articular efetivamente que o fracasso do aluno se deve a uma série de situações intra e extra escolares como falta de assistência técnica, baixos salários, falta de recursos didáticos e qualidade de sua formação, ele culpa a carência dos alunos.
(...) a estratégia de culpar a vítima e a sua família pode ser um recurso para justificar as dificuldades materiais e técnicas com as quais esses professores se defrontam no trato com crianças que não apresentam o perfil de aluno com o qual eles foram preparados para trabalhar. (MELLO, 1995, p. 99)
Os professores demonstravam dificuldade para se distanciarem de si mesmos, não se colocando em questão. Para eles a escola estava errada, o método estava errado e o aluno era errado por natureza. Cabe aqui uma indagação: se esses professores dessem aulas para alunos em condições ideais – para os quais disseram ter sido preparados – eles teriam tido melhores resultados em suas ações pedagógicas? A correlação entre qualidade do trabalho do professor e qualidade do aluno é tão imediata assim? Se retomarmos as discussões que deram origem aos CIEPs - a dificuldade de trabalhar com os professores da rede escolar convencional porque possuíam uma formação deformada que prejudicava a superação dos entraves da educação - o que percebemos é que estes mesmos professores são os que compõem os quadros dos CIEPs, confirmando a tese que a criação de uma rede de escolas paralela era uma questão muito mais de ordem política do que de ordem pedagógica.
professoras que não sabiam lidar com suas turmas, e que por alguma inexperiência chegavam ao extremo de serem ameaçadas fisicamente pelos alunos ou sofriam constrangimentos de outras formas. A diretora como figura de autoridade também foi mencionada. Através da imagem da diretora a imagem da escola podia crescer socialmente. As diretoras admiravam como qualidades suas e dos professores a capacidade de pôr ordem na sala de aula ou no ambiente escolar como um todo. E os professores tentando demonstrar a dificuldade do trabalho com alunos carentes faziam grandes narrativas sobre como tomavam as rédeas em sala de aula. Queremos com estas considerações chamar atenção para o fato de que tanto os grupos populares (usuários da escola e suas famílias) como os representantes da “cultura letrada” (professores e diretores) relacionaram a educação com a ordem. Esse é um elemento que marca a escola - espaço em que os papéis devem se manter diferenciados. Não havia a expectativa de uma horizontalidade que produzisse uma indistinção das funções de cada sujeito.
Havia na fala dos entrevistados uma forte expectativa de que a escola fosse vista pela sua vizinhança como um espaço distinto dos demais. A ordem se faria não só nas relações internas entre os atores, bem como em uma relação mais ampla entre a escola e a sociedade.
Esperavam que ali houvesse regras a serem seguidas e que não fossem corrompidas por elementos alheios. Este aspecto foi muito mencionado quando sugerimos alguns fatores que fragilizam a imagem escola - como as drogas, os roubos, a falta de vigilância, uso da escola como dormitório de indigentes ou a falta proteção contra vandalismo, constrangimentos, preconceitos, coerções e promiscuidades. A perda da autoridade da escola profanaria o seu lado mais sagrado. Tornando-se indiferenciada em relação à rua e a indistinção do papel dos atores internamente representavam a profanação de um ambiente em que deveria reinar as regras de conduta, normas e o respeito.
Outros elementos valorizados que remetiam à ordem referiam-se a valorização do uniforme correto, dos símbolos nacionais, da fila, da limpeza, do silêncio, da caderneta escolar, do cumprimento dos horários estabelecidos, e dos valores da civilidade. Este conjunto de aspectos foram mencionados como aqueles que faziam a diferença entre uma boa e uma má escola. Sobre estes aspectos podemos dizer que houve um revés no projeto dos CIEPs, pois, na tentativa de horizontalizar as relações na abertura para a comunidade não houve a valorização dos elementos que distinguiam visivelmente a escola dos demais espaços sociais.
Na tentativa de aproximar a escola da sociedade acabou produzindo efeito inverso de gerava
futuro dos filhos.
estigmatização do próprio ambiente escolar, cuja imagem era de que o CIEP se confundia com bagunça.
