No Brasil, o primeiro caso de COVID-19 foi notificado na cidade de São Paulo, em 25 de fevereiro de 2020, com a primeira morte em 16 de março. Em 3 de fevereiro de 2020, o país declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN), antes mesmo da confirmação do primeiro caso. Em 20 de março do mesmo ano, o Congresso Nacional reconheceu o Estado de Calamidade Pública.
Até meados de outubro de 2021, o país era o segundo maior em número absoluto de mortes em decorrência do novo coronavírus e ocupava o terceiro lugar no ranking de casos confirmados, apresentando em torno de 20 milhões de casos confirmados e um pouco mais de 500mil mortes [CORONAVIRUSBRASIL, 2021].
Um estudo publicado pelo Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz indica que possivelmente o vírus SARS-CoV-2 circulou no Brasil há mais tempo do que foi divulgado [DELATORRE et al, 2020]. O estudo utiliza uma metodologia estatística de inferência a partir dos registros de óbitos e sintomas, apresentando dados que indicam que a transmissão comunitária do novo coronavírus iniciou no Brasil por volta da primeira semana de fevereiro. Ou seja, quase um mês antes do primeiro caso notificado e quase 40 dias antes das primeiras confirmações oficiais de transmissão comunitária no Brasil, em 13 de março. O estudo também aponta que o primeiro óbito por COVID-19 aconteceu no Rio de Janeiro durante a 4ª semana epidemiológica, entre o período de 19 e 25 janeiro. Os resultados desse estudo reforçam evidências preliminares de pesquisas conduzidas na Europa e Estados Unidos [CEREDA et al, 2020; DAVIS et al, 2020;
MAURANO et al, 2020] a partir de análises genéticas, que indicam que o começo da propagação viral do SARS-CoV-2 foi bem antes do que os primeiros casos confirmados pelas autoridades públicas dos países estudados.
A situação do Brasil se agravou pela condição imposta pelas desigualdades sociais e geográficas. O país possui 5.570 municípios divididos em 27 estados, os quais são agrupadas
em cinco macrorregiões geográficas (Centro-Oeste, Nordeste, Norte, Sudeste e Sul), que possuem características sociodemográficas e de saúde bem distintas entre si. Considerando os dados apresentados pelo IBGE [IBGE, 2020], o país possui uma população em torno de 204,5 milhões de pessoas, com um percentual de 85% com a faixa etária abaixo de 59 anos de idade.
Possui uma parcela de 31,8% (em torno de 65 milhões) da população vivendo na pobreza ou extrema pobreza. As condições precárias de moradia, falta de saneamento básico e baixo nível de acesso a serviços de saúde exige ações públicas bem mais efetivas que compreenda condutas diferenciadas para essa parte da população. O Brasil tem um Sistema Único de Saúde (SUS) público financiado pelo governo, responsável pelo atendimento de 70% da população brasileira [DANA et al, 2020].
Como se sabe, a confirmação laboratorial da doença é essencial para o controle dos casos e evitar a disseminação da transmissão. No entanto, o Brasil apresentou no início da pandemia um cenário abaixo do número ideal de testes para o COVID-19, devido à dificuldade de acesso aos insumos laboratoriais para atender ao quantitativo necessário. Além disso, os testes moleculares confirmatórios dependiam da disponibilidade de reagentes importados, que estavam globalmente escassos.
Devido a esse cenário, no primeiro mês de identificação do SARS-CoV-2 no Brasil, foi adotada a testagem para todos os casos suspeitos e às pessoas que tiveram contatos com casos confirmados [PRADO et al, 2020]. Todavia, o baixo números de testes disponíveis fez com que o Ministério da Saúde (MS) recomendasse que apenas os casos graves fossem testados [BRASIL, 2020b], além de alguns grupos de alto risco de contaminação, como os profissionais de saúde. Essa recomendação prejudicou muito a identificação dos casos de infectados da doença no início da pandemia.
Esse cenário levou o Brasil a ter um atraso nas confirmações do número de casos e óbitos da COVID-19. Esses aspectos são agravados quando o paciente evolui para o óbito, pois o teste efetivo para esses casos se torna ainda mais difícil.
