Esta dissertação teve por objetivo realizar um estudo do modernismo na Bahia, a partir de uma análise das contribuições da Academia dos Rebeldes, grupo que emerge num contexto de renovação da literatura e das artes no Brasil, esforço guiado pela idéia de uma revisão dos valores da cultura nacional. Para este estudo, foi necessário retomar o modernismo paulista, pelo lugar hegemônico que sempre ocupou na historiografia literária do Brasil, ao sair à frente com a pretensão de lançar um projeto estético e ideológico marcado pela ruptura com a arte passadista, então feita no Brasil.
Nessa retomada, buscou-se um entendimento das peculiaridades do modernismo na Bahia, que teve com a formação do grupo dos rebeldes um projeto estético e político mais sintonizado com o ideal de renovação e releitura da tradição, cultivado pela modernidade estética. Lafetá sintetiza o alcance da proposta do modernismo:
Sensível ao processo de modernização e crescimento de nossos quadros culturais, o Modernismo destruiu a barreiras dessa linguagem
“oficializada”, acrescentado-lhe a força ampliadora e libertadora do folclore e da literatura popular. Assim, as “componentes recalcadas” de nossa personalidade vêm à tona, rompendo o bloqueio imposto pela ideologia oficial... (LAFETÁ, 2000 P. 22)
Com a eclosão da Semana de Arte Moderna de São Paulo, um escândalo literário e artístico é formado no Brasil, repercutindo em todas as regiões do país, ainda que tardiamente em alguns lugares, como na Bahia. Esse descompasso resultou numa pluralidade do modernismo, haja vista suas variações nas diferentes regiões do país.
No confronto entre as diferentes vertentes do modernismo brasileiro, a Bahia, cinco anos após a revolução estética de São Paulo, vai delinear um projeto estético que propõe
uma renovação da literatura e da cultura através dos grupos Samba, Arco & Flexa e Academia dos Rebeldes. Este último se apresenta como a agremiação literária que mais corresponde ao ideal de renovação pregado. Desde o início do século XX, a Bahia é marcada por um surto literário muito grande. A revista Nova Cruzada é um periódico que agrega novos e velhos escritores, e se torna representativa do parnasianismo e do simbolismo, dificultando, portanto, a ruptura. Muitos dos colaboradores dessa revista vão inclusive contribuir com o periódico modernista baiano Arco & Flexa e se tornarem idealizadores e fundadores da Academia de Letras da Bahia, lugar de preservação do cânone literário, não de ruptura.
Esse período fica marcado pela formação de grupos de artistas, pintores e escritores que se aglutinam em torno de um intelectual de respeito e de reconhecido prestígio no metier e no meio cultural local, com propostas de mudanças. A participação em grupos dessa natureza atesta uma peculiaridade do campo artístico e literário no Brasil, como já colocara Miceli, o qual, no início da sua formação, não prescindiu da criação de grupos, da atividade jornalística, da colaboração em revistas, nem tampouco de um capital de relações sociais.
Feito um balanço da atuação dos grupos que representam o modernismo baiano, a Academia dos Rebeldes se apresenta como o que mais avançou na pesquisa sobre a cultura baiana. Os escritores e intelectuais que formam esse grupo se mostram atentos às questões sociais, valorizam a cultura africana e afro-baiana, debatendo e problematizando questões que dizem respeito à comunidade negra da Bahia, violentamente discriminada à época, vítima do preconceito racial, justamente no momento em que começa a se tecer o discurso da democracia racial, o qual buscava escamotear os conflitos de raça e de classe no país.
Os periódicos produzidos pelo grupo antecipam, com o seu itinerário, uma síntese do pensar dos confrades sobre a cultura brasileira. Em vista disso, seus colaboradores até se posicionam contra o que consideram importação das vanguardas por parte dos modernistas paulistas, pregando uma arte regionalista, cuidando de esclarecer que esse regionalismo implica na valorização da cultura local, do interior do Estado da Bahia, com sua diversidade geográfica e cultural, como já havia feito Monteiro Lobato.
Pode-se afirmar que os rebeldes pretendiam fazer uma arte e uma literatura regionalista, no molde proposto por Gilberto Freyre ao tratar de Os sertões, de Euclides da Cunha: “Euclides da Cunha esplende de tropicalismo; arde de brasileirismo. É dionisíaco e até exuberante no seu modo de interpretar-se e de interpretar o Brasil aos olhos de outros brasileiros e aos olhos de estrangeiros voltados para o Brasil”. (FREIRE, apud Euclides da Cunha, 1995, p. 22).
