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Zé Pesqueira: o idealizador da Missa do Vaqueiro em Manari

Para compreender parte da história da Missa do Vaqueiro é preciso falar de uma das figuras mais emblemáticas que fizeram história em Manari. Seu nome, José Pedro Maria, é praticamente desconhecido pela população local, mas é o nome de registro do popularmente nominado Zé Pesqueira – que pode ser visto na FOTOGRAFIA 03 – que veio a ser o responsável por idealizar a Missa do Vaqueiro em Manari, como ritualização do milagre acontecido, fruto da promessa feita a São Sebastião, que veremos mais à frente, no item 2.3.

FOTOGRAFIA 03: Zé Pesqueira e vaqueiros posam para fotografia em frente a Igreja Matriz.

Fonte: Acervo particular da Família Monteiro Lima, 1995.

O registro da FOTOGRAFIA 03 apresenta um momento bastante simbólico, permite vislumbrar o envolvimento de Zé Pesqueira com a realização da Missa do Vaqueiro e a admiração dos companheiros de profissão, já que este é um dos poucos registros fotográficos

do citado – que aparece fotografado portando o seu tradicional chapéu de massa bege e óculos escuros – em momento de oportuna descontração, ladeado por um pequeno grupo de vaqueiros a cavalo, junto com seu filho, Tadeu, de camisa regata vermelha e chapéu de massa preto, ao centro da fotografia. O registro fotográfico é intencional, uma vez que buscou centralizar as figuras masculinas a cavalo, para ter como pano de fundo a fachada da Igreja Matriz. Possivelmente, fora feito após a celebração de mais uma edição da Missa do Vaqueiro. Também é possível notar, que alguns dos fotografados estão portando itens da indumentária do vaqueiro, que são utilizados na lida e no trato com o gado, como o chapéu de couro, o peitoral e o buzo, por exemplo; enquanto um agrupamento de espectadores, observam da calçada, o momento em que a fotografia é feita.

Homem do campo, com pouca instrução escolar, vaqueiro, criador e agricultor por profissão. Como o próprio pseudônimo sugere, é natural de Pesqueira, um município que está localizado no agreste do estado de Pernambuco. Parte de sua trajetória de vida é comum a muitos sertanejos.

Sua história é destacada em narrativas da senhora Maria do Amparo Lima:

“Ele era um agricultor, gostava muito de criar seus bixinho também, né? Chegou e aqui casou com Zefinha, o nome dela é Amélia, chamada Zefinha, do Moxotó. (...) A

família da finada Zefinha, eles tinham muita terra, seu Guilherme, o irmão dela, que era sargento, deixou muita terra para os irmãos e tudo. E aqui, ele tinha dois terrenos, e ele entregou a Zé Pesqueira mais a Zefinha, que era irmã dele. Aí pronto. Pra cuidar e tudo, criar os bichos. (...)Zé Pesqueira veio praqui, trocou um dos terrenos, colocou os bichos dele e tudo, gostou, ficou aqui. Ele gostava muito de negócio de novena, essas coisas, ele gostava. De zabumba. Ele sempre foi envolvido, né? (...) Ele sempre fazia novena lá no Mangueira. Aqui mesmo, quando ele fazia, assim, qualquer movimento pra igreja, sempre pintava a igreja, com o restante que sobrava do dinheiro (...) ele sempre doava pra igreja. Pra fazer alguma coisa na igreja” (ENTREVISTA COM MARIA DO AMPARO LIMA, 27/06/2018).

Ajunta-se a esse contexto narrativo apresentado pela colaboradora da pesquisa, que a incursão Zé Pesqueira pelo sertão pernambucano começa quando vem para a antiga cidade de Moxotó – que atualmente figura como 1º distrito do município de Ibimirim – a procura de um parente próximo que estava preso nas dependências da citada municipalidade. Lá conhece Amélia Pereira Lima, que descende de uma das famílias mais tradicionais do lugar, a qual seria sua primeira esposa. Após o casamento, residem por pouco tempo na cidade de Moxotó, mudando logo em seguida para o distrito de Ibimirim, onde nasceram seus dois filhos biológicos: Benedito Rômulo Pedro Lima (in memoriam) e Antonio Tadeu Pedro Lima (in

memoriam). O casal também tivera um filho adotivo: Jorge Luiz de Lima (in memoriam). Em

próximo ao município de Canapi, situado no sertão do estado de Alagoas, no qual Zé Pesqueira vai trabalhar e tomar conta de um barracão – uma espécie de bodega – de propriedade de um compadre seu, chamado Zé Laranjeira. Como uma espécie de gerente/vendedor, cuidava da contabilidade, enquanto vendia os mais variados produtos aos moradores e trabalhadores da região.