O sentido de ordem e de autoridade, segundo os entrevistados, deveria começar em casa - esperavam que a escola reforçasse os papéis já existentes e transferissem a autoridade das relações familiares para o ambiente escolar. Nesse sentido, a professora seria a “segunda mãe” ou “tia” e a escola seria uma “família”. Por outro lado, o fato de a escola ter se aberto para a comunidade - o que seria um dado positivo - permitia também que “elementos indesejáveis” entrassem na escola. Havia na fala dos responsáveis o medo de ver seu filho ser teleguiado pela cabeça do colega de rua ou do colega da escola. Deste modo, entendemos que a cultura popular idealizada, não contemplava o fato de que os dominadores poderiam ser os próprios vizinhos (policiais, traficantes, colegas de rua e escola) e a sua violência sobre as camadas populares seria mais que simbólica, com manifestações concretas e físicas (brigas, coações, extorsões etc.). O problema consistia no fato de não se ter uma pedagogia para a
“cultura popular ruim” ou “aquilo que os alunos não levavam de casa” (os modos, higiene, solidariedade, educação, respeito etc.). Isto era posto na conta das carências dos alunos e nas falhas da sua formação que seriam remediados com muito “afeto” pela escola (ZALUAR, LEAL, 1996b).
Para os entrevistados, a escola deveria ser distinta do mundo envolvente, principalmente da rua. A rua foi apontada como a grande ameaça à pedagogia da família e da escola42. Quando perguntamos sobre quem deseduca (antipedagogia), 58% dos alunos mencionaram a rua. Os principais deseducadores seriam os colegas de rua (48%), os colegas de escola (21%) – como por exemplo, aqueles que fazem bagunça e não deixam os demais estudar-, o baile funk, (17%) e os bandidos (14%). Na ótica dos responsáveis também seria a rua o principal espaço da deseducação (96%) e os colegas de rua (81%) os deseducadores.
Para 83% dos professores a rua aparecia como a anti-escola, seguida da família (17%) e os deseducadores seriam os colegas de rua (67%), os bandidos (33%) e os colegas de escola (16%). A menção à família como espaço da desordem esteve presente exclusivamente nas falas dos educadores, ainda que de forma pouco expressiva. O que este dado sugere é que, segundo os professores, as famílias não estariam cuidando devidamente da educação dos filhos e se não cuidam, deseducam. Os próprios estudantes foram vistos como desordeiros, como aparece na fala de uma das diretoras entrevistadas:
42A anti-escola, a rua, e sua pedagogia, a violência, foram vistos da seguinte forma por alunos, responsáveis e agentes escolares respectivamente: desordem e bagunça (54%, 46%, 67%); violência (32%, 19%, 50%), contravenção (21%, 19%,
Olha só, assim que nós chegamos aqui no CIEP, há dois anos atrás, a gente observava que a violência é uma coisa latente na criança. Quer dizer, a brincadeira deles era toda voltada - era e ainda é - para a questão da violência. Eles andavam com pedaços de pau na mão fingindo que era metralhadora. Revólver de brinquedo. Até hoj , a gente toma revólver das crianças....
Por quê? Porque essa é a realidade deles. É isso que eles observam. Quer dizer, a sociedade faz o homem , a verdade é essa.. Então, quer dizer, o meio deles propicia para que eles sejam dessa forma. E aí, quer dizer, a escola, a função da escola nesse sentido é obter uma transformação, uma mudança de comportamento. (Diretora: CIEP de Duque Caxias)
Houve uma grande valorização da cultura popular, pretensamente atribuída ao aluno e à sua família, mas ao mesmo tempo a escola sentia-se na obrigação de afastar os alunos do mundo em que viviam e de seus hábitos. A escola que pretendia valorizar os pertencimentos rejeitava o padrão de comportamento que os alunos apresentavam. Segundo Zaluar e Leal (1996b), a cultura popular idealizada era muito diferente da realidade das crianças pobres.
Não comportava o fato de haver códigos coercitivos em que os mais fortes se impunham sobre os mais fracos que viviam com medo e se sentindo discriminados. O medo que as mães tinham das influências sobre os filhos, externas à família, e dos problemas que ocorriam dentro dos muros das escolas, demonstram que a tensão das camadas populares não se daria somente com a cultura letrada. Dentro das relações que se estabelecia com a vizinhança, com os policiais, com a presença do tráfico, enfim, com a cultura da rua, apontavam para um tipo de cultura popular que foi ignorada pelo projeto pedagógico dos CIEPs, ainda que este se proclamasse guardião das crianças. Estes aspectos não foram encarados como problemas concretos que exigissem projetos pedagógicos para interromper o círculo de violências.
Tentando resolver estes impasses com a pedagogia do afeto não se criava espaço para uma pedagogia da civilidade e respeito tão esperada pelas famílias e pelos alunos.