RESUMO
Américo Nave e Rita Pereira Marques *
A presente comunicação abre com a missão e visão da CRESCER cujo foco é ir ao encon- tro da pessoa em situação de vulnerabilidade de acordo com a filosofia da Redução de Riscos e Minimização de Danos (RRMD). Entende-se por “pessoas em situação vulneráv- el” aquelas que se encontram excluídas das estruturas sociais e de saúde, não usufru- indo em pleno dos seus direitos enquanto cidadãs. Apresentam-se, na maioria das vezes, numa situação psicológica, emocional e física muito fragilizada.
Definiu-se, assim, a população alvo da CRESCER: pessoas que consomem substâncias psicoativas lícitas e ilícitas, pessoas que consomem álcool, trabalhadores do sexo, pes- soas em situação de sem abrigo, requerentes de asilo, refugiados e migrantes.
Partindo de uma reportagem fotográfica, percorreu-se o lugar da cidade para a CRESCER como um lugar de vulnerabilidade, apresentando uma outra face para além da realidade glamorosa da cidade. Cidade de ruínas, cidade de lixo, cidade de consumos, lugares onde as casas são construídas com bocados destruídos de outras casas. Lugares onde a CRESCER chega através das suas equipas técnicas de rua.
Em oposição à cultura da normalidade, na qual os serviços estão estruturados para pro- mover e potenciar a exclusão, colocando condições ao acesso a um alojamento digno, ao rendimento digno e aos cuidados de saúde adequados, a CRESCER defende a necessi- dade de se pensar e implementar estratégias verdadeiramente inclusivas nos territórios. Consideramos fulcral a adequação das respostas às necessidades individuais apuradas no terreno, cabendo aos decisores políticos a implementação de estratégias inovadoras que promovam um real impacto na coesão social e na inclusão, como é o caso da metodo- logia Housing First para situações de vulnerabilidade crónica.
Abordou-se ainda a inclusão como fenómeno multidimensional (inclusão física, inclusão psicológica e inclusão social), bem como os fatores inclusivos que sustentam o para- digma do modelo do Housing First (acesso aos recursos da comunidade, desenvolvimento de redes sociais, participação cívica, participação em atividades promotoras do vínculo à comunidade local, habitação permanente e individualizada, bairros estáveis /fixos). É importante relacionarmo-nos com os públicos mais vulneráveis e ouvi-los, de forma
um projeto pessoal com vista ao empowerment, autonomia e recuperação, respeitando sempre as suas necessidades e ritmos. Esta intervenção especializada é realizada por parte de um gestor de caso que acompanha e apoia o beneficiário em múltiplas dimen- sões, desde o acesso aos recursos da comunidade, aos serviços de saúde e sociais da sua área de residência, o apoio psicológico e social, bem como o apoio na adaptação e gestão da casa.
Foram apresentados alguns dados descritivos dos beneficiários do Projeto É UMA CASA, Lisboa Housing First entre 2013 e 2018 no que diz respeito ao número total de beneficiári- os integrados (51 beneficiários - 43 homens e 8 mulheres); à média de anos de rua (15 anos de rua, sendo a mais baixa 3 anos e a mais alta 47 anos de rua) e à média de idades das pessoas acompanhadas, que é de 51 anos.
Apresentaram-se também dados quantitativos relevantes que sublinham a eficácia e o impacto desta metodologia de intervenção, nomeadamente o facto de 89% dos ben- eficiários não terem voltado à situação de sem abrigo, observar-se um aumento significa- tivo da qualidade de vida e valorização pessoal, bem como uma redução significativa do uso de substâncias psicoativas. De destacar que, dos 39 beneficiários atualmente inte- grados no projeto É UMA CASA, antes da sua entrada 31 beneficiários possuíam situações de comorbilidade física/psíquica; 26 tinham consumos de álcool; 16 tinham consumos de substâncias psicoativas (heróina e cocaína) e 15 não tinham qualquer acesso a cuida- dos de saúde. Para além disso, 25 encontravam-se sem qualquer acesso a apoios sociais regulares e sem fonte de rendimento estruturado; 24 encontravam-se sem documentos de identificação e 30 sem contato com rede de suporte familiar. Após a entrada no proje- to, 38 apresentaram uma redução significativa dos consumos de substâncias psicoativas; 32 aderiram a medicação; 34 foram inscritos no centro de saúde da área de residência; 35 acederam a consultas de especialidade e 9 integraram programas de substituição opiá- cea. De sublinhar também que 2 beneficiários integraram mercado de trabalho.
Por último, apresentaram-se outros lugares da cidade de forma a sustentar o imperativo e a necessidade das salas de consumo assistido. Através de um relato fotográfico, apresen- tou-se a existência atual de contextos de consumo a céu aberto sem quaisquer condições de higiene e habitabilidade.
Em suma, foi defendido que as pessoas em situação de vulnerabilidade são o maestro da nossa intervenção e que as respostas existentes devem partir de um conhecimento apro- fundado do terreno e respeitar as necessidades e realidades individuais.
Pode afirmar-se que estes foram os momentos chave para o processo de regeneração da Mouraria: um forte trabalho em rede, uma sociedade civil fortalecida e uma vontade comum de transformar a Mouraria num bairro com mais oportunidades, melhor qualidade de vida e mais inclusão das comunidades vulneráveis.
A ARM começou por desenvolver projectos em espaço público e em espaços de parceiros, por falta de espaço próprio, dinamizando visitas guiadas ao bairro com o intuito de mos- trar o seu riquíssimo património material e humano e procurando desmistificar o estigma negativo associado. Estas visitas, juntamente com as Rondas Pelas Tasquinhas e Restau- rantes, acompanhadas com música, procuravam ainda responder à enfraquecida situação financeira do comércio local, por força do fechamento do território.
Paralelamente, a ARM criou o Rosa Maria, um jornal comunitário para dar a conhecer o bairro e potenciar a literacia e participação cívica. Foi também criado o áudio-livro Há Fado na Mouraria que resultou de um concurso com letras inéditas sobre a Mouraria e que propunha o regresso da vivência do fado ao bairro que o viu nascer.
O trabalho da ARM ganha novo fôlego com a reabilitação de um edifício devoluto, em parceria com o Atelier de Arquitectura Artéria, e apoiado pelo programa BipZip, da CML, e por uma série de doadores de materiais para a reabilitação do que viria a ser a Mouradia- Casa Comunitária da Mouraria, inaugurada a 8 de Dezembro de 2012.
Desde então, a Mouradia acolhe uma série de projectos centrados em 3 eixos centrais: -Desenvolvimento Social e Comunitário, com alfabetização e ensino de português a imi- grantes e refugiados, o apoio ao estudo a crianças e jovens locais e o desenvolvimento de actividades não formais ao longo do ano e nas férias escolares, o apoio jurídico centrado nos processos de regularização das comunidades migrantes e refugiadas, em apoio labo- ral e, mais recentemente, nas problemáticas ligas à habitação.
-Desenvolvimento Local, com a promoção do comércio local, a formação de guias e de- senvolvimento de visitas guiadas feitas pelas comunidades migrantes, e a Rota das Tas-