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3.3 ZAATARI: LABORATÓRIO INFORMAL

O campo selecionado para a segunda parte da análise é Zaatari, na Jordânia, inaugurado ofi- cialmente em 28 de Julho de 2012.

Trata-se de um exemplo no outro extremo do espectro em relação à Mugombwa: o seu ta- manho, 5.3 km² e 81,146 habitantes, excede em muito as diretivas fornecidas pelo ACNUR; ele está localizado numa área desértica, isolado do contexto local através de cercas com arame farpado e muros; aos refugiados que residem lá é negado o direito ao trabalho e ao movimento. Além disso, uma rígida política anti-permanente faz com que as principais habitações no cam- po sejam barracas e caravanas, e existe a proibição, embora não sempre respeitada, de alcatroa- rem estradas e plantar árvores.

Consequentemente, os problemas e as dificuldades associadas à aplicação do modelo tradicio- nal são exasperados, fazendo de Zaatari um bom objeto de estudo para se investigar os limites e o potencial das estratégias humanitárias atuais; além disso, o facto de ser um campo relativa- mente novo é um fator interessante, porque mostra até que ponto os processos de apropriação do espaço são rápidos e totalizantes.

Ademais, os laços dos refugiados sírios com a guerra ainda em curso fizeram com que o campo viesse a ganhar, desde a sua abertura, atenção mundial, atraindo variadas personalidades com influência mediática, ao ponto que já visitaram o campo em missão oficial, entre outros, John Kerry, Malala, o príncipe Charles de Inglaterra e a atriz Angelina Jolie; Zaatari é o objeto de numerosos artigos e textos, académicos ou não, aparece em mais de 26.200 vídeos do Youtube, bem como num documentário premiado e é, de fato, o campo de refugiados mais mapeado do mundo. Isso permitiu realizar um estudo sobre a evolução do campo ao longo do tempo, com especial atenção para as soluções informais promovidas pelos próprios refugiados: além dos mapas e dos dados estatísticos16, foi possível aceder a inúmeras entrevistas realizadas com os habitantes do campo, permitindo uma melhor e mais completa compreensão do espaço. O objetivo final da pesquisa é tentar descrever as formas do inevitável processo de urbanização que se realizou no campo, um tópico com pouca consideração na elaboração das diretrizes internacionais.

Embora cada campo seja único, as dinâmicas destacadas no caso de Zaatari são as mesmas em todos os campos de refugiados. Num artigo recente, Jeff Crisp critica a visão, promovida por alguns jornais, de Zaatari como o único campo com características urbanas, devido ao caráter

16 A grande maioria dos dados mencionados na seção a seguir vem dos arquivos REACH, uma iniciativa conjunta de IMPACT, ACTED e UNOSAT (United Nations Operational Satellite Applications Programme). O lançamento do pro- grama data de 2010 e visa facilitar o desenvolvimento de novas ferramentas de informação que possam fortalecer os processos de tomada de decisão e planeamento na resposta humanitária.

específico dos refugiados que lá vivem:

“Recent coverage of Zaatari has tended to give the impression that the Syrian refugees who live in the camp are uniquely resilient and entrepreneurial. Far from it. Indeed, it would be difficult to find a re- fugee camp anywhere in the world, even in the poorest parts of Africa or Asia, which did not have its own markets, tea shops, churches, mos- ques, and mobile phone kiosks. While wedding boutiques might not be a particularly common sight in refugee camps, exiled populations throughout the world demonstrate tremendous resourcefulness and

are never completely dependent on humanitarian assistance.”17

Por esta razão, os processos informais assumem enorme importância nos estudos humanitá- rios: são processos que precisam de ser estudados, compreendidos e, talvez, apoiados.

3.3.1 Contexto sócio-político

As primeiras manifestações públicas contra o Governo central sírio, parte do contexto mais amplo da Primavera Árabe, datam de 15 de Março de 2011. Tais manifestações, então con- vertidas em revoltas nacionais, resultaram numa guerra civil em 2012; o conflito ainda está em curso.

O que foi denominado um dos maiores êxodos de refugiados na história recente teve - e ainda tem - consequências diretas no mapa demográfico do país, com 6,3 milhões de deslocados internos e mais de 5,1 milhões de refugiados registados fora das fronteiras nacionais.18

Adicionalmente, sem perspectivas de paz a curto prazo, a combinação de conflitos, da dete- rioração das oportunidades económicas e do declínio nos serviços prestados no país apenas aumentam a probabilidade de deslocamentos adicionais na região: de resto, de 2014 a 2017 o número dos refugiados oficialmente registados duplicou.19

A Jordânia, onde até hoje encontraram refúgio 660 582 pessoas, não faz parte dos países sig- natários da Convenção de 1951; a assistência aos refugiados dentro do reino baseia-se num Me- morandum of Understanding, um acordo bilateral assinado em 1988 entre o Governo da Jordânia e o ACNUR, que atua com o apoio de numerosas ONGs.

O país é tristemente famoso pela escassez de recursos, pela dependência dos fundos estran- geiros e, acima de tudo, pela susceptibilidade quanto as mudanças demográficas repentinas: os fluxos de refugiados em 1948, 1967, 1991 e 2003 causaram enormes pressões sobre a econo- mia e o mercado de trabalho da Jordânia, fomentando um forte sentimento anti-refugiados.20 17 CRISP, Jeff, Zaatari: a camp and not a city, in UrbanRefugees.org: Moving the Debate Forward, 2016, online su: http://urban-refugees.org/debate/zaatari-camp-city/ [consultado a 16.08.17]

18 UNHCR, Syria Regional Refugee Response, atualizado em 6.08.2017, online: http://data.unhcr.org/syrianrefuge- es/regional.php [consultado a 16.08.17]

19 Ibidem

ZAATARI