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A bioética

No documento Olhares Feministas (páginas 105-110)

O que há em comum em todos os livros citados e nos fatos apresentados?

É que eles, direta ou indiretamente, se referem a um único assunto: à procriação/

‘reprodução’ humana, mais precisamente ao controle da fertilidade humana. São pre- ocupações e propostas políticas que, ao fim e ao cabo, possuem um alvo: o corpo da mulher. Evidenciam que as atuais políticas de população têm como único objetivo a determinação de quem pode ou não nascer, e demonstram que esta política é defini- da, substancialmente, ou quase exclusivamente, tomando por base critérios da cultura sexista e racista, alicerçados pela dominação de classe.

Mas também salta aos olhos que, desta realidade, emerge uma nova área de dis- cussão e atuação política, que é a bioética, que de Potter para cá adquiriu novas facetas particularmente porque a Biologia hoje é a parte mais promissora da big science, com potencial técnico, segundo seus donos, de ‘resolver’ os chamados quatro big bioproble- mas (alimentação, saúde, degradação ambiental e crescimento demográfico).

Como disse Clotet, com certeza não encontraremos a palavra bioética nos dicionários.

privilegiada. Foi desse trabalho que Burt partiu para um campo oposto! Sabemos que muitos outros pro- moveram alterações na Escala de Binet.

31 OLIVEIRA, F. Ideologia Racista do DNA Ditador é Miragem, Princípios n. 36, fev., mar., abr. 95, p. 41-45

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Trata-se de um conceito novo [...] O sentido do termo bioética, tal como usado por Potter, é diferente do significado ao mesmo hoje atribuído. Potter usou o termo para se referir à importância das ciências biológicas na melhoria da qua- lidade de vida; quer dizer, a bioética seria, para ele, a ciência que garantiria a sobrevivência do planeta [...].

O termo bioética poderia também ser usado com o significado amplo referente à ética ambiental planetária, por exemplo: o tema dos agrotóxicos ou o uso in- discriminado de animais em pesquisa e experimentos biológicos. Mas não é essa, atualmente, a conotação específica e mais comum. Segundo a Encyclopaedia of Bioethics – resultado da colaboração de especialistas e 0 supervisores e a maior contribuição coletiva para a bioética numa só obra, com sua segunda edição em fase final de elaboração, – bioética é o estudo sistemático da conduta humana na área das ciências da vida e dos cuidados da saúde, na medida em que esta conduta é examinada à luz dos valores e princípios morais.

Quando empregamos a palavra bioética falamos, portanto, de algo que não é tão somente uma disciplina humanitária a mais nos cursos da área das ciências bioló- gicas. Apesar de que nas escolas de medicina, em todo o mundo, existe um explícito empenho de despolitização da bioética, por parte sobretudo da área da Medicina Le- gal. Pretendem fundir a bioética à Medicina Legal e à Ética Médica e, quando muito, concedem aos advogados uma ‘carona’. A tentativa de torná-la ‘uma coisa de médicos’, e reduzi-la ao seu caráter disciplina, precisa ser combatida com veemência.

A bioética também não é uma torre de marfim a mais para abrigar médicos, biólogos ou as diferentes doutrinas deístas. Não é mais um feudo da Filosofia ou da Teologia. Ou mais uma associação de juristas e/ou legisladores, E obviamente não se confunde – não pode e não deve ser confundida (como é o desejo e o esforço de muitos) – com a deontologia e/ou com a ética médica, posto que os códigos deonto- lógicos tratam da normalização das condutas profissionais e são elaborados por cada profissão. A ética médica se ocupa das posturas do(a) profissional médico(a) relativas ao exercício da medicina no cotidiano; das relações profissional/clientela e da morali- dade/ética nas pesquisas. Aborda tão somente a conduta do(a) profissional.

32 CLOTET, J. Por que Bioética? Bioética, Revista do Conselho Federal de Medicina, v. 1, 1993.

33 As corporações médicas, tradicionalmente, têm dedicado muita atenção às questões éticas e participaram da elaboração de códigos, declarações e procedimentos baseados em princípios universais que orientam a conduta profissional da área de saúde. “Em 1962, a Associação Médica Mundial aprovou a Declaração sobre Pesquisas Biomédicas, que foi revisada em 1964 (Declaração de Helsinque), em 1975 (Declaração de Tóquio) e em 1981 (Declaração de Manila) (...) Em 1982, a Organização Mundial de Saúde e o Conse- lho de Organizações Nacionais de Ciências Médicas elaboraram a Proposição de Normas Internacionais para a Pesquisa Biomédica envolvendo seres humanos. Embora sejam ‘aceitos’ em todo o mundo, tanto o código quanto as declarações e proposições, não são ‘leis’, e sim princípios orientadores da conduta nas pesquisas. A partir desses princípios, cada país é livre para fazer as suas leis, civis e penais (...)”.

OLIVEIRA, F. Engenharia Genética: o sétimo dia da criação. SP: Editora Moderna, 1. ed., 1995, 135 p.

