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2 RENOVANDO O PLANTIO

No documento socialismo sociável (páginas 51-87)

O socialismo morreu e falar dele é fazer uma oração fúnebre.

Louis Reybaud, 1854 Derrotado ou vitorioso, o socialismo prova e mostra que vai tomando incremento... Avante, pois, companhei- ros... Viva o socialismo! Viva a revolução social do Uni- verso!

Estevam Estreita, O Estado de S. Paulo, 3.7.1897 (apud Folha Socialista, 5.9.1948)

ESQUERDA E TRANSIÇÃO

No Brasil, o socialismo não apenas como ideal difuso, mas como instituição organizada, existe há mais de um século. Em 1892, no Rio de Janeiro, França e Silva, autodenominando-se candidato dos operários ao parlamento nacional, deu vida a uma pequena agremiação - Partido Socialista Brasileiro - que se dis- solveria pouco depois. Outras entidades com o mesmo nome su- cederam-se até a fundação, em 1947, do mais conhecido, e estru- turado, entre os partidos socialistas brasileiros. Entre os quais é

preciso notar o Partido Socialista Brasileiro fundado em conse- qüência do Congresso Revolucionário de novembro de 1932, que reunia clubes e legiões tenentistas no Rio de Janeiro, e perdurou precariamente até a instituição do Estado Novo. Entretanto, a experiência e a provecta idade não permitem ao socialismo brasi- leiro desfrutar de experiências de poder, tal como ocorreu com a maioria dos partidos socialistas dos países europeus.

Entender as razões e os impasses, o caráter linear ou as des- continuidades dessa trajetória nacional, é uma tarefa ampla e ár- dua, para a qual apenas pretendemos oferecer alguma contribui- ção, como ficou apontado anteriormente. Julgamos apropriado do ponto de vista documental determo-nos sobre o período 1945- 1964, no qual germinou e se desenvolveu o mais importante PSB, centrando a atenção sobre a sua seção paulista e sobre os intelec- tuais socialistas que, mais ou menos estreitamente, relacionaram- se com ela. As raízes deste Partido, que procuraria trazer consigo algo novo para o cenário político-eleitoral brasileiro, foram cra- vadas no decorrer do processo de restabelecimento da democra- cia, durante e após o Estado Novo. Sobre o caráter inovador do socialismo nessa conjuntura, Hermes Lima, um dos fundadores do Partido, aprazia-se em afirmar: "Estávamos renovando o plan- tio".1

A análise das posições assumidas peias correntes políticas de esquerda, na conjuntura de 1945/1946, parece fundamental para que se possa entender a especificidade do socialismo brasileiro no período. Não apenas as ações c manifestações dos socialistas de- mocráticos interessa reconhecer, mas também as de seus mais pró- ximos interlocutores, os comunistas, sobre os quais se desenrolou afiada polêmica para entender o significado de sua atuação no período. Tanto socialistas como comunistas estiveram presentes a seu modo no processo de solapamento das bases estadonovistas.

Em que momento da história do Estado Novo o regime dita- torial começou a ceder, deixou-se penetrar de forças que, uma vez desenvolvidas, iriam provocar a sua superação? É claro que esse momento não foi nem aparente, nem evidente. Nem, aliás,

1 LIMA, 1978, p.196.

significou alteração completa dos procedimentos e objetivos do regime: o Vargas de 1945 e o Dutra dos anos posteriores o refa- zem, recriando-o. De outro modo, se levarmos a questão ao pé da letra, quanto a buscarmos atitudes políticas não ditatoriais, en- contraremos na própria instalação do regime em 1937, ou no período anterior, caracteres, se não democráticos, pelo menos pró- ximos. Ou seja, não é a pureza das substâncias que procuramos, mas a inter-relação de fenômenos que encaminham novas alian- ças de grupos e classes, condições e interesses, possibilidades e decisões.

Desse modo, parece que a previsão de guerra na Europa e a necessidade interna de bens de capital para a industrialização es- tão na origem do processo que desejamos entender. Na conclusão de um trabalho sobre as "Relações Econômicas Internacionais do Brasil",2 Pedro S. Malan observa que a lição fundamental de seu estudo é a de que se torna "impossível desvincular as relações econômicas internacionais ou a política externa do Brasil, das bases sociais e políticas do Estado Brasileiro e das significativas trans- formações que experimentaram a estrutura produtiva e as rela- ções sociais de produção no período". E é justamente por isso que a atenção redobrada quanto a continuidade ou ruptura se justifi- ca. Não se deve perder de vista a instância estrutural, em que as continuidades se desenvolvem - não sem contradições - e podem ser percebidas, mas é no plano conjuntural que o "turbilhão dos acontecimentos" se apresenta, requerendo entendimento, corre- lação e interpretação. Em outras palavras, o que interessa é a con- juntura que aparece impregnada da estrutura, mas a recria, mes- mo confirmando-a em certos aspectos. Na análise histórica é preciso considerar o quadro estrutural que condiciona a atuação das forças políticas, mas não se deve reduzi-la ao jogo de supostos automatismos, pois as condições estruturais atualizam-se no pla- no das conjunturas.3

