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4.4 ABORDAGENS COM BASE NO MODELO EPIDEMIOLÓGICO E/OU

4.4.1 Wanderley Codo

Wanderley Codo é psicólogo, doutor de psicologia social pela PUCSP, pós doutorado em Paris, Ecole des hautes études e na Inglaterra, London School of Economics. É Professor de Psicologia Social na Universidade de São Paulo (USP).

Orientou várias teses de mestrado e doutorados. Publicou 8 artigos em periódicos especializados e 41 trabalhos em anais de eventos. Possui 33 Capítulos de livros e 14 livros publicados, entre eles: “Sofrimento Psíquico nas Organizações”; “Indivíduo, Trabalho e Sofrimento”; “Saúde Mental e Trabalho: leituras”; “O Trabalho Enlouquece?”; “Trabalho, Organizações e Cultura”; “Saúde e Trabalho no Brasil:

uma revolução silenciosa”; e “Por Uma Psicologia do Trabalho”. (CODO, [S.d.]).

Desenvolveu o Diagnóstico Integrado do Trabalho e uma Concepção de Psicologia do Trabalho, a qual teve sua trajetória científica iniciada em 1981, com a tese de doutorado: “A transformação do comportamento em mercadoria”, e com a publicação subsequente, juntamente com Silvia Lane do livro, “Psicologia Social: o Homem em Movimento”, onde se notou a ausência da categoria trabalho em Psicologia e a necessidade de incorporá-la. Assim, um projeto iniciado com o doutoramento na PUCSP, concretizado através da criação de um Laboratório de Psicologia do Trabalho-LPT junto à USP-Ribeirão Preto, onde um novo modo de conceber a relação entre trabalho e Psicologia foi suscitado, permitiu avanço sistemático na investigação da relação homem-trabalho-saúde mental (CODO, [S.d.]).

Durante os anos em que coordena o projeto Saúde mental e Trabalho, investigou quase tres mil sujeitos, com uma abordagem socio-economica, organizacional e epidemiológico-psiquiatrica cruzadas. Algumas descobertas

importantes foram feitas, como a paranóia em digitadores e o mal-estar do trabalho vazio em bancários. (CODO; SAMPAIO, 1995).

O autor (2006), juntamente com sua equipe e colaboradores, busca desenvolver a hipótese de que o trabalho teria função determinante, embora não exclusiva nos distúrbios mentais. Um dos objetivos de sua obra é o possível enquadramento das doenças mentais como 'doença profissional', beneficiando trabalhador, empregador, Estado, psicólogos, e fomentado pesquisas e investimentos na Saúde Mental e Trabalho. (CODO, 2006)

Segundo Codo (2006), considerando-se o trabalho como fator desencadeante, ou considerando-o como uma das causas de um conjunto complexo de determinantes, há argumentos jurídicos, como o princípio da concausalidade, que fundamentam o nexo causal entre sofrimento psíquico e trabalho. Para exemplificar, cita o caso das cardiopatias em que a jurisprudência considera como relacionada ao trabalho quando seu agravamento ou eclosão se deu devido a condições deste.

Assim como, os estudos epidemiológicos, inclusive os realizados no Brasil pelo Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília, fornecem fundamentos de relevância para justificar o nexo causal, como o caso da síndrome de burn-out em educadores, resultado de pesquisa realizada com 52.000 professores das redes estaduais de vários estados do Brasil (CODO, 1999 apud JACQUES, 2007).

Codo et al (1994), faz uma crítica ao profissional da Psicologia Organizacional que lida atualmente com treinamentos, motivação, seleção, ao invés de conflitos existenciais. O objetivo de trabalho aqui, consiste em transformar o indivíduo em instrumento de trabalho, ou melhor, transformar o trabalho em força de trabalho.

Para o autor, o homem é visto e entendido de maneiras distintas dentro e fora do trabalho, provocando uma cisão “Vida x Trabalho”. No trabalho a Psicologia busca liderança, fadiga, níveis de inteligência, avaliação de desempenho, habilidade, ou seja, a teoria é embasada na racionalidade humana, o que importa aqui é a eficiência, a produtividade. Enquanto que no consultório, por sua vez, o profissional lhe ensina que as menções que faz ao seu trabalho não passam de deslocamentos, projeções, provavelmente originárias de traumas infantis. “A Psicologia que se constrói fora do trabalho recorta no ser humano o seu caráter irracional, não se

cansa de revelar um animal dentro do homem, ávido por manifestar-se e impedido pela sociabilidade.” (CODO et al, 1994, p.32).

De acordo com Codo et al (1994, p.31), “há psicólogos que se ocupam da vida para além dos portões da fábrica sem nunca se perguntarem o que ocorre do outro lado, e há psicólogos, sitiados fábrica adentro, impotentes para olhar o mundo depois do fim da jornada de trabalho.”.

