O Flâneur Jogo e Prostituição
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pertam uma surpreendente ressonância. O lampião a gás que resplandece sobre o calçamento projeta uma luz ambígua sobre esse fundo duplo.
Uma embriaguez acomete aquele que longamente vagou sem rumo pelas ruas. A cada passo, o andar ganha uma potência crescente; sempre menor se toma a sedução das lojas, dos bistrôs, das mulheres sorridentes e sempre mais irresistível o magnetismo da próxima esquina, de uma massa de folhas distantes, de um nome de rua. Então vem a fome. Mas ele não quer saber das mil e uma maneiras de aplacá-la. Como um animal ascético, vagueia através de bairros desconhecidos até que, no mais profundo esgotamento, afunda em seu quarto, que o recebe estranho e frio.
O flâneur como tipo o criou Paris. É estranho que não tenha sido Roma. Qual a razão? Acaso, na própria Roma, não encontra o sonho vias trilháveis? E não está a cidade mais do que repleta de templos, praças cercadas, santuários nacionais, para poder penetrar indivisa, com cada paralelepípedo, com cada tabuleta, com cada degrau, com cada pórtico, no sonho do transeunte? Muito também se pode atribuir ao caráter nacional dos italianos. Pois não foram os forasteiros, mas eles, os próprios parisienses, que fizeram de Paris a Terra Prometida do flâneur, “a paisagem construída puramente de vida”, como a chamou certa vez Hof- mannstahl. Paisagem — eis no que se transforma a cidade para o flâneur. Melhor ainda, para ele, a cidade se cinde em seus pólos dialéticos. Abre-se para ele como paisagem e, como quarto, cinge- o.
Aquela embriaguez anamnéstica4 em que vagueia o flâneur pela cidade não se nutre apenas daquilo que, sensorialmente, lhe atinge o olhar; com freqüência também se apossa do simples saber, ou seja, de dados mortos, como de algo experimentado e vivido. Esse saber sentido se transmite sobretudo por notícias orais. Mas, no decurso do século XIX, sedimentou-se igualmente numa literatura quase interminável. Já antes de Lefeuve, que retratara Paris “rue par me, maison par maison”, o cenário paisagístico do ocioso sonhador fora repetidamente pintado. O estudo desses livros constituía uma segunda existência já toda preparada para
o sonhador, e o que ele extraía deles ganhava forma no passeio vespertino antes do aperitivo. Com efeito, não devia ele sentir sob os pés mais intensa a íngreme subida atrás da igreja de Notre Dame de Lorette, se sabia que, quando Paris ganhou seus primeiros ônibus, era aqui que se atrelava o terceiro, o cavalo de reforço, na frente do veículo?
Deve-se tentar compreender a constituição moral absolutamente fascinante do flâneur apaixonado. A polícia, que aqui, como em tantos outros objetos de que tratamos, aparece como verdadeira perita, fornece, no relatório de um agente secreto parisiense de outubro de 1798 (?), a seguinte indicação: “É quase impossível recordar e manter os bons costumes numa população amontoada, onde cada um é, por assim dizer, desconhecido de todos os demais, e não precisa enrubescer diante dos olhos de ninguém.” Citado em Adolf Schmidt, Pariser Zustände während der Revolution (Condições Parisienses Durante a Revolução), III, lena, 1876. O caso em que o flâneur se distancia por completo do tipo do filósofo que passeia e em que assume as feições do lobisomem irrequieto a vagar na selva social foi fixado, primeiro e para sempre, no conto O Homem da Multidão, de Poe.
Ê preciso compreender, segundo o conceito da semelhança, as manifestações de superposição, de sobreposição que aparecem sob o efeito do haxixe. Quando dizemos que um rosto se assemelha a outro, isso significa que certos traços desse segundo rosto, para nós, se mostram no primeiro, sem que este deixe de ser o que era. Mas as possibilidades de tal manifestação não se sujeitam a nenhum critério, sendo portanto, ilimitadas. A categoria da semelhança que, para a consciência desperta, tem apenas uma significação muito restrita, ganha no mundo do haxixe uma irrestrita. Nele tudo é, de fato, rosto; todas as coisas têm o grau da presença encarnada que permite perseguir em tudo, como num rosto, os traços manifestos. Mesmo uma frase em tais circunstâncias ganha um rosto (para não falar de uma palavra isolada), e esse rosto se parece com o da frase contraposta. Assim, cada verdade aponta evidente para o seu contrário e a partir dessa situação se esclarece a dúvida. A verdade se torna alguma coisa viva, ela vive apenas no ritmo em que a frase e seu oposto trocam de lugar a fim de serem pensados.
