7. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DO MATERIAL PESQUISADO
7.2 Weblogs: Diários Íntimos Revisitados E Publicizados?
Para iniciar a discussão do que venha a ser a espécie particular de weblog (em sua forma abreviada, blog, e aportuguesada, blogue) aqui pesquisada, torna-se interessante compreender os usos e as práticas anteriormente atribuídos ao gênero de escrita nele contido, que vem representado por um objeto que pode ser considerado seu velho e próximo cúmplice, ou seja, o diário íntimo ou confessional. Vianna (2003) esclarece que o mesmo é composto por uma particular minúcia na escrita na qual “o não-distanciamento sobre o que se escreve dá lugar ao pequeno, aos detalhes, às coisas ínfimas, retalhos que foram excluídos do relatos oficiais da história” (meio digital).
Numa narrativa autobiográfica e memoralista, o diário íntimo revelava principalmente uma necessidade do sujeito relatar, organizar, registrar e até mesmo buscar uma forma talvez terapêutica de sistematizar e compreender as suas vivências, situando seus discursos na quase urgência do momento presente, no qual se davam tais experiências, preenchendo seu manuscrito no decorrer da jornada, materializando em tintas e páginas as suas lembranças, suas práticas, que assim demarcavam fisicamente uma temporalidade. Para Michele Senay (1997) o diário é escrito com o passar do tempo; sendo portanto muito diferente de todas as demais autobiografias, memórias e outros parentes próximos do gênero; que podiam por sua vez serem elaborados de forma retrospectiva, do hoje, para o ontem, para o anteontem.
Mas é importante ressaltar que nem sempre o diário, este fenômeno cultural, foi composto pela propriedade de ser continente de uma individualidade, receptáculo de uma certa intimidade (que teve seu maior ápice de elaboração na época do Renascimento); haja vista que já tenha sido escrito e utilizado de forma coletiva, para que determinadas comunidades exercessem por colaboração de discursos fragmentados e múltiplos, o relato de seus dias e os publicizassem para os demais partícipes destes acontecimentos, então recordados de forma comunitária, como numa espécie de jornal informativo.
Houve também os diários de viagem, que buscavam narrar as impressões dos locais conquistados e/ou conhecidos, que traziam em si desde descrições geográficas e exploratórias a compilações de sensações e afetividades despertadas no encontro do sujeito com estas novas realidades. Ainda houve o uso do diário como instrumento de exame de consciência e de desenvolvimento de uma vida religiosa e espiritualizada, elaborado individualmente, mas sendo
trocado de mão em mão, com o intuito de compartilhar as provações, expiações e penitências de cada sujeito frente a sua fé, estando estes sujeitos unidos pela cumplicidade de uma mesma crença e exercitando uma renúncia de si (Robert A. Fothergill, apud GANNETT, 1992, p.105/0).
Portanto, revendo historicamente o diário a partir das formas pelas quais era confeccionado e das funções que lhe eram atribuídas, percebe-se que o mesmo não se tratava somente do resultado do registro narrativo de uma conduta individualizada, secreta e de exposição restrita de si para si mesmo. Conforme Oliveira (2004) conclui
(...) foi somente no final do século XIX que se pôde realmente falar no diário como o “livro do eu”. Mudanças científicas e culturais movimentaram o mundo civilizado e favoreceram o hábito de uma maior investigação e reflexão interiores. Entre os fatores estão as descobertas de Freud sobre o consciente e a natureza do inconsciente, associadas ao desenvolvimento do Romantismo, como elemento cultural (p. 48).
Tanto a espécie de hermenêutica que se dirige à busca de significados proporcionada pelas práticas da Psicanálise, quanto as crenças de espontaneidade, expressividade, singularidade e unicidade atribuídas ao sujeito pelo Romantismo; que também estimulou produções literárias conhecidas como o gênero de “narrativas do eu”; foram matérias-primas profícuas para o fundamento de uma conduta que convidava e seduzia o sujeito a exercer uma espécie de deciframento de si mesmo, ressaltando a escrita do diário íntimo como um exercício burguês por excelência.
O diário íntimo cunhava-se como uma forma de expressão pessoal e poderia simultaneamente fazer as vias de agenda, uma vez que não se resumia a registrar apenas o que passou, mas também poderia conter a previsão das atividades futuras, exercendo uma espécie de organização e controle do tempo, considerada uma atitude necessária e recomendável a um século em que a noção de progresso se instaurava e visava expandir-se.
Foi germinando, desse modo, uma forma de subjetivação particular, dotada de uma determinada “interioridade psicológica”, na qual se produziam atributos, sensações e sentimentos privados. Resulta, então, desse contexto sócio-histórico ocidental e moderno; envolto por promessas democráticas e liberais, com “garantias” de uma prioritária proteção das liberdades individuais derivadas das noções de privacidade; uma literatura centrada no sujeito, onde ele torna-se o objeto de seu próprio discurso. E o faz para si mesmo, uma vez que o diarista (quem
exerce a escrita de seu diário) atribui uma valorização a sua intimidade e não escreve seu material à espera de um leitor, premissa condizente à abordada por Mathias (1997) quando declara que
(...) o diário edifica-se afastado do mundo dos outros. Pode-se mesmo dizer que é aí longe do público, que radica a sua razão de ser. Escrito num deliberado isolamento, divulgá-lo é não raro uma forma de impudor. Pior: aos olhos do diarista isso é desvincular-se duma parte secreta de si mesmo, que deixa de lhe pertencer (p. 46).