Com isto, o autor atenta para o rumo das pesquisas em Saúde Mental e Trabalho, que não podem tender ao ramo aplicado da Psicologia ou da Psiquiatria, uma vez que, a vida dos homens não se reduz ao trabalho, mas também não pode ser compreendida na sua ausência. E em relação ao trabalho no consultório, é a vida, não a coisa, o que se deve estudar; “o que acontece no corpo é também repercussão do que acontece no cérebro; a vida é um processo contínuo”. (CODO et al, 1994, p. 163).

Para ele, o homem é um ser apesar de si, um ser transcendente. “Cada gesto ou palavra é sempre inserida em uma miríade de significados, reportando-se sempre aos vários eus convivendo dentro do eu. Os gestos cravam significados apesar da presença do sujeito e além da sua existência. (...) É a partir da possibilidade de expressão objetiva da subjetividade que alguém se diferencia do outro.”. (CODO et al 1994, p.48).

4.4.1.1 Trabalho abstrato e trabalho concreto

Codo et al (1994, p.62) interpreta o “trabalho” de uma maneira ambígua.

Segundo ele, o trabalho é mágico por que é duplo, “carrega em si a maldição da mercadoria, a fantasmagoria do dinheiro: de um lado aparece como valor de uso, realizador de produtos capazes de atender necessidades humanas, de outro como valor de troca, pago por salário, criador de mercadoria e ele mesmo uma mercadoria no mercado”.

O autor considera, e critica quem não o faz, os dois lados do trabalho:

aquele em que recebemos como um serviço, um produto, algo de que nos beneficiamos, e o lado em que ele próprio - o trabalho - é o produto, comprado, usado como valor de troca ou de uso.

Um exemplo de trabalho duplo seria a função do comissário de bordo:

“para o consumidor, a venda de serviços quase supérfluos; para a empresa, sua

face visível, seu representante.” (CODO et al 1994, p.64). Os significados reais do trabalho não são revelados a primeira vista, dependem de uma análise rigorosa, exaustiva, onde é de grande importância a observação do quotidiano, as representações do trabalhador, e a intenção da empresa.

Então, Codo distingue trabalho concreto de trabalho abstrato. O trabalho abstrato pode ser entendido dentro do sistema capitalista, considerado produtivo na medida em que produz capital, entra no circuito de produção de mercadorias, realiza mais valia, entra em circulação, produz mais valor (MARX, [S.d]. apud CODO et al, 1994). Constituem o trabalho abstrato portanto, a força de trabalho aplicada ao produto, e o tempo de produção alugado ao capital, salário e jornada de trabalho negociados no mercado. São as leis de oferta e procura do mercado que definem a importância deste ou daquele profissional.

O trabalho concreto por sua vez, pode ser entendido pelo aspecto qualitativo do trabalho, seu conteúdo: a produção de utilidades que irão satisfazer necessidades humanas. Através do processo de trabalho, que é um conjunto de operações realizadas por um ou vários trabalhadores, orientados para a produção de uma mercadoria ou realização de um serviço, ambos, mercadorias e serviços são reconhecidos pela sociedade consumidora como valores de uso, individual ou coletivo. (CODO et al, 1994).

A dualidade do trabalho como mercadoria, como valor de uso e valor de troca tem correspondência imediata com seu modo de expressão, como trabalho concreto e abstrato, segundo seu valor perante a sociedade. Conforme Codo et al (1994, p.114), todo indivíduo é portador dessa dupla dimensão social, e revela “sua potência social quando se integra, principalmente ao mercado de trabalho a ele próximo.”. Esse mercado é o espaço social ocupado pelos detentores do capital, que são compradores da força de trabalho daqueles que reúnem saber produtivo, mas não são possuem meios materiais de realização desse saber.

4.4.1.2 Trabalho e afetividade

Existe sempre uma transferência de subjetividade ao produto, qualquer que seja o modo de produção ou a tarefa. Conforme Codo et al (1994, p.125)

“trabalhar é impor à natureza a nossa face, o mundo fica mais parecido conosco e portando nossa subjetividade depositada ali, fora de nós, nos representando”. Desta

forma, quando se trabalha em condições gratificantes, o homem gosta do produto realizado, os escritores e pintores por exemplo, até se apaixonam por ele. Mas o contrário, quando se trabalha subjugado, imprime-se raiva ao produto.

Codo et al (1994) explica que quando o modo de produção separa o produtor de seu produto, transforma os trabalhos diferentes, portadores de subjetividades diferentes em iguais, mercadoria como qualquer outra a ser vendida no mercado, impedindo a subjetivação do indivíduo no trabalho e empurrando o ser subjetivo do homem para fora da fábrica, restrito ao lar.

No entanto, o trabalho sempre será um exercício "metabólico" entre o homem e o meio e, “através dele o homem realiza no mundo sua transcendência e realiza a si mesmo pelas mesmas vias, se conforma na medida em que transforma o universo, se confirma na medida em que se exerce.” (CODO et al, 1994, p.128).

