Ao utilizarmos a Metodologia de Webquest para desenvolver um trabalho de pesquisa, devemos, em primeiro lugar, definir claramente os objetivos a serem alcançados. Dodge, ao propor uma listagem de “Tarefas”, teve como princípio a taxonomia, que é um sistema que nos permite, além de classificar, dar sentido de hierarquia, sequência, acumulação. Utilizou-se da Taxonomia de Bloom, também conhecida por “Taxonomia dos Objetivos Educacionais”, para diferenciar os objetivos educacionais que permeiam a construção de uma Webquest.
Benjamin Bloom, em 1956, dirigiu uma comissão mista de especialistas que tinha por objetivo classificar a aprendizagem em diferentes níveis de complexidade cognitiva; e, por alguns anos, foi com base nesse trabalho de Bloom que muitos educadores estimularam e desenvolveram com os alunos as habilidades do pensamento.
A Taxonomia de Bloom tem como objetivo partir do mais simples para o mais complexo fazendo, desse modo, uma associação entre a instrução e a aprendizagem, tornando o processo cumulativo, uma vez que uma categoria depende da outra. A título de melhor compreender essa classificação, o Quadro 02 nos apresenta a Taxonomia de Bloom com os verbos sugeridos para o desempenho de cada um dos níveis do processo de aprendizagem.
Quadro 02 – Taxonomia de Bloom
Nível (cognitivo)
Objetivo Definição do aprendizado em cada nível Verbos
Avançado
(alto)
Avaliação O aluno aprecia, avalia ou critica baseado em argumentos predeterminados. Julgar Argumentar Comparar Contrastar Criticar
Síntese O aluno cria, integra e combina ideias num produto, plano ou proposta novos para ele.
Planejar Propor Elaborar Formular Modificar Análise
O aluno pode dividir a informação em elementos ou partes, de modo que sua estrutura organizacional possa
ser entendida. Analisar Comparar Classificar Deduzir Aplicação
O aluno seleciona, transfere e usa dados e princípios para completar um problema ou tarefa com o mínimo de
supervisão.
Ele deve ser capaz de aplicar os conceitos adquiridos na resolução de problemas. Aplicar Construir Desenvolver Resolver Compreensão
O aluno inicia o processo de entendimento, através do qual é capaz de compreender ou interpretar as informações. Nesse nível, ocorre o entendimento de
Diferenciar
A figura mapeia o percurso que o aluno deve fazer até chegar ao nível mais alto do conhecimento. Ao passar pelo primeiro nível, o aluno é capaz de recordar o conhecimento, continuar buscando a compreensão até atingir o nível mais elevado em que ele consegue aplicar o que aprendeu. Nesse momento, o aluno continua seu percurso até desenvolver sua habilidade de analisar situações que envolvam o conhecimento rumo a sua habilidade de sintetizar e organizar as informações armazenadas até o momento. Finalizando, ele chega ao nível mais elevado em que será exigida a habilidade de avaliar, de maneira que possa fazer um julgamento do valor do conhecimento e assim atender aos objetivos propostos para sua pesquisa.
Para Dodge, um professor, ao construir uma Webquest, deve ser capaz de explorar os níveis mais altos do domínio cognitivo e, por isso mesmo, tem pela frente um grande desafio: a autoria e a criatividade que, nos tempos da internet, são mais difíceis de serem alcançadas, uma vez que se trava uma constante competição com essa nova tecnologia. Nesse sentido, cabe ao professor ser capaz de provocar seus alunos a transformarem as informações contidas na web em algo novo e significativo no processo de aprendizagem. Para ele:
conceitos. Resumir Ordenar Traduzir Básico (baixo) Conhecimento
O aluno armazena em sua memória as informações, as ideias e os princípios na forma que lhe foi ensinada.
Definir Descrever Identificar Listar Nomear Rotular
Fonte: Adaptado de BLOOM et. al., Taxonomia dos Objetivos Educacionais: Domínio afetivo. Vol. 2. Porto Alegre: Editora Globo, 1972.
[...] nós professores somos transformadores de conhecimento e não apenas transmissores [...] o professor terá o grande desafio de fazer e depois trazer possibilidades a eles [..] podendo ser elemento altamente estratégico e, por outro lado, facilmente dispensável (DODGE, 2005).
Precisamos considerar que, apesar da Taxonomia de Bloom levar a uma hierarquização dos níveis de conhecimento, em uma Webquest a hierarquia dos domínios cognitivos nem sempre segue uma hierarquia evidenciada nas etapas, nas tarefas e/ou no processo. É possível que o aluno possa conhecer um tópico ou conceito em diferentes níveis.
