exemplo vivo do Cristo, que suscita a sede humana de Deus, do Amor crucificado (cf. CPR, p. 128). Nesse intuito, Evdokimov evoca o metropolita Antão Khrapovitsky (1864-934)24, para afirmar que apenas Deus, em Cristo, poderia amar todo ser humano e, apenas o Humano, em Cristo, consubstancial a todo gênero humano, poderia santificar, ontologicamente, todo ser humano.
Nicolas Berdiaev (1874-1948)25 vê na segunda Pessoa da Trindade, o Filho, o amor ilimitado que tem em si a conjunção de dois destinos: o da história da vida divina e o da vida humana no mundo26. Por isso, segundo Evdokimov, para Berdiaev, a história nasce do seio da Divindade. Só em Deus é possível compreender o tempo e a eternidade, o princípio e o fim. O ser humano, por meio de sua própria história, participa neste drama divino-humano.
Partindo da reflexão de Berdiaev, Evdokimov afirma que
o homem do humanismo ateu é, pura e simplesmente, inumano, pois não é o homem: é Deus que é humano. Em Cristo, Deus-Homem, há o nascimento de Deus no homem e o nascimento do homem em Deus. Deus se humaniza para que o homem seja divinizado (CPR, p. 168).
! A imagem do Cristo, que vislumbra na vida do povo russo, é a de Cristo sofredor e peregrino. Sua cristologia é “descendente”. Jesus é aí olhado como encarnação de Deus, divino-humanidade. Esta consiste na re-criação do ser humano. É uma cristologia contemplativa e cheia de esperança, mergulhada no mistério da Cruz, Paixão e Ressurreição do Senhor.
O Filho de Deus só pode salvar o mundo entrando nele a fim de nele introduzir por sua morte e sua ressurreição, condições ontológicas completamente novas para assim oferecer ao homem sua deificação. A
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24 O metropolita Antão Khrapovitsky tem um papel muito importante na vida da Igreja como bispo e teólogo. Com ele, tem-se o desenvolvimento de uma ética pautada na liberdade humana, que suscita sujeitos responsáveis dos atos morais, munidos pelo amor que conduz à unidade. Ele ressalta, na dupla consubstancialidade do Cristo ao Pai e aos seres humanos, a imanência de Deus no mundo, que condiciona e torna possível e real a vida humana em Deus.
25 Nicolas Berdiaev, desconhecido pelos filósofos e criticado pelos teólogos, recebeu o título de pensador, num sentido pejorativo. Sua filosofia, pautada na criatividade, devido à liberdade individual, teve como característica um cristianismo existencialista. O tema central de seu pensamento é a antropologia construída à maneira de uma imensa cristologia do ser humano, enraizada na fórmula dogmática de Calcedônia. “A deiformidade do homem, criado à imagem de Deus, encontra-se na Encarnação. A humanidade do Cristo revela a estrutura teândrica da natureza humana” (CRP, p. 167).
26 BERDIAEV, Nicolai. El sentido de la historia: experiência de la filosofia del destino humano.
Madrid: Encuentro, 1979. p. 53.
Encarnação conclui a Criação. Ela é seu oitavo dia, que torna o homem livre em seu amor a Deus (CPR, p. 165).
Cristo é aquele que mergulha na história e nela dá testemunho do louco amor de Deus pela humanidade no aguardo do fiat do ser humano ao seu fiat, entregue na figura do Cordeiro imolado antes da fundação do mundo (Ap 13,8). Segundo Evdokimov, “a filosofia da história, muito em voga no séc. XX, é substituída pela teologia da história. O Deus da história torna-se Deus na história” (MSM, p. 40). A encarnação de Cristo muda por completo a dimensão histórica.
3 A perspectiva cristológica em Paul Evdokimov
A atualidade e a grandeza do pensamento de Paul Evdokimov consistem justamente em que ele soube retomar o estilo teológico dos Padres, bem como apropriar-se das intuições filosóficas de seus conterrâneos27, numa síntese criativa, para desenvolver seu próprio pensamento. Esta síntese contribui para que o cristão, do tempo de nosso autor e de hoje, se engaje na história de forma livre e adulta, respondendo aos apelos que advém dos sopros do Espírito.
A cristologia de nosso autor é, na verdade, uma cristologia do ser humano, de sua deificação, em Cristo, pelo Espírito Santo (cf. Ort, p. II). Daí o sentido de que Jesus Cristo seja o lugar da humanização de Deus e da deificação do ser humano. Para Evdokimov, a reflexão teológica deve ter como ponto de partida o Deus-Homem, pois,
nem o Deus de uma teologia triunfalista e ultrapassada, nem um homem de um ateísmo caduco e sem fôlego, mas uma teologia do Deus-Homem, do Cristo cósmico devolvendo à natureza e ao homem seu estatuto ontológico do Oitavo Dia pode falar ao homem de hoje, responder à sua sede (CPR, p.
216).
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27 É necessário neste momento mencionar que Paul Evdokimov começou a escrever no momento em que a filosofia religiosa russa, que tinha conhecido no Ocidente, na França, sobretudo, sua verdadeira floração, via não somente extinguirem-se os seus últimos representantes (Boulgakov morre em 1944, Berdiaev em 1948), mas era violentamente deixada de lado e desqualificada nas gerações novas da Dispersão. Muitos ansiavam pela volta rigorosa, muitas vezes acusadora, à grande tradição patrística e bizantina. Homens tão diferentes como Georges Florovsky, Basile Krivochéine, Cyprien Kern, Vladimir Lossky, são os pioneiros deste movimento “neo-patrístico”, inseparável de um “neo- palamismo”, que acabava, entre outros, nos belos estudos de um Jean Meyendorff. (cf. CLÉMENT, Olivier. Paul Evdokimov, 1971, p. 28).
O sentido da história modifica-se com a encarnação de Cristo. Ele torna-se o centro da história. Não se pode acrescentar nada depois de Cristo que se entregou “uma vez por todas” (Hb 9,26). Por isso, a história da humanidade deve ser lida à luz da cristologia, pois
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tudo o que se passou antes, não foi senão prefiguração, e tudo o que se processa depois, é a extensão da encarnação, o tempo da Igreja. E a vida da Igreja apresenta-se como nova dimensão de vida, a faculdade da nova qualificação da história, porque aberta para o definitivo (MSM, p. 140).
O Criador deseja unir-se à criatura, deificando-a. A condição de possibilidade para esta união encontra seu lugar no Verbo encarnado, em Jesus Cristo, em quem Deus e o ser humano se encontram e se reconhecem. A deificação da criatura pressupõe a humanização de Deus:
o “Eros divino, diz Macário, faz descer Deus à terra”, força-o a “deixar o ápice do silêncio”. Os desejos divino e humano culminam no Cristo histórico, em quem Deus e o homem se olham como num espelho e se reconhecem “porque o amor de Deus e o amor dos homens são dois aspectos de um único amor total” (Ort, p. 79).