Essas duas questões serão respondidas na seção 5, mais adiante, uma vez que antes se faz necessário:
i) retomar o fato de a variação das três formas acontecer de maneira diferente nas duas áreas geográficas (como atestam os valores contidos na Tabela 5), o que aponta para a necessidade de uma análise, em separado, dos grupos de fatores idade e classe social, em cada área - isso será feito na subseção 3.2.2, a seguir;
ii) examinar o comportamento da terceira variável dependente estabelecida, ou seja, examinar o comportamento da variante padrão (você) versus o comportamento das variantes não-padrão (ocê e cê), na fala da comunidade sanfranciscana - o que será feito na seção 4.
A distribuição das variantes conforme Classe social e Idade, na área urbana pode ser visualizada na Tabela 9 :
Grupos de
Fatores Fatores
Você Ocê Cê Total
100%
No % No % No %
Classe Social Privilegiada Não-Privilegiada
41 66
28 27
28 33
19 14
76 144
52 59
145 243
Idade
Velho Mediano Jovem
40 49 18
26 37 18
24 16 21
16 12 21
90 68 62
58 51 61
154 113 101 Tabela 9 - Distribuição das três variantes, segundo idade e classe social, na área urbana
Quanto ao grupo de fatores Classe social, observa-se que, tanto na classe privilegiada como na não-privilegiada, o uso da variante cê ocupa o primeiro lugar, seguido da variante você e, depois, da variante ocê. Esse resultado mostra que o pronome ocê é o menos usado nas duas e pode ser considerado como uma variante estigmatizada. Em relação ao grupo de fatores Idade, o que se pode notar é que as três faixas etárias favorecem o uso da variante cê;
no que se refere às variantes você e ocê, os velhos (27%) e os medianos (37%) usam mais a variante você, desfavorecendo o uso da segunda; já na faixa etária jovem, acontece o contrário: o uso da variante ocê (21%) é favorecido e a forma você (18%) é a menos usada.
Os resultados relativos à distribuição das três variantes conforme os Grupos de fatores Classe social e Idade, na área rural, podem ser vistos na Tabela 10, a seguir:
O resultado da distribuição das variantes você - ocê - cê, nas áreas urbana e rural não será apresentado em termos de PR devido aos KNOCKOUTS ocorridos na rodada.
Variáveis Fatores Você Ocê Cê Total 100%
No % No % No %
Classe Social Privilegiada Não-Privilegiada
13 5
12 4
38 43
36 33
54 81
51 63
105 129
Idade
Velho Mediano Jovem
1 13 4
2 13 5
22 24 35
48 24 40
23 64 48
50 63 55
46 101 87 Tabela 10 - Distribuição das três variantes na área rural, conforme classe social e idade
Nessa área, onde a variante cê também ocorre preferencialmente nas duas classes sociais e nas três faixas etárias, há um fato muito interessante: além de a variante ocê ser mais usada do que a variante você, as três faixas etárias usam menos freqüentemente a forma você do que as outras formas, o que se verifica, também, nas duas classes sociais (classe privilegiada e não-privilegiada).
Se for observado o comportamento da variante você nos dois Grupos de Fatores - Classe social e Idade -, verifica-se que, quanto a classe social, das 18 ocorrências do você, 72% estão concentrados na privilegiada; quanto à Idade, das 18 ocorrências do você, 72%
estão concentrados na faixa etária mediana, seguida de 22% nos jovens e 6% nos velhos, e esses 6% de ocorrência correspondem a um único caso - transcrito em (17), abaixo - registrado na fala de uma informante que, embora com apenas quatro anos de escolaridade, é uma professora aposentada:
(17) ... eu vi agora... vocês precisa acredita... (E-430)
Esses resultados apontam o seguinte problema:
O que explicaria o grande desfavorecimento da forma você, nessa área da comunidade lingüística em estudo? Teria o você o estigma de pronome urbano, falado pela classe privilegiada e com melhor nível de escolaridade?