Podemos, então, identificar os laços econômicos do Brasil com os Aliados e os referentes compromissos geopolíticos como o li-

2 In: FAUSTO, 1980, v . l l , p.105.

3 Cf. WEFFORT, "Origens do sindicalismo populista...", Revista do Cebrap.

mite possível da estrutura. Quando o ministro Oswaldo Aranha ouviu, de seus interlocutores em Washington, palavras sensíveis à prestação de assistência para reequilíbrio da situação financeira do país, um significativo passo no caminho da abertura política foi ensaiado. Por ironia, haveria, antes mesmo que o processo se afirmasse, um relativo endurecimento do regime. Afirma E Brandi que "as reações no Brasil em relação à missão Aranha fo- ram quase que unanimemente desfavoráveis".4 Mas a própria cúpula do exército, que se colocara contra a reaproximação com os EUA em detrimento da Alemanha, entendeu ser favorável o início da colaboração militar, inclusive com a troca de visitas ofi- ciais: Gois Monteiro dirigiu-se em maio para Washington, e o general Marshall veio em junho para o Brasil. Parece mesmo que o interesse corporativo, em ampliar o potencial bélico das forças armadas, impôs-se a toda outra consideração, e a decisão inglesa de bloquear o Atlântico, por um lado, mais a deliberação ameri- cana em estabelecer uma política de defesa hemísférica, por ou- tro, vieram dar uma coerência fatual que tornou irreversível o alinhamento com as democracias liberais.

Nesse sentido, até a apreensão de navios brasileiros carrega- dos com armamentos comprados da Alemanha, em novembro de

1941, pela marinha inglesa, só causou polêmica, além da tentati- va frustrada de renúncia do general Dutra, por causa da impassi- bilidade do presidente da República em adotar represálias contra aquele país. De qualquer forma, a tendência em favor do Eixo não foi suficiente para determinar a ação da cúpula militar brasi- leira, enquanto Vargas aparecia em todos esses episódios com eqüi- distância. A ambigüidade já estava dada na própria fundação do regime estadonovista, pois enquanto Goebbels e o ministro ita- liano Galeazzo Ciano comemoraram a sua implantação, Getúlio, quase imediatamente, mostrava-se, primeiro, alheio aos interes- ses fascistas internacionais não assinando o pacto anti-Komintern e, depois, contrário, quando, em dezembro de 1937, rompeu com o integralismo.

4 Vargas: da vida para a história, 1983.

Poder-se-ia dizer mais ainda sobre essa ambigüidade: ela es- tava incrustada na correlação de forças que originara a estrutura do regime. Toda a arquitetura política de Vargas apoiava-se na concessão de direitos aos trabalhadores, paralelamente a sua sub- missão como classe. A inexistência, ou quase, da sociedade civil, chegava ao proletariado como corporativismo e esse, além de seu caráter repressor evidente, carregava consigo uma dose milime- tricamente planejada de mobilização. Eram os comícios em pra- ças públicas, ou as comemorações dos aniversários de Getúlio, ou ainda a própria espinha dorsal do sindicalismo que tinha a função da orientação e da disciplina, mas que trazia em potencial a dis- ponibilidade de intervir em futuros embates políticos. A regula- mentação da justiça do trabalho em 1º de maio de 1939 e a proi- bição contra as associações não integradas ao Ministério do Trabalho, entre outras, foram medidas de caráter repressivo que não permaneceram estáticas em seus objetivos iniciais. Tanto é assim que, de forma contraditória e equívoca, como adiante con- sideraremos, as organizações de esquerda não ousaram alterar completamente seu funcionamento, na conjuntura posterior de 1945-1946. E poderíamos, num lance de arrojada imprecisão, afirmar que a discussão sobre o papel da autonomia sindical é, ainda em nossos dias, um desdobramento das raízes cravadas no auge da primeira ditadura modernizante do país.

