A partir da parábola do amigo importuno tem-se duas aplicações, segundo Gourgues30 dos vv. 9-13. A primeira (v. 9-10) no tom de exortação insistente, retomada três vezes em termos diferentes: “Pedi, procurai, batei”. O desfecho conduz à crença nas palavras de Jesus:
De fato, todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra; e para quem bate, a porta será aberta (v. 10).
2.3.1 Pedir, procurar e bater à porta (v. 9-10)
Esses três verbos possuem uma dimensão religiosa para o judaísmo. São usados para indicar uma postura cheia de fé daquele que ora, com a certeza de que Deus escuta sua
28 GOURGUES, 2005, p. 50.
29 GOURGUES, 2005, p. 52.
30 GOURGUES, 2005, p. 42.
oração. Ao mesmo tempo, são um convite de Jesus para que o homem se aproxime de Deus com amor filial, com ternura especial e repleto da confiança de que Deus cuida dele em suas necessidades.
Nas palavras de Gourgues (2005) “o que se ressalta da parábola não é só a idéia de que é preciso orar na certeza de ser escutado, mas ainda a de que é preciso orar sem desanimar.”31 Até porque nem sempre sabemos o que pedir em nossas orações. Por isso que para Grun (2019)
Há aquelas que se queixam: “Rezei tanto para que Deus me livrasse da depressão, mas mesmo assim não me sinto melhor”. “Rezei tanto pela minha mãe, que sofria de câncer, e mesmo assim ela morreu”. A oração não pode ser vista como uma garantia de que Deus retirará determinada depressão ou doença. Seu objetivo é me transformar, ela quer que eu me entregue a Deus em minha impotência, passando a me sentir apoiado por ele. Posso lhe perguntar o que pretende me dizer com a depressão, a doença. Assim, pode ocorrer uma transformação dentro de mim em relação à minha depressão ou doença32.
É necessário rezar sempre, sem desistir. Se Deus demora a nos atender, antes de tudo, é para que a fé cresça, até acreditar em seu amor sem outra prova que o seu próprio amor, testemunhado exatamente no seu sono33. Por outro lado, às vezes, a demora em ser atendido só aumenta o desejo, aumentando consequentemente a capacidade de acolher a graça.
Por isso, a “impertinência” da fé ousa pedir, procurar e bater exatamente diante do silêncio de Deus, na certeza de obter, encontrar e ser acolhida. Sabe o que é esse sono do amigo: é a insistência de Deus, que revela ao homem todo o seu amor. Tal fé ultrapassa o próprio muro da morte na invocação do amigo34.
Santo Agostinho ensinava que não obtemos o que pedimos porque pedimos mal, isto é, porque pedimos com um coração mau ou sem confiança e humildade ou coisas más. O autor da Carta de Tiago também nos diz que “Não possuís porque não pedis. Pedis, mas não recebeis, porque pedis mal, com o fim de gastardes nos vossos prazeres” (Tg 4,3). É preciso continuar pedindo, procurando, batendo. Se o pedinte persistir em chamar seu amigo, obterá o pão; se ele desistir, voltará para casa de mãos vazias.
2.3.2 Pedir um peixe e um ovo (v. 11-13)
Na segunda aplicação (v. 11-13) Jesus compara a atitude dos dois pais. Ele diz que apesar das fraquezas humanas, um pai sabe oferecer coisas boas aos filhos, num momento de
31 GOURGUES, 2005, p. 43.
32 GRUN, 2019, p. 39.
33FAUSTI, 2021, p. 504.
34FAUSTI, 2021, p. 504.
necessidade; quanto mais Deus, o pai do céu, não será capaz de fazer. E fará muito mais.
Nenhum pai ou nenhuma mãe trata mal um filho que pede e suplica, mesmo quando não pode atender o pedido do filho, não lhe dará uma pedra com a qual poderá machucar-se, muito menos um escorpião ou cobra venenosa que poderá matá-lo. Ora se os pais humanos tratam assim seus filhos, quanto mais nosso Pai do céu nos trata com cuidado. Daí surge a necessidade de pedirmos bem, pois Deus não poderá nos dar algo que possa nos fazer mal.
Ainda segundo Gourgues (2005) “esses versículos desenvolvem, sob a forma de uma antítese que opõe a conduta dos homens (vv. 11-12) à de Deus (v. 13), não só a idéia de que Deus ouve a oração (vv. 9-10), mas de que a ouve dando o que é bom.”35 Ou seja, concedendo o Espírito Santo, na concepção de Lucas.
O que Deus dará é a antecipação do Reino pelo Espírito Santo. Bovon (2002) conclui dizendo que
Esta menção do Espírito Santo não significa que Deus não aceita nada além de súplicas de tipo espiritual. Os exemplos dos vv. 11-12 se opõem a essa ideia. O dom do Espírito de Deus pode ser apresentado na forma de pão de cada dia, de um afeto humano ou de um acontecimento feliz. O mesmo que o AT, tampouco o NT dissocia radicalmente os bens espirituais dos bens materiais36.
Para Masseroni (1999) “a eficácia da prece constitui, entretanto, uma ‘desproporção’”.
Na sua visão, a resposta de Deus é sempre maior que as nossas súplicas, que as nossas expectativas. Ainda que, por vezes, ‘misteriosamente’ diferente. Por isso, a prece é o poder do discípulo37. O autor segue dizendo que
Eis a grande resposta à prece de súplica: a dádiva do Espírito. A promessa de Deus ultrapassa toda espera, transcende a imaginação humana (v. 13). O segredo da eficácia não se fundamenta apenas na confiança, mas, também, na disponibilidade de acolher os grandes bens da era messiânica: essas prospectivas do Reino são lembradas no “Pai-nosso”. Entre os bens que Mateus chama “coisas boas (Mt 7, 11), Lucas enfatiza que o Pai dará o Espírito. Se o “Pai-nosso” (Lc 11, 2-4) se constitui na mais alta síntese da mensagem evangélica, de forma a ser a prece exemplar, aqui Jesus vai mais a fundo nas raízes. Ele parece dizer que, antes de perguntar como se aprende a rezar (Lc 11, 1), é necessário pedir a presença do Orante: a presença do Espírito Santo que “intercede” em nós e para conosco (Lc 11, 13; Rm 8, 26)38.
A oração é infalível se pedirmos o que é conforme a vontade de Deus, com uma confiança que tudo deseja e nada retém impossível, com uma humildade que nada pretende e tudo atende39. Por isso, as nossas orações deveriam encerrar-se sempre com o pedido que o próprio Jesus nos ensinou “Seja feita a tua vontade” (Mt 6, 10).
Como se trata da pesquisa da oração perseverante nas severas provações das pessoas
35 GOURGUES, 2005, p. 43.
36 BOVON, 2002, p. 197.
37 MASSERONI, 1999, p. 73.
38 MASSERONI, 1999, p. 75.
39FAUSTI, 2021, p. 510.
mais simples e pobres adicionamos um item que fala dos “amigos necessitados” nas comunidades de fé. Com isso, apresentar a carência concreta de “pão” dessas pessoas que nunca perdem a fé-confiança em Deus. Antes disso, descrevemos, brevemente, a atitude esperada das lideranças comunitárias, das quais me incluo, para com as necessidades dessas pessoas simples e pobres.