Durante a década de 80, devido ao crescente interesse da sociedade sobre as questões relacionadas ao aquecimento global e através da necessidade de obtenção de informações científicas confiáveis e atualizadas sobre o tema, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Programa das Nações Unidades para o Meio Ambiente (PNUMA) criaram em 1989 o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sendo que, logo em seus primeiros estudos científicos foi demonstrada a importância das MCG como um tópico merecedor de uma discussão política global. Desta forma, esta organização recém instituída teve papel decisivo na fundamentação dos acordos internacionais para redução do aquecimento global e de combate às MCG.
2.2.1 UNFCCC
A Convenção-Quadro das Nações Unidades sobre Mudança do Clima (CQNUMD) ou simplesmente UNFCCC, aberta a assinaturas em 1992 e em vigor desde 1994, forma a base de discussões políticas relacionadas à mudança do clima, considerando e reconhecendo diversos fatores, destacando:
As atividades humanas como causa do aumento perigoso na concentração de GEE na atmosfera;
A responsabilidade histórica e atual dos países desenvolvidos nos níveis de emissões de GEE para atmosfera;
A existência de incertezas quanto às previsões relativas às mudanças do clima;
A necessidade dos países em desenvolvimento terem acesso aos recursos necessários para alcançar o desenvolvimento social e econômico, e assim, contribuírem diretamente com a mitigação das MCG;
A facilitação de transferência de tecnologias que não causem impactos adversos sobre o clima aos países em desenvolvimento;
A necessidade de mitigação dos efeitos negativos as MCG através do princípio de garantia dos benefícios globais ao menor custo possível.
Desta forma, a UNFCCC apresenta como seu objetivo final, a estabilização das concentrações dos GEE na atmosfera em um nível que impeça uma interferência antropogênica perigosa no sistema climático, sendo que, este nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos ecossistemas adaptarem-se naturalmente à mudança do clima, assegurando que a produção de alimentos não seja ameaçada e que permita o desenvolvimento econômico prosseguir de maneira sustentável (UNFCCC, 1992).
Para isso, a UNFCCC divide os Países “Partes” signatárias em dois grupos: Partes Anexo I e Partes não-Anexo I, sendo que, as Partes do Anexo I compreendem os países industrializados que mais contribuíram no decorrer da história para a mudança do clima, os quais contam com uma maior capacidade financeira e institucional para tratar do problema.
Assim, Países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), juntamente com os Países de economia em transição (e.g., Rússia e demais Países da Europa Central e Oriental), assumiram a liderança no combate as MCG, comprometendo-se a adotar políticas e medidas nacionais, submetendo a sociedade relatórios periódicos detalhando tais políticas e programas e apresentando inventários anuais de suas emissões e remoções de GEE (UNFCCC, 1992).
Além disso, ficou definido o estabelecimento da Conferência das Partes (COP) como órgão supremo da UNFCCC, com o objetivo de monitorar e promover a implementação da UNFCCC e demais instrumentos legais relacionados a ela (FRONDIZI, 2009).
2.2.2 Protocolo de Quioto (COP 3)
Através das premissas adotadas pela UNFCCC, e considerando a necessidade dos Países pertencentes ao Anexo I comprometerem-se com metas individuais e legalmente vinculadas de limitação ou redução de emissões de GEE, surge o Protocolo de Quioto em 1997, prevendo uma redução global nas emissões destes Países em torno de 5% em relação às emissões inventariadas em 1990 durante o período de 2008 a 2012 (FRANGETTO; GAZANI, 2002).
Apesar de muito esperado pela sociedade, o Protocolo de Quioto sofreu atrasos consideráveis até sua entrada em vigor, isto, devido ao fato do mesmo prever seu início apenas se o total de adesões alcançasse pelo menos 55% do total de emissões de GEE dos países pertencentes ao Anexo I da UNFCCC, tornando isto possível apenas em Fevereiro de 2005, após a adesão da Rússia.
Assim, ficou definido que os Países comprometidos em limitar ou reduzir emissões de GEE devem cumprir suas metas primeiramente através de medidas nacionais, porém, no intuito de auxiliar o cumprimento de tais metas, o Protocolo de Quioto estabeleceu três mecanismos de mercado, os quais compõem o chamado Mercado de Carbono:
Mercado de Emissões (Allowances): São permissões de emissão concedidas por cada autoridade governamental com base em suas próprias metas individuais, possibilitando que as organizações participantes adquiram ou vendam tais commodities no Mercado de Carbono de acordo com suas necessidades;
Implementação Conjunta (IC): São atividades de projeto que promovem a redução de emissões através de uma cooperação entre organizações de dois países comprometidos com metas (Anexo I – UNFCCC), contabilizando tal redução de emissões na forma de Créditos de Carbono negociáveis no Mercado de Carbono;
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL): São atividades de projeto realizáveis em países em desenvolvimento (Não-Anexo I – UNFCCC) através da redução de emissões e promoção do desenvolvimento sustentável, também contabilizadas na forma de Créditos de Carbono e aptas a negociação no Mercado de Carbono.
Tais mecanismos de flexibilização tem como objetivo:
Estimular o desenvolvimento sustentável através de transferência de investimentos e tecnologia;
Auxiliar o cumprimento de metas através da redução de emissões e/ou remoção de carbono da atmosfera com a melhor relação custo-benefício possível;
Encorajar o setor privado e os Países em desenvolvimento a contribuírem com esforços de redução de emissão de GEE.
Para isso, o Mercado de Carbono está fundamentado no princípio cap and trade, o qual consiste basicamente no estabelecimento de um limite “cap” de emissão para determinado poluente, seguido da distribuição, entre as organizações participantes do programa, de permissões de emissão respeitando o limite pré-estabelecido. Caso alguma organização seja capaz de emitir menos do que lhe foi permitido, esta pode negociar “trade”
seu excedente junto a organizações que ultrapassaram seus limites emissão, assim, o comprador seria penalizado pelo excesso de emissão, enquanto que o vendedor seria recompensado por emitir menos do que lhe foi permitido. Desta forma, programas cap and trade promovem a inovação, eficiência e ações ágeis, proporcionando uma rigorosa prestação de contas ambientais sem inibição do crescimento econômico (USEPA, 2009).
Com isso, cria-se no Brasil grande expectativa com relação aos benefícios e oportunidades provenientes dos projetos MDL, devido ao fato dos Créditos de Carbono ser uma fonte de recursos financeiros voltada para projetos que viabilizem o desenvolvimento sustentável, incentivando o desenvolvimento científico, e ainda, contribuindo para a adoção de inovações tecnológicas (NAE, 2005). Os GEE abordados pelo Protocolo de Quioto e apresentados em seu Anexo A, são:
Dióxido de carbono (CO2) Metano (CH4)
Óxido nitroso (N2O)
Hidrofluorcarbonos (HFCs) Perfluorcarbonos (PFCs) Hexafluoreto de enxofre (SF6)
De acordo com o Anexo B do Protocolo de Quioto, os Países pertencentes ao Anexo I da UNFCCC devem reduzir ou limitar suas emissões de GEE, com base nas suas emissões em 1990, durante o período de 2008 a 2012, conforme segue:
Tabela 2.6 – Principais Países Anexo I e seus limites de emissão
Países Limites de Emissão (% em relação a 1990)
Alemanha 92
Austrália 108
Áustria 92
Canadá 94
Espanha 92
Estados Unidos da América 93
Federação Russa 100
França 92
Itália 92
Japão 94
Noruega 101
Nova Zelândia 100
Reino Unido e Irlanda do Norte 92
Ucrânia 100
Fonte: UNFCCC (1997)