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VYGOTSKY E OS CONCEITOS DE ATIVIDADE E MEDIAÇÃO

Em sua obra Mind in Society, Vygotsky (1978) aborda o conceito de atividade (Tãtigkeit) destacando que seu caráter social pode fundamentar a formação da consciência humana ligado à atividade material. Ele não analisou amplamente a relação entre atividade e desenvolvimento da consciência, mas, defende que a atividade pode ser a geradora da consciência. Mesmo assim, o conceito de Atividade é chave nesse arcabouço teórico, pois será retomado e ampliado no decorrer da evolução conceitual, com Leontiev e Engeström.

Em seus estudos, Vygotsky (1978), considera a atividade como reprodutora, criadora e transformadora tanto de ideias da natureza ou do próprio ser humano como fundamento do materialismo histórico e dialético. Já na obra Pensamento e Linguagem, Vygotsky (1993), aponta que as características tipicamente humanas não estão presentes desde o nascimento do indivíduo, nem são mero resultados das pressões do meio externo. Elas são resultantes da interação dialética do ser humano e seu meio sociocultural. Assim, ao mesmo tempo em que o ser humano transforma o seu meio para atender suas necessidades básicas, transforma a si mesmo. No tempo de Vygotsky prevaleciam na psicologia as teorias advindas das correntes filosófica empirista e idealista. Conforme Rego (1995, p. 28), havia:

[...] de um lado um grupo que, baseado em pressupostos da filosofia empirista, via a psicologia como ciência natural que devia se deter na descrição das formas exteriores de comportamento, entendidas como habilidades mecanicamente construídas. [...] O outro grupo, inspirado nos princípios da filosofia idealista, entendia a psicologia como ciência mental, acreditando que a vida psíquica humana não poderia ser objeto de estudo da ciência objetiva, já que era manifestação do espírito.

A abordagem mecanicista deixava de abordar as funções psicológicas mais complexas do ser humano e a abordagem idealista detinha-se em descrições subjetivas dos processos de formação da mente, o que não podia ser considerado um método científico. (REGO, 1995)

Em sua obra A formação Social da Mente, Vygotsky (1999), critica essas correntes da psicologia por serem insuficientes para explicar os processos decorrentes da relação entre ser humano e a realidade, pois não reconheciam a influência de mediadores, como instrumentos ou ferramentas. A explicação do desenvolvimento da consciência deveria ser fundamentada nas relações sociais, uma vez que estas poderiam ser geradoras da consciência. Para isso, defendeu o princípio de que a consciência individual se constrói nas relações com os outros.

Nesse sentido, é na atividade, nas interações entre os seres humanos e destes com a natureza que as funções psíquicas ser originam e se desenvolvem.

Segundo Vygotsky (1999), para a compreensão do desenvolvimento da consciência é necessário considerar as condições concretas de vida e de atividade do ser humano e suas relações com a natureza social dos processos psicológicos.

Nessa perspectiva, considera o ser humano como um sujeito ativo que não simplesmente contempla a realidade, mas que desenvolve as funções psíquicas humanas, a consciência, reconstruindo assim esta realidade.

Na concepção de Vygotsky (1999), é a presença de nexos mediativos, que podem ser signos ou ferramentas, que propiciam ao ser humano o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, sendo essas funções aquelas que caracterizam o funcionamento psicológico tipicamente humano, ou seja, as ações conscientes controladas, a atenção voluntária, a memorização ativa, o pensamento abstrato e o comportamento intencional. Para o autor, os processos psicológicos superiores se diferenciam de mecanismos mais elementares, como reflexos, reações automáticas e associações simples. Considerando a presença dos nexos mediativos, Vygotsky (1999), propôs o conceito de mediação, que pode ser entendido como um processo de intervenção de um elemento intermediário na relação entre o sujeito e o objeto.

Os signos, assim como os instrumentos, conforme Vygotsky (1999, p. 9),

“são criados pelos seres humanos ao longo da história da sociedade e mudam a forma social e o nível de desenvolvimento cultural”. Assim, considera a mediação na interação ser humano e ambiente pelo uso de instrumentos e de signos (linguagem, sistemas para contagem, técnicas mnemônicas; sistemas algébricos, obras de arte, escritos, esquemas, diagramas, mapas, desenhos etc).

De acordo com Rego (1995, p. 50) dois elementos são responsáveis pela mediação: “o instrumento, que tem a função de regular as ações sobre objetos e o signo, que regula as ações sobre o psiquismo das pessoas”. Evidencia-se assim o papel dos elementos mediadores na formação da consciência, pois, “toda forma elementar de comportamento pressupõe uma reação direta à situação-problema defrontada pelo organismo – o que pode ser representado pela fórmula simples (Sujeito→Resposta)”. (VYGOTSKY, 1999, p. 9)

Na estrutura da operação com signos e/ou ferramentas, faz-se necessário um elo entre o estímulo e a resposta. Esse elo inserido na operação tem uma função especial: cria uma nova relação entre Sujeito e o Ambiente. Desse modo, o processo simples estímulo-resposta é substituído por um ato complexo, mediado. A relação mediada entre os seres humanos e o ambiente está representada na figura 01. O sujeito é o agente cujo comportamento será analisado. Os artefatos mediadores são as ferramentas ou ideias empregadas pelo sujeito para o alcance de seu objetivo. O objeto se refere ao material ou situação sobre o qual o sujeito vai agir em interações contínuas com outros sujeitos.

Figura 01: Elo mediador entre sujeito e ambiente.

Fonte: Adaptado de Vigotsky (1999, p. 53).

A mediação evidencia que a relação entre o indivíduo e o meio natural não acontece de maneira direta, mas é sempre culturalmente mediada, pois o uso de

elementos mediadores caracteriza a relação entre o ser humano e seus pares e entre o ser humano e o mundo. (SANTOS, 2000)

Os pressupostos de Vygotsky (1999), buscam evidenciar que a formação da consciência emerge da interação com o ambiente. Nesse processo destacam-se dois conceitos: internalização e externalização. Nessa perspectiva, uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e passa a ocorrer internamente. Para Vygotsky (1999, p. 75), “a transformação de um processo interpessoal num processo intrapessoal é o resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do tempo do desenvolvimento”. Para o autor, o processo de internalização se complementa pelo processo de externalização, uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente, ou seja, um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal.

O processo de internalização de formas culturais envolve a reconstrução da atividade psicológica, tendo como base as operações com signos. A internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana (VYGOTSKY, 1999). Ao se referir ao processo de internalização, Vygotsky (1999), pressupõe que as imagens mentais construídas pelo indivíduo agem como elementos mediadores entre o ser humano e o ambiente. Assim, o desenvolvimento individual ocorre a partir da interação com o ambiente e com os outros indivíduos pelos processos de internalização e externalização (dialética) de signos e sistemas de símbolos, sofrendo as interferências desse ambiente.

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