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2. CAPÍTULO II

2.4 DISCUSSÃO

2.4.2 Zooplâncton e grupos funcionais

Os valores do índice de diversidade de shannon foram baixos nos ambientes amostrados, posto que a maioria dos táxons apresentou baixas densidades, e poucos dominaram o cenário, como no caso do Polyarthra cf. dolichoptera, nauplios e copepoditos de cyclopoides. Os valores de shannon foram menores, principalmente, nos períodos mais secos do ano, pois, em geral, os ambientes tiveram menores concentrações de metais dissolvidos, maiores valores de transparência e oxigênio dissolvido. Tais características desses ambientes podem ter contribuído para a suposição de que durantes o período seco, as espécies com “estratégias” mais eficientes na captura de alimentos e taxas reprodutivas mais elevadas, pudessem ter um aumento nas

densidades de suas populações, com uma subsequente dominância. (Tabela XII).

Os rotíferos são conhecidos por apresentarem alta resiliência, o que os caracteriza como bons indicadores de impactos no ambiente aquático (Esteves, 1998; Allan, 1976), isso talvez explique a maior riqueza de espécies, e dominância deste grupo na maior parte do período de coleta. A espécie P. cf dolichoptera foi bastante comum às três barragens, e a principal responsável pela dominância do grupo funcional dos raptoriais. A constância dessa espécie nesses ambientes com teores elevados de elementos dissolvidos, a caracteriza como boa indicadora de impacto, além do fato que o gênero

Polyarthra, muitas vezes, domina a comunidade de rotíferos (Virro e Haberman, 1993). Neste estudo estiveram presentes apenas pequenos cladóceros como Bosmina tunbicen, Bosminopis deitersi e Ilyocriptus spinifer, aparentemente não interferindo na redução das populações de rotíferos. García et al. (2002) verificaram que os pequenos cladóceros não representam o mesmo efeito de interferência na competição com os rotíferos, tal como é verificado para os grandes cladóceros dos gêneros Daphnia e

Diaphanosoma. Os pequenos cladóceros assim como náuplios e rotíferos, têm sido documentados como formas dominantes de muitas comunidades (Iglesias et al. 2007; Meerhoff et al. 2007). Sabe-se também que espécies de tamanho pequeno, crescimento lento, e longevidade curta, podem dominar os estágios iniciais de desenvolvimento da

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comunidade, principalmente por sua capacidade de resistir a concentrações baixas de alimentos (Romanovsky, 1985).

Pode-se sugerir que os copépodes Calanoida não tiveram densidades expressivas devido à sua intolerância a pequenas mudanças nos parâmetros, pois foi encontrado

apenas um indivíduo adulto, o que sugere também que a espécie Notodiaptomus

iheringi chegou até a barragem, porém não colonizou de forma expressiva durante o

período amostrado. O mecanismo de alimentação do zooplâncton é, em geral, pouco seletivo, mas grupos reconhecidamente herbívoros (copépodes Calanoida) podem ser afetados pela alta turbidez da água, pois estes animais não conseguem distinguir entre partículas minerais e algas. Partículas inorgânicas podem ser um recurso alimentar alternativo também para os cladóceros, que, sob condições naturais de baixa produtividade das algas e grandes quantidades de partículas em suspensão, podem utilizar o substrato orgânico adsorvido por partículas minerais, desde que essas partículas estejam dentro da faixa de tamanho das partículas de algas consumidas por estes organismos (Arruda et al., 1983).

Diferentemente do constatado por Hampton (2005), Arhonditsis et al. (2003) e Obertegger (2011) não houve uma correlação entre os cladóceros e os pequenos micrófagos, o que pode sugerir uma competição por recursos, e nem uma relação positiva dos cladóceros com os raptoriais, o que possibilitaria uma coexistência entre eles. Não foi possível fazer especulações a respeito das interações desses animais.

Figura 24:A. Um rotífero em ambiente com grande concentração de particulado inorgânico e

Oligotrófico – (Amostra da barragem Caulim). B. um rotífero em um ambiente com características de meso-eutrofico na presença de microalgas (Lagoa bonita – Serra do cipó, MG. Brasil).