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Valéry Larbaud escreve sobre o “clima moral da rua parisiense": “As relações começam sempre na ficção da igualdade, da fraternidade cristã. No meio dessa multidão, o inferior está disfarçado em superior, e o superior em inferior. Um e outro moralmente disfarçados. Em outras capitais, o disfarce mal ultrapassa a aparência, e as pessoas insistem, visivelmente, em suas diferenças, fazem um esforço de pagãos e de bárbaros para se separar. Aqui, as pessoas as suprimem o mais que podem. É daí que provém essa doçura do clima moral da rua parisiense, o charme que faz esquecer a vulgaridade, o laissez-aller, a monotonia dessa multidão. É a graça de Paris, a sua virtude: a caridade. Multidão virtuosa...” Valéry Larbaud, Rues et visages de Paris (Ruas e Rostos de Paris), para o álbum de Chas-Laborde, Commerce, VIII, verão de 1926, pp. 36-7. Estaria correto inscrever essa manifestação inteiramente na virtude cristã ou, por acaso, não estará aqui em ação a embriaguez de assemelhar, de sobrepor, de igualar, que, nas ruas dessa cidade, se sobrepõe ao intento social de se fazer valer? Teríamos de recorrer à experiência “Dante e Petrarca”5 no haxixe e precisaríamos medir o impacto da experiência embriagante na proclamação dos Direitos Humanos. Tudo isso muito além da cristandade.
O "fenômeno da banalização do espaço” é a experiência fundamental do flâneur. Como ele também se mostra, sob outra perspectiva, nos interiores da metade do século, não se deve rejeitar a hipótese de que o florescimento da flânerie ocorra na mesma época. Por.íorça desse fenômeno, tudo o que acontece potencialmente nesse espaço é percebido simultaneamente. O espaço pisca ao flâneur: o que terá acontecido em mim? Fica ainda por esclarecer, decerto, como esse fenômeno se relaciona com a banalização.
Um verdadeiro baile de máscaras do espaço deve ter sido o que a embaixada inglesa promoveu em 17 de maio de 1839. “Haviam-se encomendado para os ornamentos da festa, além das flores de jardim e estufa, magníficas, de mil a mil e duzentas roseiras; diz-se que só oitocentas puderam ser colocadas nos aposentos; mas isso nos pode dar a idéia dessas magnificências realmente mitológicas. O jardim, coberto por uma tenda, foi arrumado como salão de conversas. Mas que salão! As leves plati-
bandas repletas de flores eram jardineiras monstruosas que todo mundo vinha admirar; a areia das aléias estava oculta sob telas frescas, cheias de atenção para com os sapatos brancos de cetim; grandes canapés de seda e de damasco substituíam Os bancos de ferro oco; sobre uma mesa redonda estavam livros e álbuns, e era um deleite vir respirar naquele imenso boudoir, de onde se ouvia, como um canto mágico, o som da orquestra, de onde se viam passar como sombras felizes, nas três galerias que o circundavam, tanto as moças travessas que iam dançar como as mais sérias que iam c e a r . . H . d’Almeras, La vie parisienne sous le règne de Louis-Philippe (A Vida Parisiense sob o Reinado de Luís Felipe), (Paris, 1925), pp. 446-7. Esse relato provém da senhora de Girardin. Hoje o lema não é enredamento, mas transparência. (Corbusier!)
O princípio da banalização da ilustração se estendendo até a grande pintura. “Ao relato sobre os combates e batalhas que, no catálogo, deveria servir como elucidação dos momentos escolhidos pelo pintor na representação de trechos de batalha, mas que não alcança esse objetivo, habitualmente se anexam citações das obras das quais está transcrito o relato. Assim, muitas vezes, se acham entre parênteses: Campanhas da Espanha pelo marechal Suchet. — Boletim do Grande Exército e relatórios oficiais. — Gazette de France — Histoire de la révolution française, de Thiers, — Vitórias e conquistas, t.p. — etc. etc.” Ferdinand von Gall, Paris und seine Salons (Paris e seus salões), Oldenburg, 1844, I, pp. 198-9.
Categoria da visão ilustrativa fundamental para o flâneur. Tal como Kubin ao produzir Andere Seite, ele escreve seus sonhos à guisa de texto para as imagens.
