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2.3 LOBBYING NA NORMATIZAÇÃO CONTÁBIL

2.3.1 Estudos Seminais de Lobbying

2.3.1.1 Watts (1977)

O estudo de Watts (1977) objetivou fornecer hipóteses para ajudar no desenvolvimento da teoria das demonstrações financeiras, partindo do pressuposto de que os indivíduos maximizam sua própria utilidade esperada. Nesse sentido, as demonstrações financeiras são percebidas como uma interação destas maximizações individuais, as quais ocorrem tanto no mercado quanto no processo político. O autor se baseia na teoria da agência, escolha pública e a teoria da regulação econômica.

Ao analisar as relações de demonstrações financeiras e o mercado, Watts (1977) afirma que em uma economia desregulada, tais demonstrações servem para cumprir a função de reduzir os custos de agência (por meio da fixação de cláusulas de monitoramento), os quais

surgem porque as ações que maximizam a utilidade esperada dos gerentes não necessariamente são as mesmas que maximizam a utilidade esperada dos acionistas. Nessa perspectiva, alguns exemplos de informações financeiras reduzindo o custo de agência de credores e de acionistas são citados, sendo estes a existência de cláusulas que restringiam o pagamento de dividendos ao montante dos lucros apurados e ao montante de lucros remanescentes, após a dedução de fundo de reserva para manutenção, reparos, depreciação e renovações.

Logo, a fim de monitorar estas cláusulas, os acionistas e credores precisavam de uma estimativa observável do que compreendiam sobre o conceito de lucro, sendo que tal estimativa não poderia estar sob o controle exclusivo da gestão, gerando uma demanda por demonstrações financeiras auditadas. Assim, o Ato de Companhias de Ações Conjuntas (Joint Stock Companies Act) de 1856 incluiu artigos exigindo dos diretores a apresentação de demonstrações financeiras e a nomeação de auditores para relatar sobre as contas da companhia, o que o leva a concluir que o auditor era uma parte aceita deste cenário.

Watts (1977) admite então como hipótese que quanto maior for o nível de participação de acionistas externos à organização, maior será a probabilidade de que esta apresente demonstrações financeiras. Concomitantemente, quanto maior o montante de risco de dívida fora da firma, maior a probabilidade desta apresentar tais demonstrações.

Outro incentivo relacionado à informação financeira, que reduz os custos de agência, são os esquemas de remuneração dos gerentes atrelados ao lucro. Como no século XIX o conceito de accrual não era reconhecido e a depreciação era tratada como alocação de lucro, existia uma aproximação dos lucros com o fluxo de caixa operacional. Assim, por serem remunerados com base neste indicador, os gerentes poderiam aumentar os fluxos de caixa operacionais atuais à custa de fluxos de caixa futuros, por meio da redução de gastos de manutenção o que permite a deterioração de ativos fixos. Portanto, Watts (1977) prediz que quanto maior o valor dos ativos fixos de uma firma, maior a probabilidade de que suas demonstrações financeiras incluam alocação de lucros para renovações, reparos, manutenção e depreciação.

Ao tratar sobre demonstrações financeiras e o processo político, Watts (1977) afirma que crises econômicas estimulam a regulação de mercado, embora questione a validade de explicações simplistas usadas pelos legisladores para justificarem intervenções para remediar as crises. A relação entre crises econômicas e regulação ocorre porque as crises expõem a existência das falhas de mercados, argumentos considerados suficientes para a intervenção

regulatória. Por exemplo, os políticos norte-americanos afirmaram que a evidenciação corporativa inadequada foi parcialmente culpada pelo crash do mercado de ações em 1929. Entretanto, para Watts (1977) é altamente improvável que o crash de 1929 tenha ocorrido devido à evidenciação inadequada pelas firmas, assegurando que as audiências no Senado norte-americano que precederam os Acts de 1933 e 1934 não forneceram nenhuma evidência sistemática para apoiar a conclusão de que a evidenciação inadequada levou ao crash, concluindo assim que culpar a falta de evidenciação e então regulá-la foi uma solução conveniente para os políticos (WATTS, 1977).

Para Watts (1977), o político irá maximizar sua utilidade esperada e sua carreira será afetada pela probabilidade de ser culpado por futuras crises. Logo, acredita que a subavaliação de ativos é improvável de gerar crises políticas, predizendo que os políticos especificam regras que encorajam os gerentes a subavaliar ativos nas demonstrações financeiras. Em ambientes desregulados, espera que as reavaliações possam ocorrer quando o efeito sobre custos de agência da disparidade entre o valor de mercado e o valor contábil excederem o custo de reavaliação. Por isso, admite como hipótese que os ativos são mais subavaliados em economias reguladas do que em economias desreguladas.

Além do mais, Watts (1977) demonstra a influência de normas tributárias em procedimentos contábeis. Expõe o caso da depreciação, a qual era reconhecida como alocação de lucros e posteriormente passou a ser reconhecida como despesa, depois que o U.S Revenue Act de 1913, permitiu sua dedução para o propósito de determinação do resultado tributário. Por fim, discute a função da literatura contábil no processo político, demonstrando o caso norte-americano, cujos normatizadores tentaram formular um conjunto consistente de princípios para justificar suas seleções de padrões contábeis (WATTS, 1977). Afirma que o Committee on Accounting Procedure (CAP) e o Accounting Principles Board (APB) foram incapazes de encontrar tais conjuntos de princípios, porque as normas são estabelecidas considerando os indivíduos envolvidos no processo, maximizando seus próprios auto interesses. Nesse sentido, a literatura acadêmica contábil funciona como desculpa, invocada para reforçar uma noção pré-concebida, não oferecendo aos práticos uma estrutura para escolha entre diversas alternativas. Portanto, com base nestas explanações, constata-se que Watts (1977) apresenta subsídios teóricos que o aproxima da teoria dos grupos de interesses.