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Por meio da Análise de Componentes Principais (PCA) com as frequências relativas de cada grupo funcional notou-se uma separação da dominância dos grupos em função do período (seco e chuvoso) (Figura 24). Os raptoriais foram dominantes em quase todo período seco, e os pequenos micrófagos foram dominantes no período chuvoso. A predominância dos pequenos micrófagos nas barragens Ferro e Caulim nos períodos chuvosos esteve associada, principalmente, à redução expressiva das densidades de raptoriais.

As barragens Caulim e Ferro tiveram os micrófagos como dominantes ao longo do período amostrado, exceto no mês de setembro de 2012, período o qual as três

barragens foram dominadas pela espécie raptorial P. cf dolicoptera. Entre os

micrófagos, os pequenos foram dominantes na maior parte do tempo nas barragens Caulim e Ferro.

Os raptoriais caracterizam-se por sua rápida ação de captura dos itens alimentares em movimentos únicos, o que pode ser dificultado com o aumento da turbidez inorgânica, e a ingestão de alimentos associados aos particulados minerais prejudicando o crescimento e a reprodução, podendo-se sugerir as razões pelas quais o período chuvoso, nas barragens receptoras de rejeito, os rapitoriais tiveram suas densidades fortemente afetadas. A barragem SEDR não seguiu o mesmo padrão, com densidades mais elevadas de raptoriais em períodos secos e no período chuvoso de dezembro de 2012. Arruda et al. (1983) sugerem, baseados em experimentos, que em condições de baixa produtividade e grande quantidade de partículas suspensas, a assimilação de substrato orgânico absorve as partículas minerais, fazendo desse aglomerado (Partícula suspensa/Substrato orgânico) uma importante fonte de recurso para o zooplâncton filtrador. As baixas concentrações de clorofila nas barragens Ferro (0,89mg/l), Caulim (0,5 mg/l) e SEDR (0,79 mg/l), assim como a ausência de correlação com as densidades totais de zooplâncton e com os grupos funcionais, nas barragens SEDR e Ferro, permite sugerir, de forma geral, que sobretudo os rotíferos podem utilizar de fontes alternativas de recursos alimentares além de somente o fitoplâncton (Arndt, 1993), explicando, em parte, a maior representatividade dos rotíferos, em densidade e riqueza de espécies, comparados aos cladóceros e copépodes.

O índice GR foi semelhante entre as três barragens, porém a barragem Caulim foi considerada mais afetada pelo impacto da mineração, e demostrou valores negativos de

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GR durante 4 das 5 campanhas realizadas, houve diferença sutil das barragens Ferro e SEDR, que apresentaram GR negativo durante 3 e 2 campanhas de coleta respectivamente. Os valores negativos estão associados à dominância por micrófagos, e os valores positivos associados aos raptoriais. O índice é uma boa ferramenta para detecção de alterações ambientais, porém os valores de densidade extremamente baixos e a dominância podem dificultar a interpretação da dinâmica entre os grupos funcionais.

2.5 CONCLUSÕES

A elevada concentração de elementos na água já exerce uma forte influência na restrição das espécies que estão presentes nas barragens. No entanto o ambiente se mostrou ainda mais extremo com a periodicidade. No caso do período chuvoso, os teores dos elementos dissolvidos se elevaram nas três barragens. As barragens se mostraram impactadas pelo rejeito mineral e foi possível ver o reflexo desses impactos nos grupos funcionais de zooplâncton.

Os processos intermitentes de re-suspensão e sedimentação dos rejeitos nas barragens de rejeito variam periodicamente, tornando esses ambientes imprevisíveis, o que pode dificultar a colonização de espécies zooplanctônicas.

Foi observada uma clara diferenciação entre a composição trofica nas barragens. Na barragem caulim e na barragem Ferro o grupo trofico microfago foi dominantecom raras contribuições do grupo funcional Raptoriai, o que indica uma baixa diversidade funcional da comunidade zooplancônica.

As barragens receptoras de rejeito se mostraram influenciadas pela mineração. Tanto em seus aspectos biogeoquímicos, quanto em sua estrutura zooplanctônica.