Dodge (1995) observou que uma grande parte de WQ concentra-se em exigir dos alunos os níveis mais inferiores da Taxonomia de Bloom, o que contrapõe a MWQ. O autor acredita que, ao trabalharmos com os níveis mais elevados, os alunos serão mais exigidos, partindo-se do princípio de “aprendizagens baseadas em descobertas” (DODGE, 1995). Para o autor, uma verdadeira Webquest deve procurar sempre “Tarefas” que estejam num nível mais elevado, o que acontece a partir do nível de análise (Taxonomia de Bloom); isso porque, se trabalharmos com os níveis inferiores de conhecimento (conhecimento, compreensão e aplicação), como, por exemplo, memorização e repetição, não estaremos utilizando a MWQ, e sim o que Dodge chama de WebExercise (exercícios na web), o que não contempla o processo de transformação, levando à não efetivação do aprendizado.
Dodge explica que a melhor maneira de o professor saber se está no caminho certo na criação de sua Webquest é se questionar perguntando: “O que estou propondo aos alunos nesta Tarefa é uma atividade significativa?”; numa associação à Taxonomia de Bloom, ele argumenta que, se o verbo utilizado é o que o aluno verdadeiramente faz em sua vida cotidiana (ler, comparar, julgar, sugerir, opinar etc.), então o caminho está correto, pode seguir em frente. Mas, se ao contrário, a “Tarefa” proposta pelo professor leva a verbos como copiar, repetir, conceituar, isso leva a uma atividade mecânica que ele denomina de WebExercise.
Figura 01: Taxonomia de Bernie Dodge
Fonte: Dodge, Palestra em 18/05/2005 – SENAC/SP. Disponível em:
<http://www1.sp.senac.br/hotsites/arquivos_materias/HLT7ApresentacaoBernieDodge.pdf>. Acesso
em: 04 jan. 2011
Durante a palestra, Dodge apresentou sua Taxonomia e fez algumas considerações sobre o que ele denominou “verbos da vida” e “verbos da sala de aula”; disse que são dois grupos que só encontram uma intersecção no grupo que ele denominou de “verbos da Webquest”; e destacou que o professor, ao solicitar aos alunos que pesquisem páginas na internet sobre determinado assunto e apresente sua pesquisa através de resumo, texto ou mesmo uma apresentação em PowerPoint, só estará reproduzindo o modelo de uma educação tradicional, que para ele é:
[...] um modelo de exercício contínuo de copiar e colar [...] precisamos abandonar os verbos tradicionais de sala de aula – conhecer, dizer e lembrar, e estimular os alunos a decidir, projetar, criar, predizer e julgar [...] o papel do professor é propor, orientar, indicar caminhos, dar dicas de bons livros, bons sites, onde o conteúdo do tema proposto pode ser encontrado” (DODGE, 2005 – SENAC/SP).
Fica claro que ainda há uma grande a maioria WQ que, mesmo que utilize internet como recurso, não é capaz de explorar os níveis mais altos do domínio cognitivo da Taxonomia de
Boom, conforme o modelo sugerido por Dodge. A figura abaixo nos mostra a relação entre Webquest e os domínios cognitivos da Taxonomia de Bloom: (adaptação da pesquisadora)
Figura 02 – Webquest X WebExercise
Fonte: http://projects.coe.uga.edu/epltt/index.php?title=Bloom%27s_Taxonomy#end. Acesso em: 04 jan. 2011.
Tendo destacado os desafios para os professores, vale ressaltar a ideia de uso da pesquisa como estratégia pedagógica; a MWQ deve propiciar ao aluno oportunidades para que ele seja capaz de elaborar suas próprias hipóteses buscando recriar conceitos a partir dos problemas apresentados e buscar sempre atingir os níveis mais altos do domínio cognitivo.
Segundo Moran40, os professores ainda não conseguem utilizar as tecnologias em toda a sua potencialidade, falta o que ele denomina de “domínio técnico-pedagógico” que, no futuro, irá permitir “modificar e inovar os processos de ensino e aprendizagem”.
Para adaptar a MWQ em verdadeiras WQ interativas atendendo às necessidades da EaD, apresentamos uma nova leitura da Taxonomia de Bloom adaptada para a era digital que foi concebida por Churches (2009) no sentido de buscar uma aproximação com os recursos da Web 2.0 para construir tarefas mais reais ao nosso mundo atual.
40
MORAN, José M. As possibilidades das redes de aprendizagem.
Disponível em: <http://www.eca.usp.br/prof/moran/redes_aprendizagem.htm>. Acesso em: 26 fev. 2012. Webquest
WebExercise
Avaliação: confronta teorias, baseia-se no conhecimento aprendido para solucionar problemas propostos.
Síntese: relaciona conteúdos, elabora conclusões, formula novos conceitos, generaliza.
Análise: reconhece padrões, organiza conhecimento, reconhece significados ocultos.
Aplicação: usa o conteúdo aprendido em novas situações.
Compreensão: demonstra o entendimento do assunto.
Conta Churches (2009) que, nos anos 90, um estudioso de Bloom, Lorin Anderson, fez a primeira revisão e a publicou em 2001. Uma das principais mudanças foi a substituição dos substantivos por verbos, entendendo que estes evidenciam com maior clareza o que se espera do aluno. Outra inovação foi a alteração de lugar nas duas categorias de nível superior, como veremos melhor na Figura 03:
Fonte: http://www.eduteka.org/pdfdir/TaxonomiaBloomDigital.pdf. Acesso em: 12 jan. 2012.
