96
2 – Discursos árbitros e processos de normalização e
97 sobre o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.
Ao conceber a verdade como efeito de um regime, nós nos aproximamos da problemática do sujeito enquanto forma-verdade, engendrada a partir de relações de forças. Nestas relações, poder e saber estão diretamente implicados.
Não há expressão de poder sem a constituição correlativa de um campo de saber, nem construções de saber que não suponham e não constituam ao mesmo tempo expressões de poder. Ainda que possamos distinguir saber e poder, não podemos pensar produção de saber em separado do exercício de poder, pois ambos se exercem através de práticas indissociáveis que compõem determinado modo de subjetivação.
Nesse sentido, cabe interrogar o dispositivo ‚formação em pedagogia‛ e o modo como ele tem funcionado como regime de verdade a serviço da manutenção de certas relações de saber-poder. Embora Foucault não tenha se dedicado a escrever especificamente sobre a modernidade educativa (CASTRO 2006), vemos que os conceitos de disciplinarização e normalização são de fundamental importância para se entender a produção de um certo olhar docente. É a partir desses processos de normalização que começamos, por exemplo, a distinguir o que é (quem é) normal e o que é (quem é) anormal.
Na produção deste olhar temos um entrelaçamento entre normalização e disciplinarização. A disciplinarização é efeito de uma política de saber-poder constituída pelas ciências humanas para objetivar o corpo humano, individualizando-o, classificando-o e comparando-o com modelos pré-
98 determinados. A normalização age para além da normação34 proposta pelas disciplinas. A normação (FOUCAULT 2008) utiliza as escalas de desenvolvimento e os testes de inteligência que servem ambos para, em primeiro lugar, estabelecer um modelo, um modelo ótimo que é construído em função de certo resultado. Em seguida, classifica a partir da norma (modelo) de modo que se identifique o alvo: aqueles que não se encaixam no modelo, aqueles que desviam. A operação que se segue é a de procurar conformar as pessoas, os gestos, os atos, de acordo com um modelo. Alguns se encaixarão outros não. Alguns serão considerados normais e outros anormais, e no sistema escolar esta operação produzirá os conhecidos processos de exclusão e segregação dos considerados anormais.
A partir do estudo das normalidades, a norma regida pela normalização biopolítica no controle da vida encontrará o seu lugar no qual desempenhará as operações de normalização das condutas humanas.
As ciências humanas nesse contexto passam a veicular um saber para além da normação, ou seja, elas não somente deverão definir a norma do humano, mas também incluir, através dos seus discursos, a normalidade do humano nos dispositivos de prevenção e segurança. A disciplina-normalização define-se por seu caráter produtivo e não se confunde com um dispositivo de repressão ou restrição. As normas de comportamento, as normas sociais, as normas de conduta e as normas que regulam os saberes prescrevem, a partir de um saber inserido em um regime de verdades, ações que funcionam disciplinando os corpos e regulando a vida das populações. Instituiu-se com a disciplinarização e a normalização um tipo de poder que só pode funcionar
34 Em ‚Segurança, território, população‛, Foucault (2008) produz uma importante distinção entre normação (normalização disciplinar) e normalização como regulamentação do corpo- espécie, da população.
99 graças à produção de um saber que é, ao mesmo tempo, efeito e condição de seu exercício.
Com o estabelecimento da categoria ‘normal’, estabelecem-se também as curvas de normalidade, e serão elas que conduzirão o homem-espécie a um processo de regulamentação de suas condutas. Fabrica-se a sociedade de normalização: ‚uma sociedade em que se cruzam, conforme uma articulação ortogonal, a norma da disciplina e a norma da regulamentação‛. (FOUCAULT 1999, 302)
Quando se trata de gerir populações, o que vem primeiro é determinação de um conjunto de normalidades e a norma se deduz dele, é a partir dai que a norma se fixa e desempenha seu papel operatório na construção da sociedade da normalização, um novo modo de exercer o poder. O poder que antes se exercia pelo confisco e supressão da vida transforma-se em um poder destinado a produzir forças mais do que barrá-las ou destruí-las. Encarregado da gestão da vida, esse poder passa a operar tanto na via das ordenações disciplinares dos corpos como na via do controle da vida em seu conjunto. Assim, qualquer desvio é desincentivado:
O desvio, antes de ser vivido em uma programação genética, é sobrecodificado por essa programação de produção de subjetividade. Sendo assim, o que resta às pessoas é apenas viver um possível pré-estruturado no campo em que se encontram. Por exemplo, se você é uma mulher, de tal idade e de tal classe, é preciso que você se conforme a tais limites. Se você não estiver dentro desse limite, ou você é delinquente ou você é louca. (GUATTARI e ROLNIK 1996, 43)
100 Trata-se de um longo processo em que o homem ocidental aprende pouco a pouco o que é ser uma espécie viva em um mundo vivo: ter um corpo e construir as próprias condições de existência a partir de forças que podem se modificar. O biopoder dirigido ao homem-espécie não exclui o poder disciplinar dirigido ao homem-indivíduo: o poder sobre a vida buscou incidir ao mesmo tempo sobre o corpo-espécie e o corpo-indivíduo, sobre a população e o homem, tendo, portanto, efeitos disciplinares e efeitos regulamentadores no governo das condutas e na criação de biopolíticas.
Os processos de subjetivação dizem também das práticas de objetivação que produzem o sujeito e a maneira como, por meio de tecnologias de si, constitui-se sua relação consigo, tornando-o sujeito de sua própria existência. É esse contato entre as tecnologias de dominação sobre os outros e as tecnologias de si que Foucault (2004) chamou de governamentalidade.
Quando se trata da população escolar, os processos contemporâneos de governamentalização assumem um contorno conformado pelos saberes ‚psi‛
(AQUINO e RIBEIRO 2009). Materializados na correlação dos usos e costumes pedagógicos a determinadas tecnologias subjetivadoras, eles agem como um dos mais potentes recursos de normalização, ao se utilizarem da intimização e da auto-regulação. Trata-se de saberes e de subjetividades que se produzem mutuamente, naturalizando-se nas relações de poder.
As tecnologias de dominação por meio de procedimentos, análises, reflexões, cálculos e táticas entram em ação agem fazendo com que essa forma de poder sobre a população conecte os próprios saberes psi para desenhar novas modulações à gestão da vida, por meio da reordenação das práticas sociais em torno do imperativo de si. Tudo passa a ser reduzido ao psiquismo e,
101 por conseguinte, às características individuais de personalidade de um indivíduo portador de uma interioridade psicológica.
102