLUÊNCIA POMERANA: DESCRIÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
6.3 ANÁLISE INTRAGRUPOS: O PAPEL DAS VARIÁVEIS LINGUÍSTICAS NA PRODUÇÃO DOS GRUPOS CONSONANTAIS
6.3.1.5 Vozeamento da consoante adjacente ao tepe
Na sequência da análise da influência das variáveis independentes no fenômeno da suarabácti, passamos a discutir, nesta seção, o comportamento do vozeamento da consoante adjacente ao tepe no grupo consonantal ‒ doravante vozeamento de C. Para tanto, dividimos os itens lexicais entre vozeados e desvozeados, buscando traçar correlações dessas categorias com a presença e a duração da VS. Na Tabela 18, verificamos os resultados referentes à presença da VS.
Tabela 18 - Produção das vogais suarabácticas de acordo com o vozeamento de C - grupo M
Vozeamento
Presença da VS
Sim Não Índice de
ocorrência (%) Contagem observada Contagem esperada Resíd. Estudant. Contagem observada Contagem esperada Resíd. Estudant. Desvozeado 416 423,7 -0,4 32 24,3 1,6 92,86 Vozeado 351 343,3 0,4 12 19,7 -1,7 96,69 Total 767 767,0 44 44,0 94,57 Fonte: O autor (2019)
Na Tabela 18, podemos observar que o índice de ocorrência das vogais suarabácticas é superior nos contextos em que a consoante adjacente a C é vozeada (96,69%), com relação aos contextos em que C é desvozeada (92,86%). A análise de Qui-Quadrado complementada com resíduos padronizados, entretanto, não revelou qualquer associação local entre nenhuma categoria de análise. O Gráfico 5 descreve esses resultados.
Gráfico 5 - Índices percentuais de produção da vogal suarabáctica de acordo com o vozeamento de C - grupo M
Fonte: O autor (2019)
No Gráfico 5, podemos observar mais detalhadamente a proporção de ocorrências das vogais suarabácticas de acordo com o vozeamento. Na categoria desvozeado, verificamos índices mais baixos de produção com vogal suarabáctica, acompanhados de maior índice de produção sem VS. Por outro lado, na categoria vozeado, observamos um reduzido índice de itens lexicais sem VS, o que faz com que a média de ocorrência do fenômeno, nessa categoria, seja mais elevada.
0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00 70,00 80,00 90,00 100,00 Desvozeado Vozeado
Dessa forma, não observamos uma clara influência do vozeamento na produção das vogais suarabácticas, dado que a média de não ocorrência do fenômeno é equilibrada entre as duas categorias. O mesmo não se verifica na duração, conforme pode ser observado na Tabela 19.
Tabela 19 - Durações absoluta e relativa de acordo com o vozeamento - grupo M
Vozeamento Duração absoluta da VS (ms) Duração relativa da VS (%) Média DP Valor de p Média DP Valor de p Desvozeado 30,41 10,71
0,000 6,25 2,32 0,000
Vozeado 43,33 15,47 8,11 3,43
Fonte: O autor (2019)
Na Tabela 19, verificamos maiores durações absoluta (43,33ms) e relativa (8,11%) das vogais suarabácticas nos grupos dotados de C vozeados do que nos dotados de C desvozeados (30,41ms e 6,25%). Por meio do Teste de Mann-Whitney entre as duas categorias, verificamos diferença significativa tanto na duração absoluta (Z= 12,22; p= 0,000) quanto na duração relativa (Z= 7,60; p= 0,000). Na prática, esse resultado significa que a vogal suarabáctica é mais longa quando a consoante adjacente ao tepe é vozeada e que sua ocupação na palavra é maior. Esses resultados parecem indicar que a duração variável das vogais nucleares a depender do vozeamento das consoantes seguintes, comportamento verificado por Peterson e Lehiste (1960), parece também ser estendido às vogais suarabácticas. Assim sendo, se a consoante adjacente for vozeada, teremos elementos vocálicos mais longos.
