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1 INTRODUÇÃO

4.2 JO YCE JOHNSON E ELISE COW EN: UMA HISTÓ RIA QUE SÓ PODE

Durante toda a escrita desse texto, o nome de Elise Cowen, e de muitos acontecim entos no entorno do grupo Beat, apareceram nas palavras de Joyce Johnson. Foi um a preocupação da pesquisa de que a voz de Johnson pudesse cruzar essa m ontagem , por vezes caótica, da presença e ausência de Elise Cowen. Em 1983, com a publicação de M inor Characters, Cowen passa a surgir com o figura afetiva, pela escrita de Joyce Johnson. Na introdução da terceira edição do livro, no final dos anos de 1990, Ann Douglas (1999) diz que Johnson

“transcrevendo alguns dos poem as de Elise Cowen, nos lem bra que o trabalho de Cowen não foi publicado em vida - a consciência original está aqui para sem pre separada da form a que tom ou109.” (XXXVIII, tradução minha). De fato, a 108No original: Over and over she read those poems, tracking down every conceivable reference

attached to an image - and still they would not give up their meaning. It remained sealed inside Eliot's words. “Garlic and sapphire in the mud ...” What could you say with finality about that? She handed in the paper wees after the term was over; the instructor changed her Incomplete to a C.

109No original: printing a few of Elise Cowen's poems, she reminds us that Cowen's work was unpublished in her lifetime - originating counsciousness is here forever separated from the

autora fornece um a série de inform ações que dialogam de form a direta com os poem as deixados no caderno sobrevivente, m ostrando que Cowen trabalhava para que sua poesia fosse um intenso trabalho entre vida e prática de poesia, mas tam bém de intensa leitura, sem pre em busca de lapidar a sua voz em diálogo.

Joyce Johnson é um a contadora de histórias nata, conta a sua partindo da adolescência e início da vida adulta, através de cenas em que foi coadjuvante e algum as vezes protagonista acom panhada de outras pessoas como Jack Kerouac e Elise Cowen, personagens muito recorrentes nos anos narrados.

Com o ela m esm a diz “só é possível contar as histórias deles através das m inhas próprias110” (p. XXXV) e ela assim o faz através de cenas e cenários m inuciosos.

No quarto capítulo de M inor Characters, Johnson relata que entrou para a Barnard College em 1951, com dezesseis anos, entusiasm ada por estar em um a faculdade de artes liberais para meninas, sonhando em escrever e viver com o Zelda e F. Scott Fitzgerald. Na prim eira sem ana, conheceu Elise Cowen que ela acreditava, que seus instintos advertiam, deveria ter evitado:

Eu não queria conhecer Elise Cowen, que claramente não era colegial e sobre quem eu poderia dizer, logo de cara, estava além do esforço da tentativa. Ela se apresentou com uma voz tão baixa que eu tive que pedir para ela repetir o nome. Mas os seus olhos insistiam: "Eu conheço você. Fomos para os mesmos lugares. E não é ridículo estarmos aqui?" E o tempo todo, eu com minha saia xadrez e manta de lã, esperava que tivesse me misturado perfeitamente.111 (JOHNSON, 1999, p.51, tradução minha)

É assim que a poeta aparece na biografia de um a de suas m elhores amigas, com o um a m enina problem ática, fora dos padrões, m esm o que vivendo deliberadam ente às m argens do que se previa para um a jovem jud ia e de classe média. Mesmo que sem pre usando tons de condescendência, afinal era inevitável ser am iga dessa estranha, Johnson dem onstra muito afeto por Elise que acaba se tornando personagem tão im portante quanto a própria Joyce

form it took.

110 No original: But I could only tell their stories by telling my own.

111 Original: “I did not want to know Elise Cowen, who clearly was not collegiate and whom I could tell at a glance was even beyond the effort of trying. She introduced herself in such a low voice I had to ask to repeat her name. But her eyes insisted, "I do know you. We have been to the same places. And isn't it ridiculous for us to be here?" And all the while, in my plaid and lamb's wool, I'd hoped I blended in so perfectly, (p.51)

Johnson no livro. A recíproca tam bém é verdadeira, já que no caderno sobrevivente há alguns poem as em que Johnson é lembrada, como “R eJoyce”

em que a voz poética, claram ente em sintonia com a própria poeta, diz que

“ ReJoyce these days with Alice hair & Bardot pout” .

