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A trajetória do turismo na comunidade de Barranco Tigre remonta ao ano 2000, quando alguns pescadores do interior do país organizaram grupos para visitar o Caño Bocón; mais tarde, um morador de Inírida decide empreender como operador turístico especializado em pesca esportiva106, organizando grupos de aproximadamente 10 turistas e levando-os ao longo do rio dentro do território do Resguardo Bachaco Buenavista.

105 “[...] autonomia relacional indígena, a qual deve ser entendida como a capacidade dos povos indígenas para exercer autodeterminação e governabilidade em seus territórios a partir das relações, negociações, confrontação e participação que devem estabelecer com o Estado e diversos atores locais, nacionais e transnacionais na busca de reconhecimento e implementação de sua autonomia política e territorial; mesmo que retomem políticas ou processos estatais ou transnacionais na busca de sua consolidação” (ULLOA, 2012, p. 11).

106 Entendemos a pesca esportiva como aquela atividade de captura e devolução de peixes, com fins de lazer e competição, utilizando, para isso, aparelhos compostos por vara, molinete ou carretilha, linha e diversos tipos de iscas.

Considerando-se as condições excepcionais de preservação ecológica, principalmente a presença abundante de peixes, a comunidade reúne importantes atrativos para tal atividade. Até 2016, a atividade turística foi dirigida por operadores e intermediários alheios à proposta do turismo de base comunitária, que pagavam a comunidade uma pequena taxa pela entrada dos pescadores esportivos, assim como pelo trabalho dos integrantes da comunidade. Nesse esquema, os habitantes da comunidade foram ocupados como guias, motoristas de botes e responsáveis por montar e organizar acampamentos, no caso dos homens, enquanto as mulheres eram responsáveis pelas tarefas de cozinhar e lavar roupas, replicando a tradicional divisão social do trabalho na comunidade.

Figura 32 - Caño Bocón: pescador esportivo 1 2022107

Fonte: https://www.fishcolombia.com/puertoinirida. Acceso em: 15 fev. 2022.

Os recursos vinham dos honorários pelo trabalho pessoal de cada um dos integrantes da comunidade envolvido na operação, mais uma taxa de entrada dos turistas no resguardo, que foi definida em negociação com as autoridades tradicionais.

Sobre a remuneração, os membros da comunidade apontam que eram irrisórios, aproximadamente 9 dólares por dia de trabalho, levando em conta que essas pessoas estão disponíveis o tempo todo para os turistas, pois não há uma jornada laboral claramente delimitada em horas. A comunidade não tinha equipamentos que pudessem ser alugados para o operador, de modo que os barcos, barracas, fogões e

107 Pescador esportivo com um Tucunaré ou Pavón (Cichla temensis) capturado com a técnica de mosca. Esse é o peixe mais apreciado para a pesca esportiva na região e também para o consumo, devido ao seu sabor.

outros equipamentos necessários, eram de propriedade dos operadores ou alugados em Inírida.

Em 2016, as autoridades tradicionais do resguardo decidiram entregar a direção da questão do turismo a um líder local, que atuou, na época, como capitão da comunidade e que, graças à sua influência e disposição para investir nos equipamentos necessários, cria um empreendimento e passa a atuar como operador turístico (devidamente legalizado) sob a abordagem do turismo comunitário.

Atualmente, essa pessoa continua dirigindo a atividade turística da comunidade de Barranco Tigre, e prossegue sendo uma figura de importante influência no Resguardo Bachaco-Buena Vista, um líder local.

Com o objetivo de melhorar as condições laborais e os ganhos da comunidade nessa atividade, tornou-se pioneiro na administração de uma nova fonte de renda para ele e sua família. Assim, com a licença das autoridades do resguardo, essa liderança estabeleceu sua operação no território comunitário (virou um operador turístico local) e estabeleceu novas condições para a projeção de outros operadores alheios à comunidade.

A partir de suas observações sobre a operação do acolhimento de turistas por operadores externos dentro do território de sua comunidade, ele conseguiu entender que esse é um empreendimento que não requer grandes investimentos, já que o principal atrativo é o próprio território. Território de paisagens extraordinárias e protegido por lei para a intervenção de agentes externos, constitui o principal ativo dentro da lógica do negócio turístico. Contudo, até pouco tempo (2016), eram os operadores externos que se apropriavam da maior parte dos benefícios econômicos.

A mudança decorre da ação da liderança indígena, quando a mesma, detectando uma possibilidade de negócio, decidiu formalizar-se como operador sob a lógica do turismo comunitário. Isso lhe permitiu articular-se às dinâmicas de funcionamento do território coletivo, do qual faz parte. Assim, obter a aprovação de sua própria comunidade e autoridades tradicionais do resguardo lhe possibilitou a conquista de oportunidades de apoio e financiamento com diferentes entidades, órgãos estatais e ONGs.

Essa pessoa conseguiu, graças ao seu nível educacional (técnico) e às economias geradas por sua atividade profissional em Inírida, compreender, preparar e investir em seu próprio negócio, apoiado na sua afiliação étnica e sua posição de liderança dentro de sua comunidade. Também atuou estabelecendo, por outro lado,

relações com outros sujeitos envolvidos na referida atividade produtiva, obtendo, assim, treinamento e apoio financeiro, especialmente a partir de políticas públicas, para promover o turismo comunitário e de natureza.

