CASOS CLÍNICOS
170 XOTAS DE UM MEDICO DE PROVÍNCIA
seriam incompletas as minhas observações, pela ca rência das deduções do laboratorio, coisa que aqui não ha, graças a Deus, para menor difficuldade nas conclusões diagnosticas. Linhas atraz fiz referen cias a pesquisas de laboratorios, chegando-se a con clusões de certa importância; mas os taes são peque nos recursos dos proprios médicos que, com um mi- croscopio,, alguns reactivos e bôa vontade tiram as “ teimas” de certos casos.
N ão sei si os meus leitores têm á mão o “ Quel- ques Erreurs et Trom peries” de Bourget, de Lau- sanne, e, si o leram, concordam ou não com o exag- gero das suas affirmações, ou si acceitam a possí vel atrapalhação do analysta.
Em toda parte ha bons e mãos elementos, e lon ge de mim pôr duvidas á honestidade dos especialis tas. Mas convenhamos que o mercantilismo e o char latão assoberbam de falsas interpretações as preten sas analyses, de tal modo que o clinico prefere con cluir o seu raciocínio com a própria symptomatolo- gia, ainda que mal esboçada e demorando o tratamento do paciente.
Contou-me um collega que certa vez colheram o sangue de um doente de enfermaria de certa Santa Casa de Misericórdia de notável cidade do Sul, pu- zeram-n’o em dois tubos de ensaio e em cada um nu mero differente, remettendo-os em seguida a certo instituto celebre para uma pesquisa de Wassermann. N o dia seguinte veio o resultado: um foi positivo e o outro negativo.
Falleceu de moléstia “ mal definida” , num asylo de certa província uma das suas internadas. Feita a necropsia, verificaram os médicos uma particulari dade exquisita no baço, que intrigou a ignorância dos esculápios, fazendo os necropsiantes um “ esfrega- ço” da glandula, mandando-o a certo anatomo-pathp- logista, muito afamado também em toda a medicina clinica, dizendo-se-lhe previamente que era “ esfre- gaço” de baço. O analysta, dias depois, mandou o re sultado: Tecido Normal de B R A Ç O !
Conheço em certa cidade do nordeste um labora- torio muito procurado por toda gente, porque traba lha de graça, e onde todo exame de urina revela al bumina, todo puz tem gonococcos e o Wassermann é positivo, ou negativo, de accordo com a historia do doente. E para “ controle” abriu-se no mesmo logar outro laboratorio dirigido por um profissional que também fa z gynecologia, obstetrícia, operações, ap- plicações de electricidade medica, e onde se fa z dia gnostico exacto de cardiopathias pela medição da ten são arterial, curam-se o câncer, a tuberculose, a sy- philis, surdo-mudos, aleijados, etc., etc.
Deante, pois, da verdade de taes exames e de semelhantes laboratorios, chegou-se á evidencia de que si o analysta occupa outras horas com a medicina clinica, os seus exames não valem nada, ou causam um grande mal aos doentes; e si o medico não está preve nido do “ b lu ff” , acabará matando o seu cliente, se guindo as indicações do embusteiro arvorado em ana lysta.
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P o r motivos semelhantes não serão assim com pletas as minhas observações.
N ã o me occuparei aqui da dysenteria, colibacil- lose, typho, malaria, febre amarella, verminose etc., deixando ás auctoridades sanitarias o goso de se apra zerem com esse estado de coisas, que lhes rendem lon gas commissões, a despeito do clamor pela conserva ção da saúde e tranquillidade publicas, além de que estariam esses assumptos fóra dos limites destas no tas.
Conhecem os meus leitores a correspondência do D r. Gourgey, d’ Y v ry , medico do campo, a seu filho Jacques, quando este começou a cuidar da carreira que deveria abraçar, consultando assim as suas apti dões e a seu pae ? E ’ muito curiosa sob o ponto de vis ta medico-social, e na sua linguagem se descobre a alma palpitante do verdadeiro medico falando do idéal das abnegações, e modelando a profissão na ternura humana. Conta-lhe que penetrando o medico em to dos os meios, no seio de todos os lares, cuidando de doenças e de doentes de variedades infinitas, assiste a scenas de toda especie, sempre novas, mas o que não
muda nunca
é
a miséria, a triste miséria humana.O medico do campo, de que tão bem nos fala Balzac, não deseja, diz Courgey, ver seu filho abraçar a mesma carreira que a sua, porque a arte medica, tal qual se exerce nos meios operários e atrazados, não seduz a todos os espiritçs; e é preciso estar duramen te preso a ella, e sobretudo amar seu semelhante para exercel-a com carinho. Quem se acerca da torpesa,
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dos vicios, da preguiça, de misérias repugnantes, de promiscuidades repellentes, estará compensado pelo devotamento, pelo trabalho, pela ordem, pelo asseio e pelas virtudes, quando se trata de remediar um mal pelo exemplo do bem. “ Os contrastes são necessários, diz elle, e os abysmos de sombra, como as immensi- dades de luz, as degradações como o herói smo, ele vam a alma, exaltando a piedade, como a admiração” . Evoca o seu afan diuturno e mostra como o medico deve se interessar por toda a vida social, por todas as obras sociaes de educação, de instrucção, de benefi cência, de mutualidade, de previdência, agindo nas collectividades, instruindo sempre, numa propagan da incessante de hygiene e moral, até o fim da sua actividade util, guiando as suas intenções no amor do seu semelhante, pela doçura alliada á firmeza, pela compaixão e piedade sem pieguice; entregando-se á familiaridade com dignidade, á simplicidade sem in genuidade e á cordialidade sem baixeza; respeitando a saúde e a vida dos seus semelhantes, dando-lhes as sistência consciente e eximida de inferioridades que aleijam a moral social. E exhorta-o, caso escolha a profissão de medico, a se especializar e clinicar nos grandes centros, onde terá satisfações, sobretudo pe cuniárias, menos fadigas physicas, porém menores alegrias moraes.
O sonho c conselho do grande medico chegam a ultrapassar os limites actuaes da bondade humana, vendo ainda, num futuro proximo, pelo adeantamento da cultura scientifica, uma sociedade profundamente