A obtenção de informações a respeito do cenário epidemiológico e da testagem no Brasil também foi dificultada pelos órgãos governamentais brasileiros no início da pandemia, pois não eram disponibilizados pelas Secretarias de Saúde Estaduais os números reais de testes que eram realizados e de kits de testes que estavam disponíveis, assim como existiam atrasos e contradições em relação aos números de infectados e mortes pela COVID-19. Contudo, devido à cobrança da opinião pública e de ações judiciais, os órgãos foram obrigados a disponibilizar
informações mais detalhadas sobre os números relacionados à pandemia, como: os números de óbitos, infectados, da capacidade de testagem, de teste realizados, taxa de utilização de UTI, entre outros. Entretanto, observa-se um atraso na divulgação dessas informações [BAUD et al, 2020], refletido nos boletins diários do Ministério da Saúde e das Secretarias de Saúde Estaduais apresentando números que não condizem com a realidade do momento em que são divulgados, mas sim com um cenário anterior.
No Brasil, a doença afetou as regiões de forma diferente. O epicentro inicial da pandemia ocorreu em São Paulo e logo a seguir no Rio de Janeiro, após duas semanas, alguns estados das regiões Sudeste, Nordeste, Centro Oeste e Sul apresentaram casos de COVID-19.
Na semana seguinte, em meados de março, os primeiros casos foram notificados no Amazonas.
A região Norte viria a se tornar o segundo epicentro da pandemia a partir de abril de 2020. Mais tarde, em meados de junho, a região Nordeste tomou o lugar da região Norte. Somente a partir de julho de 2020, a região Centro-Oeste, que no início da pandemia foi pouco afetada pelo surto, teve um aumento expressivo nos números de casos, acompanhada pela região Sul [MOTA; TEIXEIRA, 2020].
Este cenário foi modificado em dezembro de 2020, com o surgimento de novas variantes, principalmente a variante Delta (linhagem B.1.617) e a Gama (linhagem P.1), esta última identificada pela primeira vez em Manaus. A partir de janeiro de 2021, registrou-se um aumento expressivo no número de casos e mortes em todas as regiões brasileiras, apresentando um cenário mais avassalador, em número de mortes, do que em 2020.
Os efeitos provocados no ano de 2021, também demonstraram que as falhas no enfrentamento da pandemia não foram revistas ou corrigidas pelas autoridades públicas. E que permaneceram as dificuldades em fornecer uma rede de assistência médica para os pacientes e falta da disponibilização adequada de hospitais, leitos clínicos, terapia intensiva, equipamentos e insumos médicos, além da manutenção dos serviços essenciais em meio à crise. Tornando, assim, o efeito da doença ainda mais grave no Brasil, principalmente nos estados e municípios com piores situações econômicas.
Contudo, com o surgimento dos imunizantes contra a COVID-19, foi possível iniciar a vacinação no Brasil no dia 17 de janeiro de 2021, na cidade de São Paulo. Até final de outubro do mesmo ano, em torno de 59% da população brasileira haviam sido imunizadas, representando um pouco mais de 124 milhões de pessoas com imunização completa no país.
No mesmo período, 17% da população apresentavam a imunização parcial, com a aplicação de uma única dose e 24% ainda não tinham recebido nenhuma dose.
No Brasil, até outubro de 2021, quatro laboratórios possuíam o registro de suas vacinas aprovadas, de forma definitiva ou emergencial, junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são eles: AstraZeneca (Fiocruz), Sinovac (Butantan), Pfizer e Janssen.
O negacionismo, a descrença na ciência e a falta de investimento e ações estratégicas integradas para o controle da pandemia por parte do Governo Federal Brasileiro, também prejudicaram o cenário apresentado. Ao invés de recomendações sobre o uso de medidas de proteção populacional e individual, prevaleceu o uso de tratamento precoces sem comprovação científica [WERNECK et al, 2021]. A falta de ações mais efetivas no controle da doença pelo governo motivou a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em 13 de abril de 2021, para investigar supostas omissões e irregularidades nas ações do governo durante a pandemia da COVID-19 no Brasil.