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A Carta de São Francisco e seu compromisso com a paz

2.1 A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS - ONU

2.1.1 A Carta de São Francisco e seu compromisso com a paz

A Carta de São Francisco, também conhecida como a Carta das Nações Unidas, foi o documento fundador da ONU. Conforme já relatado, ela entrou em vigor no dia 24 de outubro de 1945, após a ratificação da maioria dos Estados-membros que participaram da Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional, ocorrida na cidade de São Francisco - CA, entre os meses de abril e junho do mesmo ano.

A estrutura da Carta compreende 19 capítulos, possuindo ao todo 111 artigos. Seu conteúdo “expressa interesses comuns de seus Estados- membros, como a necessidade de limites mútuos e a observância recíproca de certas normas, como a promoção dos direitos humanos.”.77

Viotti tece, ainda, as seguintes considerações sobre ela, quando menciona que:

[...] a Carta é, de certo modo, uma “Constituição” embrionária da comunidade internacional, seja pela extensão e complexidade de suas funções, seja pela posição hierárquica dos princípios e obrigações nela assumidos frente a outras normas de Direito Internacional. É na verdade um tratado sui generis, que estabelece organização com “vida própria” e personalidade jurídica distinta de seus membros. Ao aderir à organização, o Estado-membro consente não apenas a número de obrigações bem definidas, como também a estatuto jurídico próprio, de participação quase-universal e definido nas competências e nos poderes de seus órgãos, como a AGNU e o CSNU.78

Ao manusearmos a Carta das Nações Unidas, deparamo-nos prontamente com o principal objetivo da Organização, qual seja a manutenção da paz e da segurança internacionais. O seu art. 1 (1) deixa bem claro tal assertiva:

76 UNITED NATIONS. Department of Peacekeeping Operations UNITED NATIONS Peacekeeping.

Disponível em: <http://www.un.org/en/peacekeeping /info/mission>. Acesso em: 16 de outubro de 2010.

77 VIOTTI, Aurélio Romanini de Abranches. Ações humanitárias pelo Conselho de Segurança:

entre a Cruz Vermelha e Clausewitz. p. 83.

78 Idem.

Artigo 1

Os propósitos das Nações unidas são:

1. Manter a paz e a segurança internacionais e, para esse fim: tomar, coletivamente, medidas efetivas para evitar ameaças à paz e reprimir os atos de agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar, por meios pacíficos e de conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional, a um ajuste ou solução das controvérsias ou situações que possam levar a uma perturbação da paz;79

Além disso, a primeira alínea do preâmbulo também elucida o desejo de “preservar as futuras gerações do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço de nossa vida, trouxe sofrimentos indivisíveis para a humanidade.”.80

Diante desse propósito da ONU, cabe definir, na Carta, a localização dos preceitos que compõem o sistema de segurança coletiva81. Esse sistema, conforme destaca Fontoura, “é reforçado por um conjunto de propósitos e princípios, capitulados nos artigos 1 e 2 daquele instrumento82, que deve nortear o relacionamento dos Estados no cenário internacional.”.83

O aparato de manutenção da paz e da segurança internacionais, termos esses que a Carta das Nações consagrou e evitou assim usar outros como “segurança coletiva” e “guerra”, tem suas principais medidas previstas nos Capítulos VI e VII. Nesse sentido, Rodrigues nos explica que:

A Carta, no Capítulo VI, prevê os meios pacíficos de resolução de conflitos. Fracassados estes, o Conselho pode optar por outras

79 NAÇÔES UNIDAS. Carta da Organização das Nações Unidas. São Francisco, 26 de junho de 1945. Disponível em: < http://www.onu-brasil.org.br/documentos_carta.php> Acesso em 18 de outubro de 2010.

80 Idem

81 Para Herz e Hoffmann, o sistema de segurança coletiva “é um mecanismo de administração do sistema internacional mais estreitamente vinculado às organizações internacionais. O sistema é baseado na ideia de criação de um mecanismo internacional que conjuga compromissos de Estados nacionais para evitar, ou até suprimir a agressão de um Estado contra o outro. HERZ, Mônica.

