Capítulo I Célio, Opus
MUNDO DO TRABALHO
1.1. ZONAS SUBJETIVAS
Dentro das considerações em andamento e conforme já explicitado, somam-se 5 as qualidades indicadoras de sentidos subjetivos: aspiração, auto-exigência, autorreferência, alterreferência e mundo do trabalho. Pude observar que em meio às mesmas, uma delas – aspiração – tem se mostrado como um índice nuclear, gerador de todos os outros indicadores. Meu raciocínio baseia-se nas seguintes conjecturas:
Para alcançar suas metas – aspiração - (“tenho vontade de ser um músico muito competente e estar trabalhando sempre”), Célio se impõe várias tarefas, as quais são submetidas a formas próprias de autocontrole e auto-avaliação - auto-exigência - (“quando me ouço tocar dificilmente me convenço que aquilo é o melhor que poderia ter feito”). Nesse sentido, evidencia-se uma relação entre a aspiração de ser um bom músico e o empenho para sê-lo, o que quer dizer que para ser um bom músico, o músico precisa realizar ações que contribuam para a realização do seu desejo. Para efetuar tais ações, o músico deve manter-se atento às próprias tarefas por ele demandadas. Daí a relação entre aspiração e auto-exigência.
Para manter-se fiel às atividades e tarefas necessárias para cumprir seus desejos, o instrumentista se serve de critérios de qualidade recorrendo a condutas de auto-avaliação. No momento em que o baterista busca „quebrar os próprios recordes‟ e se cerca de critérios
rígidos de autocrítica, determina estreita e necessária a relação entre auto-exigência e autorreferência.
Se por um lado o músico se mantém autorreferente, centrando em si a maioria das ações; por outro, busca acolhimento de seu desempenho junto às platéias, aos parceiros musicais e ouvintes de seu trabalho de modo geral, estendendo o controle de qualidade para outros e definindo dessa forma uma referência externa a si, uma alterreferência. Daí a interdependência entre autorreferência e alterreferência.
É importante observar no quadro C8 – Unidades Subjetivas por Recorrência - como são distribuídos os indicadores de subjetividade na fala de Célio. Viu-se que todos estão impregnados de aspiração o que comprova sua potência como gerador de outros indicadores. O quadro C8 apresenta uma quantidade inferior de menções ao indicador imediatamente seguinte – auto-exigência – no entanto, sua presença como índice nuclear pressupõe o impacto bastante relevante no posicionamento e ações do músico diante do universo musical.
As menções abundantemente recorrentes do indicador auto-exigência pressupõem em aspiração um estímulo de muita intensidade e relevância. Aspiração guarda em si uma carga emocional atribulada de significações que seguramente estão implícitas em momentos anteriores e básicos de Célio. Tanto aspiração, auto-exigência e autorreferência coexistem estreitamente entre si em relação à alterreferência e mundo do trabalho, os quais emergem mais moderadamente no discurso do baterista.
De acordo com González Rey (2007), “não existem sentidos isolados, todo sentido expressa o sistema da subjetividade” (p. 125, 126). Dessa forma então, os indicadores de sentidos são sugeridos mediante suas relações de mútua tensão.
Os cinco indicadores apontados de sentido subjetivo se apresentaram semanticamente comunicantes e recursivos entre si e podem, nesse caso, caracterizar zonas subjetivas, contudo, atendendo a dois ângulos de visão de um mesmo campo subjetivo: conduta e lócus.
Dentro desse entendimento defino conduta como zona subjetiva relacionada à pessoalidade do músico, a sua forma de sentir e agir no seu próprio universo interior bem como em relação ao universo musical. Dessa forma, pretendo nomeá-la como zona subjetiva autorreferente.
Do mesmo modo, defino mundo do trabalho como uma zona relacionada a um lócus de ação do músico, a qual eu denomino zona subjetiva mundo do trabalho.
Os indicadores das zonas estão presentes ora sob a forma de conduta pessoal que incide no profissional, ora sob a profissional que incide no pessoal estabelecendo um vínculo subjetivo entre ambos. Evidentemente a zona autorreferente não se restringe unicamente a sua relação com o mundo do trabalho. Conforme já foi delineado, a zona autorreferente concentra farta produção de sentidos subjetivos relacionados a muitos aspectos do músico, os quais envolvem tanto relações profissionais quanto pessoais e nos vários contextos de atuação musical: palco, estúdio, platéia, parceiros musicais, e ainda na própria relação consigo mesmo.
Pode-se defender que as duas zonas dialógicas prestigiam o pensamento do músico que traça uma linha demarcatória entre música trabalho e música prazer. A intensidade e a referência que o próprio Célio aplica ao seu eu musical, o qual se emociona, o qual sente falta de tocar o instrumento quando naquele dia não foi possível, o qual sente êxtase de tocar para a platéia, ou de tocar com os amigos musicais deixa o vínculo com o mundo do trabalho em desvantagem. O eu musical de Célio está envolto pelo emocional. Seu vínculo com o mundo do trabalho abrange o lado prático, sobrevivente do sujeito que precisa comer, vestir, comprar e todos os valores de mercado social. Célio não toca para ganhar dinheiro, embora precise deste. Ele toca porque gosta, porque a música faz parte dele desde sua infância, desde o período em que ainda se constituía dentro de determinados valores sociais primários, no sentido bergerluckmaniano. Isso quer dizer que o eu musical de Célio surgiu antes do eu músico do mundo do trabalho.
Enfatizo que o estudo da subjetividade é um estudo relacional entendendo-se que necessariamente os mesmos indicadores da autorreferente estão presentes no universo musical na forma de relação profissional e relação pessoal. A ideia sugere a complexidade que lhe é devida e dessa forma idealizo tanto um caminho, um trajeto comunicante entre as duas zonas apreciadas, bem como, de alguma maneira, existências proporcionalmente independentes entre as mesmas.
Diante das considerações acima, ficam então definidas as duas zonas subjetivas, quais sejam Autorreferente – alusiva a condutas pessoais, mundo interior e Mundo do
Trabalho – alusiva ao lócus onde é exercida grande parte de suas ações, contendo, ambas, os mesmos indicadores.
O completamento de frases gerou várias categorias subjetivas que contribuiram para fundamentar sua configuração subjetiva musical. São elas:
UNIDADES INTERPRETATIVAS: Autoexigência, Autorreferência, Aspiração, Alterrreferência e Mundo do Trabalho, as quais resultaram em 2 zonas subjetivas:
ZONAS SUBJETIVAS: Autorreferente e Mundo do Trabalho.
O próximo momento da pesquisa trata-se de um pequeno intermezzo dedicado a pontuar uma breve paisagem sobre Célio.