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WORLD TRADE CENTER SP

No documento DissertacaoRaissa (páginas 72-78)

Situado na região da avenida Luís Carlos Berrini, o conjunto World Trade Center São Paulo (WTC), por suas dimensões e complexidade, é uma obra notável. Embora não se destaque como um marco de qualidade arquitetônica atingida em outras obras do escritório Aflalo & Gasperini, como o edifício Citibank, na avenida Paulista. O WTC finaliza um longo processo de quase duas décadas de elaboração de projetos e programas para aquele local, e cujo estudo pormenorizado permitiria uma compreensão mais clara da produção recente de edifícios empresariais em São Paulo.

A ausência de um maior diálogo urbano, característica muito presente nas grandes cidades latino-americanas, pode ser computada em grande parte ao estado de inacabamento de toda a região da Berrini, cuja transformação em centro de negócios continua a ser feita lote a lote, sem a necessária visão de conjunto que poderia qualificar o espaço urbano de maneira mais digna. No caso do WTC, isso se deu parcialmente a revelia das

intenções iniciais do empreendimento, pensado a partir de meados dos anos 70 como a urbanização de uma gleba bem maior, hoje desmembrada, englobando a área do edifício Nestlé e do Centro Empresarial Nações Unidas.

Fig. 67 Área externa do Hotel Fonte:Revista Projeto Design no 193 jan/fev 96

O conjunto do WTC pode ser visto como uma solução arquitetônica em sinergia: não é apenas uma torre de escritórios, um shopping, um hotel, um centro de convenções e exposições, uma garagem para mais de 2 mil vagas, nem é a simples agregação de tudo isso, mas transcende seu somatório numa resultante “sinergética”. O projeto realizado nasceu da interpretação arquitetônica desse amplo programa, novo no Brasil, embora testado em outros pontos do planeta com variações.

O desenho externo da torre dá prosseguimento aos exercícios formais dos autores com o tema das grelhas, com um grau de abstração plástica que já se anunciava no edifício Nestlé e que aqui se intensifica. Embora a solução ainda se filie à tradição paulista de protagonização da estrutura na resolução formal do edifício, esta obra se aproxima, sem subordinação, da solução formal de contraposição entre a estrutura interna e a pele externa.

A volumetria em “L” e o gabarito mais baixo do hotel, visam diferenciá-lo da torre de escritórios, enfatizando um caráter residencial que, junto com o relativo afastamento entre ambos, cria a sensação urbana de se tratar de outro empreendimento. Embora se desejasse certo grau de diferença, essa resultou em alguma dissonância, sobretudo devido ao tratamento dado às fachadas do hotel - cuja execução difere da proposta dos autores.

Fig. 68 Planta do pavimento tipo do hotel Fonte:Revista Projeto Design no 193 jan/fev 96

O shopping acompanha as pautas comuns a esse tipo de programa, apresentando-se externamente muito fechado, usando o vidro nas fachadas por suas qualidades como revestimento e para sugerir leveza. O WTC, em sua Arquitetura, define uma solução eficiente e de alta complexidade, resultado decantado de uma longa experiência profissional genuinamente brasileira.

O projeto do WTC teve uma longa e variada gestação, acompanhando as alterações de terreno e de conceito de seus promotores, ao longo de mais de uma década. A última e definitiva versão, entretanto, foi projetada e realizada em tempo relativamente rápido, se considerado o porte da obra. Isso implicou a simultaneidade entre certas fases do projeto e da obra, a dispersão parcial das atribuições de complementação e detalhamento e certo grau de adaptações, basicamente nos detalhes e no uso de materiais de acabamento. A concepção geral, no entanto, se manteve íntegra.

Partido Arquitetônico

Fig. 69 Planta da Torre de Escritórios

Fonte: Revista Projeto Design no 193 jan/fev

96

0 projeto nasceu de baixo para cima, ou ainda, da modulação para a modelagem dos espaços. Partiu-se de uma malha de 10 x 10m, varrendo todo o terreno, criando eixos imaginários dispostos no

sentido dos pontos cardeais, mas em 45o em relação às divisas do lote

retangular quase regular. Na faixa junto á marginal do Rio Pinheiros os volumes se dispõem segundo essa rotação, enquanto na metade oposta, paralela e mais próxima da avenida Luís Carlos Berrini, os volumes sofrem

rotação de 45o, resultando em paralelos aos alinhamentos. Esse jogo dá as

regras para a apropriação do amplo lote disponível.

