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Weblog e as práticas interacionais de escritas

PRÁTICAS INTERACIONAIS NA ESCRITA DE WEBLOG

3.3 Weblog e as práticas interacionais de escritas

Nesta seção, trata-se à luz da discussão a ideia de que o weblog é um espaço de comunicação via escrita, bem como o reconhecimento de que há, nesse lugar, a possibilidade de permitir o acesso ao letramento daqueles que o acessam como meio de trocas simbólicas e culturais.

A partir desse pressuposto, pensa-se que o weblog possibilita aos blogueiros a produção de textos nos quais se trocam, de maneira contínua, informações e sentimentos, contribuindo, assim, com o processo de letramento dos cibernautas, sobretudo do público infanto-juvenil, frequentadores habituais do ciberespaço.

Nesse sentido, é relevante refletir sobre as razões que levam a escola a não reconhecer, ainda, a produção escrita realizada no weblog como ação linguístico-educativa, posto que os paradigmas da educação na contemporaneidade convergem para o reconhecimento da formação de sujeitos produtivos e participativos na sociedade atual. Nela há a prevalência de sujeitos letrados e as práticas de escrita na escola continuam distantes dos webletramentos.

Soares (2000) conduz a compreensão do conceito de letramento além da decodificação de sentenças formuladas em língua materna. Assim sendo, o ato de letrar é a possibilidade de levar o sujeito da linguagem ao mundo da escrita, a qual ocorre pela aprendizagem de toda a complexa tecnologia envolvida no aprendizado do ato de ler e escrever. O weblog torna-se uma tecnologia intelectual facilitadora desse processo. Ou seja, para entrar nesse universo do letramento, é fundamental apropriar-se do hábito de buscar informações no hipertexto da web e, com isso, fazem-se deslocamentos severos dos papéis tanto de quem escreve quanto de quem lê no ciberespaço. Nesse aspecto, evidenciam-se ainda as funções, até então exercidas pela escola enquanto espaço de formação de sujeitos na sociedade dos signos, a sociedade letrada.

Importa dizer aqui, ainda, que, sob o auxílio do computador ligado à internet, a ação de letramento ocorre de maneira singular, isto é, distancia-se daquela concepção de que somente o alfabetizado é capaz de comunicar-se usando a tecnologia intelectual escrita.

Para Lévy (2000), a dimensão da comunicação via escrita no ciberespaço é perpassada pelos signos que formam o ciberespaço como um hipertexto, posto que:

O espaço cibernético é a instauração de uma rede de todas as memórias informatizadas [...] A dimensão da comunicação e da informação, então, está se transformando numa esfera informatizada. O interesse é pensar qual o significado cultural disso. Com o espaço cibernético, temos uma ferramenta de comunicação muito diferente da mídia clássica, porque nesse espaço todas as mensagens se tornam interativas e ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata. E aí, a partir do momento em que se tem o acesso a isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão. (LÉVY, 2000, p. 13).

Nesse ponto de vista, tem-se a presença da virtualização da sociedade contemporânea, referendada pela virtualização dos saberes possibilitados pela internet, visto que a linguagem, a técnica e as relações sociais são postos em destaque a partir dos novos papéis atribuídos à escrita enquanto tecnologia intelectual.

Nessa perspectiva, Lévy (2000) afirma que o surgimento da escrita abrevia a capacidade de comunicação variada, por meio de textos escritos de e com formatos diferenciados, visto que os autores – blogueiros - passaram a usar o espaço cibernético como possibilidade de superação dos anacronismos dos conceitos de alfabetização e letramento propostos pela cultura escolástica até então vigente no meio educacional brasileiro. Isso certamente ocorre porque eles – cibernautas, blogueiros – aprendem o código e a mecânica do weblog mesmo sem terem sido alfabetizados ciberneticamente; até porque a escola ainda pensa e atua de forma antinômica no que se refere à produção de escrita e à realização de leitura no ciberespaço.

No plano de reconhecimento de que a escrita tem sido perpassada por novos sistemas sígnicos, Lévy (1996) provoca:

Com a escrita, e mais ainda com o alfabeto e a imprensa, os modos de conhecimentos teóricos hermenêuticos passaram, portanto, a prevalecer sobre os saberes narrativos e rituais das sociedades orais. A exigência de uma verdade universal, objetiva e crítica só pôde se impor numa ecologia cognitiva largamente estruturada pela escrita, ou, mais exatamente, pela escrita sobre suporte estático. (LÉVY, 1996, p. 38).

Infere-se que a força do pensamento de Lévy (1996) está na perspectiva de que a comunicação escrita e as leituras realizadas por meio do weblog não se limitam ao reconhecimento da escrita como prática de alfabetização, tampouco da leitura como mero ato de letramento. Isso ocorre porque há o estabelecimento de novos paradigmas na concepção de

linguagem e de construção de conhecimento bastante diferentes da tradicional, situada na historicidade do sujeito e da linguagem.

Desse modo, a relação do sujeito com a “escrita de suporte estático” é subvertida em virtude da criatividade com a qual os “blogueiros” fazem funcionar a linguagem e as ações linguístico-discursivas que constituem e constroem os sujeitos dos enunciados, bem como provocam e solicitam práticas pedagógicas.

Disso, certamente, decorre que a criatividade não está apenas no estilo de comunicação escrita que é realizada no weblog,mas, sobretudo, porque há uma individuação no uso da escrita e das ações linguísticas nas quais se estabelecem a subjetividade como “ações de linguagem” que se tornam recursos expressivos no ato de produzir escrita e leitura no ciberespaço.

Nesse contexto, é imperativo dizer que as “ações de linguagens” decorrentes do uso da escrita no weblog caracterizam-se como atos de construção de discursos com os quais se justapõem a estruturação e o rigor da escrita e a criatividade de seu uso, possibilitada pela dinâmica do ciberespaço com a qual se deparam sujeitos da linguagem diante da tela do computador permeada por signos hipertextuais.

A ação de produzir escrita e leitura no weblog leva o blogueiro, produtor de comunicação escrita a reconhecer que

na verdade, é somente na tela, ou em outros dispositivos interativos, que o leitor encontra a nova plasticidade do texto ou da imagem, uma vez que, como já disse, texto em papel (ou filme em película) forçosamente já está realizado por completo. A tela informática é uma nova “maquina de ler” e escrever, o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular. (LÉVY, 1996, p. 41, grifo meu)

Dessa maneira, a produção de escrita está vinculada ao uso sistemático de elementos semiológicos permitidos pela linguagem convencionalizada na web.