• Nenhum resultado encontrado

Uma questão suscitada pelas facilidades oferecidas por essas plataformas, e pela Web 2.0 como um todo, é a da validade do “copyright”, na tradução literal “direito de cópia”, que usamos amplamente para designar tudo o que refere os direitos autorais. O direito autoral é, resumidamente, o direito de um autor, inventor, etc. sobre uma propriedade intelectual, e o que chamamos de copyright é o direito sobre sua reprodução. De acordo com a Biblioteca Nacional, direito de autor é

o direito que todo criador de uma obra intelectual tem sobre a sua criação. Esse direito personalíssimo, exclusivo do autor (art. 5. º, XXVII, da Constituição Federal), constitui-se de um direito moral (criação) e um direito patrimonial (pecuniário). Está definido por vários tratados e convenções internacionais, dentre os quais o mais significativo é a Convenção de Berna. No Brasil, a Lei n. º 9.610 de 19/02/98 regula os direitos de autor (BIBLIOTECA NACIONAL, 2017).

56 A entrevista, realizada por e-mail, ocorreu em outubro de 2016, antes da publicação do livro no formato impresso (Cf. Anexo V).

72 Conforme aponta Lessig (2005, p. 100), “[...] o copyright é um tipo de propriedade. É algo que se pode possuir, vender e que é protegido por lei contra roubo”. E há anos vem se tentando encontrar um equilíbrio entre regulação e liberação do copyright, mas por se tratar de um tipo abstrato de propriedade – a propriedade intelectual –, essa é uma tarefa juridicamente complicada. Segundo Lessig (2005, p. 149), “[...] Enquanto os contornos do copyright de hoje são extremamente difíceis de descrever com clareza, em termos gerais o direito cobre praticamente qualquer trabalho criativo que possa ser reduzido a uma forma tangível”.

No Brasil, as obras passíveis de serem protegidas pelo direito autoral, segundo a Biblioteca Nacional, são:

Os textos de obras literárias, artísticas ou científicas; as conferências, alocuções, sermões e outras obras da mesma natureza; as obras dramáticas e dramático-musicais; as obras coreográficas e pantomímicas, cuja execução cênica se fixa por escrito ou por outra qualquer forma; as composições musicais tenham ou não letra (poesia); as obras audiovisuais; sonorizadas ou não, inclusive as cinematográficas; as obras fotográficas e as reduzidas por qualquer processo análogo ao da fotografia; as obras de desenho, pintura, gravura, escultura, litografia e arte cinética; as ilustrações, cartas geográficas e outras obras da mesma natureza; os projetos, esboços e obras plásticas concernentes à geografia, engenharia, topografia, arquitetura, paisagismo, cenografia e ciência; as adaptações, traduções e outras transformações de obras originais, apresentadas como criação intelectual nova; as coletâneas ou compilações, antologias, enciclopédias, dicionários, bases de dados e outras obras que, por sua seleção, organização ou disposição de seu conteúdo, constituam uma criação intelectual (BIBLIOTECA NACIONAL, 2017).

Lessig milita a favor de regulação adequada, apresentando diversos exemplos em que acredita que excessos de certo tipo de regulação sobre a propriedade intelectual se mostram prejudiciais à cultura e afirma que

[...] nós viemos de uma cultura livre. [...]. Uma cultura livre apoia e protege criadores e inventores. Faz isso diretamente, garantindo direitos de propriedade intelectual. Mas também faz isso indiretamente, limitando o alcance desses direitos, para garantir que os criadores e inovadores subsequentes permaneçam tão livres quanto possível do controle do passado (LESSIG, 2005, p. 26).

Por exemplo, de 1790 até 1978 o tempo de direitos autorais nunca foi maior que 32 anos, número bastante inferior ao de hoje, que chega a 70 anos após a morte do autor,

73 para pessoa física, e 90 anos para pessoa jurídica. Sendo assim, não é possível pensar que o copyright está beneficiando monopólios e prejudicando a disseminação da cultura?

Essa tentativa de extrema regulação se mostrou ainda mais rigorosa com o surgimento de novas tecnologias, de modo que os livros eletrônicos, por exemplo, ao serem adquiridos de forma legal, ou seja, por meio de compra e não de download gratuito (de cópias ditas piratas), são controlados por um conjunto de regras. Por exemplo, “[...] se o detentor do copyright disser que você só deve ler o livro uma vez por mês, então a lei de copyright o ajudará a exercer esse grau de controle” (LESSIG, 2005, p. 156), e isso ocorre porque os leitores estão ligados a um dispositivo, logados por meio de um cadastro e, portanto, são manipuláveis pelos aplicativos em uso – pelos detentores dos funcionamentos oficiais dos aplicativos em uso.

Além disso, para proteger livros eletrônicos, foi criado o Digital Rights Management (DRM)57. O DRM serve para prevenir a cópia ilimitada (e ilegal) de um arquivo eletrônico, sejam imagens, vídeos, ebooks ou música. Mas é claro que é impossível ter total controle sobre todo e qualquer arquivo digital, sendo assim, alguns livros eletrônicos podem ser lidos em mais de um aparelho ao mesmo tempo, por exemplo. E nem todos os formatos de livros eletrônicos suportam DRM.