Cabe ressaltar que o Grupo de fatores Escolaridade não foi considerado na análise quantitativa incluindo todos os dados devido à diferença de nível de escolaridade existente entre as áreas urbana e rural, mas, apesar disso, foi observada. Na área urbana, foram encontrados: três informantes com alto nível de escolaridade (correspondendo a mais de 11 anos de escolaridade, o que significa estar, pelo menos, cursando um curso superior); seis informantes com médio nível de escolaridade (correspondendo a no mínimo cinco e no máximo 11 anos de escolaridade) e três informantes com baixo nível de escolaridade (correspondendo a, no máximo, quatro anos de escolaridade). Na área rural, não foi encontrado nenhum morador com curso superior e foram encontrados: três informantes com médio nível de escolaridade (correspondendo a no mínimo cinco e no máximo 11 anos de escolaridade) - o coordenador da escola, a professora de 3a e 4a séries e um estudante - e nove informantes com baixo nível de escolaridade (sete com quatro anos de escolaridade e dois não-escolarizados), sendo, esses últimos, idosos e os responsáveis pelas sete ocorrências da forma ancê registrada no corpus.
Conforme se pode observar, a amostra utilizada não inclui um mesmo número de falantes de cada nível de escolaridade (o total de 24 informantes inclui: três com alto nível de escolaridade, nove com médio nível de escolaridade e doze com baixo nível de escolaridade).
Em razão desse fato, a freqüências das três variantes nas duas áreas (urbana e rural) será examinada, em detalhes, focalizando apenas o uso das variantes pelos falantes de cada nível de escolaridade, o que pode ser visto através da Tabela 11, a seguir:
Fatores
ÁREA URBANA ÁREA RURAL
VOCÊ OCÊ CÊ Total 100%
VOCÊ OCÊ CÊ Total 100%
No % No % No % No % No % No %
Nível Alto 50 38 19 14 64 48 133 - - - - Nível Médio 17 15 23 20 73 65 113 6 21 2 7 21 72 29 Nível Baixo 40 28 19 13 83 58 142 12 6 79 39 114 56 205 Total 107 28 61 16 220 57 388 18 8 81 35 135 58 234 Tabela 11 - Uso das três variantes, na área urbana e na área rural, considerando os níveis
de escolaridade dos falantes de cada área
Os informantes dos três níveis de escolaridade da área urbana preferem a forma cê, que é também a preferida dos informantes dos dois níveis de escolaridade da área rural.
Considerando os diferentes níveis de escolaridade em cada área, observa-se um fato curioso no que diz respeito ao uso das outras duas variantes, uma vez que:
Por um lado: os informantes com alto nível de escolaridade - presentes apenas na área urbana - usam mais a forma você do que a forma ocê e os informantes com baixo nível de escolaridade - tanto da área urbana, quanto da área rural - usam menos a forma você do que a forma ocê; esses resultados apontam para uma certa influência da escolaridade no uso das variantes, já que a escola garante o contato com a forma você, pelo menos através do texto escrito;
Por outro lado, os informantes com médio nível de escolaridade da área rural usam mais a forma você do que a forma ocê - o que se mostra, portanto, coerente com os resultados anteriores; os informantes com médio nível de escolaridade da
área urbana, no entanto, usam menos a forma você do que a forma ocê - o que não era esperado.
Diante desse mistério, pode-se afirmar apenas que, no total de dados:
O uso da variante cê - com freqüências relativamente altas e, praticamente, idênticas na área urbana e na área rural (57% e 58%, respectivamente) - é o mais favorecido pelos três níveis de escolaridade na área urbana e, pelos dois níveis de escolaridade, na área rural.
Quanto à ocorrência das outras duas variantes: na área urbana, a forma você é mais usada do que a forma ocê (28% / 16%), mas, na área rural, a forma você é muito menos usada do que a forma ocê (8% < 35%).