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A criação de um Tribunal de Presas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 108-114)

2.3 A Segunda Conferência de Paz da Haia

2.3.2 A Primeira Comissão

2.3.2.2 A criação de um Tribunal de Presas

O outro tribunal que a conferência desejou formar foi para as presas marítimas. Na época, os Estados estabeleciam tribunais nacionais para julgar as presas feitas pelos vasos de guerra. Com objetivos de justiça e imparcialidade, a Segunda Conferência tentou internacionalizar esse julgamento. Seria apenas uma corte de recursos das decisões dos tribunais nacionais267.

Durante as discussões sobre o estabelecimento desse tribunal, mais uma vez, a questão do princípio da igualdade entre as nações é levantada por Rui. Existiam duas propostas principais, uma alemã, para uma corte ad hoc, e outra britânica, para uma corte permanente.

Apesar de Rui concordar com a criação de um tribunal permanente, discorda da proposta de nomeação dos juízes estabelecida pela proposta britânica.

Segundo a Grã-Bretanha, apenas os Estados que possuíssem uma marinha mercante com mais de 800.000 toneladas, no momento de assinatura da convenção, poderiam escolher a formação da corte. Ao delegado brasileiro, a proposta parece incompleta, pois não considera que, futuramente, outros países podem atingir 800.000 toneladas e não terão o direito de nomear juízes. O maior problema, contudo, desse método de escolha é que ele privilegia os mais fortes, quando deveria assegurar a igualdade por tratar do exercício de uma função judicial. A corte não terá a função de dar garantias apenas para esses Estados com grandes marinhas mercantes.

Ela será uma corte universal para assegurar o direito de marinhas grandes e pequenas. Não parece fazer sentido garantir aos mais poderosos o privilégio de estabelecer a autoridade judicial se são eles que possuem maiores condições de desrespeitar a lei. As grandes potências marítimas, no entanto, defendiam que os Estados com maiores frotas eram os mais interessados no tribunal. Elas ressaltavam a diferença entre a criação de uma Corte de Justiça Arbitral, em que todos os países possuíam interesse, e a criação de um Tribunal de Presas. A resposta de Rui foi criativa:

Afinal, a frota mercante excluída com base em não ter a quantidade de tonelada individual necessária, representa, em sua totalidade, uma tonelagem muito superior a que garante a cada uma das outras o direito de ter uma voz na nomeação do tribunal.

267 O Brasil preferia que o tribunal internacional não fosse apenas para recursos, mas aceita a criação desde que futuramente fosse criada a primeira instância internacional: “Nous entendons qu’il y aurait lieu, non seulement d’instituer une juridiction internationale d’appel em matière de prises, mais encore de commettre à cette juridiction la connaissance des questions de prises depouis la preière instance.” BARBOSA, Rui. Obras Completas de Rui Barbosa. Vol. XXVIII, Tomo II, 1901. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1979. Disponível em:

http://docvirt.com/docreader.net/docreader.aspx?bib=ObrasCompletasRuiBarbosa&pasta=Vol.%20XXVIII%20(

1901)\Tomo%20I&pesq= Acesso em:04/12/2017 P.8

Por que então excluir desse direito essa massa tão importante, composta pelas pequenas frotas, mas mais imponente do que a maioria das grandes?

Logo, propomos que as nações cujas frotas sejam inferiores a tonelagem fixada, sejam admitidas a nomeação dos membros da corte por via de um acordo entre elas para a escolha dos juízes ou por qualquer outro método que consiga atingir o mesmo resultado.268

O delegado da Suécia, Hammarskjold, concorda que era preciso encontrar uma nova forma de indicação de juízes, propondo que a questão fosse estudada por um comitê especial.

A Suíça recorda que países neutros, que não possuem uma marinha, podem ter muitas relações comerciais, como ela. Assim, esses países possuem grande interesse na escolha de juízes e não podem ser excluídos da elaboração do tribunal.

No comitê, foi proposto assentos permanentes para os juízes indicados por: Alemanha, Estados Unidos, Áustria-Hungria, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia. Para os demais países foi sugerida uma rotatividade para a distribuição dos juízes e dos suplentes para cada 6 anos de duração da corte:

