3. Capítulo 2: TV Guide; Parte do imaginário da TV Americana
2.4 TV Watercooler: falando sobre televisão
A partir do ano de 2006 o canal TV Guide Network começaria a transmitir TV Watercooler, um programa cujo simples propósito era debater semanalmente as novidades da programação da televisão, seja ela aberta ou paga. O Watercooler ao qual o nome do programa faz referência é do que bebedouro de água, o objeto, contudo, é carregado de significados culturais, principalmente para os americanos.
Assim como aconteceu com o advento da televisão no Brasil, a cultura popular e o cotidiano americano também foram transformados com a difusão do meio audiovisual caseiro. Assim como já foi citado sobre tal efeito no Brasil, nos
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Estados Unidos também a televisão influenciava na decoração da casa e nos assuntos das conversas de quaisquer grupos sociais. A partir da popularidade do meio, os assuntos conversados no dia-a-dia girariam em torno dos acontecimentos televisionados no dia anterior.
Todavia, não é mérito da televisão se tornar uma espécie de guia de assuntos cotidianos, os meios de comunicação sempre tiveram essa função, principalmente a mídia impressa e, mais especificamente o jornal. Notável é que a televisão logrou obter audiência ainda mais ampla, principalmente por não exigir extrema habilidade de leitura ou qualquer outro grande esforço cognitivo de apreender um conjunto de signos prévios (alfabeto; língua), para só então fazer uso do meio. A semiose do conteúdo da TV, principalmente quando ela surgiu, funcionava de maneira similar ao contato face a face. Em pouco tempo os restaurantes, barbearias, escolas e ambientes de trabalho haviam grupos de indivíduos debatendo as matérias do telejornal da noite anterior ou recordando o episódio de algum seriado cômico, como I Love Lucy. A reunião, principalmente no ambiente de trabalho e nas escolas, acontece no ambiente descontraído, geralmente nos intervalos, à frente do bebedouro, quando entre uma tarefa laboral/acadêmica e outra, há espaço para um tema livre.
Figura 18: Pôster de divulgação de TV Watercooler.
Não se sabe ao certo quando ou como o bebedouro adquiriu valor semiótico tão difundido na cultura popular americana, mas foi Thomas Zengotita (2006), antropólogo cujo trabalho consiste em estudar os efeitos das diferentes
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mídias nos indivíduos e sociedade, quem primeiro cunhou o termo “efeito watercooler” (watercooler effect). De acordo com o autor, o efeito watercooler é o fenômeno que acontece após a transmissão de certos conteúdos televisivos. Uma combinação de relevância e audiência faz com que certos assuntos dominem as conversas nos dias seguintes enquanto outros caiam no esquecimento. O curioso é que Zengotita questiona se diante da multiplicação de canais, diante das múltiplas plataformas online e da fragmentação das telas; se diante do momento atual das mídias o efeito watercooler não estaria com os dias contados, afinal não será mais tão fácil encontrar um indivíduo, quiçá um grupo inteiro, que tenha feito as mesmas escolhas de programação e esteja informado sobre um assunto específico ao ponto de debatê-lo em grupo.
O programa do TV Guide Network, carregando o emblemático watercooler no título, assim como a imagem do objeto em seu logo, surge como uma forma de experimento sobre as teorias e questionamento de Zengotita e de outros autores como Henry Jenkins (2008), que dissertam sobre o valor social dos produtos transmitidos pelos meios de comunicação. A cultura de fã, o caloroso debate sobre conteúdos mediados pela TV e, por vezes, até os textos acadêmicos que tratam de televisão por vezes sofrem um estigma de subcultura. As trocas sociais que acontecem posteriormente ao momento das transmissões televisivas acontecem não só face a face mas também pela internet em fóruns de debate e, a exemplo do programa analisado, via internet e televisão combinados. É quando alguns programas trazem para dentro da televisão a conversa sobre ele mesmo ou sobre outro programa de televisão que a audiência se estende.
Hoje é comum que programas que falam sobre televisão ocupem a grade de emissoras na TV aberta e paga, no Brasil e por todo o mundo. Na América Latina há o CQC com o quadro TOP FIVE que seleciona e comenta os momentos mais inusitados da TV naquela semana. Nos mesmos moldes, só que em forma de programa completo de 30 minutos, há nos Estados Unidos o programa The Soup, que examina e comenta momentos da televisão – de todos os canais – semana a semana. Ambos os programas fazem uso do humor e fazem críticas testando os limites da TV enquanto meio e sua exposição ao ridículo. Há também nos Estados Unidos um programa chamado Talking Bad que comenta episódio
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a episódio a trajetória do seriado de ficção Breaking Bad, aclamado pela crítica e público. A série e o talk-show temático vão ao ar na emissora de TV paga AMC.
Figura 19: Talking Bad, programa que discute o seriado Breaking Bad.
Um exemplo mais recente é o programa Wolf Watch, que comenta episódio a episódio o desenrolar da trama da série adolescente Teen Wolf, da MTV americana. O programa é apresentado pela atriz Jill Wagner que interpretou a personagem Kate Argent na primeira temporada da série. A empatia da base de fãs com a atriz como apresentadora foi tanta que os produtores da série decidiram trazer a atriz e a personagem de volta à vida na quarta temporada do seriado.
Enquanto os programas similares já citados se limitam a discutirem um programa por vez e vão ao ar na mesma emissora do programa ao qual se referem, TV Watercooler dialoga com diversos programas, dos gêneros de realidade ou ficção e não se limita também a um só gênero ou canal. Por isso o espectro do seu debate é ainda maior e acaba cosendo comentários sobre a indústria da televisão como um todo.
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Munidos de novas ferramentas e dispondo até de elementos de interatividade com os espectadores, como as mídias sociais, e presente um momento único de sofisticação da linguagem televisiva, o debate acontece em TV Watercooler em uma intensidade e densidade ímpar, tomando ares de construção de conhecimento, sobre a televisão e sobre o mundo.