Churches, em 2009, fez uma nova revisão da Taxonomia de Bloom, nomeando-a como
Taxonomia Digital de Bloom41, e é com essa nova configuração que poderemos construir Webquests interativas, uma vez que o autor traz, para cada categoria, uma associação aos recursos da era digital. Veja na figura abaixo:
41
CHURCHES, Andrew. Taxonomia de Boom para La Era Digital. 2009. Disponível em: <http://www.eduteka.org/TaxonomiaBloomDigital.php>. Acesso em: 12 jan. 2012.
Figura 04 - Taxonomia Digital de Bloom por Churches42
Fonte: http://www.eduteka.org/pdfdir/TaxonomiaBloomDigital.pdf. Acesso em: 22 fev. 2012.
Churches43 (2009) afirma que a colaboração é só uma habilidade do século XXI, mas é
essencial. Ele explica que:
42
Elementos coloridos em preto são reconhecidos e verbos existentes, elementos coloridos em azul são os novos verbos digitais.
43
CHURCHES, Andrew. Taxonomia de Bloom para La Era Digital. Disponível em: <http://www.eduteka.org/TaxonomiaBloomDigital.php>. Acesso em 22 fev 2012.
A colaboração pode assumir muitas formas, que pode variar muito. Muitas vezes, isso é independente do mecanismo usado para trabalhar. Além disso, a colaboração das pessoas não é uma parte integrante do processo de aprendizagem, uma vez que elas têm que trabalhar juntas para aprender, mas, muitas vezes, a sua aprendizagem é reforçada por ele. A colaboração é uma habilidade que tende a aumentar no século XXI, dada a sua importância em todo o processo de aprendizagem. Em alguns momentos, um elemento da Taxonomia de Bloom simplesmente é um mecanismo que pode ser usado para facilitar pensamentos da ordem superior da aprendizagem (CHURCHES, Publicado em EDUTEKA: 1º de outubro de 2009 (tradução da pesquisadora).44
O autor esclarece que as habilidades de pensamento são essenciais, e elas, quando adquiridas, valem para o resto de nossas vidas; mas ele faz um alerta ao afirmar que, em poucos anos, grande parte do que ensinamos aos nossos alunos será obsoleto, visto que o ensino “industrial” baseou-se nas habilidades de nível inferior (Taxonomia de Bloom) e que a educação do século XXI está voltada para as habilidades de pensamento de nível superior, como, por exemplo, analisar, avaliar processos, resultados e consequências, como também desenvolver, criar e inovar.
Com base nesses novos modos de aprender, Fisher45 (2009) apresentou uma relação entre a Taxonomia Digital de Bloom e os recursos disponíveis na web, o que gerou a seguinte imagem:
44 Disponível em: <http://www.eduteka.org/pdfdir/TaxonomiaBloomDigital.pdf>. Acesso em: 22 fev 2012. 45
FISHER, M. Visual Bloom’s. 2009. Disponível em: http://visualblooms.wikispaces.com/page/diff/home/168742529
Figura 05 - Taxonomia de Bloom para Era Digital por Fisher
Fonte – Disponível em: <http://visualblooms.wikispaces.com/page/diff/home/168742529>. Acesso em: 22 fev. 2012.
A figura nos mostra que, nesses novos tempos de aprender por meio das TIC, não há uma hierarquização nas habilidades. Por isso, as setas representam um passeio pelas diferentes habilidades, permitindo, por exemplo, que o YouTube possa ser encontrado em quase todos os níveis, o que nos remete a lembrar que, em uma WQ, cabe ao professor/tutor associar seus
objetivos didáticos aos diversos recursos disponíveis, que podem partir do domínio mais simples ao mais elevado. O autor esclarece que (tradução adaptada pela pesquisadora):
As setas são destinadas para indicar a fluidez com que as ferramentas podem viajar através dos diferentes níveis. A linha do meio é destinada a separar os níveis mais elevados do conhecimento cognitivo dos outros mais baixos, mas apenas com o entendimento de que seria para a ferramenta especial um nível particular, e não considera as múltiplas formas com as quais a ferramenta pode, eventualmente, ser utilizada. Novamente, isso é feito para ser um bom começo de discussão à medida que evoluímos a representação de ferramentas web com efeitos visuais que servem para nos ajudar a compreender a interconectividade de recursos tecnológicos (FISHER, 2009).
Reconhecemos que, em uma WQ voltada para EaD, o professor/tutor tem em suas mãos recursos didáticos que se potencializam com o uso da Web 2.0 e podem ser utilizados para atingir os níveis superiores da Taxonomia de Bloom, não esquecendo que cabe ao professor o gerenciamento do processo de mediação para que o aluno não se perca em meio a tantas informações e inovações pedagógicas.