Haxixe. Imitam-se certas coisas que se conhecem da pintura: cárcere, ponte dos suspiros, escadaria como uma cauda.
É sabido que, na flânerie, as distâncias dos países e dos tempos irrompem na paisagem e no momento. Quando se inicia a fase propriamente inebriante desse estado, batem os vasos do afortunado, seu coração assume a cadência de um relógio e, tanto interna como externamente, se passa aquilo que podemos visua
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lizar numa daquelas “pinturas mecânicas” que, no século XIX (e decerto também antes), se apreciou tanto, em que vemos, em primeiro plano, um pastor a tocar flauta, junto a ele duas crianças a se embalarem ao ritmo, mais atrás dois caçadores na caça a um leão e, por fim, bem ao fundo, um trem a atravessar uma ponte ferroviária. (Chapuis e Gélis, Le monde des automates, Paris, 1928, I, p. 330).
A atitude do flâneur — uma abreviatura da atitude política da classe média sob o Segundo Império.
Com o tráfego das ruas a crescer permanentemente, era afinal graças apenas à macadamização das ruas que se podia conversar nos terraços dos cafés sem precisar gritar nos ouvidos uns dos outros.
O laissez-faire do flâneur tem sua contrapartida até nos filoso- femas revolucionários da época. “Sorrimos da pretensão quimérica (por exemplo, em Saint-Simon) de reconduzir todos os fenômenos físicos e morais à lei da atração universal. Contudo, esquecemos muito fácil que tal pretensão não estava isolada e que, antes, sob o influxo das revolucionárias leis naturais da física mecânica, podia surgir uma corrente de filosofia natural que visse no mecanismo da natureza a demonstração de um mecanismo idêntico na vida social e, até mesmo, em todos eventos.” (Willy) Spühler, Der Saint-Simonismus (O Saint- Simonismo), Zurique, 1926, p. 29.
Dialética da flânerie: por um lado, o homem que se sente olhado por tudo e por todos, simplesmente o suspeito; por outro, o totalmente insondável, o escondido. Provavelmente é essa dialética que O homem da multidão desenvolve.
“A teoria da transmutação da cidade em zona rural: era... a tese principal do meu trabalho inacabado sobre Maupassant... Nela se tratava a cidade como zona de caça, mas nela, sobretudo, o conceito de caçador desempenhava um papel relevante (por exemplo, para uma teoria da uniformidade: todos os caçadores se assemelham).” Carta de Wiesengrund de 5 de junho de 1935.
Princípio da flânerie em Proust: “Então, fora de todas essas preocupações literárias e sem estabelecer nenhum vínculo com elas, de repente, um telhado, o reflexo de sol sobre uma pedra, o cheiro de um caminho, me faziam parar por um prazer especial que me davam e também porque pareciam esconder, para além daquilo que eu via, alguma coisa que me convidavam a vir apanhar e que, apesar de todos os meus esforços, eu não chegava a descobrir.” Du côté de chez Swann, I, Paris, 1939, p. 256.
— Esta passagem permite entender claramente que o antigo sentimento romântico da paisagem se dissolve e que se origina uma nova visão romântica da paisagem, a qual parece ser, antes, uma paisagem urbana, se, em verdade, a cidade é o autêntico chão sagrado da flânerie. Mas isso deve estar sendo descrito aqui pela primeira vez desde Baudelaire (que não faz referência às galerias, embora fossem tantas em sua época).
E assim o flâneur passeia em seu quarto: “Quando Johannes, às vezes, pedia licença para sair, o mais das vezes lhe era negada; todavia, seu pai às vezes, como compensação, lhe propunha passear pelo assoalho, segurando-o pela mão. À primeira vista, era uma compensação mesquinha e, contudo, ... ali se ocultava algo totalmente distinto. A proposta era aceita e ficava a critério de Johannes definir aonde iriam. Saíam então pelo portão rumo a um palacete vizinho, ou então rumo à praia, ou ainda iam e vinham pelas ruas, exatamente como desejava Johannes; pois o pai era capaz de tudo. Enquanto iam e vinham no assoalho, o pai relatava tudo o que viam; cumprimentavam os trausentes; veículos ruidosos passavam junto a eles, sobrepondo-se à voz do pai; as frutas carameladas da doceira ficavam mais convidativas do que nunca...” Segundo Eduardo Geismar, um texto juvenil de Kierkegaard, em Sõren Kierkegaard, Gõttingen, 1929, pp. 12-3. Esta é a chave para o esquema do voyage autour de ma chambre (viagem ao redor do meu quarto).
