Mesmo com os avanços políticos voltados para ampliação do controle social, da consolidação de arranjos participativos, da expansão de direitos sociais e do desenvolvimento de políticas redistributivas, principalmente no contexto de redemocratização dos anos 1980, o Brasil ainda convive com níveis inaceitáveis de pobreza e exclusão socioeconômica (YASBEK, 2004; FLEURY, 2007).
A partir da Constituição Brasileira de 1988, a pobreza passou a ser reconhecida como um problema nacional que deveria ser combatido por meio das três esferas do governo e também pela sociedade civil. Nesse contexto, estabeleceu-se um compromisso de erradicar a pobreza e a marginalização, de promover a integração social dos desfavorecidos e de reduzir as desigualdades sociais e regionais, sendo todas estas ações competência comum da União, estados, Distrito Federal e municípios (BRASIL, 1998; KEPPLE & SEGALL-CORRÊA, 2011).
O principal indicador de pobreza utilizado atualmente é a determinação da renda familiar per capita. Esse indicador estima de maneira indireta a vulnerabilidade à fome, visto que os baixos rendimentos apresentam restrições quanto ao acesso a uma alimentação adequada. Normalmente adota-se um ponto de corte nas faixas de
rendimento, classificando os indivíduos como vivendo acima ou abaixo da linha da pobreza pré-determinada. Pode-se ainda agrupar e classificar as famílias por frações do valor do salário mínimo vigente para dimensionar a magnitude da pobreza. São vários os métodos usados para cálculo da linha da pobreza e a maioria leva em conta os custos da cesta básica e dos gastos com outros bens não alimentares também considerados essenciais (ROCHA, 2000).
No Brasil, o PBF trabalha com duas faixas de renda que se constituem como frações do salário mínimo nacional para inserção das famílias no Programa. São classificadas como famílias vivendo em extrema pobreza aquelas que apresentam renda mensal per capita de até R$ 70,00 e famílias vivendo em pobreza aquelas que apresentam renda mensal per capita entre R$ 70,01 e R$ 140,00, o que corresponde entre 10% e 20% do salário mínimo atual (2013), cujo valor é de R$678,00 (BRASIL, 2011).
Outra linha de classificação muito utilizada é proposta pela ONU, a qual considera extremamente pobres os indivíduos que vivem com menos de US$1,25/dia (KEPPLE, GUBERT & SEGALL-CORRÊA, 2011).
De forma geral, a pobreza pode ser compreendida quando uma população não tem as condições necessárias para usufruir de uma vida digna, ou seja, não dispõe dos mínimos aceitáveis como saúde, alimentação, educação, vestuário e moradia. Sem essas condições não há possibilidade do exercício pleno da cidadania (CARVALHO, 1997).
As famílias pobres constituem um grupo populacional marginalizado, pois ao não serem beneficiadas pelas políticas sociais básicas (trabalho, saúde, saneamento, educação, alimentação e habitação) encontram-se em situação de risco e vulnerabilidade social e econômica. Nesse contexto, a pobreza assume um significado excludente (GOMES & PEREIRA, 2005).
Segundo Fleury (2007), a vulnerabilidade social é determinada pela estrutura desigual, especialmente no que tange a distribuição de renda e as oportunidades de inclusão social e econômica.
... os grupos excluídos estão, em geral, impossibilitados de participar das relações econômicas predominantes – no mercado, como produtores e/ou consumidores – e das relações políticas vigentes. (FLEURY, 2007, p. 1424).
A avaliação da pobreza deve contemplar não apenas os aspectos chamados de “objetivos”, mas também os aspectos “subjetivos” e considerá-la tanto sob a ótica absoluta que corresponde à insuficiência de renda, como também relativa, como as representações sociais e preconceitos que recaem sobre esse grupo populacional excluído da sociedade (BURLANDY, 2007).
De acordo com Menezes (2008), a pobreza no Brasil é um problema complexo, com muitas expressões e diferentes demandas. Existe a pobreza determinada pelas especificidades regionais e até mesmo locais. Além disso, a pobreza urbana é diferente da vivida na área rural.
