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A carne, o pecado, a morte e a perda da semelhança

No documento JESUS: MAXIMA PATRIS BENEDICTIO (páginas 45-48)

1.4 A humanidade do Filho como protótipo de nossa humanidade

1.4.3 A carne, o pecado, a morte e a perda da semelhança

A dignidade da carne reside, pois, no fato de ter sido tocada por Deus, de modo que sua proximidade está como que condicionada à assunção da nossa condição humana por parte do Verbo de modo que, assemelhando-se a nós pudesse dar-nos efetivamente a salvação que é a participação na vida divina ou divinização. Para o padre cartaginense, o termo carne é sobretudo sinônimo da humanidade de Cristo, particularmente para significar “o aniquilamento de Cristo à condição humana”97. E tal aniquilamento ou kenose, é um ato de extremo amor, tal e qual

93 Ibidem 5,8, p. 277.

94 Cf. Ibidem 6,1, p. 279.

95 Cf. HAMMAN,L’homme image de Dieu, p. 84..

96 TERTULIANO. De carnis resurrectione 6,2-4, p. 279.

97 MORESCHINI,Claudio.Tertuliano e la salvezza de la carne. In: LITURGIA e incarnazione. Padova: Edizioni

Messaggero Padova, 1997, p. 97.

nos é narrado no Evangelho de João: “tendo-os amado, amou-os até o fim” (Jo 13,1) no intuito de que o ser humano pudesse – mediante a carne – participar da semelhança divina98.

A defesa da dignidade da carne do ser humano é desenvolvida tendo em consideração seja o ser humano mesmo, seja aquele que é revestido por nosso bem, ou seja, Cristo:

que a encarnação era contestada comumente por todos os heréticos do segundo e terceiro séculos. (...) o fato que Cristo tenha assumido aquela carne ainda que humilde e repugnante significa que ele amou o ser humano. (...)

No entanto, a carne de Cristo não é somente a carne humana da qual Cristo se revestiu, ou seja, como uma veste que pode ser usada e depois retirada, como em relação ao ser humano, a carne constitui para Cristo a unidade indissolúvel com a sua realidade divina.99

O Novo Testamento liga de maneira muito acentuada os termos “carne” e “morte” de modo que se compreenda a dimensão mediatriz da carne de Cristo enquanto sinônimo de sua experiência humana no mundo que culmina na morte de cruz.100 Mesmo para Tertuliano, sabemos que o extremo valor que dá ao evento da encarnação liga-se à sua orientação à paixão, de modo que Cristo se encarna para experimentar o ápice do aniquilamento na cruz e salvar o ser humano.101 Em De Carne Christi refutando Marcião, Tertuliano insiste dizendo: “A nossa certeza é esta: Cristo amou o ser humano, formado na imundície do útero, veio ao mundo por canais vergonhosos, nutrido de carências ilusórias. Por ele, desceu do céu, por ele pregou, e por ele se humilhou de todos os modos até a morte, e morte de cruz”.102 A razão da encarnação é o extremo amor de Deus pelo mundo criado. Aniquila-se no Filho tornando-se criatura para fazer os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares terem acesso à participação na familiaridade divina, pela porta da adoção filial que é, em poucas palavras, a realização máxima da semelhança com o Verbo. Deste modo, se inculca que a regeneração do ser humano e o ato reformador da dignidade humana se dá pela morte de Cristo e em Cristo. Numa citação da liturgia bizantina, a GS 22 conclui sua primeira parte explicitando textualmente: “Cristo ressuscitou, destruindo a morte com a própria morte e deu-nos a vida, para que tornados filhos no Filho exclamemos no Espírito: ‘Abba, Pai!’”