Desenvolve-se assim na Modernidade o fundamento de um indivíduo que visa apreender o que considera como sendo a sua verdade, que exerce um mergulho introspectivo para dentro de si e busca encontrar em meio às lembranças do passado, aos desejos inconscientes, aos recalques e impressões sensoriais; um segredo que é indecifrável e que se perde, pois nunca poderá ser intuído e alcançado no todo, mas que se o fosse revelaria a “verdade suprema” sobre este ser, privado e singular, que enfim houvesse suprimido suas próprias ilusões, através do exercício sistemático de atribuição de sentidos e significados à realidade que o cerca.
Este indivíduo, racionalista e universal, que se imagina dotado de um autodomínio e crê na possibilidade de acesso a sua verdade, exalta as condições de possibilidade de existência de sua “interioridade” e reflexividade e por meio também da confissão esforça-se por fazer uma arqueologia minuciosa das mesmas, debruçando-se sobre o trabalho de escavar, desempoeirar, articular e reconhecer as camadas arqueológicas que se sobrepõem e lhe compõem e que, por meio do exercício de determinadas práticas arbitradas, pode exercer um desvelamento do eu.
Esta prática de buscar um conhecimento de si dirige-se muito particularmente a certos jogos de verdade que são abordados por Michel Foucault (1994) em seu escrito “As técnicas de si” no qual o mesmo define este conjunto de mecanismos que executam a transformação de indivíduos, exercendo uma série de decodificações da vida íntima, não apenas atuando por sobre suas convicções e pensamentos, mas provocando a adesão a atitudes, condutas, regras e práticas, através
[d]as técnicas de si, que permitem aos indivíduos efetuarem, sozinhos ou com a ajuda de outros, um certo número de operações sobre seus corpos e suas almas, seus pensamentos, suas condutas, seus modos de ser; de transformarem-se a fim de atender um certo estado de felicidade, de pureza, de sabedoria, de perfeição
Tais operações, ou melhor dizendo, estas “tecnologias do eu” atêm-se a duas especificidades, já anteriormente encontradas em textos gregos e romanos, que são demarcadas pela injunção de 1) conhecer-se a si mesmo e simultaneamente a de 2) exercer um outro princípio que é representado pelo cuidado de si, explorando assim ativamente cada recanto, cada sombra que o sujeito encontra e desvenda em si, por meio de refinadas práticas hermenêuticas (derivadas também de uma forma de subjetivação cristã) que teriam a capacidade de se refinar ao longo da vida, e que o habilitariam como sendo um intérprete de si mesmo. Utilizando-se para tal de inúmeros artifícios onde
a escrita é (nessa cultura do cuidado de si), ela também, importante. Dentre as tarefas que definem o cuidado de si, há aquelas de tomar notas sobre si mesmo – que poderão ser relidas -, de escrever tratados e cartas aos amigos, para os ajudar, de conservar os seus cadernos a fim de reativar para si mesmos as
verdades da qual precisaram (FOUCAULT, 1994, meio digital).
A escrita de si num diário íntimo, enquanto uma técnica concreta derivada do cuidado de si, corresponde a múltiplas funcionalidades tais como: o auto-conhecimento, a reflexão, a expiação, o auto-controle, enfim, caracterizando todas estas atribuições a uma busca pelo governo de si enquanto crente da premissa de ser racional, buscando uma maior independência do mundo, contraditoriamente pelas vias de um modo de sujeição que exerce uma política de elaboração, de construção de si. Determinada escrita aproxima-se de uma estética da existência, que por sua vez relaciona-se à produção da subjetividade, à constituição de sujeitos éticos, aqui entendendo Ética enquanto
un arte de vivir, una estética de la existencia individual, un esfuerzo por desarrollar las propias potencialidades, una aspiración a construirse a sí mismo como una obra de arte, más que una moral entendida como la exigencia de obedecer un sistema de reglas, un código, que además suele pretender ser
universal(MARTINÈZ, 1990, meio digital).
Assim, por constituir-se numa tentativa de auxiliar o indivíduo a fazer-se belo, único e privado e relatar sucessivamente as buscas, procedimentos e produções para o alcance destas mesmas construções pessoais, a escrita de si conduziu o indivíduo moderno por uma trajetória de pretender transformar-se e modificar-se de acordo com certas condutas que considerava passíveis de delinear sua existência com os valores estéticos e estilísticos adequados a uma obra de arte. O
indivíduo, através de exercícios sobre si mesmo, e por tecnologias do eu deveria transformar-se por meio de uma estética de existência e não através de prescrições morais, como uma maneira de ser e de conduzir-se.