A diferença da análise aqui apresentada para o verificado por Peterson e Lehiste (1960) concerne à ausência de papel da posição das consoantes envolvidas. No referido estudo, os autores verificaram que a duração da vogal só era afetada se a consoante vozeada fosse pós- vocálica, enquanto as consoantes pré-vocálicas não desempenhavam um papel. A separação dos dados em posições pré e pós-vocálica na análise da suarabácti, entretanto, não desempenhou qualquer papel nos resultados, como pode ser comprovado nos Gráficos 6 e 7.
Gráfico 6 - Duração absoluta nas posições pré e pós-vocálica de acordo com o vozeamento de C - grupo M
Fonte: O autor (2019)
Gráfico 7 - Duração relativa nas posições pré e pós-vocálica de acordo com o vozeamento de C - grupo M
Fonte: O autor (2019)
Conforme podemos verificar nas Tabelas 6 e 7, as durações absoluta e relativa, tanto na posição pré-vocálica quanto na pós-vocálica, demonstram um padrão bastante similar de superioridade durativa das vogais suarabácticas quando diante de consoantes vozeadas, e índices mais reduzidos quando diante de desvozeadas. Análises de Mann-Whitney entre as categorias de vozeamento, respeitando as posições de ocorrência do grupo, dessa forma, não revelaram resultados diferentes dos gerais, descritos na Tabela 19, ou seja, maior duração das
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Pré-vocálica Pós-vocálica Du raç ão ab so lu ta (m s) Desvozeado Vozeado 0,00 1,00 2,00 3,00 4,00 5,00 6,00 7,00 8,00 9,00 Pré-vocálica Pós-vocálica Du raç ão r elativ a (m s) Desvozeado Vozeado
vogais suarabácticas quando em contato com consoantes vozeadas, conforme pode ser observado na Tabela 20.
Tabela 20 - Durações absoluta e relativa das vogais suarabácticas de acordo com a posição silábica e o vozeamento - Grupo M
Posição silábica Vozeamento Duração absoluta da VS (ms) Duração relativa da VS (%) Média DP Valor de p Média DP Valor de p
Pré-vocálica Desvozeado 30,72 10,93 0,000 6,50 2,28 0,000
Vozeado 44,65 12,77 8,28 3,13
Pós-vocálica Desvozeado 29,95 10,39 0,000 5,88 2,33 0,000
Vozeado 41,64 18,25 7,90 3,79
Fonte: O autor (2019)
Na Tabela 20, verificamos que, tanto na posição pré-vocálica quanto na pós-vocálica, as diferenças significativas entre a duração das vogais suarabácticas de acordo com o vozeamento se mantêm, o que indica não haver um papel da posição silábica nos resultados detectados na Tabela 19. Assim, com relação à posição pré-vocálica, os grupos envolvendo consoantes adjacentes ao tepe vozeadas influenciaram a ocorrência de vogais suarabácticas significativamente mais longas, tanto no que diz respeito à duração absoluta (Z= -10,99; p= 0,000) quanto à duração relativa (Z= -5,94; 0,000). O mesmo padrão foi verificado na posição pós-vocálica, na duração absoluta (Z= -6,11; p= 0,000) e na duração relativa (Z= -4,87; p= 0,000).
Com base nessas evidências, podemos concluir que, na amostra observada, a presença de consoantes vozeadas está relacionada com durações mais longas da vogal suarabáctica, estejam essas consoantes em posição pré ou pós-vocálica, um resultado que converge com o verificado por Ramírez (2006).
6.3.1.6 Tonicidade
A penúltima variável a ser considerada no grupo M é a tonicidade, a fim de avaliar se a presença da vogal suarabáctica na posição átona ou tônica poderia exercer diferenças em sua produção e duração. Para tanto, conforme detalhado na seção 5.3.2, nos experimentos de nomeação e leitura, foram inseridos 107 itens lexicais nos quais o tepe se encontrava em posição átona, a fim de estabelecer um conjunto de dados que possibilitasse a avaliação dessa variável. As produções realizadas espontaneamente pelas participantes no experimento de descrição, entretanto, constituíram a maior parte do corpus ‒ 126 produções ‒, totalizando 233 itens lexicais em contexto átono. Essa base de dados é confrontada, nesta seção, com o conjunto de
itens lexicais tônicos, que totalizam 886 produções. Inicialmente, na Tabela 21, avaliamos o papel da tonicidade na produção das vogais suarabácticas.