Uma das mais importantes etapas daquele processo está relacionada ao cumprimento da obrigatoriedade de pedir permissão as autoridades do resguardo para recepcionar os grupos de turistas. Além disso, envolve a autorização para realizar agendamento dos turistas, para que os mesmos possam permanecer uma semana por temporada, no período seco108, que vai de novembro até abril. A liderança também conseguiu implementar uma nova e maior taxa de entrada por cada um dos visitantes (26 dólares aproximadamente). Estabeleceu-se, ainda, uma remuneração de pelo menos 26 dólares por dia de trabalho para os membros da comunidade que estejam envolvidos nas atividades. Esse mesmo vencimento é pago pelo operador local; por isso, é uma referência de remuneração na comunidade.

Outro aspecto, não menos importante das conquistas da liderança comunitária, foi convencer as autoridades a aceitarem que toda a operação logística seja feita por intermédio do novo operador local, que até o início de 2022 se encarregava de gerenciar a atividade turística em grande parte do resguardo. Isso afastou antigos operadores que, tradicionalmente, levavam grupos de pescadores à comunidade. A exclusão dos antigos operadores também trouxe uma maior quantidade de novos agentes e intermediários interessados em trazer turistas adeptos da prática da pesca esportiva de nível internacional, em um lugar que seduz pelo respeito à determinação comunitária da capacidade de carga e um senso de exclusividade, já que só é permitida a entrada de entre 100 e 120 pescadores esportivos por temporada.

Com essa mudança, o território não foi fechado para operadores externos e intermediários, mas eles foram obrigados a coordenar suas visitas com o operador local, pagar uma taxa de entrada maior para cada visitante e pagar por toda a logística de recepção ao referido operador, que é responsável por ter todos os materiais, equipamentos, espaços e pessoal necessários. Esse arranjo, importante para a permanência da atividade turística, também abre caminho para democratizar a partilha dos resultados econômicos, pois tende a minimizar as resistências da população, já que os habitantes das duas comunidades do resguardo são remunerados por seu

108 Quando começa e termina o período de menos chuvas, conhecido como verão, que é quando os peixes estão concentrados pela diminuição dos níveis de água, criando o melhor momento para a pesca.

trabalho na temporada. Em geral, somam-se esforços para que pelo menos um membro de cada família trabalhe ao menos uma semana na temporada. Aqui comparece a importância da liderança comunitária e seu pertencimento à comunidade de Barranco Tigre, já que as pessoas que mais frequentemente são ocupados são aquelas que residem nessa mesma comunidade.

Com a arrecadação pela entrada de cada turista ao resguardo, a comunidade conseguiu comprar um motor de popa e um barco, que são alugados ao operador local para a recepção dos turistas. Contudo, o restante dos materiais e equipamentos necessários, tais como fogões, barracas, camas, ventiladores, utensílios, refrigeradores, dentre outros, é propriedade deste último ou alugado em Inírida, principalmente no caso de barcos e motores. Após cada temporada, o operador relata à assembleia de sua comunidade o número de turistas que entraram, a quantidade de recursos arrecadados pela recepção e de serviços prestados no território. Além desse procedimento comprometido com a transparência, também são expostos os pontos fortes, deficiências e possíveis problemas vivenciados no trato com os visitantes, buscando gerar possíveis formas de melhoria e resolução de conflitos.

Os grupos turísticos estão organizados em um número máximo de 12 pessoas, que têm exclusividade garantida para pescar por uma semana, ou seja, não haverá outros pescadores no território comunitário na data agendada para cada grupo.

Seguindo uma lógica de pousio, a comunidade acaba deixando várias semanas os corpos d´água e a ictiofauna “descansando”. Assim, a comunidade decidiu, considerando a sua experiência de vida no lugar, que, em um determinado período, grupos de pescadores não são permitidos a praticarem a pesca, efetivando temporadas de repouso, para lagoas e peixes. Garantir o descanso para o ambiente é entendido e repercutido na comunidade receptora como uma estratégia em assegurar uma boa pesca para os visitantes.

Figura 33 - Caño Bocón: instalações para a recepção de visitantes 2021109

Fonte: Registro de Jhon Parra Medina (2021).

Neste propósito, a comunidade e seu operador local também estabeleceram o limite máximo de recepção de entre 100 e 120 pescadores por temporada, como já assinalado anteriormente. O turismo comunitário, como atividade que gera renda e trabalho no lugar, tem a característica de não ser massivo; é focado em atividades específicas e clientela, e ao mesmo tempo busca se apresentar como exclusivo, oferecendo um território preservado, com poucos pescadores esportivos visitando-o ao longo do ano.

A estadia dos turistas é feita em um acampamento especialmente adaptado para este fim, a uma hora de distância da comunidade, subindo pelo rio. Algumas vezes, eles são levados para visitar a comunidade. No entanto, essa não é uma atividade principal, dentro dos atrativos oferecidos, que estão concentrados na pesca esportiva de alto nível, observação de animais silvestres e paisagismo, tudo isso focado nas características biofísicas do território, entendidas como uma natureza altamente preservada.

109 As construções conservam o tradicional estilo retangular das antigas casas comunitárias ou malocas da região, dentro das quais se instalam as barracas para os visitantes e a cozinha; ao fundo pode se ver as instalações sanitárias que deságuam diretamente no rio.