10 A bioética trabalha com o presente, com o arsenal terapêutico já disponível vinculado a questões pertinentes à boa qualidade de vida e com as perspectivas de futuro. Abriga um vasto temário, diz respeito a dimensões que, de uma forma ou de outra se referem à dignidade da vida humana. Especialmente, trata de discutir com a sociedade todos os temas da biologia desde a pesquisa básica à aplicada; passando pela qualidade e competência da prestação de serviços nas instituições e a postura dos(as) profissionais da área de saúde.

O corpo teórico da bioética é também a base para que o Biodireito reflita as indagações e necessidades do seu tempo. É uma orientação decisiva, uma bússola, para que legisladores possam, tomando como base a defesa de preservação da inte- gridade e diversidade humana, elaborar as novas leis de acordo com o pensamento pluralista contemporâneo.

A bioética ainda é muito tímida, até reticente, quanto ao combate à opressão de gênero e à opressão racial/étnica. E não poderia ser diferente, visto que a ética é uma construção cultural e, como tal, não é apolítica. É como disse Mary E. Hunt:

“[...] a ética patriarcal se forjou a partir de uma série de experiências que não inclu- íram as mulheres”. Ao que eu acrescento: nem os negros e nem os indígenas.

Não existe ainda, consolidada, uma mobilização do movimento feminista e anti-racista visando reorientar a bioética no sentido destas inclusões. É emergencial que deflagremos este processo, uma vez que a bioética, com certeza, será a pedra de toque da luta pelos direitos humanos no século XXI. Falta uma corrente feminista, anti-racista e libertária na bioética. O feminismo e a luta anti-racista precisam se dar conta de que esta parceria precisa ser construída.

No feminismo delineiam-se três posições antagônicas organizadas sobre bio- ética, que têm por base a atitude diante da engenharia genética e das NTRc. Exis- tem grupos contrários à regulamentação de qualquer biotecnologia bioengenheirada, coordenados sobretudo pela Finrrage (Feminist Intemational Network of Resistence to Reproductive and Genetic Engineering – Rede Internacional Feminista de Re- sistência à Engenharia Genética e Reprodutiva, fundada em 9). Para esse setor, a bioética é um ‘engodo’ a serviço do imperialismo e apenas uma forma de ‘legitimar’

ataques à natureza. “Não queremos regulamentar a aplicação destas tecnologias, não as queremos de nenhum modo” .

34 Na atualidade, há uma demanda e uma tendência por regulamentação da atividade e dos produtos da ciência; há necessidade de uma normalização pública, que proteja ‘consumidores(as)’ e produtores de ciência, pois vivemos uma época na qual a ciência não é tão somente uma inocente e poética tentativa de explicar a natureza apenas no ‘mundo das idéias’. Suas aplicabilidades tecnológicas (industrialização da ciência) ressoam em quase todos os domínios de nossas vidas. Assim ‘caiu por terra’ a pretensa universa- lidade, a inocência e a autoridade, que, por muito tempo, acreditou-se intrínsecas à atividade científica.

35 HUNT, M.E. Introdução a uma Revolução. Consciência Latino Americana, v. IV, n. 4, oct., nov., dicie. 1992. p. 12.

36 ZIMMERMAN, B. Discurso de Bienvenida. Mujeres Contra Tecnologias Reproductivas y Ingenieria Genéti-

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Existe uma posição que podemos denominar de bioliberal, particularmente em relação às NTRc, que exige o controle dessas biotecnologias pelas mulheres, pois, segun- do essa corrente, as NTRc podem garantir a liberdade e a autonomia das mulheres.

Em 99, surgiu a FAB (The Network on Feminist Approaches to Bioethics), que apresenta disposição para o embate relativo às questões de bioética e atua nos fóruns da área, bem como aglutina pessoas e grupos que lutam por uma legislação que coíba os abusos e incorpore uma visão de combate à opressão de gênero.

Mas qual é o traço de unidade entre as posturas feministas mencionadas? O posicionamento contra o sexismo, os estereótipos e a invisibilidade das mulheres na ciência e contra o patenteamento de seres vivos.

Desconheço, até o momento, alguma mobilização do movimento anti-racista no sentido de colocar o debate sobre bioética em sua agenda como um assunto importante, isoladamente ou em articulação com outros setores da sociedade. Isso é preocupante, pois sabemos que as pretensões dos chamados sexismo e racismo

‘científicos’ criam ‘alma nova’ com os novos saberes/poderes da biologia e a ‘tentação’

de uso deles para fins de eugenia. Urge que nos debrucemos sobre esse assunto com a preocupação que ele exige, pois “as questões colocadas nos dizem que, embora a luta cotidiana contra o racismo consuma quase todas nossas energias, não podemos nos abster, ou descuidar, do combate ao chamado racismo científico, posto que são estas teorias que dão a seiva ideológica às práticas do racismo”.