Atendendo os recuos legais, é seguida uma lógica própria de projeto que serve de apoio racional para a disposição das edificações que compõem o conjunto, além de simplificar a disposição das vagas de autos nos subsolos destinados a garagens. A essas vantagens construtivas iniciais soma-se a possibilidade de potencializar um diálogo com a vizinha torre da Nestlé, dos mesmos autores, de garantir afastamento da via de tráfego rápido e de proximidade do pólo de atração de pessoas e veículos em baixa velocidade vindos da Berrini.

Os volumes resultantes se justapõem, ocupando a área legalmente disponível, que varia em função da cota. A solução resultante é ainda a de placa/torre: torres de diferentes alturas (26 pisos para os escritórios, 16 para o hotel e 3

pisos para o shopping/convenções) sobre um

grande embasamento.

Fig. 70 Detalhe da treliça espacial metálica Fonte:Revista Projeto Design no 193 jan/fev 96

A disposição das funções nos volumes não é estanque, tanto em planta como em elevação, havendo razoável grau de interpenetração entre ambientes de características e usos distintos. Apesar da fluidez de circulação entre as várias atividades, sua relativa autonomia fica garantida tanto pela existência de acessos independentes como pela possibilidade de eventual isolamento, quando necessário, de determinadas porções do conjunto, além da presença de alguns elementos invariáveis que balizam e definem as áreas alocadas aos diferentes usos.

Fundada nos Estados Unidos em 1970 para promover o comércio internacional, a World Trade Centers Association se espalha hoje por mais de 89 países e reúne cerca de 500 mil empresas filiadas no mundo inteiro. Afirmativas e onipotentes chamadas, pelo guia nova-iorquino AIA - American Institute of Architects de “monolitos banais”, as “Twin Towers” de M. Yamasaki, dominaram até pouco tempo com seus 11O pavimentos o perfil de Manhattan.

Mesmo com diferenças claras no programa, que respondem basicamente a adaptações a demanda local, a concepção do empreendimento é a mesma nas suas 259 unidades atuais: centros empresariais ambiciosos, com características multiuso, aproveitando a sinergia entre áreas diversas para apoiar a realização de negócios internacionais. Para promover o acesso dos seus associados — em grande parte pequenas e médias empresas — ao mercado internacional, todas as unidades do WTC são também dotadas de

sistemas de comunicação e recursos de automação predial de ponta. Neste caso, a operação envolve como principais atores 33 fundos de pensão, que se organizaram em cotas na expectativa de que o investimento inicial seja amortizado em menos de uma década.

A robusta torre com 26 andares e 29 mil m2 de área útil abriga um clube

internacional de negócios, áreas de exposição de produtos e escritórios para locação. Os três primeiros andares são dedicados ao chamado “Business Club”, um núcleo aberto a todos os associados, com salas de trabalho para executivos em trânsito, biblioteca, restaurante e espaços para treinamento e conferências. Do 4o ao 14o pavimento foram instalados show-rooms e vitrines

para exposição permanente e temporária de produtos e serviços relativos ao comércio exterior. Os pavimentos superiores, destinados a escritórios para locação, têm espaços moduláveis entre 46 m2 e 1.218 m2, divididos por

painéis de gesso com revestimento acústico.

O pavimento-tipo tem serviços e equipamentos concentrados na fachada posterior, com duas baterias de sanitários e dois halls com dez elevadores, que operam pelo sistema de zoneamento. Às escadas só se tem acesso em caso de incêndio.

Para facilitar o arranjo dos espaços internos, as instalações elétricas e de telefonia correm em canaletas de piso, também obedecendo ao módulo básico de 1,25m x 1,25m, que regula todo o edifício.

A estrutura é basicamente definida pelo grande pilar de concreto do corpo central associado às lajes executadas com sistema de “mesas voadoras”, o que possibilitou a concretagem de cada laje de 1,7 mil m2 em sete dias.