“O industrial passa sobre o asfalto apreciando-lhe a qualidade; o ancião o examina com atenção, segue-o tanto tempo quanto pode e, com prazer, faz ressoar a bengala, lembrando-se com orgulho de que viu colocarem as primeiras calçadas; o poeta. .. anda, indiferente e pensativo, a mastigar versos; o especulador da Bolsa nele passa a calcular as perspectivas do último aumento
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da farinha; e o desatento, escorrega.” Alexis Martin, Physiologie de l’asphalte (Le Bohème, 1, 3, 15 de abril de 1855, Charles Pradier, redator-chefe).
Sobre a técnica dos parisienses de habitar em suas ruas: “No caminho de volta, pela rua Saint-Honoré, encontramos um exemplo eloqüente da indústria de rua parisiense, que se vale de tudo. Em certo trecho estavam restaurando o pavimento e colocando canos e, portanto, surgira no meio da rua, como entrave, um trecho do solo aterrado e coberto de pedras. No centro desse terreno se estabelecera imediatamente uma indústria de rua, e cinco a seis vendedores punham à venda objetos para escrever, livros de bolso, artigos de aço, abajures, colarinhos bordados, ligas e. toda sorte de quinquilharias; e mesmo um autêntico belchior estabelecera ali uma comandita, expondo sobre as pedras seu bricabraque de velhas xícaras, pratos, copos e similares, de modo que aquele intercâmbio lucrava com o breve estorvo, ao invés de se prejudicar. Eles são virtuoses em fazer da necessidade tima virtude”. Adolf Stahr, Nach fiinf Jahren, Oldenburg, 1857, I, p. 29.
Ainda setenta anos depois, tive a mesma experiência na esquina do bulevar Saint-Germain com o bulevar Raspail. Os parisienses transformam as ruas em interiores.
“Ê fascinante que, na própria Paris, se possa deveras andar no campo.” Karl Gutzkow, Briefe aus Paris (Cartas de Paris), Leipzig, 1842, I, p. 61. Com isso se chega ao outro lado do argumento. Pois assim como a flânerie pode transformar toda a Paris nüm interior, numa moradia cujos aposéntos são os quarteirões, não divididos nitidamente por soleiras como os aposentos de verdade, por outro lado, também, a cidade pode abrir-se diante do transeunte como uma paisagem sem soleiras.
Mas, em conclusão, só a revolução cria o ar livre da cidade. O ar pleno das revoluções. A revolução desencanta a cidade. A Comuna em L’éducation Sentimentale. A imagem da rua na guerra, civil.
A rua como interior. Vistas da -galeria do Pont-Neuf (entre a rua Guénegaud e a rua de Seine), “as butiques parecem armá-
rios”. Nouveaux tableaux de Paris ou Observations sur les moeurs et usages des Parisiens au commencement du XIX* siècle, Paris, 1828, I, p. 34.
O pátio das Tulherias, “imensa savana plantada com bicos de gás no lugar de bananeiras”. Paul-Emest de Rattier, Paris n’existe pas, Paris, 1857.
Galeria Colbert: “O candelabro que a ilumina parece um coqueiro no meio de uma savana”. Le livre des Cent-et-Un, X, p. 57, Paris, 1833. (Amédée Kermel, Les passages de Paris).
A iluminação na galeria Colbert: “Admiro a série regular desses globos de cristal de onde emana uma claridade viva e doce ao mesmo tempo. Acaso, não seriam eles outros tantos cometas em ordem de batalha, aguardando o sinal de partida para ir vagar no espaço?” Le livre des Cent-et-Un, X, p. 57.
A essa metamorfose da cidade num mundo astral se deve comparar Un autre monde, de Grandville.
Em 1839, era elegante levar consigo uma tartaruga ao passear. Isso dá uma noção do ritmo do flanar nas galerias.
Gustave Claudin deve ter dito: “O dia em que um filé deixou de ser filé para se tornar um medalhão, dizia ele, em que um guisado de carneiro foi chamado de navarin, em que o garçon gritou: — Moniteur, pêndulo! — para indicar que esse jornal tinha sido pedido pelo cliente colocado debaixo do pêndulo, nesse dia Paris foi verdadeiramente descoroada!” Jules Claretie, La vie à Paris 1896, Paris, 1897, p. 100.
