3.1.1 Em busca de vozes
Na tentativa de evidenciar que as performances vocais de todas as pessoas
são operadas pelo gênero em seus processos constitutivos, neste trabalho, o olhar se
direciona para como essa operação se dá nas vozes de cantores e cantoras
transgênero. Em razão disso, os participantes não poderiam ser outros que não
cantores e/ou cantoras transgêneros. Ao dizer isso, temse a ideia de que qualquer
pessoa que esteja sob a abrangência do termo guardachuva transgênero – mulheres
trans, homens trans, transexuais, travestis, nãobinários, enfim, qualquer pessoa que
não se identifique como cisgênero – e que cante poderia ser um participante desta
pesquisa.
Encontrar cantores e cantoras trans que aceitassem colaborar com a pesquisa
não foi uma tarefa fácil. Desde a realização da minha monografia “O processo de
despedirse de uma voz: percursos de transição vocal de cantores transmasculinos”
(CALDEIRA, 2019) essa dificuldade já se apresentava. Na ocasião, foi necessário
recorrer a vídeos de Youtube para realização da pesquisa. Em função das
características do presente trabalho não seria viável realizar o estudo da mesma
maneira, pois a intenção é justamente verificar na empiria, na vida cotidiana de
cantores e cantoras transgêneros, se a ideia teórica de que as construções das
performances vocais são perpassadas pela “atuação” do gênero de fato acontece.
Assim sendo, foi necessário localizar e conhecer cantoras e cantores
transgêneros. Desde a elaboração do préprojeto, que culminou neste trabalho, duas
cantoras já haviam sinalizado a disponibilidade em conceder entrevistas e participar
da pesquisa, o que, em parte, garantia a viabilidade da realização desta investigação.
Apesar do aceite das duas, pensei haver a necessidade de encontrar outros cantores
e cantoras que pudessem se juntar ao quadro de participantes do estudo.
Como em Uberlândia – Minas Gerais (cidade em que se desenvolveu esta
pesquisa) – e região há conhecimento de poucos cantores e cantoras transgênero,
pensavase na possibilidade de encontrar pessoas que atendessem a esses requisitos
em outras localidades do país para realização de entrevistas via videochamadas.
Porém, com o alastramento da pandemia da COVID19, a partir de março de 2020,
fazer as entrevistas por videochamadas deixou de ser uma possibilidade para tornar
se uma condição: em função dos protocolos de segurança e enfrentamento do vírus,
todas as entrevistas teriam que ser realizadas via internet.
Se, por um lado, essa nova condição limitou o meu contato pessoalmente com
os entrevistados e impossibilitou a maneira tradicional de realização de uma
entrevista, por outro lado, os horizontes foram ampliados para a participação de
cantores e cantoras de diversos lugares do país.
Em um primeiro momento, contatei cantores que eu seguia em minhas redes
sociais para participarem da pesquisa e alguns, prontamente, aceitaram. Entretanto,
por razões diversas, a maioria dessas entrevistas prometidas acabou não
acontecendo.
Tendo a necessidade de encontrar cantores dispostos a colaborar com a
minha pesquisa, decidi fazer posts em dois grupos LGBTQIA+
39no Facebook para
localizar cantores e cantoras que aceitassem participar desta investigação. Os grupos
escolhidos foram “LDRV”
40e “LGBTQI+ Resistência pela Democracia!”
41. O post – o
mesmo para os dois grupos – pode ser visualizado na Figura 1.
39
Grupos do Facebook direcionados às pessoas da comunidade LGBTQIA+, a saber Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais, Travestis (Transvestigênere), Queer, Intersexuais, Assexuais e outras possibilidades de sexualidade e identidade de gênero que existam.
40 Grupo de conteúdo de cunho humorístico, tendo como público pessoas da comunidade LGBTQIA+. A sigla LDRV corresponde ao nome Lana Del Rey Vevo, pois, em seus primórdios, o grupo era composto exclusivamente de fãs da cantora estadunidense Lana Del Rey.
41 Grupo voltado para pautas políticas e de direitos da população LGBTQIA+. O grupo não adota o A referente aos assexuais em seu nome.
Figura 1 Post procurando participantes para a pesquisa
Fonte: Facebook (grupos privados “LDRV” e “LGBTQI+ Resistência pela Democracia!”).
Os posts tiveram grande repercussão, com várias pessoas se oferecendo
para colaborar com a pesquisa, mas a dificuldade para realizar as entrevistas
persistia. Sendo assim, a busca por participantes prosseguia.
3.1.2 As vozes disponíveis
Após conversarmos bastante pelo Messenger do Facebook, Gustavo
42aceitou fazer parte da minha pesquisa. Finalmente conseguira o primeiro entrevistado.
Nossa conversa ocorreu no dia 10 de julho de 2020, à noite.
42 Os nomes adotados nesta pesquisa não são os nomes reais dos participantes. Gustavo, Janaína e Natasha foram escolhidos buscando manter semelhança com os nomes originais.
Gustavo, como ele mesmo conta em sua entrevista, é um homem trans de 23
anos de idade, branco, que mora em uma cidade do interior de Minas Gerais. Quanto
às suas experiências e formação musicais, ele diz que tentou aprender a tocar violão
e a cantar sozinho. Isso porque ele não tinha paciência para as “aulas teóricas”, que
nunca se conectavam com as “aulas práticas” no curso de violão que fazia. Na
verdade, segundo ele, só as aulas teóricas é que aconteciam, tocar mesmo, nada. Ele
também chegou a fazer aulas de canto, mas acabou desistindo, pois, nas aulas, mais
conversava com o professor do que cantava e quase nunca se lembrava de fazer os
exercícios propostos pelo professor em casa.