Conforme destaca Correia,

Após essa breve jornada de trabalho no estado de Alagoas, decide rumar destino ao Sitio Mangueira aproximadamente na primeira metade da década de 1950, onde se estabelece com sua esposa e prole. Passa então a comprar e vender gado, já que nestas bandas do sertão era grande a movimentação comercial e de criatórios de rebanhos bovinos. Diante de uma grande seca que assolou o sertão nordestino durante a década de 1970, Zé Pesqueira e família resolveram abandonar o sítio e migrar para o distrito de Manari, desta vez em definitivo, fazendo deste, sua última parada da incursão pelo sertão (CORREIA, 2016 p. 43).

“Foi assim que eles se amarraram em Manari” destacou de forma enfática a neta de Zé Pesqueira, a senhorita Norma Waleska Monteiro Lima (27/06/2018), durante o momento da entrevista. Ainda conforme análise da entrevista com a Família Monteiro Lima, desde que aportou no sertão, dedicou-se a atividade agropastoril e tornou-se um dos vaqueiros mais conhecidos da região, sendo este, o elo que o ligaria à criação do gado bovino e ao trabalho com o roçado. Dedicou parte de seu tempo livre a atividades voltadas às festividades religiosas e também às festas de gado. Foi a partir de seu envolvimento com esse meio festivo, que tomou conhecimento da Missa do Vaqueiro que começara a tomar forma e romper fronteiras do alto sertão pernambucano, a partir da década de 1970. Em suas narrações, a senhora Maria do Amparo Lima (27/06/2018) destacou: “eu sei que ele achava muito bonito, a missa do Exu, né?! Quando ele ouvia falar da missa de Exu (...) que era uma das primeiras missa do vaqueiro,

ele achava muito bonito” diz referindo-se a Missa do Vaqueiro de Serrita, porém equivocando-

se, ao trocar o nome da cidade por Exu, município também localizado no sertão do estado de Pernambuco, terra natal do cantor Luiz Gonzaga.

Entre fins da década de 1970 e início da década de 1980, a região Nordeste do Brasil enfrenta outro período de longa estiagem, que marcada pela ausência de chuvas, castigou o sertanejo, o homem do campo e o sertão como um todo, vitimando muitos animais, prejudicando a produção agrícola e a economia voltada para este setor. Diante de tal cenário, muitos produtores rurais, agricultores e vaqueiros, viam seus rebanhos sucumbirem e serem reduzidos. Dessa forma, era recorrente aos criadores observarem seus roçados e se deparar com a situação calamitosa, encontrando inúmeros animais mortos de um dia para o outro. Para os

que se denominam religiosos, como era o caso de Zé Pesqueira, ante a ineficiência e a inexistência de políticas públicas para ajudar no combate aos problemas causados, só restava a fé, enquanto instrumento de esperança para conter o avanço dos efeitos da seca.

As narrativas da senhora Maria do Amparo Lima (27/06/2018) destacam: “ele fez umas

promessas aí com São Sebastião e deu certo, os bichos do Mangueira deixaram de morrer e também de alguns vizinhos”. Dessa forma, a história da promessa, como veremos a seguir, é

revelada logo após o estancamento das mortes dos rebanhos e com o fim da seca. Para o devoto, conforme Souza (2013, p. 116): “O santo exerce, em todos estes casos, seu poder de domar a natureza, que deve se curvar ao poder divino nele incorporado; à sua capacidade de fazer milagres”. A crença do homem terreno no divino, o faz acreditar que a intervenção sagrada é real, que de fato aconteceu um milagre, como o que fora pedido em oração. Tal acontecimento, serve para reforçar o elo que liga o religioso ao orago, tornando-o devoto da santidade evocada. O milagre reafirma a força que o catolicismo exerce no cotidiano das pessoas que acreditam.