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1.5. Qualidade de vida e atividades produtivas no Tororó: é igual a uma onda, vai e vem ninguém nunca deixa de vez o mar

1.6.1. Vulnerabilidade sócio-ambiental a partir da década de

O governo do estado da Bahia tem empreendido esforços para atrair indústrias da cadeia produtiva naval para a costa baiana. Dentro deste projeto de desenvolvimento se destaca a região da Baía de Aratu sob a alegação de que as águas da região da Baía, em particular o Canal de Cotegipe, que dá acesso ao Saco do Tororó, possuiria valor estratégico, pois ao mesmo tempo em que teriam grandes profundidades naturais se destacariam pela existência de “águas abrigadas”. Ou seja, possuiriam proteção natural que as tornariam ausentes de qualquer condição perigosa, permitindo que a embarcação, em caso de situação

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Caranguejo de grande porte também conhecido como caranguejo-da-terra. 22

emergencial, tenha condições mínimas para alcançar terra firme, o que garantiria condições adequadas de navegabilidade, manobras e acesso seguro para embarcações.

Ao longo da pesquisa foram mencionados os seguintes empreendimentos: Centro Industrial de Aratu (CIA), Porto de Aratu, Porto da Ford, Marina de Aratu/Iate Clube de Aratu, C-Port Porto Cotegipe LTDA, Grande Moinho Aratu do Grupo Moinho Dias Branco, Centro de Abastecimento Alimentar, MFX do Brasil - Equipamentos de Petróleo LTDA (Equipetrol), SGS do Brasil, Base Naval de Aratu e mais recentemente o Canteiro Naval e Náutico de Aratu (CNNA). Parte dos empreendimentos citados possui vínculo com a Secretaria de Indústria Comércio e Mineração (SICM). Destacarei as relações estabelecidas com a Marinha e com o Moinho Dias Branco, pois são a eles que as falas dos moradores remetem com maior ênfase.

Em 1967 foi fundado, entre os municípios de Simões Filho e Candeias o Centro Industrial de Aratu (CIA), um complexo industrial que abrange 144 empresas, sendo 121 instaladas no município de Simões Filho e 21 em Candeias, em sua área encontra-se em operação o Porto de Aratu.

O porto de Aratu foi criado para atender às indústrias que iriam se instalar no CIA. Localiza-se no município de Candeias na Baía de Aratu, próximo à entrada do canal de Cotegipe. Funciona como meio de escoamento da produção e da entrada de produtos para o pólo petroquímico de Camaçari, o Centro Industrial de Aratu e o complexo da Ford de Camaçari. É administrado pela Companhia das Docas do Estado da Bahia (CODEBA).

Segundo morador local algumas famílias rurais de agregados das localidades que antigamente constituíam as antigas fazendas de Boca do Rio e Cassenda migraram para São Tomé de Paripe quando a área foi desapropriada para a instalação do Porto de Aratu, algumas destas famílias fixaram residência e permaneceram no território do Tororó.

Junto a formação geográfica Saco do Tororó está a Marina de Aratu/Iate Clube de Aratu. “Clube de luxo”, frequentado por pessoas consideradas de “alta sociedade” de Salvador. A relação entre os moradores do Tororó e membros do clube é marcada por tensão, além de serem impedidos de pescar próximo ao Iate Clube, moradores foram acusados de furtar motores das lanchas aportadas dos associados, configurando uma experiência de violência moral de desrespeito.

A Base Naval de Aratu é uma base militar da Marinha do Brasil, localizada na Baía de Aratu, a qual liga-se à Baía de Todos os Santos pelo rio Cotegipe. Em 1949 foi proposta a construção da Base Naval em Aratu, em local que havia servido de Base Aeronaval da Marinha dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Após a guerra a base foi entregue ao Brasil, ficando a Marinha com a Base Aeronaval de Aratu. A Base entrou em funcionamento em janeiro de 1970.23

Narrativas sobre o tempo dos americanos são recorrentes na memória social da comunidade do Tororó. A relação, com os militares, teria início em uma narrativa conhecida na comunidade sobre Vovó Teka. Foi Teka quem encontrou americanos no meio do mato procurando quem lavasse suas roupas, ou seja, já naquela época os militares “eram de fora”. A partir deste pequeno “mito de origem” da relação entre os moradores do Tororó e o pessoal da Marinha nasce uma relação sempre marcada pela assimetria entre as forças, assimetria esta reconhecia até por aqueles da comunidade que entendem ser necessário uma “negociação” sem “conflito” com a Marinha.

A instalação da Base Naval, em 1970, foi um marco no histórico da comunidade do Tororó, tendo sido responsável pelo desencadeamento de processos relacionados a questões que abrangem esferas simbólicas e materiais do grupo, tais como, relações de trabalho, territorialidade, parentesco, relações com recursos naturais e mobilização política.

A profundidade do impacto causado pela instalação da Base Naval foi significativa porque foi além do que representou a instalação da própria Base, a Marinha concedeu “Cessão de Uso”, em 1977, de várias áreas que tradicionalmente compõem a territorialidade do grupo, para exploração das grandes empresas “com a finalidade de nela serem tentados „Conteiners‟ e conjuntos de sondas moduladas destinadas à perfuração de poços de Petróleo” 24. Um exemplo dessas localidades é a Ponta do Fernandinho, as margens do Canal de Cotegipe, onde os moradores tradicionalmente pescavam e mariscavam. Após a instalação da empresa MFX do Brasil - Equipamentos de Petróleo LTDA (Equipetrol), no final da década de 1970, os moradores foram impedidos de acessar o local.

Alguns moradores apontam que apesar das relações conflituosas com a Marinha evidenciadas através dos relatos de desrespeito e violência empreendidos contra moradores do

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Fonte: sitio da Base Naval de Aratu - https://www.mar.mil.br/bna/ 24

grupo, até o presente momento o empreendimento impulsionado pelo desenvolvimento da região que produziu impacto mais significativo sob o grupo foi a construção da Estrada do Moinho pela Equipetrol.

O impacto causado pela instalação das empresas onde hoje está o Moinho Dias Branco foi significativo, pois além de destruir o principal meio de produção do grupo causou deslizamentos de terra na comunidade e erosões que alteraram a espacialidade do grupo. Com a construção da estrada que liga a Base Naval de Aratu (BA 528) ao estaleiro da Equipetrol, no final da década de 70, sem o cumprimento das devidas medidas de segurança, ocorreram sucessivos episódios de escorregamento de terra e a Prefeitura de Salvador moveu uma ação que pretendia transferir os moradores do Tororó para o bairro “Nova Constituinte”, bairro do Subúrbio próximo à Peri-peri. Felizmente não houveram feridos durante o deslizamento de terra, o abalo foi emocional, muitos ficaram com medo constante, um rapaz teria ficado em estado de choque e se mudou da comunidade.

Mediante alegação da Prefeitura de Salvador de que a comunidade iria desmoronar, alguns moradores deixaram o território indo morar no bairro Nova Constituinte, segundo narrativas locais, alguns deles se arrependeram posteriormente, mas não puderam retornar pois já não havia mais espaço.