Portanto, a chave para o entendimento do processo de transi- ção brasileiro no imediato pós-guerra nos parece colocada na ques- tão da "aliança para baixo". Ou melhor, na intercessão entre o momento conjuntural em que o problema da guerra toma o rumo do acordo continental e a possibilidade de o ditador acionar a

"aliança para baixo". Esta chave estará presente nas decisões, ou nas indecisões, da esquerda quanto ao tratamento a ser dispensa- do à herança getuliana, nos anos seguintes. Os comunistas, pelo menos em 1945 e no início do governo Dutra, tenderam a se apoiar na imagem de Vargas; os socialistas, por sua vez, tenderam a rejeitar qualquer relação com ele. Mas essas duas atitudes não contaram com suficiente convicção a ponto de marcar, definitiva- mente, os comportamentos daqueles militantes que oscilaram entre pregar uma reformulação das instituições políticas e admiti-las

como razoáveis. Isto é, a ambigüidade getuliana estendeu-se mui- to além dos partidos dominados diretamente pelo "pai dos po- bres".

A hipótese de mobilização dos trabalhadores - mais especifi- camente do que mobilizar massas - em benefício da continuidade de seu regime populista, foi planeada por Vargas em momentos diversos: durante o Estado Novo ou mesmo antes, e não apenas como escapatória para impedir sua deposição em 1945. Eviden- temente, não se pretende sugerir que um único braço tenha movi- do a roda da história, mas reconhecer em sua liderança o crisol em que tendências e possibilidades da política de classes foram apuradas pela sociedade, a partir de 1930. Abandonamos aqui a interpretação da personalização do poder de Vargas como auto- nomia do Estado em relação às classes dominantes, cm favor de uma concepção que atribua a sua figura a corporificação de uma relação de classes que exigia a alienação da política. Assim, como afirma Paulo Sérgio Pinheiro, "para que Vargas pudesse ser a fon- te única do poder político era preciso que a política se deslocasse das ruas para o aparelho de Estado. No isolamento das decisões do Estado, dominava a burocracia, que justificava sua atuação e sua lealdade a Vargas em nome da realização de um projeto de 'construção nacional'".5 Ocorre que o domínio da burocracia tem de ser entendido não como um fim em si, mas dissimulando o poder tal como ele se encontrava, além da aparência. Na verdade, a burocracia estadonovista pautava o seu poder em sua autori- dade, de uma forma circular, na qual a razão explicava o fim c vice-versa. E, o endeusamento da autoridade do Presidente valia como um conjunto de idéias fáceis de se transmitirem, e de ga- nhar a massa - uma ideologia pronta.

A grossa fatia de poder amealhada por Vargas em sua ditadu- ra nos leva a considerar ainda outras questões importantes para a análise do comportamento das esquerdas no período. Tais como:

por que o processo de dissolução da ditadura se inicia justamente no momento cm que as classes dominantes e os aparelhos do Esta-

5 "Getúlio Vargas (1883-1954): Reexame de alguns mitos", Revista de Cultu- ra Política, Cedec.

do optam pelos Aliados?; por que a passagem para uma situação dinâmica, que substituiu a profunda apatia política dos primeiros anos da ditadura, deveu-se à entrada (e à preparação para...) do Brasil na guerra?; quanto se pode creditar à tentativa de coopta- ção (e em que nuança a cooptação significou conquista ou impo- sição?) dos trabalhadores, que Vargas intensificou a partir de maio de 1943, quando estimulou a sindicalização em massa e, em lº de maio, quando promulgou a CLT?

Há também outra questão, muito significativa para orientar uma análise das diferenças entre as opções adotadas pelos socia- listas e pelos comunistas: a dos "dois projetos democratizantes", isto é, o de Vargas e o das forças liberais. Não obstante estivessem os dois projetos orientados pelo alto, há autores que, em suas interpretações, tomam posição ao lado do "projeto" de Vargas, pois esse não prescindiria da participação das forças populares.6 Os comunistas estariam agindo de acordo com os interesses po- pulares, nesse sentido, quando por exemplo optaram pela União Nacional com Vargas contra o "golpismo pseudoliberal" que de- sejava uma nova ordem institucional para estancar o progresso da democracia nacionalista, tal como ela poderia desenvolver-se a partir da base estadonovista.

A questão exige um entendimento da relação entre esquerda e democratização. Sobre o uso dessa expressão, esquerda, para abarcar comunistas c socialistas brasileiros, convém observar que foi a partir da desorganização do PCB, no período do Estado Novo, e da crise vivida para a sua reorganização que individualidades de esquerda, sobretudo intelectuais, permitiram-se a suficiente liber- dade para pensar opções para o socialismo no Brasil. Portanto, conjetura-se que o próprio nascimento do PSB só foi possível nes- se contexto. O grande número de militantes ex-comunistas pre- sentes no PSB tem aí sua origem.