HOFFMANN, Andrea R. Organizações Internacionais: história e práticas. p.99. Já a Comissão de Medidas Coletivas, em relatório de 1951, definiu a segurança coletiva como sendo um “plano para um sistema de sanções que possa evitar a ação de qualquer Estado tentado a cometer agressão ou, não o conseguindo, assegurar que o agressor tenha de se defrontar não unicamente com sua vítima, mas com a força unida da comunidade internacional”. FONTOURA, Paulo Roberto C. T. da. O Brasil e as operações de manutenção de paz das Nações Unidas. p. 50.

82 Leia-se Carta das Nações Unidas.

83 FONTOURA, Paulo Roberto C. T. da. O Brasil e as operações de manutenção de paz das Nações Unidas. p. 50.

medidas para fazer cumprir suas decisões que vão desde sanções que não envolvem o emprego de forças armadas até ações militares intervencionistas.84

Dessa forma, não havendo a resolução da lide entre os Estados por meios pacíficos (negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais, ou a qualquer outro meio pacífico), o Conselho de Segurança poderá utilizar o Capítulo VII, o qual abrange a “Ação relativa à ameaça à paz, rupturas da paz e atos de agressão”, a fim de que sejam efetivadas suas decisões.

É desse capítulo que se extraem as sanções e a intervenção militar. O artigo 41 apresenta as eventuais sanções não militares que poderão ser empregadas, com o intuito da resolução do litígio, sem o emprego da força:

O Conselho de Segurança decidirá sobre as medidas que, sem envolver o emprego de forças armadas, deverão ser tomadas para tornar efetivas suas decisões e poderá convidar os Membros das Nações Unidas a aplicarem tais medidas. Estas poderão incluir a interrupção completa ou parcial das relações econômicas, dos meios de comunicação ferroviários, marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie e o rompimento das relações diplomáticas.85

Rodrigues salienta que “[...] no contexto da globalização, prolongadas sanções podem ser bastante prejudiciais para o país alvo, tornando-se uma medida de frequente uso na tentativa de resolução de conflitos”. Nesse sentido, a mesma autora cita os exemplos abaixo:

Sanções econômicas gerais foram aplicadas à Rodésia de 1966 a 1979, ao Iraque após a invasão do Kuwait em 1990 e à Servia e Montenegro em 1992. Embargos de suprimentos de armas foram impostos à África do Sul em 1977, à antiga Iugoslávia em 1991, à Somália e à Libéria em 1992 e restrições ao fornecimento de petróleo ao Haiti em junho de 1993. [...] Sanções ajudaram a restaurar o regime democrático no Haiti e as medidas econômicas impostas à

84 RODRIGUES, Simone Martins. Segurança Internacional e Direitos Humanos: A prática da intervenção humanitária no pós-guerra fria. p. 33.

85 NAÇÔES UNIDAS. Carta da Organização das Nações Unidas. São Francisco, 26 de junho de 1945. Disponível em: < http://www.onu-brasil.org.br/documentos _carta.php> Acesso em 18 de outubro de 2010.

Iugoslávia foram uma das razões pelas quais o presidente sérvio Slobodan Milosevic foi persuadido a negociar o Acordo Dayton.86 Com relação à intervenção militar, autorizada pelo Conselho de Segurança, necessário se faz a menção de alguns dispositivos presentes no capítulo VII da Carta de São Francisco. Trata-se do artigo 42, segundo o qual poderá o CSNU levar a efeito ações por meio de forças aéreas, navais ou terrestres, a fim de manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais; do artigo 43, que expressa que todos os membros devem disponibilizar forças armadas, assistência, facilidades, incluindo direito de passagem necessários à manutenção da paz e da segurança internacionais; e artigo 45, o qual, por sua vez, sujeita os Estados- membros a manterem em prontidão contingentes de forças aéreas nacionais para a execução combinada de uma ação coercitiva internacional.

Além disso, outra hipótese que possibilita a utilização da força armada é o direito à legítima defesa, conforme traz o artigo 51, ao prescrever que

“Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso de ocorrer um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas”.87

Acerca da legítima defesa, Ávila e Rangel argumentam que ela

“[...] exige o descumprimento do Direito Internacional por uma parte, e apenas uma parte. Tão-somente o recurso ilegal à força cria a possibilidade de tal mecanismo ser utilizado. [...] é um direito do Estado ofendido, mas jamais uma obrigação.”.88