CAPÍTULO II DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM NA PERSPECTIVA
2.4 DESENVOLVIMENTO, APRENDIZAGEM E ENSINO: A CONCEPÇÃO
2.4.1 Zona de Desenvolvimento Real e Proximal – ZPD
Para dar conta particularmente dos aprendizados escolares e sua conexão com o desenvolvimento, Vigotsky deu origem à hipótese da “zona de desenvolvimento proximal”, que destaca o caráter orientador da aprendizagem com relação ao desenvolvimento cognitivo.
os problemas encontrados na análise psicológica do ensino não podem ser corretamente resolvidos ou mesmo formulados sem nos referirmos à relação entre o aprendizado e o desenvolvimento em crianças em idade escolar.
Isso significa que necessitamos entender como é o processo do desenvolvimento da criança e quais as implicações com o aprendizado. O aprendizado é considerado um aspecto necessário e fundamental no processo de desenvolvimento das funções psicológicas superiores.
Para elaborar as dimensões do aprendizado escolar, necessitamos descrever um conceito novo e de excepcional importância para o entendimento da aprendizagem escolar. Retomamos, então, o conceito de zona de desenvolvimento proximal, já referido anteriormente. Vigotsky (1998, p. 111) identifica dois níveis de desenvolvimento. Ele chama de nível de desenvolvimento real, “o nível de desenvolvimento das funções mentais da criança que se estabeleceram como resultado de certos ciclos de desenvolvimento já completados.” Quando o indivíduo consegue realizar tarefa sozinho, são conquistas já efetivadas, consolidadas e dominadas pela criança. São tarefas realizadas de forma independente. O nível de desenvolvimento potencial seria o que o indivíduo consegue realizar com ajuda de um parceiro mais capacitado. Relaciona-se às capacidades ainda a serem construídas e refere-se àquilo que a criança é capaz de fazer, só que mediante ajuda de outra pessoa. Neste caso, a criança realiza tarefas e soluciona problemas com o auxílio do diálogo, da colaboração e das pistas fornecidas pelo parceiro mais capacitado, seja ele adulto ou outra criança. Segundo o teórico, a zona de desenvolvimento proximal permite-nos delinear o futuro imediato da criança e seu estado dinâmico de desenvolvimento, propiciando o acesso não somente ao que já foi atingido com o desenvolvimento como também àquilo que está em processo de maturação.
A distância entre aquilo que a criança é capaz de realizar de forma autônoma (nível de desenvolvimento real) e aquilo que ela realiza em colaboração com outras pessoas (nível de desenvolvimento potencial) caracteriza o que Vigotsky chamou de “zona de desenvolvimento potencial ou proximal”.
Vigotsky (1998) ressalta que o desenvolvimento pleno do ser humano depende do aprendizado que é realizado num grupo cultural a partir da interação com outros indivíduos. É o aprendizado que possibilita e movimenta o processo de desenvolvimento.
O aprendizado é o responsável por criar a zona de desenvolvimento proximal, na medida em que, em interação com outras pessoas, a criança é capaz de colocar em movimento vários processos de desenvolvimento que, sem a ajuda externa, seriam impossíveis de ocorrer.
Rego afirma, ainda, que o processo de zona de desenvolvimento proximal é de grande importância para as pesquisas do desenvolvimento e para o plano educacional.
Concluímos, com Rego (2003, p. 105), lembrando que o
fato da criança não ter acesso à escola significa um impedimento da apropriação do saber sistematizado, da construção de funções psicológicas mais sofisticadas, de instrumentos de atuação e transformação de seu meio social e de condições para a construção de novos conhecimentos.
Castorina (1996, p. 22) reafirma a descrição anterior e cita Vigotsky:
(...) a aprendizagem organizada converte-se em desenvolvimento mental e coloca em funcionamento uma série de processos evolutivos que nunca poderiam ocorrer à margem do aprendizado.
Diante do contexto, finalizamos com uma citação de Vigotsky (1998, p. 117): “a noção de zona de desenvolvimento proximal capacita-nos a propor uma nova fórmula, a de que o ‘bom aprendizado’ é somente aquele que se adianta ao desenvolvimento.” Por fim, para que possamos trabalhar com a ZPD, é interessante compreender o que vem a ser mediação semiótica, na perspectiva histórico-cultural vigotskyana.