Na percepção que as próprias pessoas pobres têm de si, a pobreza se identifica e se mede pelas vulnerabilidades, que podem ser muitas. Família monoparental, doença crônica e outras limitações físicas permanentes, analfabetismo, residência distante de serviços, estado precário da habitação e muitos outros determinantes que, combinados com a baixa renda, caracterizam o risco permanente de estar em uma situação de carências de necessidades essenciais. Adotam, assim, concepção ampliada de pobreza, ao mesmo tempo que assumem um significado relativo dessa mesma pobreza, comparando as capacidades de satisfação das necessidades determinadas socialmente no espaço de convívio. (MENEZES, 2008, p.60).
Contudo, especialistas enfatizam que o Brasil não é um país pobre, mas extremamente injusto, desigual e com muitos pobres e a origem da pobreza do Brasil não está associada à falta de recursos, mas sim à má distribuição dos recursos disponíveis. Portanto, a enorme desigualdade na distribuição de renda é apontada como sendo a causa determinante da pobreza no país (BARROS, HENRIQUES & MENDONÇA, 2000).
A vulnerabilidade socioeconômica das populações é fator determinante da insegurança alimentar e dos problemas nutricionais decorrentes de uma alimentação insuficiente do ponto de vista qualitativo e quantitativo. Famílias que apresentam baixa renda familiar per capita normalmente vivem em situação de insegurança alimentar, pois não apresentam condições financeiras suficientes para proporcionar segurança na aquisição de uma alimentação que supra as necessidades nutricionais da família como um todo e de modo permanente (PANIGASSI et al., 2008a).
Como forma de combater a pobreza, o governo brasileiro, assim como em outros países, criou programas de transferência condicionada de renda destinados a famílias em condição de vulnerabilidade social com dificuldades de acesso e consumo de alimentos em quantidade e qualidade adequada. As políticas de
transferência de renda podem ter papel relevante na melhoria das condições sociais da população, especialmente entre aqueles em situação de extrema pobreza. Além disso, podem contribuir para a redução da insegurança alimentar e da fome (SEGALL-CORRÊA et al., 2008). O PBF transfere mensalmente para as famílias cadastradas valores monetários que variam de R$ 32 a R$ 3063, de acordo com a renda mensal per capita familiar, com o número de crianças e adolescentes de até 17 anos e número de gestantes e nutrizes componentes da família (BRASIL, 2013a).
Recentemente surgiu uma novidade no valor da TCR destinada aos integrantes do PBF: no dia 19 de fevereiro de 2013, o governo anunciou que 2,5 milhões de beneficiários do Bolsa Família que ainda permaneciam em situação de miséria passariam a receber, ao longo do ano de 2013, complementação de renda para que todos as famílias integrantes do Programa apresentassem renda mensal per capita superior a R$ 70,004. A estimativa é que haja um investimento de R$ 773 milhões no ano de 2013 por parte do governo federal, cujo objetivo é eliminar a extrema pobreza no país (BRASIL, 2013a).
De acordo com Burlandy (2007), as transferências de renda são responsáveis pela redução de aproximadamente 30% nas desigualdades de rendimentos no Brasil. Algumas pesquisas apontam que a TCR chega a representar cerca de 20%
do orçamento familiar (MARQUES & MENDES, 2007). Já para outras famílias a principal fonte de renda é proveniente da TCR, conforme foi constatado na pesquisa de UCHIMURA et al., (2012), realizada em Curitiba-PR.
Na sequência, abordaremos o maior programa nacional de combate à fome e à miséria que o Brasil desenvolveu na tentativa de promover a SAN das famílias com baixa renda.
3 Valores referentes ao ano de 2012.
4 O valor dessa complementação pode variar de acordo com a necessidade de cada família. O cálculo do valor a ser pago é feito de forma individualizada, de modo que a família receba a quantia necessária para garantir a renda mensal superior a R$ 70,00 por pessoa. O valor mínimo da parcela de acréscimo é de R$ 2,00 por família, e o benefício será pago sempre em intervalos de R$ 2,00, até que a renda por pessoa da família supere R$
70,00.
2.3 FOME ZERO E PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA: DAS POLÍTICAS PÚBLICAS