Ou ainda segundo Juraci Dórea Falcão, relendo José Aderaldo Castello, o regionalismo é uma maneira de pensar a brasilidade, uma vertente da brasilidade, substituindo o nacionalismo. (FALCÃO, 2005). Considera-se que o nacionalismo dos modernistas do sul é baseado num Brasil literário. Até então, antes de Mário de Andrade fazer suas viagens ao interior do país, o conhecimento que muitos intelectuais paulistas têm do Brasil vem da leitura de textos da tradição literária ou de outras produções textuais.
Os integrantes da Academia dos Rebeldes se envolveram com o cotidiano de sua gente, voltaram-se para o trivial e as tradições de sua terra, ao darem relevo à cultura africana, buscando, de certo modo, uma conciliação, nos termos propostos por Gilberto Freyre
:
Artigos a favor da cozinha tradicional brasileira e das cozinhas regionais do país; a favor das igrejas velhas; a favor não da simples conservação
mas do aproveitamento, pelos arquitetos mais jovens, dos valores da arquitetura tradicional e também dos estilos tradicionais de jardins e de parques à portuguesa, já acomodados à natureza e à vida brasileira; a favor dos estudos da história social e até íntima, nos arquivos públicos, de conventos, de irmandades e de família; a favor dos assuntos negros, ameríndios, populares, regionais, folclóricos, provincianos e mesmo suburbanos como os melhores assuntos para os novos pintores, músicos, romancistas, pesquisadores e fotógrafos.
A produção da Academia dos Rebeldes também traz uma marca despojada, ao incorporar a linguagem popular e a temática local, vindo a contribuir para a divulgação e propagação desse tipo de construção literária, como provam as publicações País do Carnaval, Suor e Cacau, de Jorge Amado.
Em relação às revistas criadas pelos rebeldes, O Momento se apresenta muito mais fecunda, politizada e de valorização da cultura negra baiana, brasileira e ameríndia, resgatando mitos, crendices, elementos do folclore e da cultura popular, sem se preocupar com a linguagem rebuscada que até então dominava o cenário das letras baianas. Essa revista traz um design moderno na sua publicação, capas coloridas e ilustradas, edições cuidadas, textos variados, com muitas fotografias e um papel de excelente qualidade.
Como veículo de divulgação de idéias sobre literatura, arte e cultura, os periódicos testemunham a necessidade de formação de uma rede de relações sociais, necessária ao ingresso no mundo letrado. Além disso, atestam as transformações vivenciadas pela sociedade local, através dos textos publicitários que propagavam a modernização no início do século XX.
A curta duração dessas revistas sinaliza a característica desses grupos, em diferentes estados, os quais tiveram uma breve duração, ocasionada pelas mudanças de percurso de seus integrantes. Em se tratando da Academia dos Rebeldes, contribui para essa efemeridade a situação política da Bahia, com a intervenção do estado. Embora fosse um
grupo mais coeso, preocupado com a pobreza da população, com o negro e a sua cultura, os rebeldes não encontram apoio institucional para uma sobrevivência maior, considerando-se inclusive que o advento do do Estado Novo significou uma perseguição aos militantes e simpatizantes do comunismo, como foi o caso de boa parte dos confrades. Assim, a história oficial deixa à margem aqueles que assumem a causa dos oprimidos.
Pelo estudo aqui desenvolvido e ora apresentado nesta dissertação de Mestrado, infere-se que a Academia dos Rebeldes esboça um projeto estético voltado para a renovação da literatura, ao se fazer presente uma ruptura com a linguagem tradicional. Os rebeldes trazem a língua falada pelo “povo”, sem qualquer preocupação com a rigidez da norma culta gramatical. Já o projeto ideológico é posto em prática quando os confrades demonstram consciência do país, desejo e busca de uma literatura nacional, diria melhor, brasileira.
Enquanto a produção dos modernistas de São Paulo da primeira fase não encontra eco da ideologia esquerdizante em suas obras, boa parte da produção da Academia dos Rebeldes já antecipa o recrudescimento das lutas ideológicas que marcam todo o mundo a partir dos anos 30, como o nazismo, na Alemanha, o fascismo, na Itália, a Espanha franquista e o salazarismo, em Portugal, expondo uma Europa atravessada por um nacionalismo exacerbado e um militarismo crescente, cujas conseqüências foram trágicas para a história recente da humanidade.
A breve biografia aqui tecida sobre os integrantes da Academia dos Rebeldes testemunha que esses jovens escritores denunciaram questões internas, vindo a contribuir ainda para a renovação da literatura portuguesa, com a criação do Neo-realismo, movimento que bebeu na literatura brasileira dos anos 30, no cinema neo-realista italiano,
no marxismo, procurando denunciar as mazelas sociais, políticas e econômicas de uma Portugal agrária, que queria tornar-se uma sociedade industrial.