Em se tratando de livros online, o controle sobre a propriedade intelectual é ainda mais difícil, sendo motivo de preocupação entre os usuários-autores das plataformas estudadas. Além do temido plágio, quando outro usuário se apropria de um texto como se fosse de sua autoria, também há casos de pirataria, quando há a reprodução de textos de outros usuários, ainda que seja informada a real autoria. Ambos os casos também acontecem com autores cujos livros foram publicados por editoras convencionais, no formato impresso, sejam eles usuários ou ex-usuários dessas plataformas, ou não. Na figura abaixo, um exemplo em que a denúncia de pirataria é feita pela própria autora do livro plagiado, Marina Carvalho, que teve um de seus livros disponibilizado no formato .pdf na Wattpad:

74

figura 8: Autora Marina Carvalho denuncia em sua página no Facebook um caso de cópia pirata de um de seus livros.

Fonte: perfil pessoal de Marina Carvalho no Facebook. Último acesso: 08 abr. 2017.

Ao procurar por títulos de livros nacionais contemporâneos no campo de busca da plataforma Wattpad, encontramos outro exemplo do fenômeno, desta vez de plágio, conforme figura 9, que mostra a página inicial da história, apresentando a capa, a sinopse e a informação de que se trata da adaptação do livro Perdida, da autora Carina Rissi. No entanto, essa “adaptação” é reconhecida por uma usuária-leitora como sendo plágio, conforme figura 10. Ou seja, o usuário-autor não é reconhecido como tal pelo usuário- leitor, já que o segundo reconhece no texto muitas semelhanças com o texto original, o da autora Carina Rissi.

75

figura 9: “Adaptação” do livro Perdida, de Carina Rissi, postada na plataforma Wattpad.

Fonte: Wattpad. Último acesso: 02 abr. 2017.

figura 10: Comentário de um usuário-leitor, chamando a declarada “adaptação” de plágio do livro Perdida.

76 Como aponta Jenkins no seu tratado sobre cultura da propagabilidade (2014, p. 94):

quando existe uma economia moral forte, o público geralmente policia suas próprias ações, chama a atenção daqueles que acha que prejudicam a integridade de uma plataforma ou daqueles que minam acordos informais com produtores e distribuidores comerciais.

Por haver casos como esses, vários usuários-autores têm medo de deixar o conteúdo de suas histórias e ebooks disponíveis na íntegra nas plataformas colaborativas. Inclusive, há casos, por exemplo, em que esses usuários-autores fazem notas de esclarecimento informando a retirada do conteúdo por medo de plágio ou mesmo informando que o conteúdo estará disponível por um período de tempo específico. Segundo Jenkins (2014, p. 83), “as relações [...] entre produtores de mídia e públicos contemporâneos refletem a percepção do valor moral e social dessas transações. Todos os participantes precisam sentir que as partes envolvidas estão se comportando de um modo moralmente adequado”.

Mais um exemplo dessa preocupação em relação a possíveis plágios ou pirataria é a nota feita por Chris Salles, usuária-autora da plataforma Wattpad mencionada anteriormente, que faz questão de lembrar que seu texto autoral já está registrado na Biblioteca Nacional, de modo que ela acredita estar protegida contra plágio.

figura 11: Nota da usuária-autora Chris Salles a respeito do registro de seu texto na Biblioteca.

77 O mesmo ocorre com a usuária-autora Catarina Rodrigues, que, sem meias palavras, aponta para o fato de mais importante que um copyright ser o “respeito ao trabalho dos outros”, evidenciando não apenas uma preocupação em relação a um possível plágio ou pirataria, mas evidenciando o fato de que o trabalho criativo realizado por esses usuários- autores, apesar de não remunerado, requer esforço, dedicação, é tido por esses usuários como um trabalho real.

figura 12: Usuária-autora fala de "respeito ao trabalho dos outros", mostrando uma preocupação em relação a

plágio.

Fonte: Wattpad. Último acesso: 11 dez. 2017.

O fato de muitos usuários-autores optarem por evidenciar, por exemplo, o copyright, o registro na Biblioteca Nacional ou mesmo o respeito ao trabalho alheio, mostra a vulnerabilidade de postar publicamente seus textos autorais em plataformas colaborativas, mas mostra também que mesmo não tendo uma carreira propriamente dita, no sentido usual do termo, e legitimada, por exemplo, pela publicação de um livro impresso, esse trabalho autoral requer uma gestão. E é sobre a gestão dessa autoria que falaremos no próximo capítulo, utilizando-nos do modelo teórico-metodológico proposto por Dominique Maingueneau (2012), a paratopia criadora, para procurar descrever esse funcionamento autoral

78

capítulo 3

paratopia criadora nas plataformas colaborativas