Essa é uma batalha que exige uma aliança prioritária com o feminismo, não apenas pela maior afinidade ideológica e similaridade de ‘problemas’, mas também porque são setores do movimento social que estão aportando com razoável atraso (quase três décadas) nos fóruns de bioética, razão suficiente para que se fortaleçam mutuamente, pois a consciência feminista e anti-racista nestes fóruns ainda deixa muito a desejar.

ca. Ponencias dei Segundo Congreso de Feministas, en Frankfurt, RFA, 28 – 30/10/88; WINkLER, E.F.U.;

BRADISH, P. (Ed.). Essa também foi, literalmente, a opinião emitida por Gena Corea, jornalista e feminista norte-americana, diretora do Instituto da Mulher e Tecnologia dos EUA, autora do livro The Mother Machi- ne, por ocasião do Seminário Gênero, Ciência e Tecnologias Reprodutivas, Unesp Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara, SP. 14 a 17/03/95.

37 Algumas iniciativas do feminismo: I Congresso da República Federal da Alemanha Mulheres contra as Tecnologias Genéticas e Reprodutivas, Bonn, 1985, 1.800 participantes; o II Congresso da República Federal da Alemanha Mulheres contra as Tecnologias Genéticas e Reprodutivas, Frankfurt, 1988, cerca de 2.000 participantes; Conferência Internacional sobre NTRc, engenharia genética e saúde da mulher, Comilla/Bangladesh, 1989 (organizado pela FINRRAGE e a UBINIG – Policy Research for Development Alternative, compareceram mulheres de 30 países); Conferência Internacional Mulher, Procriação e Meio Ambiente, Rio de Janeiro, outubro de 1991, com a participação de 280 mulheres de 39 países da Europa, Ásia, África, América do Norte, América Latina e Oceania (promovido pela Redeh – Rede de Defesa da Espécie Humana e apoiado pela FINRRAGE); Congresso de Mulheres por um Planeta Saudável, Miami, novembro de 1991, organizado pelo IPAC (International Policy Action Committee), como preparatória das feministas para a ECO-92, presentes 1.400 mulheres de 87 países.

38 OLIVEIRA, F. Ideologia Racista do DNA Ditador é Miragem, op. cit..

10 Os campos atuais da reflexão e da ação bioética são: direitos reprodutivos (concepção, contracepção, aborto, infertilidade, novas tecnologias reprodutivas con- ceptivas – NTRc – e outras biotecnologias da área da reprodução que não incluem manipulações genéticas), sexualidade, saúde mental, doentes terminais, eutanásia e engenharia genética.

O corpo teórico da bioética desenvolveu-se tendo em conta o princípio geral da defesa da dignidade humana, que busca assegurar benefícios que preservem a integridade e a diversidade da espécie homo sapiens. De maneira simplista, podemos afirmar que o parâmetro de construção do pensamento bioético parte do enunciado geral de que o ético é o que é ‘bom e melhor’ para o ser humano e a humanidade, em um determinado momento.

A elaboração dos princípios da bioética foi feita considerando a microética (pes- soal/privada – o ser humano) e a macroética (coletiva/pública – a humanidade). Ao se elencar os princípios, fica nítido que existe um pensamento bioético laico (capitaneado em especial pelas corporações da área da saúde, sobretudo, médicos e biólogos) e um pensamento bioético de extração religiosa (oriundo e controlado pela Igreja Romana).

A ‘bioética laica’ tem a sua ação e reflexão orientada pela autonomia ou o respeito à pes- soa; a beneficência; a justiça e a alteridade. A ‘bioética religiosa’ aceita estes princípios e acrescenta os seguintes: a sacralidade e a natureza da vida humana; o homem senhor da natureza; as relações homem X natureza; o respeito à totalidade; o princípio do duplo efeito e os meios ordinários e extraordinários de garantir a saúde e a vida.

É interessante especular se a bioética, mesmo sendo uma necessidade e uma causa de toda a sociedade, é suficiente para assegurar direitos fundamentais, tais como: o direito ao próprio gene, a inviolabilidade do patrimônio genético humano e a liberdade reprodutiva, considerando que estas são proposições que provavelmente serão grandes bandeiras dos direitos humanos no próximo milênio.

Ao entender bioética de forma ampla e plural precisamos pensar mais em como esta forma de visualizá-la poderá ser socializada e popularizada. Jogarão papel decisivo nisso os Programas (formais e informais) de Educação Bioética; a criação de uma Comissão de Bioética, em nível nacional – como órgão oficial consulti- vo do governo e demais poderes – com representação dos setores organizados da sociedade. O estímulo à implantação de Centros de Bioética, públicos e privados (incluindo as organizações não- governamentais (ONGs) de bioética), é também uma maneira importante de formação, informação, popularização e construção da cidadania social e política9.

39 OLIVEIRA, F. Para Onde Caminha a Humanidade sob os Signos das Bios (tecnologia e ética)? Saúde em Debate, n. 45, dez. 94, p. 32-37.

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No documento Olhares Feministas (páginas 105-110)