2.4.2. Mediação semiótica
A questão da mediação semiótica, fundamental na perspectiva vigotskiana, ocupa um lugar central na explicação sobre a constituição dos processos psicológicos característicos humanos e merece atenção especial dentro do ambiente escolar.
Zanella (2004, p. 129) corrobora Vigotsky quando afirma que “todas as conquistas que garantem às pessoas sua condição de humanização resultam das complexas relações sociais em que se inserem e das quais ativamente participam”.
Com este estudo procuramos, na perspectiva histórico-cultural proposta por Vigotsky, esclarecer que construir conhecimentos implica uma ação compartilhada já que é por meio dos outros que as relações entre sujeito e objeto de conhecimento são estabelecidas. E é por meio dessas relações que as concepções de professores sobre desenvolvimento e aprendizagem de alunos com epilepsia se transmitem. Sabemos que a condição necessária para a construção de
conhecimentos se dá pelo diálogo, pela cooperação e pela troca de informações mútuas e pelo confronto de pontos divergentes. Cabe ao professor permitir não só que essas ações ocorram como também promovê-las no cotidiano das salas de aula.
Para que tenhamos escolas “de excelência”, é necessário que os professores ressignifiquem suas concepções, atitudes e práticas pedagógicas. Não basta apenas que o professor saiba o conteúdo a ser ensinado. Mesmo que ele seja um profissional respeitado e reconhecido por todos, os alunos não se desenvolvem apenas com o ensino de conhecimentos e habilidades.
Vigotsky (1998) defendia que o homem constitui-se com auxílio de suas interações sociais. É visto como alguém que transforma e é transformado nas relações produzidas em uma determinada cultura. Assim, o desenvolvimento humano é compreendido não em decorrência de fatores isolados que amadurecem, nem tampouco de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando o comportamento, mas sim de trocas recíprocas que se estabelecem durante toda a vida entre indivíduo e meio, cada aspecto influindo sobre o outro.
Vigotsky, para fundamentar sua proposta, busca os princípios teóricos do materialismo histórico-dialético de Karl Marx e Friedrich Engels. Eles propõem uma perspectiva materialista-dialética para a compreensão do real, para a construção de conhecimento e para o entendimento do homem. O organismo e meio determinam-se mutuamente. Portanto, o biológico e o social não estão dissociados, eles exercem influência recíproca. O homem é um ser social e histórico e é a satisfação das necessidades que o leva a trabalhar e transformar a natureza, estabelecer relações com seus semelhantes, produzir conhecimentos, constituir a sociedade e fazer a história. É um ser em permanente construção e ativo, que vai se constituindo no espaço social e no tempo histórico. Portanto, um sujeito social que não é apenas ativo, mas sobretudo interativo. Nessa relação dialética com o mundo, o sujeito se constitui e se desenvolve. O homem age sobre a natureza humana, que se transforma criando novas condições de vida.
Compreender a questão da mediação, que caracteriza a relação do homem com o mundo e com os outros homens, é de grande importância justamente porque é através desse processo que as funções psicológicas superiores se desenvolvem. Almeida e Rossi (2007) consideram que o processo de mediação implica em uma forma exclusivamente humana e representa a resposta da ação da sociedade sobre os indivíduos com a finalidade de integrá-lo na rede de relações sociais e culturais, responsáveis pelo processo de humanização.
Necessário se faz pontuar que para entender a mediação, Vigotsky (1998) afirmava que outro elemento relevante no processo é a internalização. Esse processo ocorre via
mediação semiótica e pode ser entendido por transformação de um plano interpessoal em um plano intrapessoal, que consiste numa série de transformações que vêm a ser a operação que inicialmente representa como uma atividade externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente. Ou seja, para que possa ocorrer o aprendizado é necessário que um processo interpessoal seja transformado num processo intrapessoal. Essa transformação de um processo interpessoal num processo intrapessoal é o resultado de uma longa série de eventos ocorridos no decorrer do desenvolvimento. Portanto, internalização é um processo de transformação e incorporação pelo sujeito, de algo que processa nas relações interpessoais. Para Almeida e Rossi (2007) e Vigotsky (1998) internalização é um modo de funcionamento através do deslocamento da fonte de regulação do outro para o próprio sujeito.
