3.2 MEDIDAS JUDICIAIS PROPOSTAS CONTRA A PEC 287/2016
3.2.7 Ação Popular n. 1016921-41.2017.4.01.3400/DF
Uma das entidades mais respeitadas no cenário nacional em matéria previdenciária, a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP), não ficou para trás e também cumpriu com seu papel cívico: ajuizou Ação Popular em desfavor da União Federal discutindo a PEC 287/2016.
Essa ação foi registrada sob o n. 1016921-41.2017.4.01.3400, e inicialmente, tramitou perante 14ª142 Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal, de titularidade da Juíza Federal Rosimayre Gonçalves de Carvalho, oportunidade em que foi deferida a medida antecipatória (tutela de evidência) para determinar:
(...) a imediata suspensão de todos os anúncios da campanha de ‘Combate aos Privilégios’ do Governo Federal da reforma da previdência nas diversas mídias e suportes em que vêm sendo publicadas as ações de comunicação, sob pena de multa diária de R$ 50.000,00 (cinqüenta mil reais).
A decisão judicial proferida pela magistrada foi, em síntese, assim fundamentada: i) existe certo antagonismo entre publicidade dos atos públicos e a propaganda governamental, essa realizada, na maioria das vezes, com viés partidário e em proveito a determinados agentes públicos; ii) a veiculação em referência “apresenta-se como genuína propaganda de opção política governamental que objetiva conduzir a população à aceitação da reforma da previdência, tal como idealizada pelo Executivo”. iii) A superficialidade da matéria, ademais, indica que o Governo Federal anuncia um déficit na previdência social sem esclarecer à população, com dados objetivos, o quantum devido e a sua origem (ou origens); iv) frente a densidade do direito invocado, verificou-se que está demonstrada a urgência da medida, “haja vista que a propagação diária e contínua dessa propaganda governamental duvidosa influenciaria indevidamente na formação da opinião pública sobre tão relevante tema que, por sua gravidade, não deveria ser assim manipulado”.143
Discordando da referida decisão, a União Federal ajuizou Pedido de Suspensão de Segurança (n. 0057978-71.2017.4.01.0000/DF) perante o Tribunal Regional Federal da 1º
142 Em momento posterior, foi redistribuída a 8ª Vara Federal daquela seção.
143 Trechos extraídos de decisão interlocutória proferida pela Juíza Rosimayre Gonçalves de Carvalho.
Região, o qual restou deferido144 pelo Desembargador Federal Hilton Queiroz145, concedendo efeito suspensivo à decisão da 14º Vara Federal do Distrito Federal.
Em um novo embate, a ANFIP impetrou Mandado de Segurança (n. 1013155- 92.2017.4.01.0000/DF) contra a decisão do Des. Federal Hilton Queiroz, alegando, em síntese, que: i) afigura-se abusiva e, por isso, indiciariamente teratológica a suspensão de segurança que permite a veiculação de propaganda em diversos meios, com caráter nacional, que desinforma a população e aponta inimigos nacionais: os servidores públicos; ii) a análise da propaganda por si só comprova a probabilidade do direito, ou seja, da possível violação ao artigo 37, § 1º, da Constituição, em dissonância com as normativas do Decreto 6.555/2008 e da Instrução Normativa n. 7/2014, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, e da possível ocorrência de Dano Moral Coletivo; iii) já no que tange ao periculum in mora, o mesmo decorre da continuidade de veiculação do material publicitário produzido na campanha impugnada, comprometendo ainda mais os recursos públicos, principalmente se declarados nulos os atos da veiculação da propaganda, parte deles já direcionados a esse fim, além do dano irreparável aos autores, já que seus servidores são taxados de possuir privilégios, de serem a causa do ‘rombo’
na previdência e que, se esses privilégios não forem cortados, os aposentados e pensionistas deixarão de receber em dia seus benefícios; iv) na Justiça Federal da 4ª Região já foi deferida medida suspendendo campanha publicitária sobre o mesmo tema, por não possuir “caráter educativo, informativo ou de orientação social”, restringindo-se a trazer a visão dos membros do partido político que a propunham e passando a mensagem de que, caso não fosse aprovada a reforma proposta, o sistema previdenciário poderia acabar; v) não há perigo de dano inverso, na medida que as veiculações das propagandas podem retornar a qualquer momento, caso o juízo entenda possível; vi) nada tem de informativo na propaganda atacada, pois o único intuito da injusta propaganda veiculada a partir de 17/11/2017 é apontar os servidores públicos como
144 Na oportunidade, foram tomados como razões de decidir os argumentos desenvolvidos pela União, de que se destacam: i) Ao veicular a campanha pela reforma da Previdência, o Governo vem informando os parâmetros cuja necessidade se aferiu a partir das conclusões obtidas na pesquisa, enfatizando a necessidade das reformas. Na verdade, chama atenção da sociedade para a discussão de tema de relevo nacional, atualmente submetido ao Congresso Nacional; ii) A publicidade em questão não suprime, nem antecipa indevidamente o debate a respeito da reforma, até porque não revela, a não ser em breves linhas, o seu conteúdo. iii) O fato de o Poder Executivo despender recursos públicos para a realização de campanha de conscientização da sociedade está diretamente ligado às suas funções administrativas; iv) Simples divulgação de políticas públicas imprescindíveis para a sociedade brasileira jamais pode ser considerada como tentativa de manipulação da opinião pública; v) Cercear a informação por meio de campanhas publicitárias implica alijar a população da iniciativa legislativa em si mesma, conforme vem reconhecendo o Poder Judiciário ao apreciar a matéria; vi) as considerações expendidas e os precedentes judiciais sobre a matéria levam à conclusão de que a decisão judicial objeto do presente pedido viola a ordem pública, pois ofende diretamente o poder-dever de a Administração dar publicidade a seus atos e ações de interesse da sociedade, restringindo-o, em verdade, na medida em que se imiscuiu indevidamente em avaliação puramente subjetiva acerca do alcance da propaganda.
