• Nenhum resultado encontrado

VYGOTSKY, WALLON E A (IN)DISCIPLINA ESCOLAR

consequentemente, faz com que ele crie condições para que permaneça nesse ambiente.

Nesse aspecto, a afetividade gera esse desejo do aluno em aprender, não como uma obrigação, e essa afetividade não se resume apenas a gestos de cuidado e carinho, mas ao encorajamento, motivação, confiança e respeito mútuo. Essa ação faz com o aluno crie comprometimento e responsabilidade com o contexto escolar e estar ali se torna uma escolha positiva, pois perceberá com mais clareza seu verdadeiro papel nesse contexto (WALLON, 1975).

Para Leite (2006), a formação de educadores em relação à afetividade trazida por Wallon (1968) é de extrema necessidade a partir do momento que se percebe que eu afeto e sou afetado pelo outro de forma positiva ou negativa, e que isso interfere diretamente no bom relacionamento dentro do contexto escolar.

Essa formação deve ser continua e reflexiva, envolvendo tanto a teoria como prática voltada para a realidade escolar, pois a sala de aula é um ambiente diversificado, com diversos tipos de realidades presentes, mas que com a afetividade trará mais proximidade nas relações estabelecidas e facilitará o trabalho do professor, principalmente em relação ao controle da indisciplina. No entanto, o maior desafio ainda é esse, compreender o aluno em sua totalidade e concretude através dessa afetividade (LEITE, 2006). No próximo capitulo tecemos um diálogo entre as teorias de Vygotsky e Wallon e a indisciplina.

Nessa proposta de Wallon (1968), o meio social apresenta destaque no desenvolvimento humano por meio dessa interação e integração dos aspectos motor, cognitivo e afetivo, sendo esse último um dos alicerces dos estudos do autor em relação ao seu poder de influência e como pode ser utilizada como ferramenta no processo de ensino e aprendizagem (WALLON, 1978).

Vygotsky (1991), por sua vez, também trabalha o desenvolvimento humano a partir das relações sociais que o sujeito estabelece ao longo da vida, de forma que o processo de ensino e aprendizagem depende dessa interação com os diferentes contextos sociais, e não se limita apenas a sala de aula. Assim, ele nos mostra a necessidade de mediação nesse processo de conhecimento, cabendo ao professor desempenhar esse papel tão importante, além de ter a sensibilidade de percepção do aluno como um ser social, conhecendo sua realidade e promovendo um saber contextualizado, integrando e interagindo uma troca de saberes de forma dinâmica e enriquecedora para os alunos.

Wallon (1968) condena o sistema de ensino que engessa a prática pedagógica, critica todo sistema que propõe um sistema tradicional e autoritário, ascendendo o professor e torna o aluno submisso, com atividades totalmente fora do contexto real do aluno, o que parece um “adestramento” de crianças. Para o autor, ações assim estimulam a indisciplina, no entanto obriga as crianças a se adequarem nesse sistema, porém na primeira oportunidade tudo foge ao controle. O sentimento de responsabilidade e respeito surge quando ela se sente pronta para participar de regras sociais e consegue entendê-las.

Wallon (1986) busca explicar que, através de emoções e sentimentos, é possível fazer com que o indivíduo se sinta parte integrante do grupo, compartilhe suas experiências, se sinta motivado e animado a continuar naquele ambiente. Essa afetividade trazida pelo autor contribui inclusive na resolução de conflitos, principalmente em se tratando de indisciplina. Nesse contexto, a afetividade entra como modeladora de comportamento e ocupa o centro de todo o processo para determinar o resultado.

Segundo Wallon (1986, p. 55), “A escola é, também, um meio funcional. As crianças a frequentam para instruírem-se e devem familiarizar-se com um novo tipo de disciplina e de relações interindividuais”.

Para Vygotsky (1993), todo indivíduo é dependente do outro para a construção de seu conhecimento. Escolas que buscam alunos comportados, sentados em filas e passivos de conhecimento, consequentemente terão como resultado a indisciplina. É preciso, nesse sentido, que tanto a escola como a sala de aula seja um ambiente dinâmico e convidativo pata a aprendizagem, com boas práticas e o desenvolvimento voltado para as relações interpessoais, sendo que a indisciplina nesse contexto não terá oportunidade de se instalar no ambiente, pois o maior estímulo disciplinar é o desejo de atingir objetivos.

Essa nova forma de pensar sobre o sujeito e suas concepções, considerando seu desenvolvimento e sua aprendizagem através do meio social, traz uma maior valorização para o contexto social que o aluno está inserido e considerado como fator determinante de aprendizagem (VYGOTSKY, 1993).