Vigotsky distingue dois elementos básicos responsáveis pela mediação semiótica: o instrumento, que tem a função de regular as ações sobre os objetos, e o signo, que regula as ações sobre o psiquismo das pessoas.
Segundo Fávero (2005, p. 196),
o signo, em termos gerais, existe na criação de uma relação de representação, entendido como uma conexão estabelecida pelo veículo-signo (ou representamen) entre algum objeto (aquilo que o signo representa) e uma interpretação (a “cognição da mente” representação mental criada pelo signo na representação do objeto). Portanto, a idéia de mediação é inerente à noção de signo.
De modo geral, o signo pode ser considerado aquilo (objeto, forma, fenômeno, gesto, figura ou som) que representa algo diferente de si mesmo. Ou seja, substitui e expressa eventos, idéias, situações e objetos, servindo como auxílio da memória e da atenção humana. (Ex: código de trânsito, a cor vermelha é o signo que indica a necessidade de parar). Os signos são produto da ação do próprio ser humano e decorrem, portanto, da história da humanidade. Para Pino (2000, p. 56) “o signo desempenha claramente a função de estímulo externo de uma operação interna”.
Sendo o signo um elemento que representa alguma coisa para alguém, a característica fundamental é a reversibilidade. Segundo Pino (2000) o fato de representar algo tanto para quem recebe quanto para quem o emite, não necessariamente coincide, posto que os sujeitos em relação atribuem sentidos diferentes àquilo que vivenciam. Pino (2000, p.59) exemplifica o fato com a escultura do Moisés. Ele afirma que “a escultura não só significa algo para quem a contempla mas também para Michelangelo, que a produziu.”
Na perspectiva vigotskyana, a significação é uma das qualidades da condição humana que distingue o homem de todos outros animais. Fica claro então que a significação é a
mediadora universal no processo de internalização. E que o portador dessa significação é o outro.
Pino (2000, p. 66) destaca que
o gesto de apontar feito pela criança mostra o caminho da inserção da criança na história cultural dos homens. Em síntese, esse exemplo nos mostra que pela significação que o outro atribui às expressões da vida natural ou biológica da criança (como o movimento de apontar) é que estas adquirem significação para ela.
A criança é a ultima a entender seu gesto, ou seja, só capta a significação do seu ato através do outro.
Segundo Pino (2000) o que é internalizado das relações sociais não são as relações materiais mas a significação que elas têm para as pessoas.
Um exemplo do uso de um instrumento cultural seriam os procedimentos de contagem que usamos. Quando solicitados a dizer qual de dois grupos contém mais objetos, em vez de avaliar as quantidades diretamente, nós iniciamos um elaborado procedimento de contagem. Essa operação intermediária pode assumir várias formas, por exemplo, podem-se usar os dedos ou contar mentalmente, mas sempre envolve modos indiretos e culturais de atingir a meta.
Todos os instrumentos culturais, tanto signos como instrumentos, são fundamentalmente meios sociais. Segundo Veer e Valsiner (1988, p.84), “originam-se na história da humanidade como produto da convivência em grupos e terão que ser dominados novamente por cada criança em integração social.”
A invenção do uso de instrumentos e dos signos, que são elementos mediadores, significou o grande salto qualitativo da espécie humana. Vigotsky (1998) afirmava que o uso desses elementos mediadores, embora diferentes, está intimamente correlacionado ao longo da evolução da espécie humana e do desenvolvimento de cada indivíduo. Vigotsky (1998, p. 68) afirma ainda que os “seres humanos são capazes de lembrar ativamente com a ajuda de signos.” O teórico do desenvolvimento e colaboradores realizaram pesquisas com o objetivo de investigar o papel mediador dos instrumentos e signos na atividade psicológica e as transformações que ocorrem ao longo do desenvolvimento do indivíduo.
