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5   ZONEAMENTO AMBIENTAL TRIDIMENSIONAL

5.2   CONSTRUÇÃO DO ZONEAMENTO TRIDIMENSIONAL 108

5.2.1   Zoneamento Ambiental Tridimensional 111

Considerando os diferentes espaços geográficos e suas peculiaridades no mar, uma pessoa poderá se deslocar de um ponto a outro na superfície marinha, descrevendo um plano bidimensional de coordenadas X e Y, como se faz normalmente em terra. Porém, ela ainda poderá mergulhar até o fundo marinho, e acrescentar um terceiro plano Z às coordenadas cartesianas, a profundidade, caracterizando interações em três dimensões. Em tal situação, uma representação bidimensional do zoneamento, não refletirá a totalidade do meio marinho.

A necessidade de se poder optar por uma coordenada tridimensional nas análises de propostas de zoneamento marinho, onde seria considerada a existência de zonas sobrepostas, vem ao encontro da percepção da própria realidade marinha. As condições físicas e químicas do meio determinam a existência de fauna e flora flutuantes, adaptadas aos diferentes ambientes encontrados em profundidades distintas de uma mesma coluna d'água. Também o fundo marinho apresenta ambiente diferenciado em relação à coluna e superfície marinhas, conforme a Figura 19, conforme capítulo primeiro.

Então, a exemplo da Rebiomar do Arvoredo, em determinadas áreas geográficas, onde haja a intercessão de diferentes vocações na coluna d’água e/ou no respectivo fundo marinho ocorre a necessidade de delimitação de diferentes zonas para diferentes profundidades.

Superfície Zona pelágica

Zona bentônica Fundo marinho

Coluna d'água

FIGURA 19: Exemplo dos diferentes ambientes possíveis no bioma marinho.

Assim, se, por um lado, a forma bidimensional de representação do terreno reflete a totalidade do sistema terrestre, por outro, quando aplicado ao bioma marinho, o mesmo não reflete a totalidade do sistema aquático, o que vem a contribuir para o mascaramento da realidade das UC marinhas. Nesse caso, o zoneamento proposto no Roteiro gera lacunas quanto à sua aplicabilidade.

Fournier e Panizza (2003), ao analisarem aspectos das áreas protegidas marinhas, chegam à seguinte conclusão:

O aspecto tridimensional do espaço marinho jamais é evocado. Uma reserva marinha não pode só se contentar em ter uma dimensão de superfície; ela deve considerar a natureza do fundo e da coluna de água. Toca-se aí em um ponto que é raramente evocado na legislação ambiental, e mostra-se primordial para a proteção dos espaços marinhos (FOURNIER e PANIZZA, 2003, p. 59).

De acordo com o que expressa Fournier e Panizza (2003), o zoneamento convencional, quando utilizado em unidades marinhas, provoca um desajuste entre a forma de se aplicar as zonas e as dimensões em mar.

Então, adequar o zoneamento ao meio marinho implica acrescentar uma terceira dimensão espacial ao considerar sua tridimensionalidade no zoneamento, com base nas inter- relações entre diferentes estratos (superfície, zona pelágica e zona bentônica), serem consideradas, quando da definição de estratégias para o estabelecimento dos instrumentos de gestão de espaços marinhos.

Isso implica que o zoneamento tridimensional consiste na sobreposição de áreas, associadas aos objetivos de manejo a serem determinados. Então, para se estabelecer um zoneamento ambiental adequado à realidade do bioma é necessário:

¾ Entender as Dimensões do Ambiente:

Para que se entenda o objeto tridimensional no espaço é necessário que se respeite o seu comportamento diante de um plano ortogonal, ou seja, seu comportamento em relação às coordenadas X, Y e Z, que expressarão a longitude, a latitude e a profundidade.

¾ Observar as Divisões Naturais do Ambiente:

Fournier e Panizza (2003) ao expressar a necessidade de se considerar os vários espaços do ambiente (superfície, a coluna d’água e o fundo) nos fala da necessidade de considerar as zonas pelágicas e bentônicas e acrescentar, a estas, a superfície marinha como zona de extrema importância, quando nos referimos a uma situação de zoneamento próximo à realidade do ambiente aquático.

¾ Considerar a Relação Profundidade x Zonas:

Conforme o capítulo primeiro, a delimitação de zonas sobrepostas deve ser alvo de estudo especifico e pode variar de acordo com as interações ocorrentes em cada área. A superfície, normalmente será objeto de análise de situações decorrentes do uso marítimo como via de transporte e turismo. A gradação na zona pelágica pode variar de acordo com a quantidade de elementos dispersos, incidência de raios solares e outras condicionantes que determinam a ocorrência de fauna e flora. Para a zona bentônica, as variações de extensão ocorrem a partir da disponibilidade de nutrientes/alimentos, tipos de fundo ou da existência de ambientes com exuberante beleza cênica.

¾ Observar a Necessidade de Delimitação de Zonas Horizontais:

Em um plano bidimensional, ambientes diferentes, com diferentes usos, requerem diferentes zonas. As ilhas são ambientes distintos ao ambiente marinho aberto em seu entorno, distintas, então, serão os possíveis usos a elas atribuídos. Nesse caso, pode ocorrer a necessidade de se delimitar diferentes zonas, tanto vertical como horizontalmente. Isso poderá ocorrer nas três zonas ecológicas, ou seja, várias zonas adjacentes no ambiente pelágico e no bentônico.

¾ Vocação da Área:

A exemplo da Rebiomar do Arvoredo, a associação das informações aos objetivos de manejo que se pretende alcançar para determinada áreas, indica o tipo de zonas a serem adotadas para a superfície marinha, a coluna d'água e o fundo marinho.

Então, o zoneamento tridimensional deve ter por base: a) a compreensão do ambiente aquático como um plano tridimensional; e b) as condicionantes da área – profundidade, variação das características físicas, químicas e biológicas do local; c) a localização do ambiente quanto ao tipo – terrestre ou marinha; e d) a destinação quanto à vocação observada em cada ambiente em análise.

Conforme visto no capítulo quarto, a adoção do ZATRI no campo operacional contribuiu para o equacionamento de uma série de conflitos, comumente presentes nas áreas marinhas (pesca, turismo, rotas marítima), os quais, sem a adoção visão tridimensional, dificilmente seriam alvo de soluções que atendessem a todas as conveniências de forma adequada e multifuncional.

5.3 A EXPERIÊNCIA NACIONAL NO USO DO ZONEAMENTO TRIDIMENSIONAL