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Tabela XVII:Composição taxonômica e padrões de densidade do zooplâncton nas barragens de

rejeito da micro bacia do Ribeirão Mata Porcos ○ < 5 Ind.L-1; ● = 5 – 20 Ind.L-1.

set/11 fev/12 mai/12 set/12dez/12 set/11 fev/12 mai/12 set/12 dez/12 set/11 fev/12 mai/12 set/12dez/12 ROTIFERA

Lecanidae

Lecane bulla (Gosse, 1851) PM

Lecane curvicornis (Murray, 1913) PM

Lecane hornemanni (Ehrenberg, 1834) PM

Lecane inermis (Bryce, 1892) PM

Lecane leontina (Turner, 1892) PM

Lecane lunaris (Ehrenberg, 1832) PM

Lecane monostyla (Daday, 1897) PM

Lecane signifera ploenensis (Voigt, 1902) PM

Lecane stichaea Harring, 1913 PM

Trichocercidae

Trichocerca pusilla (Jennings, 1903) R

Trichocerca similis (Wierzejski, 1893) R

Synchaetidae

Polyarthra cf. dolichoptera Idelson ,1925 R

Synchaeta sp. R

Trichotriidae

Macrochaetus collinsi (Gosse, 1867 ) PM

Bdelloidea

Bdelloidea ssp. PM

Brachionidae

Anuraeopsis fissa (Gosse, 1851) PM

Brachionus falcatus Zacharias, 1898 GM

Platyias quadricornis (Ehrenberg, 1832) GM

Keratella cochlearis (Gosse, 1851) PM

Kellicottia bostoniensis (Rousselet, 1908) PM

Euchlanidae

Euchlanis dilatata Ehrenberg, 1832 GM

Testudinellidae

Testudinella ohlei Koste, 1972 PM

Notommatidae

Cephalodella gibba (Ehrenberg, 1830) R

Monommata sp. -

Colurellidae

Lepadella patella (O. F. Müller, 1786) PM

Paracolurella aemula (Myers, 1934) PM

Hexarthridae

Hexarthra mira (Hudson, 1871) GM

Proallidae Collotheca ssp. R Proales sp. PM COPEPODA Cyclopidae Náuplio PM Copepodito GM Ectocyclops sp. - Mesocyclops sp. -

Microcyclops anceps (Richard, 1897) -

Thermocyclops decipiens (Kiefer, 1929) -

Tropocyclops prasinus (Fischer, 1860) R

Calanoidae

Notodiaptomus iheringi (Wright S., 1935) -

CLADOCERA Bosminidae

Bosmina longirostris (O. F. Müller, 1776) GM

Bosmina tubicen (Brehm, 1953) GM

Bosminopsis deitersis Richard, 1895 GM

Chydoridae

Alona iheringula (Sars, 1901) -

Alona setigera (Brehm, 1931) -

Alonella clathratula (Sars, 1896) -

Ilyocryptidae

Ilyocryptus spinifer Herrick, 1882 GM

Barragem Ferro Barragem Caulim Barragem SEDR Grupo

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Tabela XVIII: Resultados das ANOVA’s seguidas de Tukey dos principais parâmetros entre as

barragens (C= Caulim, F= Ferro, J= SEDR), nos períodos seco e chuvoso.