Tabela 21 - Produção das vogais suarabácticas de acordo com a tonicidade - grupo M
Tonicidade
Presença da VS
Sim Não Índice de
ocorrência (%) Contagem observada Contagem esperada Resíd. Estudant. Contagem observada Contagem esperada Resíd. Estudant. Tônica 767 764,2 0,1 44 46,8 -0,4 94,57 Átona 196 198,8 -0,2 15 12,2 0,8 92,89 Total 963 963,0 59 59,0 94,22 Fonte: O autor (2019)
Com base na Tabela 21, podemos observar um índice de produção das vogais suarabácticas bastante equilibrado entre as categorias de tonicidade. Na posição tônica, são verificadas 767 produções dotadas de VS e 44 produções em que o fenômeno não ocorre, totalizando 94,57%. Na posição átona, são registradas 196 produções da VS e 59 não produções, o que gera um índice de 92,89% de ocorrência. O Gráfico 8 demonstra esse comportamento ao comparar os índices percentuais de ocorrência das duas categorias.
Gráfico 8 - Índices percentuais de produção da vogal suarabáctica de acordo com a tonicidade - grupo M
Fonte: O autor (2019)
No Gráfico 8, verificamos índices de produção do fenômeno bastante similares entre as categorias tônica e átona, ainda que, na átona, o índice de produções sem VS seja sutilmente superior. Como seria esperado diante desse cenário, o Teste de Qui-Quadrado complementado com resíduos padronizados não verificou qualquer associação local entre as variáveis, como
0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00 70,00 80,00 90,00 100,00 Tônica Átona
pode ser visualizado na Tabela 21, o que permite atestar que não há uma influência da tonicidade na produção da suarabácti no âmbito do grupo monolíngue.
Assim como verificado na análise da variável vozeamento, por outro lado, a influência não verificada na produção se revela nas medidas de duração, como demonstra a Tabela 22.
Tabela 22 - Durações absoluta e relativa de acordo com a tonicidade - Grupo M
Tonicidade Duração absoluta da VS (ms) Duração relativa da VS (%) Média DP Valor de p Média DP Valor de p Tônica 36,32 14,59
0,001 7,10 3,03 0,000
Átona 31,90 11,84 5,62 2,76
Fonte: O autor (2019)
Na Tabela 22, verificamos durações absoluta (36,32ms) e relativa (7,10%) mais longas da vogal suarabáctica quando em posição tônica, índices superiores aos apresentados na posição átona (31,90ms e 5,62%). A análise estatística, procedida por meio do Teste de Mann-Whitney, detectou significância entre as durações absoluta (Z= -3,47; p= 0,001) e relativa (Z= -6,720; p= 0,000).
Levando em consideração os argumentos de Hall (2003), segundo a qual, em línguas como o finlandês e o kekchi, a VS ocorre apenas em sílabas tônicas, conforme discutido na seção 4.5, pode-se afirmar que, no português falado pelas participantes monolíngues deste estudo, não há uma restrição à ocorrência do fenômeno apenas em posição tônica. Pelo contrário, no grupo M, não há qualquer tipo de diferença estatisticamente significativa entre os grupos com base na tonicidade.
A análise da duração, por outro lado, revelou que a posição tônica influencia a presença de vogais suarabácticas mais longas e que ocupam um trecho maior da palavra. Hall (2003) justifica a influência da tonicidade com a hipótese de que a posição tônica apresentaria menor rigidez do que a posição átona, o que faria com que os articuladores desfizessem as constrições de maneira mais lenta, diminuindo a sobreposição gestual. Uma explicação de natureza fonética para a duração mais longa das vogais suarabácticas em sílabas tônicas pode recair sobre os argumentos de Ladefoged e Johnson (2011), segundo os quais uma sílaba acentuada é produzida com maior energia muscular, gerando maior saliência perceptual e maior duração. Sendo as sílabas átonas produzidas de maneira mais breve, haveria menos espaço temporal para o desenvolvimento das vogais suarabácticas.