A reinterpretação do período elaborada por Francisco Weffort, no trabalho denominado Origens do sindicalismo popu- lista no Brasil (a conjuntura do pós-guerra), parte da tese ousada de que na conjuntura de 1945-1946 - período básico para o pro-

6 VINHAS, 1982, e GIOVANETTI NETO, 1986, entre outros.

cesso de institucionalização dos sindicatos sob o controle do Es- tado - a atuação das esquerdas em geral, e do PCB em particular, promoveu o funcionamento de um nítido esquema de domina- ção: "o controle do Estado sobre a classe operária teve de esperar pelo empenho da esquerda... para conquistar alguma eficácia real...".7 Toda a argumentação presente no artigo está submetida à necessidade de confirmação desta tese. Assim, Weffort parte do princípio de que o sindicalismo populista nasceu sob a direção da política populista, diferentemente do que teria ocorrido na Ar- gentina. Mas é possível separá-los dessa forma, tornando-os de- partamentos estanques? A resposta afirmativa a esta questão ser- viu ao autor para subordinar muitas outras idéias que compõem a sua explicação do papel da esquerda. Por exemplo, separar políti- ca populista em geral e sindicalismo populista, em particular, per- mitiu a ele "explicar" por que Vargas e seu regime populista só se ligaram ao movimento operário quando em desespero; e disso fez decorrer que Vargas teria usado o movimento operário liderado pelos comunistas apenas para manter-se no poder (em 1945).

Weffort não admite que a própria essência do Estado Novo esti- vesse marcada pela relação com o movimento operário, daí pre- ferir analisar sindicalismo, de um lado, política geral, de outro.

Mais ou menos o mesmo corte aparece na relação estrutura/

conjuntura. Isto é, autonomizando a conjuntura lhe foi possível separar política populista de ação do movimento operário. Em contradição com esse corte, Weffort mostra a atuação do Estado concorrendo com o movimento operário espontâneo para desor- ganizá-lo: isso significa direção, interferência ou qualquer outra palavra que identifique relação. Talvez o autor tenha razão quan- to à aliança mais íntima de interesses entre regime populista e movimento operário só ter ocorrido com a crise do regime esta- donovista, mas não se pode desconsiderar a ação (ou inação sig- nificativa, ou repressão) do Estado pós-30 sobre o movimento operário.

Enfim, o que se quer notar é que a atribuição de completa novidade ao movimento operário pós-45 serviu ao autor para

7 WEFFORT, op. cit., p.71.

acentuar a possibilidade de o PCB atuar livremente da estrutura e optar por um caminho inusitado. Não ter aproveitado esta "situ- ação em que os homens fazem história"8 e ter optado pelo con- servadorismo, "foi" o grande equívoco das esquerdas.

Sem pretender desvalorizar a análise desprendida e corajosa da submissão das esquerdas ao populismo varguista elaborada por Weffort, é necessário notar o evidente exagero de crítica ao PCB.

No texto, a sua ação aparece como mesquinha c decididamente subserviente, como se sua atuação estivesse dependente apenas da volição: "O apelo de Vargas à união nacional em torno do governo... foi respondido pelos comunistas que depois farão sua a posição assumida neste momento pelo governo" (agosto/1942).9

Além de desconhecer os precedentes a que nos referimos, Weffort não atribui importância estratégica a um ato de adesão que, se- gundo ele mesmo, se coloca no momento cm que o governo deci- diu entrar na guerra e, portanto, dar início à contradição que puxou o fio da meada que desfez o Estado Novo. Ressalte-se que o apoio ao governo aparecia sempre ao lado da reivindicação de anistia geral.10

Mesmo considerando apenas as discussões que se travavam dentro do setor comunista da esquerda da época, é preciso reco- nhecer nuanças na questão da interpretação do "futuro da revo- lução brasileira". Isto pode explicar o porquê do comportamento comunista. Ou seja, o esquema teórico então em voga separava os intérpretes em dois grupos: os favoráveis à revolução democrá- tico-burguesa e os que afirmavam o caráter essencialmente capi- talista da formação social brasileira. Aos primeiros parecia neces- sário o cumprimento de etapas preestabelecidas, aos outros, a luta pelo socialismo colocava-se imediatamente. A opção do PCB, dian- te dessas alternativas - e submetida ao etapismo - ocorreu majorita- riamente em favor do fortalecimento do Estado em detrimento

8 WEFFORT, op. cit., p.70.

9 WEFFORT, op. cit, p.77.

10 Esse trabalho de Weffort foi duramente contestado por C. E. Martins c M. H. T. Almeida, em Modus in rebus (mimeogr., s. d.), dando origem a um debate que produziu ainda uma réplica com título Dejemonos de farsas mu- tiles! História crítica ou História ideológica (mimeogr., s. d.).

da sociedade civil, tendo a questão de obter sua legalidade jogado um peso formidável. É esse o ponto essencial da questão, ao qual queríamos chegar.