“Eis. .. o Jardin d’Hiver estabelecido desde 1845 — avenida des Champs-Elysées — uma estufa colossal com um imenso espaço para reuniões sociais, para bailes e concertos, que não faz jus ao nome de jardim de inverno pois também abre suas portas no verão.” Quando a ordem planificada cria tais entre- cruzamentos de aposentos e natureza livre, ela vem ao encontro da profunda inclinação do ser humano para a fantasia, que talvez
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constitua sua verdadeira força em face da indolência. Woldemar Seyffarth, Wahrnehmungen in Paris 1853 u. 1854 (Observações em Paris em 1853 e 1854), Gotha, 1855, p. 130.
O cardápio em “Les trois frères provençaux“36 páginas para a cozinha, 4 páginas para a adega — mas páginas muito extensas, in-fólio pequeno, com texto conciso e muitas anotações miúdas”. O volume está encadernado em veludo. 20 entradas e 33 sopas. “46 pratos de carne de vaca, entre os quais 7 de bifes diversos e 8 filés.” “34 pratos de caça, 47 pratos de legumes e 71 taças de compotas.” Julius Rodenberg, Paris bei Sonnenschein und Lampenlicht (Paris à Luz do Sol e dos Lampiões), Leipzig, 1867, pp. 43-4. A flanância do programa gastronômico.
O melhor artifício para capturar, sonhando, a tarde nas malhas da noite é fazer planos. O flâneur a fazer planos.
“Os prédios de Corbusier não são nem espaçosos nem plásticos: o ar sopra através deles! O ar se toma fator constituinte! Para tal, não conta nem espaço nem plástica, apenas relação e penetração. Existe apenas um único e indivisível espaço. Caem as cascas entre o interior e o exterior.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich (Arquitetura na França), (Berlim, 1928), p. 85.
As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente inquieto, eternamente agitado, que, entre os muros dos prédios, vive, experimenta, reconhece e inventa tanto quanto os indivíduos ao abrigo de suas quatro paredes. Para esse ser coletivo, as tabuletas das firmas, brilhantes e esmaltadas, constituem decoração mural tão boa ou melhor que o quadro a óleo no salão do burguês; os muros com “défense d’afficher” (proibido colocar cartazes) são sua escrivaninha, as bancas de jornal, suas bibliotecas, as caixas de correspondência, seus bronzes, os bancos, seus móveis do quarto de dormir, e o terraço do café, a sacada de onde observa o ambiente. O gradil, onde os operários do asfalto penduram a jaqueta, isso é o vestíbulo, e o portão que, da linha dos pátios, leva ao ar livre, o longo corredor que assusta o burguês, é para ele o acesso aos aposentos da cidade. A galeria é o seu salão. Nela, mais do que em qualquer outro lugar, a rua
se dá a conhecer como o interior mobiliado e habitado pelas massas.
A inebriante interpenetração da rua e da moradia que se consuma na Paris do século XIX — e sobretudo na experiência do flâneur — tem valor profético. Pois essa interpenetração permite à nova arquitetura tornar-se uma sóbria realidade. Assim, Giedion observa oportunamente: “Um detalhe de uma criação anônima de engenharia — uma passagem de nível — se torna, numa villa, elemento arquitetônico”. Giedion, Bauett in Frankreich, (Berlim,1928), p. 89.
“Victor Hugo, em Os Miseráveis, fornece uma descrição sur- preendente do subúrbio Saint-Marceau: ‘Não era a solidão, havia transeuntes; não era o campo, havia casas; não era uma cidade, as ruas tinham sulcos como as rodovias do interior e nelas crescia o mato; não era uma aldeia, os prédios eram altos demais. O que era então? Um lugar habitado onde não havia ninguém, um lugar deserto onde havia alguém, a noite mais selvagem que uma selva, o dia mais sombrio que um cemitério.’ ” Dubech-D’Espe- zel, Histoire de Paris, Paris, 1926, p. 366.
“O último ônibus a cavalo funcionou na linha La Villette- Saint- Sulpice em janeiro de 1913, o último bonde a cavalo na linha Pantin- Opéra em abril do mesmo ano.” Dubech-D’Espezel, loc. cit., p. 463.
“Em 30 de janeiro de 1828 funcionou o primeiro ônibus na linha dos bulevares, da Bastilha à Madeleine. O percurso custava vinte e cinco ou trinta centimes, a viatura parava onde se quisesse. Continha de dezoito a vinte lugares, seu trajeto era dividido em duas etapas, sendo a porte Saint-Martin o ponto divisório. A voga da invenção foi extraordinária.