Tabela 3 – Distribuição dos juízes e dos suplentes

Estados Anos de indicação de juízes Anos de indicação de suplentes

Espanha 4 4

Países Baixos 3 3

Bélgica 2 2

China 2 2

Dinamarca 2 2

Grécia 2 2

Noruega 2 2

Portugal 2 2

Romênia 2 2

Suécia 2 2

Turquia 2 2

268 “Après tout, les marines marrchandes que l’on exclue, pour n’avoir pas séparément le tonnage indique, représentent, néanmoins, dans leur ensemble um tonage beaucoup supérieur à celui qui assure à chacune des autres la faculté de concourir à la nomination du tribunal. Porquoi donc exclure du partage d’un tel droit cette impotante masse, composée des petites marines, mais plu imposante que plusieurs des garndes ? Nous

proposons, par conséquent, que le nations dont les marines seront inférieures au tonnage fixé, soint admises à la nomination des membres de la cour moyennant accord entre elles pour le choix des juges, ou par un autre système quelconque, au moyen duquel on arrive au mème résultat. » BARBOSA, Rui. Obras Completas de Rui Barbosa. Vol. XXVIII, Tomo II, 1901. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1979. Disponível em:

http://docvirt.com/docreader.net/docreader.aspx?bib=ObrasCompletasRuiBarbosa&pasta=Vol.%20XXVIII%20(

1901)\Tomo%20I&pesq= Acesso em:04/12/2017 p. 50 e 51

Bulgária 1 1

Pérsia 1 1

Suíça 1 1

Argentina 2 -

Brasil 2 -

Chile 2 -

México 2 -

Colômbia 1 -

Peru 1 -

Uruguai 1 -

Venezuela 1 -

Sião 1 -

Sérvia 1 -

Bolívia - 1

Costa Rica - 1

Cuba - 1

República Dominicana - 1

Equador - 1

Guatemala - 1

Haiti - 1

Honduras - 1

Nicarágua - 1

Panamá - 1

Paraguai - 1

Salvador - 1

Luxemburgo - 1

Montenegro - 1

Fonte: Elaborado pela autora com dados de SCOTT, James Brown. The Proceedings of the Hague Peace Conferences. Vol. II Nova Iorque: Oxford University Press. p.817 Disponível em:

https://archive.org/stream/proceedingshagu01lawgoog#page/n6/mode/2up Acesso em: 04/12/2017

A essa distribuição, Rui Barbosa declara que apesar da repartição segundo o interesse comercial marítimo ser importante, ela não foi feita de forma igualitária e justa. Ao Brasil, foi

concedido o direito de nomear um juiz pelo período de dois anos. O Brasil possuía, em 1901 217.740 toneladas, número superior ao da Bélgica, que possuía 102.000 toneladas em 1904, ao de Portugal, que em 1904 possuía 113.535, e ao da Romênia, que possuía 94.007 em 1905.

Esses países, contudo, teriam o direito de nomear um juiz e um substituto por um período de dois anos. Além disso, dos países sem nenhuma tonelada, Suíça, Sérvia e Luxemburgo, apenas Luxemburgo tem um direito de nomeação menor do que o brasileiro. Rui entrega interessante tabela em que demonstra essa evidente desigualdade ao comparar os países por suas toneladas:

Tabela 4 – Desigualdade na distribuição dos juízes e dos suplentes Juízes Permanentes

Alemanha 2.352.000

Estados Unidos 6.456.000

Áustria-Hungria 420.000

França 1.349.00

Grã-Bretanha 12.333.000

Itália 1.032.000

Japão 1.276.000

Rússia 636.000

Indicação de Juiz e Suplente por 4 anos

Espanha 520.000

Indicação de Juiz e Suplente por 3 anos

Países Baixos 1.164.000

Indicação de Juiz e Suplente por 2 anos

Bélgica 102.000

China 87.000

Dinamarca 453.000

Grécia 381.000

Noruega 1.486.000

Portugal 113.000

Romênia 97.000

Suécia 673.000

Turquia 241.000

Indicação de Juiz e Suplente por 1 ano

Bulgária 2.736

Pérsia 855

Suíça -

Indicação de Juiz por 1 ano

Sérvia -

Sião 4.547

Uruguai 44.000

Peru 30.000

Venezuela 5.000

Colômbia 1.842

Indicação de Juiz por 2 anos

Brasil 217.000

Argentina 96.000

Chile 82.000

México 21.000

Indicação de Suplente por 1 ano

Nicarágua 8.021

Cuba 40.908

Montenegro 5.417

Guatemala 2.572

Honduras 1.771

Costa Rica 1.222

Salvador 514

Haiti 3.188

República Dominicana 1.338

Luxemburgo -

Fonte: Elaborado pela autora com dados de SCOTT, James Brown. The Proceedings of the Hague Peace Conferences. Vol. II Nova Iorque: Oxford University Press. p.828 e 829 Disponível em:

https://archive.org/stream/proceedingshagu01lawgoog#page/n6/mode/2up Acesso em: 04/12/2017

Ao terminar o discurso, A. Esteva, o Primeiro Delegado Plenipotenciário do México, considera o projeto como desigual, aprovando o argumento de Rui. Lammasch, delegado

científico da Áustria-Hungria, rebate que a elaboração levou em conta também a importância do comércio marítimo e da força naval. Rui pondera que poderia elaborar nova tabela com esses dados para demonstrar que a divisão também não os atendia. O Presidente, entretanto, declara a primeira leitura do projeto como encerrada, considerando que as bases da tabela divisória foram aceitas.

