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Vulnerabilidade jurídica e vulnerabilidade econômica

CAPÍTULO III – ESTUDO SISTEMÁTICO DO PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE

3.3. A estrutura legislativa de proteção ao contratante vulnerável e as espécies de vulnerabilidade:

3.3.2. Vulnerabilidade jurídica e vulnerabilidade econômica

160 BELMONTE, Cláudio Petrine. Principais reflexos da sociedade de massas no contexto contratual

contemporâneo. Disposições contratuais abusivas. Revista de Direito do Consumidor, n. 43, São Paulo: Revista dos Tribunais, jul./set. 2002, p. 146.

A vulnerabilidade jurídica manifesta-se, predominantemente, nas relações de consumo161. Além de desconhecer os seus direitos, o consumidor normalmente não possui conhecimento acerca dos contornos jurídicos da relação negocial.

A vulnerabilidade jurídica se revela tanto na fase anterior ao negócio, pois o consumidor não sabe as conseqüências jurídicas que ele pode acarretar, quanto na sua execução, uma vez que o consumidor tem dificuldades para defender os seus direitos, seja na esfera administrativa, seja no âmbito do Judiciário, pois “não é da natureza originária do ato de consumo a organização e planejamento de futuras defesas, demandas, etc., mas sim a simples satisfação de necessidades específicas”162.

Assim, essa espécie de vulnerabilidade ganha evidência no momento em que surge algum problema decorrente da relação de consumo, e revela-se tanto na fase extrajudicial, pré-processual, como na fase judicial.

Os juridicamente vulneráveis não sabem ao menos a quem recorrer na busca da solução para tais problemas, pois eventualmente litigam, ao contrário dos fornecedores, que são litigantes habituais, o que lhes possibilita construir estratégias de atuação, principalmente porque contam com profissionais especializados, e com a estrutura organizacional da sociedade empresária.

Além disso, os fornecedores nunca assumem os prejuízos das demandas, pois os contabilizam como custos que posteriormente serão repassados aos consumidores através dos preços dos produtos e serviços.

Por tais razões, é importante o papel do Ministério Público na defesa do consumidor coletivamente considerado. Enquanto a dispersão das vítimas beneficia o fornecedor, que conta com a fragilidade do consumidor isolado, a atuação do Ministério Público em defesa dos interesses coletivos, difusos e individuais homogêneos agrava as conseqüências que a demanda pode lhe ocasionar, atingindo, inclusive, a sua imagem perante o mercado de consumo.

161 Tratando-se dos contratantes vulneráveis em geral, note-se que a vulnerabilidade jurídica também é

bastante evidente nas relações de trabalho; contudo, conforme já delimitado, o presente estudo trata mais detidamente dos contratos de adesão comuns e dos contratos de consumo.

162 MORAES, Paulo Valério Dal Pai. Código de Defesa do Consumidor: o princípio da vulnerabilidade no contrato, na publicidade, nas demais práticas comerciais. Porto Alegre: Síntese, 1999, p. 106-107.

Relevante, portanto, que Ministério Público, magistrados e órgãos administrativos de defesa do consumidor (a exemplo dos PROCON’s) não olvidem dessa espécie de vulnerabilidade, cujos componentes – dentre outros – podem ser assim resumidos:

a) o consumidor não possui conhecimento de seus direitos nem dos meios de garanti-los e defendê-los;

b) o consumidor desconhece os contornos jurídicos da relação negocial;

c) os consumidores são litigantes eventuais, ao contrário dos fornecedores, que habituados às demandas judiciais têm condições de definir estratégias de atuação, além de não arcarem com os prejuízos da demanda, pois estes serão repassados aos consumidores através dos preços dos produtos e serviços; e

d) os consumidores têm dificuldade em litigar individualmente.

É porque reconhece a vulnerabilidade jurídica do consumidor que a legislação consumerista estabelece:

a) a instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito do Ministério Público (CDC, art. 5º, II);

b) a criação de Juizados Especiais e Varas Especializadas para a solução de litígios de consumo (CDC, art. 5º, IV);

c) a concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de Defesa do Consumidor (CDC, art. 5º, V);

d) a facilitação da defesa de seus direitos; a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos; e o acesso aos órgãos judiciários e administrativos, com vistas à prevenção ou reparação de danos, como direitos básicos dos consumidores (CDC, art. 6º);

e) a responsabilidade solidária pela reparação dos danos quando tiver mais de um autor a ofensa (CDC, arts. 7º, § único; 18; e 19);

f) a responsabilidade objetiva dos fornecedores pela reparação dos danos causados por produtos e serviços (CDC, arts. 12 e 14);

g) a possibilidade de desconsideração da personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da

lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social, dentre outras hipóteses (CDC, art. 28).

Por outro lado, a disparidade econômica geralmente encontrada entre os contratantes também é elemento apto a determinar a disparidade do poder contratual. O economicamente mais forte possui maiores condições de impor a sua vontade ao outro contratante, pois se utiliza de mecanismos técnicos mais avançados que o poderio econômico lhe permite conseguir.

No âmbito das relações de consumo, é de se destacar que o problema do domínio econômico do fornecedor é agravado em face da possibilidade de fusões, incorporações e outras técnicas que concentram empresas e possibilitam o comando dos mercados por parte de alguns, o que levou o CDC a eleger a coibição de todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal (art. 4º, VI), como um dos princípios da Política Nacional das Relações de Consumo.

Diante do produtor de bens ou de serviços essenciais que goza no mercado de uma posição monopolista, os consumidores estarão constrangidos, para satisfazer as suas necessidades, a aceitar todas as condições que lhes queira impor, sem nenhum poder real de participar na determinação do conteúdo do contrato. A disparidade de condições econômico- sociais existente, para além do esquema formal da igualdade jurídica abstrata dos contraentes, determina “disparidade de «poder contratual» entre partes fortes e partes débeis, as primeiras em condições de conformar o contrato segundo os seus interesses, as segundas constrangidas a suportar a sua vontade, em termos de dar vida a contratos substancialmente injustos”163.

Toda essa preocupação do legislador em garantir o equilíbrio das relações contratuais é reflexo do reconhecimento da desigualdade de fato existente entre as partes nos contratos celebrados na atualidade, e conta com o aval da Constituição, na qual busca os fundamentos jurídicos para a proteção do contratante vulnerável.

163 ROPPO, Enzo.

O Contrato. Trad. Ana Coimbra e M. Januário C. Gomes. Coimbra: Almedina, 1998, p. 38.