Gustavo, além de autodidata, é um cantor amador. Canta porque gosta, no
seu ritmo, quando quer. Além das poucas aulas de canto que fez na adolescência,
participou de um coral escolar, quando morava em Portugal. Para ele, ainda hoje,
aprendizados que teve àquela época subsidiam sua prática de canto e permeiam as
músicas que compõe. A composição, aliás, foi o motivo de ele ter procurado as aulas
de violão (que não deram certo). Ele queria aprender a tocar para musicar as letras
de canções que gosta de escrever.
Pessoa doce, de riso fácil, Gustavo sempre foi atencioso e solícito em
qualquer momento que eu precisasse de alguma coisa dele. Posso dizer que o modo
como ele me tratou e acolheu meu trabalho foi um dos motivos para não desistir
quando ninguém mais queria falar comigo.
Um bom tempo se passou antes que uma segunda participante aceitasse
conversar comigo. Nesse entremeio, cheguei a pensar em mudar os rumos da
pesquisa, tornála apenas teórica ou trabalhar com cantores LGBTQIA+ em vez de
trabalhar apenas com cantores e cantoras transgêneros. Entretanto decidi insistir mais
um pouco na ideia inicial.
Foram somente 5 meses após a primeira entrevista, em 16 de dezembro de
2020, que eu e Janaína tivemos nossa conversa. Janaína é uma mulher trans, preta,
baiana, de 31 anos. Meu contato com ela se deu algum tempo depois que sua
professora de canto, em um curso sobre pedagogia vocal que fizemos juntos, me
passou seu contato. Demorei a contatála, pois tinha medo de mais uma recusa, em
meio a tantas outras que já estavam acontecendo.
Com a aproximação do exame de qualificação, eu precisava ter as entrevistas
prontas, no entanto isso ainda não tinha sido possível. Em função disso, criei coragem
e mandei mensagem para Janaína, explicandolhe que sua professora tinha me
passado seu contato e deixando claro para ela o que eu estava pesquisando em meu
trabalho e porque gostaria que ela participasse. Bastante atenciosa e gentil, ela me
tranquilizou, aceitando de pronto o convite para a entrevista.
Janaína, de acordo com seu próprio relato, é cantora e atriz. Por isso mesmo,
quando ela pensa em canto, sempre o pensa atrelado ao teatro, a uma performance
mais teatral da música. Apesar de cantar desde criança, e dizer ter nascido em um lar
musical, Janaína só começou a fazer aulas de canto após ingressar no curso de teatro
da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ao contrário da irmã – que ganhou um
banjo do pai aos 4 anos de idade –, em sua infância, ela relata, sofreu para cantar
afinado, mas viu suas dificuldades se transformarem em vitórias quando ficou bem
posicionada em um concurso de calouros promovido pelo grêmio da escola em que
estudava.
Atuando como cantora profissional e atriz, Janaína usa sua voz para a causa
das pessoas trans, para dar visibilidade à sua comunidade e à sua luta. Sua trajetória
musical na noite soteropolitana remete aos tempos em que ainda se montava como
drag queen para performar. Hoje, além de cantora e atriz, ela é também professora
de teatro no ensino básico, em uma escola pública.
A história de Janaína se interliga em algum nível com a de Natasha, outra
mulher trans preta que tive o prazer de ter como participante. Desde antes da
elaboração do préprojeto para ingresso no mestrado acadêmico entrei em contato
com ela para que fosse minha colaboradora na pesquisa que eu viria a desenvolver.
Conhecia Natasha da Universidade, de vêla cantar e fazer música com
amigos meus. Por não se importar em enquadrar sua voz em padrões do que deve
ser uma voz masculina ou feminina, sempre pensei que ela seria uma excelente
colaboradora para a investigação.
Mas não só por isso. Natasha, aos 28 anos, é uma excelente cantora. Mestra
em biologia, começou a cantar na igreja e essa foi, durante muito tempo, a sua escola
de canto. Após concluir o Ensino Médio, Natasha – que, assim como Janaína, é de
Salvador – mudouse para Minas Gerais para estudar música. Já em Minas, ela
participou de um grande coral no qual se sentia preterida pelo maestro, que elegera
seus preferidos dentre os cantores do coro e somente a esses dava oportunidades
para se destacarem. Foi nessa época também que Natasha fez, durante um ano, aulas
de canto com uma professora evangélica, assim como ela à época.
Após romper com a igreja e estar estremecida com seu canto, Natasha se
mudou para o interior de Minas Gerais para cursar ciências biológicas em uma
Universidade. Depois de algum tempo, reatou sua relação com o canto, conseguiu se
estabelecer como artista na cena uberlandense e, apesar disso, não fez mais aulas
de canto. Ela, assim como Janaína, inspirase na performance de cantoras como Elza
Soares e Gal Costa para construir a própria performance.
Realizei a entrevista com Natasha no dia 23 de dezembro de 2020, após
alguns desencontros e falhas de comunicação. Eu, que pensara que ela havia
desistido de participar da minha pesquisa, me surpreendi com a sua disponibilidade e
boa vontade em ajudar.
Deixo registrada aqui a minha gratidão pela entrega e a generosidade que as
entrevistadas e o entrevistado tiveram comigo.
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE ARTES IARTE CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO MESTRADO EM MÚSICA
(páginas 57-62)