Não se trata de levantar a história do PCB para recolocá-la

"no ponto certo", mas de reconhecer as posições ocupadas pelos socialistas diante dos procedimentos comunistas. Isto é, de uma forma geral a opção socialista inverteu a equação: procurou jus- tamente fortalecer a sociedade civil mesmo que isso viesse em detrimento do Estado. Nesse caminho, percorrido ao longo de duas décadas, colocam-se as propostas socialistas para o entendi- mento das funções partidárias (que tratamos no capítulo 3 deste trabalho), ou para a compreensão das relações entre as classes sociais (idem, capítulos 4 e 5), ou mais diretamente para a per- cepção do seu papel diante do comunismo no Brasil (idem, capí- tulo 6).

Além dessa questão geral cabe conjeturar sobre outras mais pontuais:

• ao formularem a política de "ordem e estabilidade", os líderes comunistas colaboraram com a estrutura sindical de tipo fascis- ta, mas quais as possibilidades de agirem diferentemente? Na análise do comportamento dos socialistas democráticos tere- mos de ter toda a atenção voltada para o caso, pois a eles coube a tarefa de, criticando a subserviência comunista aos ditames internacionais, elaborar alternativas para democratizar a estru- tura sindical;

• reconhecendo que houve uma relação paradoxal entre o Parti- do Comunista e a classe operária na conjuntura, devemos nos perguntar se a contradição - isto é, a ambigüidade entre popu- lismo conservador e sindicalismo de esquerda - não poderia provir da própria classe operária que, debatendo-se em dile- mas, mostrou-se incapaz de se dirigir autonomamente? E se fosse dirigida por algum partido, esta direção poderia ter capacidade tal de significar mudança real no comportamento da classe nas suas relações políticas?;

• a conjuntura, 1945-1946, foi aberta suficientemente para que ocorressem mudanças, pois o fim da experiência fascista e a

crise da ditadura no país criaram esta circunstância. Mas o quan- to, de fato, as portas estavam abertas para novas personagens?

Eis uma questão que envolveu a razão e a imaginação, não ape- nas de comunistas mas da esquerda em geral.

Distante da camisa-de-força imposta pela "linha justa" do bol- chevismo internacional, os socialistas democráticos - lidando sem- pre com a incerteza de uma doutrina que não incluía a possibili- dade cabal de prever o futuro - elaboraram propostas de substituição do populismo em política popular, dirigida para a satisfação genérica dos "interesses globais" da sociedade. A sua proximidade com os liberais da UDN no período, o contato com críticas acerbas contra os comunistas, e o distanciamento em rela- ção aos trabalhadores e às lutas sindicais, podem ter formado um jogo de contradições tal que lhes tenha permitido emitir opiniões e realizar campanhas significativas para o entendimento da re- pública populista brasileira. Essa é outra de nossas principais ques- tões.

Numa sociedade em que os comunistas colaboraram com a implantação da política sindical fascista de Vargas, para seguir a hipótese de Weffort, a chave da razão democrática pode estar nos minoritários socialistas. Nos anos 40 e 50, em suas minúsculas sedes, os parcos socialistas de São Paulo sonhavam não com uma "aliança para baixo", mas com uma sociedade de cidadãos autônomos, tal como pequenos semeadores presumem a chuva criadeira que lhes faria germinar a futura colheita. Seu partido, o PSB, "não tinha importância para o Brasil" - como declarou um membro frustrado dessa exígua grei - mas suas aspirações eram grandiosas. "Nesse mundo às avessas", a lógica do poeta Affonso Romano de Sant'Anna, em Que país é esse, é explicativa: "a cor da noite é obsclara e a claridez vespertina".

ANTECEDENTES E CRIAÇÃO DO PSB-SP

É possível conjeturar sob a existência de alguma vinculação entre os socialistas do período da República Velha e os intelec- tuais pós-Segunda Guerra, que animaram o PSB. Uma de suas fi-

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