Portanto, focando no trabalhador, pode-se distinguir que o trabalho permanece como portador da identidade, no sentido de articulação da percepção de si perante o mundo, pois conforme Codo e Sampaio (1995, p.60), “a identidade psicológica dos indivíduos alicerça-se nas relações de trabalho”.

Codo et al (1994), estudou o Trabalho e Saúde Mental dos bancários e, sendo o objeto de trabalho destes as relações humanas e seu produto é abstrato, a única opção que sobra é a afetivação das próprias relações humanas. O autor cita exemplos de quando o cliente precisa de um Cheque Especial, por exemplo, tem de passar por uma série de pessoas, relacionando-se afetivamente bem com elas, até chegar ao gerente que poderá lhe conceder o benefício.

Entretanto, o autor (1994), ressalta que a rede afetiva descrita acima não é privilégio do cliente. Para conseguir uma promoção na carreira, é preciso que se tenha boas relações com os chefes, assim como bons contatos para indicações.

Caixas relataram nas pesquisas, dificuldade em lidar com a bajulação às chefias.

Mesmo que imaginária, a sedução circula abertamente em paralelo com as relações hierárquicas.

O bancário se encontra perante um trabalho altamente tenso, cotidianamente repetitivo, porém exigindo uma precisão fundamental. E ainda, a complexa hierarquia fornece um canal imediato para a expressão afetiva da tensão cotidiana, onde o sofrimento psíquico se revela. (CODO et al, 1994).

4.4.1.3 Trabalho, sofrimento psíquico e subjetividade

Pada Codo et al (1994), a literatura constata que o sofrimento psíquico advém de algum tipo de ruptura entre a subjetividade e a objetividade, um divórcio entre o eu e o mundo, entre o eu e o outro. Se a ruptura passa a ser inerente às formas de organização da produção, é preciso encontrar mecanismos para que possa conviver com essas rupturas.

Contudo, para o autor (et al 1994, p.178) o sofrimento psíquico e a doença mental, não são a ruptura entre o sujeito e o objeto, entre o sujeito e o outro, ou do sujeito com ele mesmo. “A doença mental ocorre tendo por base a ruptura, mas apenas quando "falham" os modos de reapropriação.”. Em outras palavras, a ruptura entre subjetividade e objeto não constitui o sofrimento psíquico e a doença mental, e sim a falha dos mecanismos, que foram desenvolvidos para camuflar, ignorar ou reapropriar essa falha.

Desta maneira, a ruptura entre subjetividade e objeto, entre eu e o mundo pode haver, e é tida como normal e sadia, desde que os mecanismos utilizados estejam cumprindo sua função adequadamente.

Segundo Codo et al (1994, p. 178), a ruptura entre o homem consigo mesmo e, por conseguinte, o sofrimento psíquico, pode acontecer onde quer que haja momentos significativos. Para ele, “o homem é um ser genérico, que faz a si mesmo ao fazer o mundo (...) o homem também é um ser que produz significados (...) o trabalho é o momento significativo do homem, é a possibilidade da felicidade, da liberdade, da loucura e da doença mental.”.

No entanto, Codo et al (1994) não ignora a infância e a sexualidade como momento significativo do homem, mas não qualquer momento, apenas aqueles significativos. E complementa, que sobre a infância e a sexualidade já se sabe muito, já se descreveu seus efeitos, seus modos de comparecimento no sofrimento psíquico, mas, sobre o trabalho, pouco ou nada se disse.

Assim, este homem, impedido de impelir sua subjetividade no trabalho, levado a manifestar-se apenas depois do expediente, só pode expressar o seu sofrimento fora do trabalho, em seu lar. E aí expressará o que for possível:

dependência, violência, doença.

Uma jornada de trabalho que obrigue o sujeito a trabalhar quando os outros repousam e a repousar quando seus pares trabalham; tarefas maiores ou menores do que o cérebro humano possa suportar; relações de trabalho

despejando mensagens contraditórias; uma brutal ruptura salarial provocada pelo desemprego ou subemprego, que desaloja o sujeito do seu patamar de sobrevivência: possibilidades de sofrimento psíquico que aparecem ao profissional sempre travestidas, outra dor ocupa o espaço da dor real. (CODO et al, 1994, p.179).

Desta forma, a maneira como o homem irá reaproriar questões significativas do trabalho, define a ocorrência de sofrimento psíquico ou não, tendo êxito com os mecanismos ou não. Nas palavras de Codo e Sampaio (1995), o sofrimento psíquico ou doença mental, aparecem quando as exigências do meio e do trabalho ultrapassam as capacidades de adaptação do sujeito, ou de suas possibilidades defensivas.

Codo et al (1994, p.179) esclarece que quando a história individual entrar em conflito permanente com a história social, ou quando o modo de reapropriação implicar em cada vez mais ruptura, ou quando a magnitude da ruptura, ou o seu momento individual de ocorrência, impedirem a reapropriação, ou ainda, quando se bloquearem rituais de recuperação sem maior sofrimento psíquico, estaremos no território da doença mental.

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