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Juntamente a blogs especializados e o Twitter, o Facebook foi um dos principais palcos online de atuação do “Não Vai Ter Copa”. Várias páginas foram criadas ao longo do tempo para concentrar pessoas interessadas nos protestos — predominantemente favoráveis — e compartilhar conteúdos como denúncias, vídeos, notícias, eventos e outras informações relacionadas. Algumas delas continuam atuantes após o torneio e concentram um alto número de “curtidas” (ou seja, usuários que acompanham as atualizações). A partir do acesso aos respectivos endereços no Facebook, é possível ter uma ideia da dimensão e do direcionamento ideológico desses

manifestantes. Primeiramente, as fanpages pesquisadas no site pelo termo

“Não Vai Ter Copa” foram filtradas com base em popularidade, relevância nas pesquisas da plataforma e número de “curtidas”, quantidade de usuários que

para traçar o panorama da mobilização na rede social, foi selecionado um menor número de páginas que correspondiam aos diferentes segmentos da mobilização: uma delas corresponde ao movimento pioneiro, duas foram criadas espontaneamente por membros insatisfeitos da sociedade que não fazem necessariamente parte de movimentos sociais e a quarta corresponde a um coletivo criado especificamente sobre a reivindicação de direitos (Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa).

A análise mais aprofundada das postagens a ser realizada tem como base a mobilização de quadros e será explicitada na metodologia desta pesquisa.

3.2.1 As páginas do Não Vai Ter Copa no Facebook

A página NÃO VAI TER COPA30 foi criada em 30 de setembro de 2013, três meses depois da Copa das Confederações e das manifestações subsequentes. Ela possui 4.247 curtidas até novembro de 2015. O nome está em caixa alta na rede social31 e a foto do perfil (FIGURA 4) exibe um manifestante mascarado com uma balaclava e com o dedo apontado para o usuário, enquanto a capa da página mostra um confronto com a polícia e o slogan “Até que você acorde, nós lutaremos por você”, indicando que aqueles são os representantes de uma sociedade ainda adormecida para o confronto. O teor das postagens varia, mas a grande maioria é composta por imagens, de montagens a charges. Pela falta de créditos concedidos no conteúdo, não é possível saber se elas são de autoria dos próprios responsáveis ou se foram compartilhadas de outras páginas.

30Página disponível em: https://goo.gl/8KCzBo

31Em 2 de janeiro de 2016, a página mudou o nome e a identidade visual, passando a se chamar Nova Revolução Brasileira. Por este motivo, algumas capturas de tela relativas ao perfil já aparecem com a nova nomenclatura. O conteúdo postado anteriormente foi preservado.

FIGURA 4 – Perfil e capa de “NÃO VAI TER COPA” Fonte: Facebook

A página Contra Copa 2014 possui 24.138 seguidores em

novembro de 2015 e foi criada em 9 de novembro de 2013, um período já posterior aos protestos de junho daquele ano. Além de ser o endereço com mais “curtidas” e não contar com “Não Vai Ter Copa” na composição do nome, ela é também a mais influente e ativa — tanto na frequência de postagens, que acontecem até hoje, quanto na interação dos usuários, com o maior número de curtidas, compartilhamentos e comentários em fotos, textos e convites postados. A página também é a principal responsável pela organização dos eventos no Facebook que convidam a todos para algumas das principais passeatas do “Não Vai Ter Copa”. Como é possível notar (FIGURA 5), tanto a imagem de perfil quanto a de capa são ilustrações com uma identidade gráfica personalizada que simula rabiscos. O slogan “Não Vai Ter Copa” é identificado.

FIGURA 5 – Perfil capa de “Contra Copa 2014” Fonte: Facebook

O coletivo Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa32 é um dos grupos organizados mais presentes na militância online contra a Copa do Mundo. A página dos manifestantes (FIGURA 6) foi criada no Facebook em 24 de janeiro de 2014 e, até maio de 2015, acumula 5.443 curtidas.

FIGURA 6 – Perfil e capa de “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa” Fonte: Facebook

A imagem de capa foi trocada algumas vezes no decorrer de 2014 e já incluiu duas fotos tiradas durante passeatas de rua. Atualmente, ela exibe uma foto com os dizeres “Fim de jogo para Blatter” em inglês. Ela diz respeito a recentes investigações contra escândalos de corrupção na FIFA, culminando no afastamento seguido de renúncia do presidente na época da

Copa do Mundo de 2014, o suíço Joseph Blatter33. Já a foto de perfil é a arte

oficial do coletivo.

O “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa” nasceu no final de 2013 e se define, de acordo com um de seus membros, como uma comunidade aberta, horizontal e para coletivos (MELLIS, 2014). A primeira ação do grupo foi a divulgação de um manifesto de mesmo nome na internet, revelado na simbólica data de 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. No documento, consta que o movimento tem como objetivo primordial “explicar o papel do levante popular, mostrar que a única opção do povo brasileiro que vive neste Estado autoritário que é opressor é a negociação coletiva através da revolta” (FÓRUM POPULAR DA SAÚDE, 2013), deixando claro que é a favor

32Disponível em: https://goo.gl/1E1cZl.

33O jornal norte-americano The New York Times produziu uma reportagem completa sobre "a ascensão e queda" do presidente da FIFA. Disponível em:http://goo.gl/VaDrxZ

de barrar o evento em nome da sociedade brasileira. O coletivo tornou-se um dos responsáveis pela organização e mobilização de atos online e presenciais no país. O próprio nome virou um dos lemas do conflito, diretamente relacionado com reivindicações e praticamente uma versão estendida do slogan “Não Vai Ter Copa” original.

O conceito é usado no sentido de popularização do grito e capacidade de levá-lo à agenda pública de maior alcance, em vez de permanecer somente sob as bandeiras de coletivos e comitês específicos. Entretanto, as campanhas de denúncias e reivindicações foram iniciadas anos antes, a partir de grupos organizados e regionalizados que agrupavam pautas polêmicas sobre a realização do torneio. É um dos objetivos desta pesquisa observar se os quadros mobilizados no período se alteraram e, se possível, notar se eles foram mais efetivos ou não para a campanha.

Por fim, há a página da Articulação Nacional dos Comitês Populares

da Copa (ANCOP). A página do ANCOP no Facebook segue uma estrutura

visual simples feita a partir de duas ilustrações personalizadas. A foto de perfil (FIGURA 7) é um símbolo que lembra o troféu da Copa do Mundo de 2014,

mas com casas representando a luta por moradia.

FIGURA 7 – Perfil e capa da ANCOP Fonte: Facebook

Estrelas indicam os comitês presentes nas cidades. A foto de capa é uma montagem que traz crianças em uma zona carente não identificada, além de uma chamada para o documento de denúncia da ANCOP, o Dossiê Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Brasil. As ilustrações

evocam patriotismo ao usarem o verde e o amarelo da bandeira brasileira. Estrutura e histórico desse movimento são detalhados a seguir.

3.3 Os Comitês Populares da Copa: pioneirismo nos protestos contra o