REJOYCE112

ReJoyce these days with Alice hair & Bardot pout Falling, falling through the crazy life chute

Looking for love with true girl humility

Clutching at antiques & flowery hand-made blouses, French soups Knocked to exhaustion against the soft, unyielding, bleeding walls

of the love chute

Entering pink-lipped & shiny from the streets

Trying any lovely thing to make life of anyone's monologue or silence Flicking annoyed ashes in disappointment

Yet standing in the corner in rainy day sneakers Doing a thoughtful grind with gracious hips & belly

Waiting, ready for good things to laugh in again, something to do Making them finally open out of cracks in the sidewalk

with your umbrella

“What do you care lady if it's striped, old, yellow - it's raining”

And so to movies with your rosy intelligence

Bardot/descendo, descendo pelo escorregador da louca vida/ Procurando por amor com humildade verdadeira de menina/ Segurando antiguidades & blusas floridas à mão, sopas francesas/ Arremessadas à exaustão contra as macias, firmes e sangrentas paredes/ do guarda-chuva/ O quê te importa senhorita se é listrado, velho, amarelo - tá chovendo”/Então, aos filmes com sua inteligência promissora ”

queda conduz direto para o “the crazy life chute” . A referência à fam osa personagem era comum entre as duas, pois o nome do prim eiro rom ance de Johnson Com e and Join the Dance, lido previam ente por Elise, era inspirado no livro de Lewis Carrol. Na outra ponta do verso, a m enina loira descobridora é tam bém com parada à figura sex sym bol da época, a atriz francesa Brigitte Bardot (1934). A atriz era da m esm a geração das duas e havia atuado em mais de um a dezena de film es na década de 1950, sendo provavelm ente um tipo de referência estética (pensando no “biquinho” , “pout”), pois as atrizes francesas sem pre representaram um a vida mais libertária em relação às das jovens estadunidenses.

“ R eJoyce” ainda tem versos como o oitavo que diz “ Trying any lovely thing to make life of anyone's m onologue or silence” que reforça todas as características, objetos e com parações usados, de que Joyce é alguém que m elhora a vida das pessoas e age com humildades, sem pre há os elem entos de contraste. O poem a é form ado por versos que, em sua maioria, se iniciam com verbos no gerúndio, sem pre colocando Joyce em ação: “ Falling” , “ Looking” e

“C lutching” tornam a voz poética um a observadora atenta, propõe um a relação de intimidade. Aqui tam bém está um dos poem as que se relaciona m enos com as leituras de Em ily Dickinson e mais com o hum or descritivo de Ginsberg e Diane do Prima, por exemplo.

Joyce tam bém escreve versos para Elise em um dos m om entos - foram muitos - que ela perde contato com a am iga entre Nova Iorque e São Francisco, já no final da década de 1950. Ela diz que “tudo que poderia fazer era escrever um poema, que fiz em m inha própria adaptação do estilo Beat” 113 (1999, p.200, tradução minha), que torna a relação ainda mais interessante no cam po da

linguagem, pois Joyce se reconhecia muito mais na prosa do que na poesia:

113 No original: “All I could do was write a poem, which I did in my own adaptation of Beat style”

Elise114 (grandes) fragm entos que justificam a existência da escrita das mulheres.

O poem a de Johnson é narrativo e tem sua força relacionada com os

114 Tradução não poética: Elise / Pegou um Greyhound./ Sabotou/alguns relógios/ na cidade - / me deixou o resto, / e um destino / de um eterno chop suey,/ uma cópia surrada d'O Idiota / Ela não tinha muito. / Quando as portas fecharam / e o ar-condicionado ligou,/ a estrada de couro negro / a levou./ Seus amigos / celebraram sua ida/ com cerveja e lutinhas. / Seus pais / em sua impenetrável sala de estar /cerraram as cortinas.

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