145 Presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
o problema da previdência, declinando que os mesmos trabalham pouco, recebem muito e se aposentam cedo, que não passam de afirmações desprovidas de conteúdo, dados ou quaisquer outras informações consistentes.146
Em nossa opinião, entre todas as medidas judiciais expostas até aqui, essa ação é a que teria maiores chances de êxito no Poder Judiciário, tanto pelos fundamentos precisos apresentados em todas as petições postulatórias durante o trâmite processual, quanto pela capacidade técnico-operacional da ANFIP de comprovar documentalmente a realidade sobre as contas públicas brasileiras147.
Entretanto, tanto a Ação Popular apresentada neste tópico, quanto o Mandado de Segurança impetrado contra a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª região, restaram improcedentes.
A ANFIP, por sua vez, continua emitindo periodicamente suas notas técnicas, pareceres e levantamentos estatísticos sobre a situação das contas públicas, com o objetivo de dar transparência para um setor do Estado tão nebuloso: as suas finanças.
3.2.7.1 Ação Popular distribuída por dependência a de número 1016921- 41.2017.4.01.3400/DF
A Associação Nacional dos Magistrados Trabalhistas148 (ANAMATRA), propôs ação popular em dependência àquela anteriormente ajuizada pela ANFIP, para também questionar os vícios existentes na propaganda institucional. Pleiteou, na oportunidade, a declaração de nulidade da propaganda institucional, por vício de ilegalidade e de desvio de finalidade, bem como danos materiais coletivos por restar configurada a lesão ao patrimônio da União. A referida ação foi apresentada em desfavor do Ministro de Estado Chefe da Casa Civil, da Presidência da República, do Secretario Geral da Presidência da República e do Sr. Secretário Especial de Comunicações da presidência.
Na nossa visão, tanto os argumentos sustentados pela ANFIP quanto pela ANAMATRA têm consistência e coerência.
146 Trechos extraídos do Mandado de Segurança n. 1013155-92.2017.4.01.0000/DF.
147 A ANFIP, se necessário, poderia ter apresentado um diagnóstico completo sobre o Orçamento Geral da União, bem como a subdivisão dos Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social, pois a entidade tem feito esse levantamento há muitos anos, desde 1997.
148 Composta por mais de 4.000 Juizes do Trabalho brasileiros, é considerada uma associação de relevância nacional. (Cf. <https://www.anamatra.org.br/anamatra/perfil>)
Isso por que, de acordo com o que preceitua o art. 37, §1º149, da CF, a propaganda publicitária é visivelmente ilegal e tem por única finalidade realizar a “defesa” da “pretensão”
de alteração legislativa do atual Governo. Salta aos olhos, para nós, o “desvio de finalidade” da Propaganda Institucional da Reforma da Previdência, que somente poderia ou poderá ser feita, de forma legítima, ou em face dos membros do parlamento, ou em face dos cidadãos, diante de uma lei já aprovada e sancionada150.
Os gastos com a Propaganda Institucional nesse momento destinam-se, em verdade, para a “defesa” indireta dos Parlamentares que votarão a proposta de emenda constitucional.
Destina-se a diminuir ou minorar as pressões legítimas realizadas por aqueles que são contrários à Reforma da Previdência (pelo menos da que foi proposta pelo Governo Federal).
Não há, por óbvio, necessidade de realizar os gastos que estão sendo feitos (da ordem de cerca de R$ 100 milhões) para fazer o convencimento dos Parlamentares. É desproporcional a realização de uma campanha nacional, voltada para toda a sociedade, se o que existe no momento é apenas uma Proposta de Emenda Constitucional. O desvio de finalidade da campanha é, ao nosso ver, manifesto, uma vez que o máximo que se poderia admitir seria uma campanha destinada ao convencimento dos membros do parlamento.
Enquanto há somente a proposta legislativa, a publicidade institucional destina-se apenas a obter apoio popular à Proposta de Emenda à Constituição 287/2016, ainda em trâmite na Câmara dos Deputados, configurando, pois, o desvio de finalidade, porque o convencimento do Poder Executivo haveria de ser feito em face dos congressistas.
A referida publicidade institucional também não se reveste de caráter educativo, informativo ou de orientação social, uma vez que para tanto teria de ser ampla, contemplando todas as opiniões e não mediante a apresentação de uma única vertente argumentativa. E se essa propaganda institucional não se enquadra dentre aquelas hipóteses permitidas em lei, então, evidentemente, haveria de se declarar a procedência a ação intentada pela ANAMATRA, no que tange ao pedido de danos materiais, para que fossem restituídos aos cofres da União os valores despendidos nessa falha, ilegal e imoral campanha publicitária.
Entretanto, não foi isto o que aconteceu. Essa ação popular foi mais uma medida que não restou frutífera. Mesmo assim, julgamos relevante fazer menção a ela, dando-lhe os devidos créditos.
149 A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.
150 O que até este momento não ocorreu.
3.3 DIREITO ADQUIRIDO E EXPECTATIVA DE DIREITO EM MATÉRIA