Fig. 71 Grelhas da fachada da torre de escritórios Fonte:Rev. Projeto Design no 193 jan/fev 96

Nas fachadas, a idéia das grelhas estruturais, revestidas com placas de granito e fixadas com grampos de aço inox e valorizada como linguagem arquitetônica, se repete, mas desta vez a solução faz pensar num apego a forma, que reduz o vigor do conceito original. Examinando ainda as fachadas, percebe-se que o ritmo dos pilares que as configura escapa do conceito estrutural, havendo intenção de “compatibilizar a Arquitetura” com o edifício vizinho, projetado anteriormente pelo escritório para a Philips.

Anunciado como “o mais moderno e sofisticado centro de consultas, compras e tendências do segmento de decoração e design da América

Latina”, o shopping D&D - Decoração & Design, pretende atrair consumidores e profissionais de cidades e regiões vizinhas, com interesse especial pelos países que compõem o Mercosul. São 120 lojas especializadas e 40 no setor de alimentação e serviços voltados ao consumidor direto e aos profissionais da área. O shopping, com área locável de 12 mil m2, tem três

níveis de lojas e é coroado por um terraço (com duas quadras de tênis, uma de “paddle” e pista de Cooper), ligado à torre do hotel anexo.

Fig. 72 Shopping D&D - WTC-SP Fig. 73 Interior do Shopping 1 Fig. 74 Interior do Shopping 2

Fonte:Arquivo Pessoal

O complexo conta ainda com hotel cinco estrelas de 300 suítes e um centro de convenções administrado pelo grupo Sol, empresa espanhola reconhecida no setor hoteleiro pela bandeira Meliá. O hotel é dirigido ao segmento de negócios e procura privilegiar os espaços destinados aos hóspedes, condensando as áreas de serviço. Cada suíte padrão tem aproximadamente 40 m2, dentro dos

princípios e especificações estabelecidos pela Meliá. Todas têm sistema de ar-condicionado com controle individual, duas linhas de telefone, fax, microcomputador e TV.

Fig. 75 Torre do Hotel- WTC-SP Fonte:Revista Projeto Design no 193 jan/fev 96

No primeiro pavimento foram instaladas seis suítes especialmente projetadas para atender aos hóspedes com deficiência física. Nos três últimos níveis, o serviço real, 40 suítes VIP’s, mais 2 presidenciais e 4 duplas, com recepção, área social e serviços exclusivos.

O centro de convenções, com cerca de 5 mil m2, tem como atração um auditório de 545

lugares e uma área de eventos de 928 m2, que

pode ser dividida em quatro espaços, por meio de divisórias recolhidas nos pilares, ou comportar a montagem de um anfiteatro para 1200 pessoas. Além disso, conta com duas salas de videoconferência e áreas de apoio. Embora integrado ao hotel e ao shopping, o centro tem acesso privativo por três elevadores panorâmicos. É servido também por um

elevador de grande potência, capaz de transportar veículos.

Fig. 76 Área externa entre o complexo Fonte:Revista Projeto Design no 193 jan/fev 96

Tecnologias Utilizadas

Em termos de infra-estrutura de apoio, o complexo reúne requintes de alta tecnologia e oferece os serviços mais avançados de automação predial. O centro de convenções e a torre de escritórios são dotados de uma espinha dorsal de fibras ópticas — conhecida como backbone — para transmissão de dados e imagens entre computadores geograficamente distantes, de acordo com o nível mais veloz de tráfico de dados (nível 5). Pelo sistema de rede comercial exclusiva, interligada à Internet, veicula em tempo real catálogos e informações sobre compra e venda de produtos a banco de dados de 160 países e mais de 500 mil empresas. Outro serviço disponível é a videoconferência, que permite a apresentação simultânea de produtos a todos os WTC’s, via satélite.

Através de circuito fechado de TV, também é possível aos hóspedes do hotel acompanharem os eventos realizados no centro de convenções.

O estacionamento, comum a todo o conjunto, acomoda 2.100 vagas em cinco subsolos, com folga de cerca de 600 vagas em relação aos limites estabelecidos pela legislação. Na cobertura do hotel, um heliponto tem capacidade para atender a helicópteros de grande porte, com até 14 passageiros.

Fig. 77 Torre do Hotel- WTC-SP

Fonte:Revista Projeto Design no 193 jan/fev 96

4.2 Plaza Centenário

No documento DissertacaoRaissa (páginas 72-78)