Durante a segunda leitura, Rui retoma ao tema da desigualdade da divisão dos juízes.

Dessa vez, demonstra que o comércio marítimo brasileiro era muito maior do que o dos países que indicariam juízes e suplentes por 2 anos, com a exceção da Bélgica e da China, e de outros países que teriam maiores vantagens.269 Compara também a diferença entre a força naval brasileira e a desses países, reconhecendo que mesmo assim o Brasil continua em posição superior.270 Rui Barbosa rebate também a pergunta feita pelo delegado Choate, que gostaria de saber quantos navios mercantes brasileiros tinham sido apreendidos para gerar tamanha preocupação sobre juízes, ao dizer que essa pergunta teria a mesma resposta para os países colocados em posição superior ao Brasil.271

Apesar da insistência do brasileiro, o projeto de distribuição de juízes é aprovado por 10 votos contra 1, sendo enviado à Primeira Comissão. Sem nunca desistir, uma vez mais, durante a votação na Primeira Comissão, Rui expressa os motivos da discordância272 e encerra com um apelo:

Nosso voto, por isso, será contrário ao projeto. Por esse voto, esperamos apelar aos tempos em que o espírito dos homens seja mais maduro para os trabalhos em prol da paz, que são nada mais do que o respeito sincero ao direito pelas nações.273

269 Brasil com 2.155.588.025; Suécia com 1.434.891.711; Turquia com 1.077.022.200; Romênia com 794.639.379;

Noruega com 729.896.613; Dinamarca com 563.755.000; Portugal com 498.666.666; Grécia com 224.643.675.

SCOTT, James Brown. The Proceedings of the Hague Peace Conferences. Vol. II Nova Iorque: Oxford University Press. p.844 Disponível em: https://archive.org/stream/proceedingshagu01lawgoog#page/n6/mode/2up Acesso em: 04/12/2017

270 Brasil com 39.350; Suécia com 22.228; Grécia com 15.000; Portugal com 14.000; China com 13.300; Noruega com 7.200; Romênia com 1.910. SCOTT, James Brown. The Proceedings of the Hague Peace Conferences.

Vol. III Nova Iorque: Oxford University Press. p.845 Disponível em:

https://archive.org/stream/proceedingshagu01lawgoog#page/n6/mode/2up Acesso em: 04/12/2017

271 SCOTT, James Brown. The Proceedings of the Hague Peace Conferences. Vol. II Nova Iorque: Oxford University Press. p.846 Disponível em:

https://archive.org/stream/proceedingshagu01lawgoog#page/n6/mode/2up Acesso em: 04/12/2017

272 « Alors on ne nous a opposé rien. On s’est tû. Mais on a maintenu l’injustice manifeste, l’inversion prouvée et tangible. Cette iniquité palpable dans les fondements d’une institution judiciaire, cette affirmation ostensible du puvoir de la force contre la raison dans l’ouvre de l’assemblée la plus auguste du monde, convoquée pour organiser la paix au moyen du droit, est infiniment douloureuse pour les victimes. » BARBOSA, Rui. Obras Completas de Rui Barbosa. Vol. XXVIII, Tomo II, 1901. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1979. Disponível em:

http://docvirt.com/docreader.net/docreader.aspx?bib=ObrasCompletasRuiBarbosa&pasta=Vol.%20XXVIII%20(

1901)\Tomo%20I&pesq= Acesso em:04/12/2017 P.316

273 Tradução livre do original em francês: « Notre vote sera, donc, contraire au projet. Nous en faisons appel à des temps, où l’esprit des peuples soit plus mûr pour l’oeuvre de la paix, qui n’est que celle du droit maintenu sincèrement entre les nations. » BARBOSA, Rui. Obras Completas de Rui Barbosa. Vol. XXVIII, Tomo II, 1901. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1979. Disponível em:

O projeto foi adotado por 26 Estados274 contra 2275 e 16 abstenções276. De forma tardia, pode-se dizer que os argumentos de inequidade do projeto ressaltados por Rui Barbosa, foram reconhecidos. O Tribunal de Presas jamais foi estabelecido, sendo que muitos países não chegaram a sequer assinar a convenção.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 108-114)