df F P-valor Tukey df F P-valor Tukey

Cundutividade 31 22,82 0,000 C>F>J 31 350,60 0,000 C>F>J Solidos totais 31 25,82 0,000 C>F>J 31 334,88 0,000 C>F>J Turbidez 31 88,90 0,000 C>F>J 31 16,68 0,000 C>F=J pH 31 13,05 0,000 C>J>F 31 81,11 0,000 C>F=J Transparencia 31 20,41 0,000 J>F>C 31 0,87 0,431 C=F=J Temperatura 31 1,35 0,275 C=F=J 31 3,04 0,063 C=F=J Oxigênio dissolvido 31 66,83 0,000 C>J>F 31 0,63 0,541 C=F=J Clorofila 31 15,36 0,000 F>C=J 31 15,43 0,000 F=J>C Fe 31 3,12 0,059 C=F=J 31 3,23 0,054 C=J>F Mg 31 7,53 0,002 J>C>F 31 4,87 0,015 C=J>F Mn 31 47,68 0,000 C>F>J 31 136,72 0,000 C>F=J Zn 31 2,99 0,066 C=F=J 31 7,04 0,003 F>C=J Al 31 4,06 0,028 F=C>J 31 8,66 0,001 F=J>C Ba 31 378,78 0,000 C>J>F 31 179,48 0,000 C>F=J Riqueza 31 9,14 0,001 F>C>J 31 5,47 0,010 F=C>J Shannon 31 5,42 0,010 C=F>J 31 9,57 0,001 C=F>J Densidade total 31 57,41 0,000 F>C=J 31 2,82 0,076 C=F=J Small microphagous 31 36,30 0,000 F>C=J 31 91,11 0,000 F>C=J Medium microphagous 31 147,36 0,000 F>C=J 31 25,28 0,000 F>C>J Large microphagous 31 28,80 0,000 F>C>J 31 25,28 0,000 C>F>J Raptorial-Virgate 31 37,11 0,000 F=J>C 31 9,85 0,001 J=F>C

Entre barragens periodo chuvoso Entre barragens periodo seco

Tabela XIX: Resultados das ANOVA’s seguidas de Tukey dos principais parâmetros entre os

períodos (S= Seco, C= Chuvoso), nas barragens.

df F P-valor Tukey df F P-valor Tukey df F P-valor Tukey

Cundutividade 27 9,38 0,005 C>S 23 1,57 0,223 S=C 11 32,55 0,000 C>S Solidos totais 27 9,83 0,004 C>S 23 1,69 0,207 S=C 11 31,57 0,000 C>S Turbidez 27 42,79 0 C>S 23 1,05 0,317 S=C 11 0,01 0,906 S=C pH 27 0,08 0,78 S=C 23 6,52 0,018 S>C 11 4,41 0,062 S=C Transparencia 27 77,05 0 S>C 23 22,25 0,000 S>C 11 4,32 0,064 S=C Temperatura 27 0,87 0,36 S=C 23 3,49 0,075 C>S 11 1,65 0,228 S=C Oxigênio dissolvido 27 9,49 0,005 S>C 23 4,95 0,037 C>S 11 0 0,964 S=C Clorofila 27 92,9 0 S>C 23 154,25 0,000 S>C 11 377,95 0,000 S>C Fe 27 6,66 0,016 C>S 23 5,28 0,031 C>S 11 0,62 0,450 S=C Mg 27 0,63 0,434 S=C 23 17,87 0,000 S>C 11 25,88 0,000 S=C Mn 27 93,34 0 C>S 23 47,98 0,000 C>S 11 - - -Zn 27 1,73 0,2 S=C 23 8,67 0,007 C>S 11 2,28 0,162 S=C Al 27 3,89 0,059 S=C 23 14,95 0,001 C>S 11 0,5 0,495 S=C Ba 27 0,27 0,607 S=C 23 0 0,983 S=C 11 10,55 0,009 C>S Riqueza 27 0,86 0,362 S=C 23 0,06 0,814 S=C 11 0,02 0,884 S=C Shannon 27 11,57 0,002 C>S 23 12,34 0,002 C>S 11 3,86 0,078 S=C Densidade total 27 3,64 0,067 S=C 23 154,25 0,000 S>C 11 13,66 0,004 S>C Small microphagous 27 1,19 0,284 S=C 23 12,03 0,002 S>C 11 19,89 0,001 S>C Medium microphagous 27 0,52 0,478 S=C 23 28,94 0,000 S>C 11 0,2 0,661 S=C Large microphagous 27 3,96 0,057 S=C 23 126,09 0,000 S>C 11 5,39 0,043 S>C Raptorial-Virgate 27 34,62 0 S>C 23 922,36 0,000 S>C 11 83,48 0,000 S>C Periodos seco vs chuvoso - Ferro Periodos seco vs chuvoso - Caulim Periodos seco vs chuvoso - SEDR

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