O processo educacional assim está ligado ao processo histórico cultural de cada indivíduo, no qual ele aprende socialmente a ser o que é, percebendo-se como um ser capaz de estabelecer relação com o outro, com seu meio e consigo mesmo (VYGOTSKY, 1993).

Wallon (1986) define os sentimentos e emoções como uma forma de expressão do ser humano, expressão essa manifestada por meio de seus desejos, vontades e necessidades. Por isso, a necessidade de estudar e compreender melhor essa relação afetiva que o sujeito estabelece com o mundo, pois somente com o entendimento dessa afetividade que o professor conseguirá fazer a intervenção correta.

Wallon (1988) fala que essa intervenção realizada pelo professor, e o modo como ela é feita, reflete diretamente nas relações de ensino e aprendizagem do aluno. A entonação da voz, a forma de gesticular, a postura, expressões, entre outras formas são fatores influentes no comportamento e na resposta dos alunos nesse processo de aprendizagem. Uma intervenção mal realizada pode ocasionar justamente o estímulo maior ainda para a indisciplina.

Isso não ocorrerá se utilizar a afetividade como ferramenta na prática, não somente dando carinho e atenção aos alunos, mas se trata do estímulo, despertar o interesse,

motivar e criar um ambiente que atenda às reais necessidades dos alunos, não é preciso e nem aconselhável podar emoções e sentimentos dos alunos, mas direcioná-los para que organizem suas capacidades cognitivas para que aconteça seu pleno desenvolvimento intelectual e social (WALLON, 1971).

Esse direcionamento faz com que os afetos sejam utilizados para um fim específico, pois a criação de um vínculo afetivo com o professor, e até mesmo entre os alunos, facilita muito mais o processo de aprendizagem do aluno. Wallon (1971) configura que o sujeito passa por diversas transformações e que ele sofre influência tanto positiva ou negativa do seu meio social, daí a Importância de o professor ser o mediador nesse processo afetivo, para que se alcance bons resultados escolares e não aconteça espaço para o surgimento da indisciplina.

Para Vygotsky (1998), o ser humano se apropria de cultura através das relações que estabelece com o seu meio, reproduzindo essa cultura, crenças e valores a partir do contexto em que ele está inserido. Esse processo também exige uma mediação que oriente o aluno a boas práticas sociais e escolares.

Dentro de um processo de conhecimento e relações estabelecidas surgem muitos conflitos e acabam originando a indisciplina, principalmente quando há divergência de ideias e pensamentos, há um desencontro entre teoria e prática, ocasionando um conflito de interesses entre professor e aluno. Muitos problemas de indisciplina ainda ocorrem devido ao desrespeito por ambas as partes de forma diferente, do aluno que sai da sala sem pedir, até o professor que rotula seu aluno fazendo com que o processo de ensino e aprendizagem se torne inviável (VYGOTSKY, 1998).

Há, portanto, uma nova forma de organização e das relações estabelecidas na escola, trazendo a afetividade como ferramenta pedagógica para a formação integral do indivíduo e no combate à indisciplina (WALLON, 1975).

Essa indisciplina deve ser canalizada para a aprendizagem e isso requer muito esforço e criatividade, pois a indisciplina é um grande potencial do aluno, porém utilizado de forma equivocada, uma vez, que essa energia deveria ser utilizada para a construção de saberes e transformação social (REGO, 1998).

Nesse ponto de vista, a indisciplina na visão Vygotskyana não necessariamente será um fardo para o processo de aprendizagem, mas um desafio do aluno com a instituição, desde que seja feita a canalização dessa indisciplina de forma adequada, dinâmica e não se limite apenas à sala de aula, mas abranja todo contexto social do aluno. Essa canalização da indisciplina se trata do aluno não aceitar sempre a mesmice, que seja um sujeito crítico-participativo, humano e tenha autonomia de escolha, respeitando a diversidade e lutando pela inclusão e igualdade social (REGO, 1998).

O ser humano é capaz de aprender e se desenvolver a partir das relações estabelecidas com o meio e consigo mesmo, não se limitando apenas ao ambiente familiar ou escolar, mas todo o contexto em que o sujeito está envolvido, sendo ele capaz de desconstruir qualquer forma de engessamento de saberes a partir dessas interações que se estabelece com o meio (REGO, 1998).

O próximo capítulo apresenta as considerações sobre esse estudo, apontando o que se pode observar ao longo do percurso, bem como possíveis possibilidades para superar a indisciplina.

Documentos relacionados