Retomando a lex orandi, verificamos que o texto eucológico previsto para o dia de Natal enfatiza a dignidade da condição humana regenerada em Cristo. É muito interessante que o termo latino condere empregado no contexto da criação de ser humano como imagem e semelhança – seguindo a tradução castelhana - signifique não apenas criar, fundar, constituir,

98 Cf. Ibidem, p.108.

99 Ibidem, p. 105-107.

100 Cf. MAZZA,Incarnazione e umanità de Dio, p. 147.

101 Cf. MORESCHINI,Tertuliano e la salvezza de la carne, p. 106.

102 TERTULIANO, De carne Christi 4,3. (SChr 216, p. 223).

mas também sepultar, consumir. Neste sentido, voltando à perspectiva da GS 22, lembramos que esta experiência de retornar à condição originária de imagem e semelhança é própria dos cristãos, mas não só. Todos os “homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente” (GS 22) participam do Mistério Pascal de Cristo, de modo que o velho ser humano é sepultado porque configurado à morte de Jesus indo ao encontro da ressurreição. Ser regenerado exige morrer. Sepultados em Cristo para ressuscitar com Ele como nova criatura, novo ser humano.

Constitutivamente o ser humano é feito por Deus como uma realidade mortal e somente em Cristo pode superar – na graça, portanto – esta condição. Ao homem e à mulher é próprio encaminharem-se para a morte, algo que se experimenta a todo o tempo pelas vias de sua condição frágil, podem exercitar a sabedoria que recebem de Deus para que se defendam dos possíveis efeitos da própria mortalidade103. É, pela mesma ação do Verbo de Deus que é a sabedoria inscrita na sua carne, que o ser humano, “como um germe de eternidade que nele existe” (GS 18), enfrenta a morte.

A morte é o salário do pecado (Cf. Rm 6,23). Ele é causa do obscurecimento da imagem divina104 ou uma desfiguração que diminui a pessoa e obstaculiza o processo de plenificação (cf. GS 13), de modo que a vocação e o destino aos quais está chamado em sua origem dependem da restituição à salvação oferecida em Cristo (cf. GS 18). Para isso, na linha do que Paulo explicita, deverá assemelhar-se a Cristo na morte para que lhe seja semelhante numa vida ressuscitada (cf. Rm 6,5). Gregório de Nazianzo explica que o Pai objetiva pela encarnação do Verbo –“expressão do Arquétipo divino, o selo inamovível, a imagem perfeita, o pensamento do Pai”105 – restituir a semelhança àqueles aos quais havia doado sua imagem na criação. A humanidade de Cristo é tomada como verdadeira mediadora da santidade.

Recebi a imagem divina, mas não soube conservá-la. Ele assumiu a minha condição humana para restaurar a perfeição desta imagem e dar a imortalidade a esta minha condição mortal. (...)

Foi necessário que Deus se fizesse ser humano e morresse para que tivéssemos a vida.

Morremos com ele para sermos purificados; ressuscitamos com Ele porque com Ele morremos.106

103 Cf. LACTANCIO, De Opficio Dei 4, 16. (SChr 213, p.131).

104 Cf. GREGÓRIO DE NISSA, De hominis opficio XVIII. (SChr 6, p. 170).

105 GREGÓRIO DE NAZIANZO. Oratio XLV, 9 (PG 36,634).

106 GREGÓRIO DE NAZIANZO. Oratio XLV, 9 (PG 36,635-662).

A comunidade cristã em oração, com o responsório do Ofício de Leituras na terça-feira da primeira semana do Advento, interpreta estas palavras de Gregório com a explicação paulina de que “pelo amor infinito com que Deus nos amou, enviou-nos o seu Filho numa carne semelhante à carne do pecado” (cf. Ef 2,4; Rm 8,3). Na linha do que pensa Orígenes, “à catábase do Verbo feito carne corresponde à anábase do crente, que a partir de Cristo, do seu evangelho e de Jesus crucificado alcança o mistério de sua divindade.”107 Este é o “locus classicus da doutrina da encarnação”108 ou seja, é somente a partir da assumptio carnis que se pode compreender a salvação oferecida por Deus da carne e pela carne, isto é, mediante a humanidade mesma, de modo que a humanização se faz corolário do influxo salvífico de Deus no mundo pela atuação do seu Verbo.109

No documento JESUS: MAXIMA PATRIS BENEDICTIO (páginas 45-48)