Partindo destes pressupostos, Vigotsky procurou analisar a função mediadora presente nos instrumentos elaborados para a realização da atividade humana. O instrumento é provocador de mudanças externas, pois amplia a possibilidade de intervenção na natureza (na caça o uso da flecha permite o alcance de um animal distante; a faca, o serrote, entre outros).
O homem, além de utilizar tais instrumentos, é capaz de conservá-lo e aperfeiçoá-lo, além de recriá-lo.
Conforme Pino (2000, apud Honorato, 2004) é a mediação semiótica que permite ao homem transformar, dar uma nova forma à natureza, da qual ele é parte integrante. É a significação dos instrumentos e signos produzida na vida social, que se internaliza constituindo a estrutura psíquica do indivíduo.
Vigotsky fez o uso de instrumentos como auxílio nas ações concretas. Os signos, que ele chamou de “instrumentos psicológicos”, têm a função de ajudar o homem nas suas atividades psíquicas, portanto, internas ao indivíduo. A invenção e o uso de signos auxiliares para solucionar um dado problema psicológico (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher, etc.) têm traços comuns à invenção e uso de instrumentos, só com uma pequena diferença no campo psicológico. O signo age como um instrumento da atividade psicológica de maneira parecida ao papel de um instrumento no trabalho.
Com o auxílio dos signos, o homem pode controlar voluntariamente sua atividade psicológica e ampliar sua capacidade de atenção, memória e acúmulo de informações. (Ex: amarrar um barbante no dedo para lembrar de algo).
Com essas idéias, Vigotsky e seus colaboradores resolveram analisar a relação entre o uso de instrumentos e a fala e como afetava as funções psicológicas: em particular a percepção, as operações sensório-motoras e a atenção.
Diante do exposto, Vigotsky ressaltou a importância da linguagem, entendida como um sistema simbólico fundamental dos grupos humanos, que organiza os signos em estruturas complexas e desempenha um papel de grande relevância na formação das características psicológicas superiores. Através da linguagem, é possível designar os objetos do mundo exterior (a palavra garfo designa um utensílio usado na alimentação), além de permitir lidar com objetos do mundo exterior mesmo quando estão ausentes.
A linguagem é um sistema de signos que possibilita o intercâmbio social entre indivíduos que compartilham do sistema de representação da realidade.
Desse modo, os sistemas simbólicos (sistemas de representação da realidade), especialmente a linguagem, funcionam como elemento mediador que permitem a comunicação entre os indivíduos, o estabelecimento de significados compartilhados por determinado grupo cultural, a percepção e interpretação dos objetos e situações do mundo que nos cerca. Então, Vigotsky afirma que os processos de funcionamento mental do homem são fornecidos pela cultura, através da mediação semiótica. Vigotsky vê o aprendizado como um
processo profundamente social, enfatiza o diálogo e as diversas funções da linguagem na instrução e no desenvolvimento cognitivo mediado.
Podemos concluir que é possível acreditar que todo aluno, em princípio, tem potencial para se tornar um aprendiz bem sucedido e auto-regulado. Dependerá das oportunidades oferecidas dentro do ambiente social em que ele conviver, ou seja, das mediações realizadas. É necessário o professor ter consciência de que "ensinar a aprender" e "aprender a aprender", embora sejam investimentos em longo prazo, são possíveis e estão totalmente dentro das possibilidades educacionais.
CAPÍTULO III - CONDIÇÕES E FATORES DE DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM ASSOCIADOS AO ALUNO EPILÉPTICO
A aprendizagem é centrada no que os alunos são capazes de aprender e o que a escola pode oferecer de melhor para que se desenvolvam em um ambiente rico e verdadeiramente estimulador de suas potencialidades. O sucesso da aprendizagem está em explorar talentos, atualizar possibilidades, desenvolver predisposições naturais de cada aluno. Mantoan (2008) ressalta que o ambiente escolar deve confrontar significados, desejos, experiências, o professor deve garantir a liberdade e a diversidade das opiniões dos alunos. Nesse sentido ele é obrigado a abandonar crenças e comportamentos que negam ao aluno a possibilidade de aprender a partir do que sabe e chegar até onde é capaz de progredir.
3.1 FATORES QUE INFLUENCIAM A VIDA ESCOLAR DAS CRIANÇAS